Em um dos boxes do primeiro ou segundo volume de Belonave Supernova (agora eu não lembro), assumi a possibilidade de um protagonista picaresco. Não que tenhamos muitos no gênero, mas pelos aspectos de época puxados para o material por conta de seus próprios elementos formativos, achei muito válido trazer a possibilidade de um personagem assim entre os jogadores. O conceito funciona,sem problema nenhum. E assim me vejo obrigado a explicar de vez:
O que diabos é o Picaresco? Bom, ele é um subgênero literário focado em um pícaro — um protagonista de origem humilde e esperto, mas desonesto em algum grau, que se vale da malandragem para transitar em diferentes esferas sociais. O pícaro não é santo, mas não é um monstro e muitas vezes as pessoas de classe alta com as quais ele precisa lidar são bem mais canalhas do que ele. Ele tende a ser itinerante, permitindo ao autor satirizar muita coisa.
O gênero surgiu na Espanha em 1554 no romance Lazarillo de Tormes, de autor desconhecido (até hoje se debate a autoria do material). Ele se tornou extremamente popular e, como um bom livro picaresco não perdoa nada ou ninguém, muito menos a nobreza e o clero, acabou proibido pela inquisição, só voltando a ser publicado no século XIX. Geralmente boas sátiras têm um componente sombrio e amargo por baixo do humor, mas isso não precisa ser uma regra…

…e eventualmente, ele pode tangenciar o Capa e Espada. Nos Três Mosqueteiros de Dumas, nossos quatro personagens centrais estão longe de serem as melhores pessoas do mundo e, se percebermos bem, D’Artagnan — que conhecemos do cinema por versões mais heroicas — pode ser bem trapaceiro e galinha quando quer*. Os elementos picarescos estão aqui. Eles só não existem em nome de uma sátira social ácida, sendo meras partes convenientes em um todo maior.
Hoje, o Picaresco pode ser encontrado até nas telenovelas**. Uma recomendação pessoal minha é Tudo pela Honra (Fanfan la Tulipe, 2003)***, de Gérard Krawczyk. Fugindo de um casamento forçado pela sua tendência à galinhagem, Fanfan, um senhor espadachim, é enrolado por uma trambiqueira para se alistar… e encontra uma brecha para subir à nobreza como herói, via casamento — mas surge um porém. Um personagem assim se encaixaria em Brigada facilmente!
Tá, Onde Você Quer Chegar?
O que proponho é encontrar uma margem para protagonistas (ou elementos narrativos) picarescos inseridos em uma campanha maior de aventura. E para começar, vamos observar o personagem picaresco. Ele é um sério candidato ao Contraponto Errado ao falarmos de Perfis de Personagens em Brigada, especialmente se o Ponto for um personagem heroico em si. Grudar em alguém bem-intencionado e capaz de protegê-lo de perigos físicos é algo que um pícaro faria.
Mas como isso se traduz em uma space opera repleta de naves estelares, impérios interestelares e batalhas épicas? A resposta é mais simples do que parece: o pícaro é o sobrevivente por excelência. Em um cenário de megacorporações, burocracias interplanetárias e aristocracias hereditárias, a figura do malandro que vive de sua esperteza encontra um terreno fértil. E ele pode ser um brigadiano, sim: o alistamento indesejado é um tropo clássico aqui.

Às Armas, Malandro!
Por qual motivo o Pícaro se encaixa perfeitamente na lógica de Brigada Ligeira Estelar? É porque este é o momento no qual a malandragem individual colide com a máquina institucional, gerando atrito, humor e oportunidades únicas de narrativa. O alistamento do pícaro nunca é por dever, honra ou “ódio ao inimigo”. É sempre uma transação ou uma fuga de alguma encrenca grande. Ele vê as forças espaciais não como chamado, mas como recurso ou mal menor:
Fuga da Cadeia: a Justiça o força a encarar duas opções — a prisão ou o serviço militar. A Brigada, em meio a uma guerra contra os invasores proscritos, está sempre precisando de operativos, podendo aceitar “voluntários” de penitenciárias (dependendo da gravidade do crime e usualmente o Pícaro — um protagonista simpático — não faria algo tão horrível assim). Trocar uma cela por um beliche é a saída que lhe resta, em seu objetivo de sobrevivência.

