Quem conhece Brigada Ligeira Estelar já se familiarizou com Tarso: o mundo do cinza urbano absoluto, da poluição eterna, das corporações onipresentes, dos sonhos esmagados, da vilania sistêmica… vocês entenderam. E, claro, sempre teremos no seu grupo de jogo alguém para quem tudo isso soa como algo muito maneiro e realista — e outro para quem parece um clichê narrativo pra lá de manjado. Alguém vai perguntar “OUTRA megacorporação do mal? De novo?”
Nessas horas, qual é o melhor procedimento? Bem, para isso temos a seção Além do Óbvio, na qual procuramos formas diferentes de explorar os principais locais do cenário para além de sua caixinha básica. Tarso é um planeta pensado, como minicenário, para os gostos mais sombrios e distópicos, e um dos seus maiores problemas reside nessa pergunta: ser Tarsiano é ser necessariamente “maligno” para os fins da ambientação? A resposta, aqui, é… depende.
Um dos temas mais costumeiros da ficção científica é o de que podemos nos desprender do meio que nos cerca, mesmo carregando suas marcas para sempre (todos temos uma história com H maiúsculo e dela não podemos fugir). Use a distopia, não ao serviço do pessimismo puro necessariamente, mas da complexidade moral e do conflito humano — é só uma questão de se injetar um pouco de nuance nesse planeta para cobrir todos os padrões possíveis de jogadores.
Recapitulando…
Para quem não leu os artigos neste blog, ou o material publicado na revista Dragão Brasil, o planeta Tarso foi codificado como o coração cyberpunk e astropunk da Constelação, muito sob a influência de animes como Bubblegum Crisis, A.D. Police e do sci-fi japonês visceral dos OVAs dos anos 80 e 90 em geral. É o lugar onde o dinheiro e o poder ditam o pensamento, a luta de classes é um dado concreto e os maiores perigos têm um engravatado por trás.
Mas Tarso não é um planeta de vilões. É um planeta de pessoas. Sua força narrativa não vem de uma malignidade essencial, mas da banalidade corrompida. É uma máquina fabricante de consentimento, transformando cidadãos comuns em engrenagens e agentes de um sistema opressor, muitas vezes sem eles perceberem — ou se importarem. Negar isso é reduzir bilhões de almas a meros figurantes do mal, perdendo o ponto mais importante: o conflito íntimo.
Possibilidades
A atmosfera opressiva e a alta tecnologia nunca estarão ausentes de todo aqui. Tematicamente, são a essência de Tarso. Mas ela podem ser enriquecidas por camadas de dilema, redenção, resistência falha — e até alguma esperança renitente em histórias de tom mais solar. Cabe aos mestres explorar essas nuances e transcender (ou subverter, o que é melhor ainda) as expectativas ligadas a um mundo supostamente sem luz. Enfim, vamos dar uma olhada geral:
O Reformista: o tarsiano que enxerga as falhas do sistema e luta para mudá-lo por dentro. O drama aqui não é só contra o sistema, mas contra seus próprios vícios internalizados. Ele pode ser um policial da Metropolitana tentando ser honesto, um oficial da guarda regencial percebendo o que há de podre no seu discurso, ou um jornalista nadando contra a maré da mídia controlada. Cada vitória vem com a dúvida: “estou me tornando aquilo que enfrento?”
O Integrado: este é, com certeza, para grupos mais maduros e capazes de lidar com os temas envolvidos. O personagem é parte do sistema, talvez acredite no que sempre lhe foi dito, ou é um cínico, sabendo como a banda toca mas sem vontade de querer mudar o mundo. Aos poucos, porém, eles vão ser confrontados com a moralidade de seus atos e talvez isso os force a mudar. Seja generoso com os pontos de estresse nesse caso. Não seja um mestre bonzinho.
A Tragédia do Cidadão Comum: a aventura que bate os protagonistas de frente contra a população “comum” de Tarso. Pessoas que não são monstros, mas que defendem políticas horríveis por medo, tradição, naturalização ou desinformação. Como salvar alguém que não quer ser salvo e nem enxerga o horror do que defende? Como lidar com a multidão que apoia seu próprio opressor? Essa camada torna tudo muito mais desafiador do que uma simples troca de tiros.
A Resistência Moralmente Cinza: em Tarso, a linha entre herói e terrorista é… tênue. O time de protagonistas pode se aliar a um grupo de resistência, apenas para descobrir que eles usam táticas indiscriminadas, têm sua própria agenda suja, ou são financiados por uma corporação rival (“As coisas devem mudar para permanecer as mesmas, é isso o que vocês querem?”). A luta contra o sistema pode exigir pactos com demônios menores. Onde traçar a linha?
Cyber Space Opera: não subestime o alcance de Tarso. Uma missão pode começar em um beco sujo de Metropolitana, investigando o desaparecimento de uma nave de transporte qualquer, e escalar para uma conspiração interestelar que ameaça o trono imperial. Os fios da teia corporativa se estendem por toda a Constelação. Mostre seu “planeta do mal” como, na verdade, um câncer sistêmico que conecta a sujeira das ruas aos salões dourados dos demais mundos.
A Máquina que Cria Monstros (Literais e Figurativos): use o body horror e a ciência sem ética a favor da campanha. Os Protagonistas podem enfrentar espers destrutivos, quimeras genéticas (não confundir com os robôs proscritos) ou IAs enlouquecidas, mas a verdadeira investigação é: qual corporação as criou? Por quê? E quem dentro da estrutura autorizou isso? O horror não é o monstro, mas a planilha de custo-benefício que justificou sua existência.
Alianças Difíceis: às vezes, o único jeito de evitar uma catástrofe maior é sentar à mesa com o magnata corrupto, o chefe do sindicato do crime ou o general genocida. Crie situações onde os Protagonistas precisem da logística, do conhecimento ou da influência daqueles que juraram enfrentar. Mas lembrem-se: o preço será alto, provavelmente moral e a chance de se ficar com rabo preso ao final de tudo é muito grande — esses caras são raposas velhas!
Para encerrar, os jogadores devem sentir o peso de Tarso, mas isso não deve se traduzir em impotência. É importante equilibrar a atmosfera opressiva com momentos de agência decisiva, escolhas difíceis que tenham impacto real, e a sensação teimosa de que, mesmo no lugar mais sombrio, ações individuais importam. Apesar de tudo, todos estão aqui para pilotar robôs gigantes enão para afundar em depressão existencial (Shinji, estou olhando pra você)!
Quando jogadores com perfis diferentes são reunidos na mesma mesa, essa questão se torna mais importante ainda. Então procure ter diferentes linhas de trama. Deixe o fã de conspirações em uma investigação corporativa, o especialista em ação em perseguições explosivas e o jogador mais dramático com dilemas morais. Ofereça conflito em todas as formas possíveis. O importante é deixar a todos com algo ao final da sessão.
Até a próxima — e divirtam-se!
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