Forças da Lua Verde – Episódio 01, Parte I

Bom, gente, este é o primeiro capítulo de Forças da Lua Verde, nossa campanha de Brigada Ligeira Estelar.

Já perpetramos o Episódio Zero e apresentamos nossos personagens e jogadores (se vocês não viram, vejam, porque não pretendo reapresentar todo mundo mais uma vez — o texto já está gigantesco como está).

Antes, comentários: dividimos o Episódio Um em duas partes porque eu quis dar uma cena de destaque a cada protagonista… e isso se alongou.

Não me arrependo, claro. Depois que o grupo todo estiver reunido, a coisa flui naturalmente, então não será mais preciso esse tipo de introdução. Mas infelizmente, ficamos sem as batalhas com robôs gigantes dessa vez. Então, sejam pacientes. Teremos o “Episódio Um, Parte II” e, espero, isso não acontecerá de novo.

Mas não deixem de ler. A graça, nesses casos, é sempre acompanhar nossos jogadores caóticos em meio à sua heroica campanha. Vamos logo lá… e dessa vez, vamos na companhia de alguns mestres da ilustração de ficção científica.

Arte de Angus McKie. Aproveitem essa imagem, porque o resto vai ser texto corrido puro.

O ar de Tusitala é a primeira coisa que atinge os recém-chegados.

Não o ar reciclado de nave, com seu cheiro metálico e estéril. Não o ar pesado dos domos de mundos em terraformação, filtrado às pressas. Este ar entra nos pulmões como um abraço — doce, levemente adocicado por alguma flor que ninguém ainda aprendeu a nomear, com uma umidade perfeita que não chega a ser desconfortável. É o tipo de ar que faz você esquecer que está em uma lua a milhares de quilômetros de qualquer oceano de verdade.

A Praça da Harmonia foi construída para impressionar. Ela se estende por quase um quilômetro quadrado, uma planície de pedra clara polida até o brilho, cravejada de jardins suspensos que flutuam a três metros do chão graças a geradores antigravidade ocultos em suas bases. As flores são importadas de meia dúzia de mundos — rosas azuis de Viskey, orquídeas bioluminescentes de Inara, samambaias prateadas de Saumenkar que tremem ao menor sopro de vento como se estivessem sempre prestes a sussurrar segredos.

Acima, o céu de Tusitala é um espetáculo por si só. Takamaka domina o horizonte — um planeta inabitável de planaltos avermelhados e desertos minerais, ocupando um terço do céu visível. Sua superfície árida reflete a luz de Aether, a estrela anã amarela do sistema. As outras luas são pontos brilhantes visíveis mesmo durante o dia. Dizem que em noites claras é possível ver a luz do planeta Inara em meio às estrelas, mas isso é provavelmente exagero de poetas locais.

Hoje, porém, ninguém está olhando para o céu.


O terminal espacial está lotado. Mais gente do que qualquer um esperava. A plataforma de desembarque, projetada para receber até duzentas pessoas com conforto, hoje abriga quase quinhentas pessoas. A multidão transborda das áreas de espera, ocupa os corredores laterais, senta-se no chão de mármore sintético, onde não há mais bancos, apoia-se nas grades de proteção, nos pilares, nas paredes envidraçadas que mostram a paisagem lá fora — colinas verdejantes, plantações experimentais, ao longe, o brilho do mar de Tusitala.

O ar-condicionado trabalha no limite, mas não dá conta. O cheiro de corpos suados mistura-se ao de café barato da lanchonete do terminal, ao de óleo lubrificante dos carregadores automatizados, ao de terra molhada que entra pelas aberturas de ventilação.

Alto-falantes convocam, em intervalos irregulares, os números de lote para a retirada de documentos. A cada chamada, pequenos tumultos: gente que se levanta apressada, esbarra, reclama, pede desculpas. Crianças choram. Idosos são conduzidos por parentes. Um casal briga em voz baixa, mas nem tanto assim, no canto próximo ao balcão de informações.


Issar abre caminho entre as pessoas com educação, mas com determinação. Era desconcertante. Extremamente empolgante, claro, mas no momento, desconcertante. Ao contrário do que achavam sobre ser Esper, não era um mar de rosas. Ok, era um mar de rosas, mas tinha seus inconvenientes. Como ser bombardeado por quinhentas pessoas e suas vozes, seus movimentos, suas reclamações, suas vidas. Ao mesmo tempo. Comparada a isso, a falta do ar-condicionado não era nada. Na verdade, lembrava Issar de casa. O que era um problema.

Ele se dirige a um dos guichês, tentando conseguir seus documentos o mais rápido possível, ainda que no final das contas, o principal ali fosse paciência, não determinação.

A atendente estende um crachá temporário para Issar, ainda sem jeito.

— O senhor… o senhor precisa se apresentar à Administração Colonial. Setor C, terceiro andar. Imediatamente.

Ela hesita, olhando para a fila que já começa a reclamar atrás.

— Eles… eles estão esperando o senhor.

A vontade, por razões, era forte de encontrar a janela mais próxima, pular por ela e deixar quem estivesse esperando esperar o quanto quisesse, mas, infelizmente para Issar, ele tinha uma coisa que, naquele momento, queria muito não ter: bons modos.

Issar pega o crachá.

— Obrigado. Pode me dizer quem está me esperando?

A atendente hesita, os olhos voltando para a tela.

— Consta aqui… ‘Designação Nobiliárquica, Protocolo Especial 47, recepção a cargo da Administração Colonial, contato local: Dom Rodrigo Herrera’.

Ela lê mais um pouco, franzindo a testa.

— Tem também… ‘Assunto: Nomeação para Cavalaria Local, pendente de confirmação por feito.’

Ela ergue os olhos para Issar, claramente sem entender o que isso significa, mas sabendo que é importante.

— Só isso que aparece pra mim, senhor. O resto… é só pro pessoal da Administração.

Issar: — Entendido. Meus mais sinceros cumprimentos a você e toda a Administração!

Issar voa em direção ao terceiro andar. Não, ele não voa, ele é Esper, não santo milagreiro. Vocês entenderam.


Maya se sentia feliz, viva e empolgada. A cada passo, sentia que caminhava para fazer valer os princípios em que acreditava. Progresso e civilização a cada passada das botas de hussardo. É óbvio que viera de uniforme, lutaria por ele e agora se pavoneava com o Falcão no peito e a peliça no ombro.

A Alferes, no entanto, não esbanjava toda a paciência do mundo, e o fulgor dentro de si agitava-se. Queria a lua e queria pra ontem.

Maya está no saguão principal, em meio à multidão de colonos. Seu uniforme da Brigada chama atenção — pessoas se afastam, outras olham com respeito ou curiosidade. Uma criança aponta, a mãe abaixa a mão dela constrangida.

Um homem se aproxima. É magro, pele queimada pelo sol, roupas simples de agricultor, daquelas que já viram muitos ciclos de plantio. Ele carrega um chapéu de pala na mão e parece hesitante, como quem não sabe se deveria falar com uma oficial. Ele, a poucos passos de distância, olha para o Falcão no peito dela, depois para o rosto.

— Alferes…? — a voz é cansada, mas tem um respeito sincero. — A senhora é da Brigada mesmo? A de verdade?

Ele aperta o chapéu contra o peito, sem jeito.