Engodo: um recrutador inescrupuloso (ou uma bela trambiqueira) promete alguma benesse financeira ou vários portos espaciais cheios de mulheres esperando no horizonte. O pícaro, movido por ganância ou lascívia, assina o contrato digital sem ler a letra miúda que o prenderá por anos. Ao perceber o erro, ele já está a caminho do espaço profundo. Sua nova missão é encontrar uma brecha nesse contrato ou subir na patente o suficiente para ter regalias.
Refúgio: seu planeta ficou pequeno para ele. Está no seu encalço uma máfia interestelar, um ex-sócio traído, uma corporação lesada ou o pai/marido/amante endinheirado de alguém com quem ele não deveria ter se envolvido. O que é melhor para sumir do mapa do que se esconder em uma instituição gigantesca, burocrática e que viaja para zonas de guerra, levando-o obrigatoriamente para outros planetas? A Brigada Ligeira Estelar é o esconderijo perfeito!

Oportunidade: onde há uma força armada, há suprimentos, transporte interestelar gratuito e uma rede de contatos imensa. Um pícaro esperto vê o uniforme como um passaporte universal — com um acesso privilegiado a mercados, locais restritos e novos contatos muito bons para seu futuro. Ele não se vê como um oficial de verdade, mas como um futuro empresário em missão de aquisição (e, talvez, ele esteja sendo muito menos esperto do que acredita ser…).
E aqui está a graça da coisa. A natureza do pícaro é autopreservadora, oportunista e anti-hierárquica. Em nome da prioridade por resultados, a Brigada Ligeira Estelar tende a ser mais flexível do que as demais guardas espaciais, mas ela ainda exige disciplina, lealdade pelo grupo e obediência — se não literalmente às regras, ao menos aos princípios éticos por trás delas. Ele não está nem aí para isso, mas não é burro e nem vai cometer algo grave…

…mas não há pequeno delito que ele não possa cometer, usando suas habilidades para não ser pego, como descobrir que pode trocar rações padrão por iguarias locais com colonos, e revender os cafés especiais do oficialato no mercado negro da estação, por exemplo. Ou então, quando o manual pede um assalto frontal, ele propôr subornar o subcomandante inimigo, já que descobriu seus débitos no cassino (“É mais barato do que reparar os robôs, Capitão!”).
Pícaros são especialistas em “ajustar” relatórios pós-missão a seu favor. Danificou a nave para salvar sua pele? O relatório dirá que foi “fogo inimigo”. Perdeu um equipamento caro? Será um “sacrifício por todos”. Enquanto os oficiais confiam em briefings de inteligência, ele tem um primo trabalhando no depósito inimigo de carga, uma ex-namorada contrabandista na rota de suprimentos e um contato em um fórum de hackers que vende códigos de acesso.

A Jornada do Pícaro
Um pícaro pode adicionar uma camada de sátira social, humor ácido e humanidade inesperada ao seu cenário de space opera. Em meio a batalhas épicas e grandes discursos sobre a humanidade sempre vai ter alguém mais interessado em vender ingresso falso para o salão do trono, trocar o selo de autenticação do cristal de salto por uma réplica bem-feita ou tentar convencer a filha do comandante a deixar o namorado longe esta noite (isso faz parte, sim).
Sua jornada pode definir toda a campanha do personagem — de parasita a herói (relutante). O pícaro não quer ser bom MAS, contra a vontade, ele cria laços genuínos com a tripulação. Ele pode reclamar o tempo todo, mas quando o capitão idealista está prestes a cair em uma armadilha por ser honesto demais, é ele quem puxa um truque sujo para salvá-lo. Suas ações desonestas começam a ter um propósito maior que ele mesmo, talvez para ajudar os outros.

Outra possibilidade, menos luminosa, é subir na patente não por bravura, mas por resolver problemas “sujos” para os superiores. Ele torna-se um oficial de operações não-convencionais, um contato nebuloso que a Brigada usa quando precisa negar envolvimento. Talvez ele nem precise ser um dos pilotos, mas alguém que os orbite, como um “negociante independente” que conhece cada brecha alfandegária do quadrante — e se tornou seu batedor a contragosto.
Esse personagem não é e nem deveria ser um herói típico. Seu objetivo primário não é salvar o império, mas sobreviver e, de preferência, lucrar. No entanto, é justamente aí que reside sua graça narrativa. Ao se ver arrastado para as aventuras da Brigada (talvez por acidente, por uma dívida ou por ver na tripulação heroica um ótimo escudo contra perigos maiores), seu cinismo e pragmatismo criam um contraponto divertido para o idealismo dos outros.