— É que… minha filha queria ver. Ela disse que um soldado de verdade usa esse uniforme. Eu falei que era perigoso incomodar, mas ela…

Ele olha para trás. Uma menina de uns oito anos está escondida atrás da perna dele, espiando Maya com os olhos enormes.

O homem engole em seco.

— A senhora… a senhora veio pra nos proteger? É verdade que os Proscritos estão tão longe daqui?

Maya sorriu educada e, ao notar o jeito camponês, reconheceu sua terra e suas lutas. Detestava o planeta, mas as lições aprendidas estavam na ponta da língua.

Maya acenou calorosamente à criança e, depois, sorriu convidativamente ao senhor.

— Pode chamar sua filha. Estou aqui agora e vou fazer o meu melhor. Uma Evo e uma Brigadiana não arreda-pé diante de um desafio, meu senhor.

Maya dobra os joelhos para ficar na altura da criança.

— Passarinho! — A menina diz, com um sorriso banguela, estendendo a mãozinha na direção do Falcão bordado no peito do uniforme.

O pai abre um sorriso sem graça.

— Desculpa, donzela. Ela… nunca viu um uniforme desses. Nós viemos de Moretz, sabe como é… lá a Brigada não aparece muito.

Ele aperta a menina contra o peito, mas não a afasta. Apenas observa Maya com aquela cautela de quem ainda está tentando entender se pode confiar.

Maya sorri, encantada, com a fofura desinibida da menina.

— Passarinho! — Ela responde, receptiva.

Ela olha pros dois e diz:

— Eu sei como a vida pode ser difícil e maltratar. Já perdi um ente querido pra luta contra a barbárie. Foi por isso que busquei esse uniforme.

Os olhos dela marejam um pouco.

— Eu queria que me vissem como vocês me veem.

O homem fica em silêncio por um instante. Os olhos dele — cansados, desconfiados, vividos — passam pelo rosto de Maya, pelo uniforme, pela mão estendida. Algo muda ali. Uma fresta que se abre.

A menina, alheia ao peso do momento, consegue finalmente tocar o Falcão bordado. Passa o dedinho sobre o desenho, fascinada.

— Passarinho bonito — ela repete, satisfeita.

O homem aperta os lábios. Engole em seco. Quando fala, a voz soa mais grossa do que ele provavelmente gostaria.

— Moretz… a senhora sabe como é. A Brigada aparece quando a coisa já tá preta. Ou quando tem minério pra proteger. — Ele desvia o olhar por um segundo. — Nunca… nunca apareceu assim. De boa.

Ele olha para a filha, depois para Maya novamente.

— A senhora perdeu alguém.

Não é pergunta. É constatação. Ele entende. Gente como ele entende esse tipo de coisa.

A menina, sem entender a conversa, estende agora a mãozinha ao rosto de Maya. Toca de leve na bochecha da alferes, como quem quer ver se é de verdade.

— Titia é de verdade? — pergunta para o pai.

O homem solta um riso curto, meio sem graça, meio emocionado.

— É sim, fia. É de verdade.

Ele se ajoelha devagar — os joelhos reclamam, mas ele se ajoelha — para ficar na altura da filha e de Maya.

— Donzela… Alferes… seja o que for… a senhora tem meu respeito. Moretz não esquece quem olha nos olhos.

Ele estende a mão, agora, não para apertar a de Maya, mas para cobrir a mãozinha da filha que ainda toca o rosto da oficial.

— Me chamo Teobaldo. Essa aqui é a Luzia. E nós… nós vamos dar certo aqui. A senhora vai ver.

Atrás deles, a multidão continua seu fluxo indiferente. Mas, naquele pequeno espaço, por um instante, há apenas um aperto de mão silencioso entre uma alferes da Brigada e um colono de Moretz — e uma criança que ainda não aprendeu a desconfiar de quem usa farda.


Um terminal espacial? Todo repleto de colonos humanos? Deve ter ocorrido um erro na designação de especialistas no quartel — Íon esperava que fosse convocada para um ambiente inóspito!

Certo, talvez o calor já fosse considerado inóspito para humanos, porém seus sensores internos não indicavam risco de superaquecimento. Quanto ao ruído das multidões, esse não era nada em comparação com o da interferência magnética nas simulações de combate.

Ao menos, sua capacidade de projetar uma pequena tela holográfica no seu pulso mostrou-se conveniente: na sua vez de ser atendida, não precisou revirar sua bagagem para algo tão simples quanto papéis: sua credencial digital de Hussarda Imperial já era mais do que suficiente.

A atendente do Guichê 4 — a mesma mulher de meia-idade, cabelos presos de qualquer jeito, olheiras profundas — estava acostumada a todo tipo de documento. Papéis amassados, pastas surradas, telas trincadas de tablets velhos, gente que esquecia o número do lote, gente que perdia a identificação no meio da bagagem.

Mas uma credencial digital projetada diretamente do pulso?

Ela piscou. Duas vezes.

A tela holográfica flutuava no ar, cristalina, sem nenhum suporte visível. O logo da Brigada Ligeira Estelar girava lentamente no canto superior. Abaixo, os dados de Íon: designação, patente (Instrutora), unidade (Setor de Engenharia Planetária), e uma observação em vermelho: “ACESSO PRIORITÁRIO – PROTOCOLO SAUMENKAR”.

A atendente inclinou a cabeça, como se isso pudesse ajudar a processar o que via.

— A senhora… é uma… — Ela tossiu, tentando se recompor. — A senhora é uma Andro-Ginóide?

A pergunta saiu mais alta do que deveria. A fila atrás de Íon murmurou. Alguém se inclinou para ver o que estava acontecendo.

A atendente corou — até onde uma humana pode corar diante de uma ginóide.

— Desculpe. Eu… não queria ser indelicada. É que a gente não vê muitas por aqui. Quer dizer, nenhuma. A senhora é a primeira.

Ela limpou a garganta, forçou os olhos a se concentrarem na tela à sua frente, não no holograma flutuante.

— Íon, designação… Instrutora, lotação… Setor de Engenharia Planetária… — Ela lia em voz alta, como se precisasse confirmar para si mesma. — Protocolo Saumenkar… acesso prioritário…

Ela ergueu os olhos para Íon novamente.

— A senhora… a senhora veio pra quê, exatamente? Porque aqui é guichê de colonos regulares. A senhora não é… quer dizer, a senhora não veio como colono, veio?

Íon: — Sim, eu sou.

Poderia responder apenas com os fones de ouvido, sem mover os lábios, mas não quis assustar ainda mais a pobre atendente.

— E não precisa pedir desculpas, estou ciente das peculiaridades do meu povo.

Pelo menos a atendente conseguiu manter a compostura, lendo suas credenciais com atenção, até a pergunta final.

— Informação classificada!

A atendente congelou.

Os dedos dela pairaram sobre o teclado, imóveis. Os olhos se arregalaram por uma fração de segundo antes que o treinamento de atendimento ao público — “nunca demonstre surpresa, nunca demonstre medo, nunca demonstre nada” — reassumisse o controle.

Ela engoliu em seco.

— Classific… — A voz falhou. Ela tossiu, recomeçou. — Classificada. Sim. Claro. Faz todo sentido.

Ela não fazia ideia do que fazer agora. Olhou para a tela. Para o holograma. Para Íon. Para a tela de novo. Os dedos pairaram sobre o teclado, mas não digitaram nada — porque ela não sabia o que digitar.

A fila atrás de Íon começou a ficar impaciente. Alguém resmungou “anda logo”. Outro respondeu: “Calma, é uma oficial.”

A atendente baixou a voz, inclinando-se ligeiramente para a frente como se isso pudesse tornar a conversa mais privada.

— Eu… eu não tenho autorização pra acesso classificado, senhora. Meu terminal só abre lotes de colonos regulares. — Ela hesitou. — A senhora… a senhora precisa ir ao Setor C, no terceiro andar. Administração Colonial.

Ela olhou para o holograma no pulso de Íon, para o logo da Brigada, para o selo de Saumenkar.

— Eles… eles que vão saber o que fazer com a senhora.

Um silêncio constrangido.

— Posso… posso emitir um crachá de acesso temporário, se a senhora quiser. Ou… — Ela olhou para o holograma novamente. — Ou a senhora já tem ali… né?

Íon: — Claro. Perdão pelo incômodo.

Com certeza houve um equívoco do Alto Comando. Fora instruída para agir discretamente, misturar-se com a população, mas para ela era impossível!

— Irei regularizar minha situação no setor correto. Agora, com licença…


Altaís nunca estivera tão longe de casa; 17A nunca estivera tão longe da agência — então era de se esperar que Xerônica Frufru (nascida dois minutos antes que ela digitasse o nome no ticket de embarque) estivesse mais perdida do que cego em um tiroteio.

Afinal, o que ela tinha? Uma identidade falsa, uma mala de rodinhas com disfarces e apetrechos demais e um endereço misterioso com “chamar o Flávio” anotado na borda do guardanapo. Mas uma idol de verdade jamais deixava nenhuma ansiedade transparecer! Transpassar? Transparecer? Algo assim! Ilegível como um jabuti! Ardilosa como uma cobra — “Não, pera, não foi isso que eles disseram no treinamento.”

Por trás de seus largos óculos de sol e chapéu enfadonho de socialite desatualizada, mas orgulhosa demais pra admitir, a jovem, de aparência, dotes, membros e até olhos artificiais, se movia com a confiança de uma estrela pop 200% bem disfarçada. Seus trajes de outono, em pleno verão, e seu cachecol neon são — em sua cabeça — adereços perfeitamente funcionais para o seu papel de fugitiva. Afinal, quem desconfiaria de que a pessoa super fashion está tentando passar despercebida?

— Agora… Pra onde fica isso mesmo? — Ela pensa em voz alta enquanto tenta passar pela multidão, contorcendo-se entre as pessoas.

O agente — homem jovem, bigode fino, ar de quem está de mau humor por ter perdido o café da manhã — segura o cachecol neon que acabou de soltar do próprio cinto. Ele olha para o acessório, para Altaís, para o guardanapo amassado na mão dela.

— Moça.

Ele aponta para o guardanapo com o queixo.

— Isso aí é um endereço? Porque se for, ‘chamar o Flávio’ não é endereço. Endereço é rua, número, setor, essas coisas.

Ele suspira, cansado.

— E esse cachecol… olha, sem querer ser chato, mas a senhorita já quase derrubou três pessoas com essa mala. E tá usando roupa de outono num calor de… — Ele olha para o teto, como se pudesse ver o sol por trás dele. — De verão. Aqui é verão o ano inteiro, sabia?

Atrás dele, a mãe, com o bebê no colo, ainda lança olhares fulminantes na direção de Altaís.

O agente coça a nuca.

— Flávio… Flávio… — Ele parece vasculhar a memória. — Conheço um Flávio que trabalha no almoxarifado do Setor B. Mas também tem um Flávio que é da segurança da área VIP. E tem o Flávio da manutenção, mas esse aí é mais velho.

Ele inclina a cabeça.

— Qual deles é o seu?

Altaís faz uma expressão que é semiautomática, parte treinamento da agência, parte software, 100% teatral. Com um biquinho e um sorriso ela responde.

— Ah, é que o endereço está no verso… Ou estava? Acho que molhei ele… Uhm~ Flávio, Flávio, Flávio… Acho que o Xuxu me disse alguma coisa sobre ele ser cinza e ranzinza? Eu lembro por que rimou.

Ela suspira, lembrando de seu amado estagiário de bioengenharia robótica. Sua expressão se torna mais focada depois disso.

— Desculpinha… Pra onde fica a manutenção, então?~

— Cinza e ranzinza?

Ele coça a nuca, claramente tentando processar a informação.

— Olha… cinza aqui tem bastante parede. Ranzinza tem eu, o supervisor do balcão 3, e metade da equipe da alfândega.

Ele suspira, mas um canto da boca ameaça um sorriso — contido, profissional, ali.

— A manutenção é do Setor B. — Ele aponta para as placas. — Sai do saguão principal, vira à direita no corredor das docas, passa pelo almoxarifado e segue até o fundo. Escada rolante desce. Lá embaixo é a manutenção.

Ele hesita.

— Mas se o seu Flávio é da manutenção, vai ter que passar pelo controle do almoxarifado primeiro. Seu crachá… — Ele olha para o crachá temporário que a atendente do guichê deu a Altaís. — Temporário? Só libera até o almoxarifado. Depois disso precisa de autorização.

Ele dá de ombros.

— Ou esperar o Flávio subir. Mas se ele é ranzinza… capaz de não subir.

Altaís: — Uau!~ Show de bola, mil alegrias! Valeu mesmo! Fui!~

Altaís diz, com uma rodada e puxando o cachecol de volta (é uma parte muito importante do disfarce, claramente) — tenta abrir caminho com um pouco mais de pose e cautela, agora que ela tem 100% de certeza de onde tem que ir!

Bem, a menos que seja o lugar errado, né? Mas, nesse caso, ela se acha dali, né? Sem problema!

— Desculpinha! Uau, cuidado! Passando~! — Ela exclama enquanto usa sua agilidade biônica pra driblar todos pelo caminho.


Arcturus observa tudo a distância, com olhos, ouvidos e nariz aguçados — e como esse povo faz barulho e solta cheiros. Mas também porque é um urso de 3 a 4 metros. Ele gosta de ter espaço para se mover e é plenamente consciente de que algo como ele, descendo de supetão, causaria no local. Então ele apenas acompanha, deitado perto da rampa, ao lado de seu jovem mestre/pupilo, aguardando um momento mais conveniente, por enquanto.

A rampa de pouso onde eles aguardam fica numa área mais afastada do terminal principal — um anexo para cargas e veículos particulares, com menos gente circulando. Menos gente, mas não nenhuma.

Os primeiros a notar Arcturus são dois carregadores da alfândega. Um deles, no meio do caminho, fica imóvel, o braço carregado de caixas. O outro esbarra nele, reclama, segue o olhar do colega… e também congela.

— É… é um urso? — pergunta o primeiro, voz baixa.

— É grande pra caramba. — responde o segundo.

— Tá… tá de pé?

— Acho que é deitado.

— DEITADO E TÁ DESSE TAMANHO?

Eles se afastam discretamente, sem tirar os olhos da fera.

Mais longe, um grupo de colonos recém-chegados aponta para Arcturus. As crianças ficam empolgadas. As mães puxam as crianças para trás. Os pais tiram foto com tablets.

— Mãe, olha o ursão!

— Não encara, menino!

— Mas ele tá deitado!

— Não encara!