Tirem as Crianças da Sala!
Agora chegamos ao ponto complicado da coisa: o aspecto sexual é inerente e inseparável do arquétipo picaresco clássico. Não se trata de erotismo gratuito mas de uma ferramenta de poder, subversão e sobrevivência. Excluído dos canais legítimos de ascensão (sangue, riqueza herdada, títulos), o pícaro utiliza todos os recursos à sua disposição: sua esperteza, seu charme e, sim, seu corpo. É uma arma do fraco contra o forte, carregada de ambiguidade.
Não falamos aqui de cenas gráficas, por favor! Estamos falando de um terreno sensível que pode ser explorado com maturidade entre jogadores maduros, adicionando camadas de complexidade social, risco narrativo e drama pessoal. Então, antes da campanha, converse com os jogadores. Estabeleçam quais temas são aceitáveis, quais devem acontecer só nos bastidores… e quais são um “não” absoluto para o grupo. Respeito é a prioridade. Dito isso, vamos lá:

Em primeiro lugar, foque nas consequências narrativas, não no explícito. O interesse não está na cena de sedução, mas no segredo obtido, no inimigo criado, no acesso conquistado ou no dilema moral que surge depois. Procure também dar agência aos “alvos”: eles não são troféus passivos, têm suas próprias agendas, inteligência e poder. Eles podem estar usando o pícaro tanto quanto ele os usa. Crie relacionamentos dinâmicos, não conquistas estáticas.
Em segundo, e pessoalmente acho esse o mais importante, explore a sátira social: use esses relacionamentos para criticar a hipocrisia, a corrupção e os jogos de interesse ou poder em instituições que publicamente se mostram virtuosas… mas, por dentro, estão todas cheias de carunchos. O pícaro é uma lente narrativa funcional para isso, porque seu campo de ação verdadeiro se dá por trás das cortinas. Agora, vamos dissecar um pouco melhor isso tudo:

Instrumento de Infiltração: intimidade é passaporte para círculos fechados. Seduzir alguém do alto escalão de nobreza, militaria ou corporações é uma forma direta de ganhar na alcova acesso a informações, recursos e proteção.
Inversão de Valores: o Picaresco expõe hipocrisias — o nobre moralista libertino, a dama recatada com desejos proibidos, o clérigo devasso… Com isso, se ataca uma fachada de pureza e honra que sustenta hierarquias opressivas.
Motor de Conflito: enredos sexuais geram equívocos cômicos, ciúmes perigosos e chantagens. O pícaro frequentemente se enfia em encrencas justamente por não resistir a uma conquista — ou por ser pego nas suas teias de sedução.
Autonomia: para um pícaro, o corpo é muitas vezes o único território sobre o qual tem algum controle. Usá-lo estrategicamente pode ser um ato de agência, ainda que distorcido — mas também pode levá-lo a uma dinâmica perigosa.

Alguns tipos de protagonistas são feitos para o picaresco. Um piloto ou oficial de menor patente, cuja fama de conquistador precede seu histórico militar. A Cortesã tendo como maiores armas a insinuação, o favor concedido e, se ela quiser, o segredo compartilhado no travesseiro. O personagem desejoso de ascensão social ao seduzir a filha de alguém importante para obter um título, uma herança ou imunidade. O alvo do desejo de alguém mais poderoso.
Tudo isso leva a encrencas clássicas, ótimas para a mesa de jogo: o protagonista tem um caso com a cônjuge de um poderoso mercador ou de um oficial rival e agora, além da missão, a equipe tem um inimigo pessoal, rico e vingativo. Ele tenta chantagear uma amante com segredos, só para descobrir que ela tem dossiês mais sujos ainda sobre ele ou sobre a Brigada, virando a mesa. Ele conquista o coração de um herdeiro ingênuo mas sua família desaprova…