Um segurança particular do Consórcio — terno preto, óculos escuros, um ponto no ouvido — se aproxima com cautela. Para uns dez metros de distância. Avalia a situação: um urso de mais de três metros, um adolescente de cara amarrada ao lado. O segurança claramente não foi treinado para isso.

Ele fala baixo no ponto eletrônico. Depois, dirige-se a Andrei, ignorando Arcturus com esforço visível.

— Jovem… esse animal é seu?

Ele mantém as mãos visíveis, longe do paletó onde possivelmente há uma arma.

— Porque… é que tem regras, sabe? Animais de grande porte precisam de autorização especial para circular por áreas públicas. — Ele hesita. — E… e coleira. Identificação. Vacinação em dia.

Andrei solta um som baixo — não um rosnado, só uma nota de quem ouviu e achou graça.

O segurança empalidece ligeiramente atrás dos óculos escuros.

— O senhor… o senhor tem os documentos dele?

Arcturus: — Eu tenho meus documentos aqui comigo — a quem devo me endereçar?

Diz Arcturus ao segurança, enquanto retira um papel de um dos slots do colar no pescoço.

O segurança congela.

A mão direita, que estava visível, agora treme ligeiramente. A esquerda vai instintivamente na direção do paletó — para, volta, fica pendurada no ar, sem saber o que fazer.

Ele pisca. Olha para o papel no colar de Arcturus. Olha para o focinho do urso. Olha para o papel de novo.

— O senhor… — A voz sai fina. Ele pigarreia. — O senhor… é o urso?

Atrás dele, os dois carregadores da alfândega já esqueceram as caixas. Um deles está com o celular apontado, filmando. O outro segura o braço do colega como se precisasse de apoio.

Mais longe, uma criança grita: “MÃE, O URSO FALOU!” A mãe responde: “Não inventa, menino!” — mas ela também está olhando.

O segurança engole em seco. A mão finalmente encontra um destino: o ponto eletrônico no ouvido. Ele fala baixo, rápido:

— Chefe… é o seguinte… tem um urso aqui… Não, não é um cachorro grande, é URSO… Sim, de verdade… Ele… ele falou, chefe.

Pausa.

— Não, eu não tô bebendo. Ele falou. Mostrou documento.

Outra pausa. A voz do outro lado deve estar sendo pouco útil.

O segurança tira a mão do ouvido e encara Arcturus com uma expressão que mistura pavor, fascínio e uma ponta de resignação profissional.

— O senhor… — Ele recomeça, tentando recuperar a compostura. — O senhor precisa se apresentar à Alfândega Especial. Setor de Importação de Fauna Exótica. Fica no… — Ele consulta um tablet que tira do bolso, com os dedos trêmulos. — No Setor D. Segundo andar.

Ele olha para o papel no colar do urso.

— Mas… mas com esse documento aí… talvez seja… Setor Diplomático? O senhor tem… status diplomático?

Ele parece perguntar mais a si mesmo do que a Arcturus.

Atrás, os carregadores já estão discutindo se o vídeo vai viralizar.

Andrei perde a paciência.

— Esse é meu familiar! Nunca viram um animal de companhia geneticamente engendrado?

Arcturus: — Acalme-se, jovem Andrei, não estamos em casa. Lembre-se de que ursos como eu não são comuns fora de Arkady — e eu sou um pouco maior do que a maioria dos ursos de casa também.

O urso vira a cabeça com tranquilidade para o segurança.

— Sim, no presente momento eu acompanho o jovem Andrei, mas anteriormente servi como parte da corte do tio-avô dele, Lorde Vasily Chernobog, motivo de minhas credenciais em conjunto com serviços em suporte à Brigada.

O segurança desvia o olhar de Arcturus para Andrei com uma expressão de alívio tão evidente que chega a ser cômica — finalmente, alguém que fala sem ser um urso.

— Familiar… sim, claro, familiar, eu… — Ele engole em seco, tentando se recompor. — É que… olha o tamanho dele, jovem. A gente não vê muito… quero dizer, em Arkady deve ser normal, mas aqui…

Ele aponta para o entorno com um gesto vago.

— Aqui o bicho mais perigoso é o lagarto do inspetor da alfândega.

Atrás dele, os carregadores já estão rindo — da situação, não de Andrei. Um deles grita: “Ô, Jorginho, deixa o urso em paz, ele tem documento!” O outro responde: “Documento assinado pelo delegado da fauna, né?” Mais risos.

O segurança — Jorginho, aparentemente — ignora os colegas com esforço visível.

— Olha, jovem… eu vou ser sincero. — Ele abaixa a voz, mesmo que isso não faça sentido num terminal barulhento. — Eu não sei qual é o protocolo para um urso falante. Não tem no manual. Mas se ele tem documento… — Ele olha para o papel no colar de Arcturus. — …e o documento parece estar em ordem… e ele é seu familiar declarado…

Ele coça a nuca.

— Teoricamente, vocês podem circular. Mas vai dar o que falar. E vai chamar a atenção. — Ele aponta com o queixo para o grupo de colonos que ainda está filmando. — Já estão gravando. Daqui a pouco chega a imprensa. Aí a governadora vai querer saber, aí a segurança privada vai querer saber, aí…

Ele suspira.

— Se eu fosse você, iria direto pro Setor D. Segundo andar. Alfândega Especial. Lá eles têm… sei lá, talvez tenham experiência nisso.

Ele hesita.

— E… e tenta não falar muito no caminho. Pelo amor das Estrelas. Já bastou eu ouvir.

Andrei bufa.

— Vamos logo pra onde a gente tem que ir…

Arcturus: — Como quiser, meu jovem.

Arcturus: — Ah, sim, para onde seriam movidos nossos veículos, que estão na nave? Creio que isso teria de ser visto com a representação da Brigada, a menos que vocês já tenham uma guarda regencial local. Saberia me dizer? Devo admitir que é minha primeira visita ao local.

O segurança está claramente sobrecarregado. Ele olha para Arcturus, depois para Andrei, depois para o grupo de colonos que ainda filma, depois para o nada, como se esperasse que alguém viesse resgatá-lo dessa situação.

— Veículos… veículos de combate? — A voz dele falha ligeiramente. — O senhor… o urso… o jovem… vocês vieram com robôs?

Ele aperta o ponto eletrônico no ouvido, com os dedos trêmulos.

— Chefe… é o mesmo urso de antes… Sim, ele ainda tá aqui… Agora ele quer saber sobre os veículos… Não, chefe, eu não perguntei que veículos… Sim, ele falou de novo… Por favor, chefe, manda alguém…

Do outro lado da praça, um homem de terno preto e pasta na mão para abruptamente ao ver a cena. Ele observa por alguns segundos, depois muda de direção e se afasta rapidamente. Não quer envolvimento.

O segurança Jorginho finalmente reúne forças para responder:

— Olha… eu… veículos de guerra são coisa da Brigada, sim. Tem um destacamento aqui. Fica no Setor Militar, no anexo ao Porto Espacial Norte. — Ele aponta para uma direção vaga. — Mas pra chegar lá precisa passar pela alfândega principal, e pra passar pela alfândega, precisa… precisa…

Ele olha para Arcturus.

— …precisa de um milagre, pelo tamanho do senhor.

Os carregadores atrás já estão às gargalhadas. Um deles grita: “Jorginho, pede pra ele rugir pra liberar!”


Maya entra na sala e avista outra Brigadiana. Uma Andro-Ginóide. Uma aliada!

A última vez que vira uma foi quando estudava na capital regencial Madredeus. Maya se aproximou sorrindo, calorosa e receptiva.

— Ei, Alferes! É bom ter mais uma esmaltada por aqui!

Íon: — Saudações. — Bate continência. — Instrutora Íon, de Saumenkar, cedida pelo planeta Inara. E precisarei do seu suporte para prender um duelista nessa sala!

Maya ri da continência automática e arregala os olhos.

— Ora, um duelista perdido em plena Constelação do Sabre? Nunca vi isso antes…

Maya sorri irônica, adorava apresentar sarcasmo ao povo Andro-Ginoide. Rapidinho eles aprendiam a emular!


Issar não está prestando atenção na calma e tranquilidade, porque a calma e a tranquilidade já saíram dele. Um urso! Um urso familiar! Um urso familiar GIGANTE! O que contariam em casa se ele desafiasse um urso familiar gigante para um duelo!

E assim, Issar rapidamente usa todos os contatos de uma vida na nobreza e quatrocentos replies de conversa sobre o vídeo pra conseguir o contato de Arcturus.

Issar: — Arcturus! Você! Em nome de minha honra, eu te desafio para um duelo no terceiro andar, Setor C, terceiro andar, Sala 307!

Arcturus: — E quem é você, que nunca vi menor? Apresente-se primeiro, criança.

Issar: — Desculpe os maus modos — Issar Manzikert, Aventureiro do Sabre em busca de um desafio. Está à altura?

Andrei: — Deixa esse infeliz pra lá, Arcturus — diz um (ou uma, não parece claro) jovem de cabelos brancos e modos aristocráticos. — Depois você o embosca e joga os restos dele no mar.

Issar: — Obrigado pelo elogio! E sim, o Issar está sendo sincero. Se um sabre não for algo que seja prático para você, pode usar as garras, não tenho medo.

Arcturus: — Prazer em conhecer, jovem. Mas não, não aceito. Não tenho nenhuma fêmea a impressionar no momento — e, mesmo se tivesse, você é uns 2-3 metros a menos do que precisaria, no mínimo.

Issar, cabisbaixo: — Tudo bem, se tiver uma fêmea futura a impressionar, me avise, seria um duelo à altura da tarefa.

Issar faz uma mesura e olha para a Andro-Ginóide que acabou de se apresentar, como se nunca tivesse visto uma antes (e nunca viu mesmo), sem reação.

Íon: — Cavalheiro, siga-me. Conduzirei sua graça até a delegacia mais próxima, onde você responderá por duelo não autorizado!

Ela segura os dois punhos de Issar com firmeza, mas sem intenção de causar dor.

Issar: — Me prender! Eu sou um cidadão no Sabre que não fez nenhum crime, não é pra ser um duelo até a morte! …é crime duelar esportivamente aqui?

Andrei, com certo desdém: — Alguém perdeu uma criança nessa sala?

Issar: — Criança, eu tenho QUATORZE anos, já tive a primeira maioridade — e aí ele é agarrado. — Ei, por favor, eu consigo autorização, se for o caso, só vamos primeiro resolver a alfândega, senão vamos todos ficar presos aqui até amanhã…


Uma estrela pop mal disfarçada adentra no recinto.

— Opa! Licencinha! Me disseram que a manutenção é por aqui? Ou tem que passar por aqui? Coisa assim! Hm? Que tá rolando?

Ela olha em volta e vê a discussão.

Íon: — Infelizmente não tenho autorização legal para obter uma autorização ou a sua liberdade, senhor! Temo que você passe uma noite na cela!

Nisso, seu pescoço vira de um modo preciso demais para Maya.

— Ei, Alferes, não quer cumprir sua meta?

Maya se interpõe entre os dois — Como ela era tão rápida e direta??

— Íon, nada aconteceu até agora e o duelo foi recusado.

Ela pensa um pouco, buscando a linguagem ginóide.

— O PROTOCOLO principal agora é nos registrar oficialmente, temos funções a cumprir na colônia e somos todos aguardados. Minha querida Galã e companheira imperial. Nossa meta agora é entrar na colônia.

Maya diz, calma e centrada.

Issar suspira.

— Olha, me desculpem a acidental quase ilegalidade, é que em Ottokar, ao menos onde eu vivia, duelos não eram algo ilegal, dependendo das circunstâncias. Pode me soltar?

Os olhos de Íon piscam lentamente, processando o comentário de Maya.

— De fato, o crime não ocorreu. — Os olhos piscam, com maior brilho e mais velocidade. — Não tenho protocolos de Direito Imperial instalados, mas você está certa, eu terei de liberar o jovem. Porém, isso não poderá ser repetido e muito menos pode escalar, tudo bem, garoto?

Ela solta os punhos de Issar e depois, acaricia, de leve, os cabelos dele, de uma maneira quase maternal.

Andrei, com ar de desdém: — Pronto, agora você pode voltar pra casa e contar seus azulejos com felicidade.

O soltar dos punhos é um alívio. Já o maternal…

Issar: — Eu… compreendo.

E Issar se afasta um pouco, olhando pra todos os outros que chegaram. Ou ele faria isso, MAS aí ele ouve o comentário do Andrei e responde:

— Você tem sorte de que nós estamos num ambiente civilizado.

E assim, Issar se senta e observa a todos os outros.

Maya bufa relaxada.

— Primeira contenda resolvida, faltam só todas as outras! — Ela pensa. Isso, garota! Você pega o jeito!

Maya olha com uma sobrancelha erguida para a Ginóide na carícia maternal.

Íon: — Está tudo bem agora, só não seja tão impulsivo da próxima vez, tudo bem? Apenas ao olhar para o seu rosto, eu sei que você é um bom rapaz.

Issar acena a cabeça, com um leve sorriso.

Maya cutuca Issar e diz baixinho no ouvido dele:

— Eu não sei que protocolos ela tem na cabeça, mas isso pode ficar estranho…

A larga silhueta de um urso branco-acinzentado com algumas manchas negras surge ao lado e em volta, quase como um iglu de pelo da figura esguia e de cabelos similarmente brancos de Andrei.

Altaís está fazendo caretas, gesticulando com os braços pra chamar a atenção da funcionária.

— Íon, diva, rapidinho, quantos anos você tem? Quais leis asimovianas você segue e qual a sua especialização? — pergunta Maya, em tom de quem tenta entender.

Uma voz tonitruante invade o ambiente.

— QUEREM PARAR COM ESSA PALHAÇADA?

Altaís se vira, surpresa.

— SUSPIRO AUDÍVEL! — Ela exclama, descrevendo seu suspiro teatral.

Com o grito do funcionário, Íon apoia as costas na parede com as mãos para trás e modula sua voz para que saia baixo, sem mexer os lábios.

— Não mais do que dois anos, meu modelo é um dos primeiros pós-Batalha dos Três Mundos. Sigo apenas a Lei Zero e sou xenogeóloga, algum problema?

Vocês se deparam com um homem alto, nariz adunco, bigode grisalho bem aparado, uniforme militar hussardo mas sem a peliça, (verde-musgo com detalhes prateados). Traz no peito o brasão bordado dos Herrera — uma águia estilizada sobre um castelo. É uma família que serve aos Falconeri há gerações. Ele não parece ser muito de sorrir. Nem um pouco.