…e envia capangas corporativos para “dissuadir” o aventureiro indesejado, transformando a missão em um thriller de perseguição e proteção. Ele se fez passar por um nobre desaparecido para conquistar alguém e a farsa deu certo, mas agora a verdadeira família do nobre (ou pior, o próprio nobre) reaparece e está prestes a ser desmascarado em público. Vejam bem, pícaros jogam com o risco como uma segunda natureza — mas isso costuma ter consequências!
Vamos a exemplos práticos. A Brigada precisa de acesso a uma colônia lunar terraformada, ligada a teocratas Mondragor de Forte Martim. O pícaro do grupo identifica a filha mais nova do marquês, reprimida e curiosa sobre o universo exterior. Ele inicia um jogo sutil de sedução intelectual e emocional, tornando-se a “janela para as estrelas” da jovem. Consegue um convite para a corte como tutor de cultura constelar. O acesso está garantido — PORÉM…

…a coisa… bem, aconteceu. Agora os tradicionalistas da corte desconfiam, nosso protagonista começa a gostar genuinamente da jovem, a inteligência militar rival descobre o plano e tenta chantagear o pícaro. Para piorar, a moça quer mais intimidade e isso cria mais situações de risco — se o Marquês dos Mondragor descobrir, ele será morto! O sexo, aqui, é a porta de entrada. O drama, o risco, a farsa e a potencial tragédia são a verdadeira história!
Antes de concluirmos, vamos lembrar: o pícaro é, em essência, alguém pequeno pego no meio do fogo cruzado dos grandes eventos e sua perspectiva pode ser necessária para colocar os demais na linha. Nesse sentido, por trás de sua irreverência, ele é o mais próximo daqueles a quem a Brigada Ligeira Estelar protege. Ele pode ter atitudes questionáveis, mas é também aquele com maior noção da realidade. Lembrem sempre disso.
Até a próxima e divirtam-se.
* Se lembrarmos bem, D’Artagnan era um tremendo treteiro, já começa se tornando amante de uma mulher casada (lembra de quantas versões animadas transformaram Constanze na filha do senhor Bonancieux em vez de esposa?), seduz a criada Cathy para chegar à cama de Milady de Winter e mexe discretamente no relógio do seu superior da guarda de Mosqueteiros para ter um álibi. Se pensarmos bem, isso tudo é muito picaresco!
** A obra que praticamente criou a telenovela brasileira como conhecemos, Beto Rockfeller, de Bráulio Pedroso, foi justamente isso. Antes, nossa produção era focada em novelas majoritariamente de época, não muito diferentes das novelas mexicanas, com galãs nobres de bom coração. O Beto do título, interpretado pelo saudoso Luiz Gustavo, era um vendedor de sapatos que cria uma identidade falsa de milionário para circular entre a alta sociedade e subir na vida, sendo que o prazer do espectador era acompanhar suas trapaças contínuas para não ser desmascarado pelos milionários ao redor. De quebra, finalmente tínhamos uma linguagem coloquial em nossas telas. Mas, mesmo sendo um protagonista desonesto, a emissora achou que estava passando dos limites e por isso o personagem estava fazendo isso para ajudar a mãe doente ou algo do tipo. Quando a novela estourou em popularidade, um comentário feito aos criadores foi “parabéns: vocês finalmente conseguiram levar a novela brasileira ao século dezenove.”
***O personagem Fanfan foi criado em uma canção (!) de Émile Debraux em 1819 e ela migraria para o teatro várias vezes, por vários autores, sendo que a peça de 1858 de Paul Meurice se tornaria a definitiva e daí, ao longo do tempo, seria adaptada para os folhetins e para o cinema, onde ganharia sua versão mais famosa (e popular) em 1952. Mas a versão de 2003 também é muito legal, faz um humor bacana com anacronismos que volta e meia me lembra os bons momentos de Asterix e eu acho que funciona melhor para os jogadores mais curiosos. Eu gosto bastante.
**** Aqui vale um comentário extra: não é que um pícaro não possa se apaixonar de verdade por alguém. É que quando isso acontece, temos o sinal de alerta para que o sujeito mude de rota e finalmente deixe de ser um pícaro. Quando ele conquistá-la de vez, a farra vai acabar e ele vai se comportar de agora em diante. Não queremos isso, não é?
NO TOPO: J. J., de Akai Koudan Zillion (ou mais simplesmente Zillion, para nós). Entrou por engano, é mulherengo (do tipo que afasta as mulheres por ter a sutileza de um bonde — é, nem tudo é fácil na vida), indisciplinado, um terror, mas justamente por saber bagunçar o coreto ele é o que seu time precisa para vencer os invasores Nozas.
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