Maya sinaliza para que o grupo heterogêneo foque na figura vindoura. O símbolo ela respeitava e exigia o mesmo respeito de todos. Issar segue a deixa. Hussardo Imperial se respeita, não importa a situação.


A sala 307 é ampla, iluminada por uma parede inteira de vidro que dá para as colinas verdes e, ao longe, para o mar de Tusitala. Uma mesa de reuniões longa, de madeira escura, ocupa o centro. Nela, pastas, tablets, uma jarra de água com copos de vidro. Nas paredes, mapas da lua e do sistema de Inara, além do brasão imperial — o brasão dos Falconeri — e, ao lado, o brasão da Casa de Herrera: a águia sobre o castelo.

DOM RODRIGO HERRERA está de pé junto à janela, de costas para a porta, observando a paisagem.

Ele se vira. Seu olhar percorre cada um dos presentes. O nobre jovem de Ottokar. A alferes da Brigada. A ginóide de Saumenkar. O urso — sim, o urso — e seu jovem pupilo. E, por fim, a figura colorida e ligeiramente deslocada com o cachecol neon e a mala de rodinhas.

Ele não demonstra surpresa. Os nobres da sua família são treinados para não demonstrar surpresa.

— Entrem. Por favor. — A voz é grave, medida, com o sotaque cantado de Montalbán. — Fechem a porta.

Ele espera que todos se acomodem — ou, pelo menos, encontrem um lugar na sala. Para Arcturus, isso significa sentar-se no chão ao lado da mesa, ocupando um espaço considerável.

Dom Rodrigo aponta para a mesa, onde há pastas com os nomes de cada um.

— Issar Manzikert. Maya Castil Arana. Íon. Andrei Chernobog. Arcturus.

Ele hesita por um instante ao olhar para Altaís.

— …e quem é você?

Altaís dá de ombros.

— Xeronica Frufru? Eu só tava tentando chegar na mecânica…

Ela diz, tomando um cafézinho que estava sobre a mesa.

Maya: — Senhor — começa Maya —, eu e minha companheira Ginóide fomos destacadas para cá, deduzo que os jovens nobres e seu guarda-costas também.

Ao ouvir o projeto de idol falar, Maya revira os olhos.

— Tem sempre uma… — Ela sussurra para Issar.

Dom Rodrigo ergue uma sobrancelha.

— Acredito que haja uma história por trás desse nome.

Ele se senta à cabeceira da mesa, sem oferecer que os outros se sentem — mas também sem impedir. Maya mantém a posição de sentido, estava interessada no dever que a aguardava.

Herrera se posiciona na cadeira antes de falar.

— Vamos direto ao ponto. O Protocolo Especial 47 é um dispositivo jurídico pouco utilizado, mas ainda em vigor. Ele permite que um nobre menor, ao ser designado para uma posição de cavalaria local, peça um mínimo de apoio militar para o exercício de suas funções.

Ele olha para Issar.

— Seu tio, Lorde Manzikert, usou suas conexões em Inara para inscrevê-lo como candidato a Cavaleiro de Tusitala. A posição está vaga desde que o último ocupante… licenciou-se. — Um sorriso seco. — Problemas de saúde. Nada grave, mas o deixou impossibilitado de pilotar.

Ele aponta para as pastas.

— Aqui estão seus documentos de designação. Porém… — ele ergue um dedo — …há uma cláusula. O Protocolo 47 exige que o nobre em questão tenha realizado um ‘feito’ que justifique a confiança depositada. O feito precisa ser registrado em ata, testemunhado por autoridade competente e homologado pela nobreza local.

Ele inclina a cabeça.

— Até o momento, o senhor Issar Manzikert não tem nenhum feito registrado em Tusitala.

Seu olhar percorre o grupo novamente.

— Mas a lei também diz que o suporte militar requisitado — no caso, os oficiais da Brigada aqui presentes e os familiares declarados — pode atuar em conjunto com o nobre para a realização do feito. Ou seja…

Ele cruza as mãos sobre a mesa.

— …o senhor Issar precisa de uma missão. E vocês, aparentemente, são a missão dele.

Ele espera.

— Alguma pergunta antes de prosseguirmos?

Altaís levanta a mão.

— Fale.

— Ehrr… Por que eu, Xeronica Frufru, com uma história certamente interessante pra esse nome, estou aqui mesmo? É sério, Vossa Senhoria, eu tava indo pra mecânica e… O senhor conhece o Flávio?

Ela diz, comprando tempo pra formular a história interessante de que aparentemente ela precisa agora.

— É uma boa pergunta, mas nossos scanners revelaram algo interessante sobre a senhorita.

Ele aperta um botão e uma imagem digitalizada aparece, mostrando as câmeras. Ela é praticamente varrida. É uma ciborgue com características de ciborgues de combate invisíveis.

Altaís: — OH NÃO! Eu sabia! Vocês só se importam com o meu corpo!

Ela faz uma careta e, dramaticamente, cruza os braços em frente ao corpo. Caindo da cadeira no processo.

Arcturus: — Alguns diriam seus periféricos — ou, talvez, implantes, senhorita. — diz o urso de relance.

Dom Rodrigo: — Não sei quem a enviou, mas com certeza investiu bastante para plantá-la por aqui. Ou seja, você está aqui para trabalhar conosco… ou então é a pior espiã que já vi. A escolha é sua.

Ele está falando muito seriamente. E isso é assustador.

Altaís: — Ei! É rude falar dos periféricos de uma mulher!

Ela exclama com um braço erguido, ainda no chão. Aproveitando a deixa, ela tenta escapar imitando uma minhoca — até ser acusada de espionagem. Aí ela pipoca em pé imediatamente.

— AHHHHHH~ Não é justo! Não é minha culpa, eu juro, vossa autoridade! Eu, eu… Eu nem sei lutar! Eu nem sei por que eu estou aqui, na verdade! Eu só tenho um endereço borrado e um Flávio como resposta!

Ela diz, genuinamente quase chorando.

— Eu só queria ser uma estrela… — Ela murmura, e desaponta a soluçar enquanto lágrimas rolam — ainda naturais mesmo com seus olhos biônicos.

Dom Rodrigo: — Então seja.

Íon: — Já sei! — Ela dá um leve soco na palma da mão livre. — Considerando que o jovem Issar é um nobre de Ottokar, ela está aqui para ser uma espécie de odalisca ou dançarina, mas que pode ser guarda-costas quando necessário…

Maya olha assustada pra Íon. “Ela passou tempo demais nas redes”, pensa.

Dom Rodrigo: — Uma boa ideia. Mas eu tenho outra sugestão. E isso tem muito a ver com sua missão, segundo as normas da inteligência imperial.

Altaís olha pra Íon, surpresa.

— Você… Você… Você me ofereceria um emprego!? — Ela pergunta, ainda agachada. Parecendo tocada e esperançosa.

Dom Rodrigo: — Sim. Você vai cantar.

Altaís: — E eu vou… CANTAR!? — Ela diz, em tom de êxtase religioso.

Dom Rodrigo: — Vamos às explicações.

Uma tela digital surge no ar.

— Vocês acabaram de chegar a Tusitala. Vamos falar um pouco sobre o local que será sua moradia de agora em diante.

Um mapa da lua se mostra no ar, com texto subindo em sua superfície.

Issar: — Parece um lugar muito agradável. Mas para uma designação de tal porte como a nossa, algo está profundamente errado. Por que Tusitala precisa de nós, Dom Herrera?

Maya: — Deduzo que, para necessitar de uma guarda de cavaleiros feita às pressas e heterogênea, a situação seja algo alarmante. Recursos vitais nas mãos de gente perigosa, eu chuto?

Íon: — Quais seriam os recursos em questão, senhor?

Dom Rodrigo: — Por que ela foi dominada por uma estrutura decadente e corrupta, ligada ao instituto Balagula de Uziel? Por que após a tentativa desastrada de invasão proscrita em Inara, ela desponta como um alvo mais fácil e com mais a saquear? Por que luas recém-terraformadas são alvos prioritários para piratas e milicianos, já que sua infraestrutura ainda está sendo instalada?

Altaís teleportou pro lado da Íon.

— Psiu, ei, colega. — Ela sussurra. — Que babado é esse que tá rolando aqui? Isso é algum tipo de recrutamento midiático agressivo? Eu estou muito confusa… A polícia agora paga pra cantar? Eu sou um modelo de combate? Ninguém nunca me disse isso, não!

Ela olha pra Íon com os olhos lacrimejando, que nem um gato espadachim com sotaque cômico.

Issar: — Os Proscritos já apareceram por aqui?

Dom Rodrigo: — Não foi bem explicado e nem entendido. ALGO os expulsou e não sabemos o quê. O problema é que nossa governadora, lamento ter que dizer isso, não é uma figura confiável, mas ainda é nossa governadora. E como nobre, ela precisa de uma guarda pretoriana pessoal de cavaleiros. Aí entra sua família, caso Manzikert. Eu estou ciente dos problemas regionais do seu clã, mas, quando souberam que você viria para cá, eles acionaram seus contatos e trataram comigo.

É um pouco difícil de notar, mas olhares atentos percebem que Issar desinfla um pouco ao ouvir isso.

— Você quer se provar? É sua chance. Sua família não vai perturbá-lo enquanto você estiver aqui.

Issar olha para Dom Herrera como se o Dom fosse a personificação do Destino o testando.

— Muito foi falado, exceto sobre qual a prova pela qual teremos que passar. Por favor, prossiga.

— Calma. Isso inclui também a jovem dama aqui — e nisso, ele aponta a oficial Hussardo Maya Castil Arana.

Maya: — Entendo… Mas se o território é tão valioso, por que foi escalada uma nobre menor para zelar por ele? Acaso o Império desconhecia o potencial incomparável do território em questão?

Maya pergunta honesta e curiosa, buscando aferir o que a espera.

Dom Rodrigo: — Por ser mais fácil de controlar. E, infelizmente, esse potencial foi percebido um tanto tarde… o fato do Império estar preocupado demais com os Proscritos e com os avanços dos blocos pró-Tarsianos no parlamento não ajuda em nada. Por isso, eu preferi apelar a outro direito: o de, na falta de um primeiro-cavaleiro por algum motivo, um nobre poder convocar um oficial da própria Brigada Ligeira Estelar para zelar por seu território e comandar cavaleiros de qualquer procedência.

— Você tem o perfil moral e ideológico perfeito para esse fim. E para se voltar contra a própria governadora se for preciso. Como falei, ela não é confiável.

Maya arregala os olhos, mas sorri internamente quando foi citado o avanço contra a corrupta. Essa foi a PRIMEIRA coisa que Maya pensou…

Íon: — Senhor, qual a natureza dos recursos dessa lua, dado o interesse? Radioativos? Voláteis? Cristais de energia? Ou seriam de memória?

Dom Rodrigo: — Isso é informação classificada. Mas nos leva ao motivo pelo qual estamos todos aqui.

Ele aperta um botão e uma imagem de robôs lanceiros cor-de-laranja, muito modificados, aparece em tela.

— Precisamos de alguém ético e que acredite firmemente mais nos princípios por trás do Império do que em suas leis como palavra fria.

Maya sorri meio encabulada e meio empolgada.

— Senhor, eu ia perguntar agora mesmo como podemos depor a governadora e quem vai substituí-la.

Issar: — Podemos primeiro saber dos crimes dela antes de partirmos para as vias justas, mas ilegais?

Dom Rodrigo: — Vocês terão seu tempo para isso, mas, no momento, temos urgência. Por isso procuramos um grupo funcional. Dois nobres com discrepâncias em seu clã, e um vem com um familiar a tiracolo. Porque nem em nossos sonhos mais inocentes poderíamos esperar um Chernobog que acredita em fazer o bem. Ainda sangrento como um Chernobog, mas do lado certo.

Maya: — Senhor, estou lisonjeada. É uma honra indescritível.

Os olhinhos marejam de novo. “Ouviu isso, Josué?” – Ela pensa – “Seu sacrifício não vai ter sido em vão…”

Dom Rodrigo: — Sendo um deles, um Ottokar privilegiado pelo destino, mas pedindo que ele o desafie para se sentir irmanado com o próprio povo.

Issar fica quieto. Apenas um meneio com sua cabeça.

Dom Rodrigo: — Ou um braço forte capaz de jogar sujo. Porque grupos de jovens idealistas tendem a esquecer da realidade.

As luzes dos olhos de Íon voltam a piscar no padrão de processamento. Uma especialista no seu ramo faria sentido para a missão, mas por que uma ginóide como ela? Especialmente uma ginóide de modelo novo como ela? Se há a possibilidade da governadora ser deposta, então Íon seria usada pela mídia oficial para diminuir a reticência contra sua espécie na Constelação?

Altaís está tendo seus miolos cozinhados por toda essa conversa — com fumacinha saindo das orelhas pra ilustrar. Literalmente.

— UuUUahhuahahuuu… — Ela geme em desfalecimento, como se estivesse derretendo, seu corpo ficando molenga e quase perdendo o equilíbrio.

Mas ela então sacode a cabeça que nem personagem de desenho animado — rapidamente se recuperando.

— Mas, Sinhôri, o que euzinha tenho a ver com isso tudo…? Eu tô perdididinha com essa história toda de honra e cometer crimes e sei lá, mas o que… Metade do meu software é de rotina de dança, sabia?

Ela faz olhos pidões ao comandante.

— Qual é a parte em que eu canto?

Dom Rodrigo: — Simples. Precisamos de um evento para justificar a qualificação de todos vocês. E o evento vem daqui a dois dias.

Maya sorri.

— Você quer arranjar um BO num evento social para poder introduzir a cantora e fazer ela e o Issar se provarem e justificarem os títulos de cavaleiros. Gostei do plano.

Altaís: — QUE!? EVENTO!? De novo n- pera, hm, talvez isso seja legal.

Ela faz uma pose pra pensar, se recuperando do trauma recente de ser empurrada pra aparições públicas diárias.

— Ei! Peraê! Mas e-e-e eu tenho um problemina, senhor governamental, eu… Hmmmm… Tô meio, uh, tipo assim… fugitiva.

Altaís explica tocando as pontas dos dedos indicadores repetidas vezes.

Dom Rodrigo: — Não tem problema. Você tem tantas partes ciborgues que podemos trocá-las sem que ninguém note a menor semelhança. Qual o seu nome, senhorita…?

Altaís: — XERONICA — Ah, pera nome, assim, de verdade verdadeira? Era, uh, Altaís Ávila… Mas acho que talvez eu esteja desaparecida há uns dois anos… Vish, será que já me deram como morta? Ou talvez tenham inventado uma história? Ih, sei lá.

Dom Rodrigo: — Podemos trabalhar nisso. Mas XERÔNICA NÃO.

Altaís: — SUSPIRO AUDÍVEL! Por que nãooooo? É tão foooooofo! E não é só Xeronica! É Xeronica FRUFRU!

Dom Rodrigo: — Convenhamos, seus perseguidores a conhecem bem. Se aparecer uma criatura com um nome desses na mídia, eles vão entender que só pode ser você. É isso o que você realmente quer?

Arcturus: — Embora seja um nome razoavelmente tradicional, creio que soa estranho e impopular entre os povos de fora da matriz cultural-linguística de Arkady.

Altaís derrete de novo, dessa vez em cima da mesa.

— Auuuuu~ Que maldade…

Uma lâmpada — projetada por um projetor no topo da coluna da Altaís — ascende em cima da cabeça dela. Uma nova ideia vindo à tona.

— Eureka! Isso quer dizer que é hora de eu criar uma nova persona! — Ela se levanta teatralmente com um sorriso. — Vejamos, deixa eu ver… Hm…… Algo mais sério… Sim… E ELEGANTE…

Dom Rodrigo: — Você vai se chamar… — ele para para pensar e levanta o queixo com o dedo… — Anzili Simnala!

Altaís olha pra ele com profundo desgosto teatral.

— QUE!? Nem morta! Eu não fugi de uma agência pra ser bonequinha de outra! Quem decide meu nome sou eu! — Ela diz, ultrajada.

Dom Rodrigo: — Se você decidir seu nome, vai ser localizada por seus perseguidores.

Altaís: — Se eu não decidir meu nome, já terei sido morta em espírito por eles.

Ela diz completamente séria, por um momento, uma fagulha de sagacidade e orgulho próprio entranhado e recuperado do fundo da sua alma — ela acredita em cada palavra.

Issar: — Ela tem razão. Um nome é a representação da alma daquele que o empunha. Ela não pode ter aquilo que é escolhido por outras pessoas… e seus perseguidores não vão saber o nome novo, não faz muita diferença, é só ela não ser óbvia!

Altaís puxa algo da bolsa e joga sobre a mesa, seus olhos ainda flamejando com ousadia — é uma identidade, de uma menina de mesmo nome, a última data de uso no registro sendo de quando ela ainda era pré-adolescente. Sua aparência é irreconhecível, nem o sorriso nem os olhos são os mesmos. Não há muito de semelhante entre a menina da foto e a ciborgue em frente do grupo — e isso diz muito.

Dom Rodrigo: — Qual seu nome verdadeiro?

Altaís: — Altaís Ávila.

Ela diz, ainda séria.

Dom Rodrigo: — Você tem um nome bonito desses e quer se chamar Xerônica Frufru?

Andrei: — Deixa ela escolher… Somos livres para fazer nossas escolhas, Senhorita FRUFRU.

Uma lágrima escorre pelo rosto de Altaís.

— Porque essa escolha ainda é minha… E eu faço o melhor que eu posso com ela.

Dom Rodrigo: — Como você quer se chamar?

Issar: — Como nobre responsável por esse grupo, eu apoio a decisão dela, qualquer que seja.

Andrei toma seu cafezinho enquanto sorri com a tomada de frente de seu rival.

— O novo patriarca decidiu.

Maya: — Eu não queria me envolver. Mas a… moça tem o direito de se nomear. Ela já perdeu muitas coisas e essa que vos fala também perdeu muito e tem um nome falso.

Altaís pensa sério por um momento.

— Eu acho que, por mim mesma, eu ainda sou Altaís… Mas pro palco, eu preciso de outros nomes… Como papéis, como uma atriz no palco. Um pra hoje, outro pra amanhã- E-eu sei que eu não sou a mais brilhante, eu sei disso, talvez os parafusos no cérebro tenham desparafusado alguma coisa… Mas eu quero ser eu, sabe? Eu não tenho muito, quer dizer, de mim mesma, ainda original. Isso é importante pra mim.

Ela limpa as lágrimas com o braço.

— Por hora… Que tal… Hm… Bi? Bi Onica? — Ela diz, pensativa.

Dom Rodrigo: — Bia Annika?

Íon: — Eu não tenho nenhuma objeção quanto a ela escolher o próprio nome. Talvez Bianca ou Verônica, se você aceita sugestões?

Andrei: — Bianca!

Issar: — Um belo nome. Olha, Bianca Annika… não é ruim. E é menos óbvio que Bi Ônica — Bi Ônica seria um farol para seus perseguidores encontrarem. E ainda manteria a ideia escolhida por você.

Altaís olha pro Issar com desconfiança, mas cora um pouco e vira o rosto pro outro lado.

— Tá, se é pelos meus fãs… Eu acho que eu posso aturar isso… — Ela diz de beicinho.

Andrei: — Bironica.

Altaís: — BIRONICA PARECE INCRÍVEL! — Ela diz entusiasmada. Mas vira pros outros, suspira e fala. — Bah, mas Bia Annika tá ok, eu acho, por ora… Humpf.

Maya coloca a mão no ombro da cantora, se compadecendo dela pela primeira vez.

— Você é Tarsiana, não é? O disfarce de voz é bom, mas seu sotaque e estilo entregam. Bianca é um nome que representa muito seu povo. — Ela sorri.

É sutil, mas ao toque de Maya a Altaís parece frágil, doída, feridas recentes na alma.

Altaís consente ao comentário de Maya com a cabeça e sussurra:

— Meu povo é a constelação…

O tom é genuíno, mas cansado. Tem um toque de amargor, sentimentos de traição.

Maya: — Seja Bianca por ora. Conecta-se e fortaleça-se ao lembrar de casa, do que deixou para trás; isso vai te guiar e te dar algum norte. Você já perdeu coisas demais, soldada.

Maya sorri ao ouvir isso. A garota tinha profundidade e a alma no lugar certo. Sabreana antes de Tarsiana.

Dom Rodrigo: — Estamos fechados então. Você ganhará uma nova aparência, novos passos de dança, algum ajuste vocal para a semelhança não ser tão óbvia… e capacidade de lutar e pilotar. Cantará no festival de recepção aos novos colonos de Tusitala em dois dias e no seu palco teremos um robô. — Ele conclui. — Sairá como uma heroína e catapultará sua popularidade. O bastante para qualificá-la ao seu novo papel. E em troca, conseguirá o que sempre quis. Ser uma estrela.

Andrei começa a mexer no seu palmtop de bolso, fazendo anotações de esquemas mecânicos complexos.

— Nossa estrela norte… Bianca.

Altaís recupera o fôlego, coloca a máscara, se prepara em espírito pro palco — sua performance, por mais que jovial, talvez meio tapada, se revela como é — um ato de resistência de espírito, uma canção de arte pras almas ao redor, um escape de uma realidade torta e ferida — e então ela sorri novamente, cheia de espírito, de volta ao papel.

— Sim, sinhori, positrôni! — Ela diz ao comandante, batendo continência.

Íon bate palmas para Bianca.

— Você já é a nossa estrela!

Maya: — E então, Bianca, pronta pra ser uma estrela para a Constelação? — Maya sorri e indaga animada e retórica.

Altaís põe as mãos na cintura, estufa o peito, cheia de orgulho, a cabeça alta e os olhos fechados, os lábios em um sorriso sem mostrar dentes.

— Hmph! — Ela concorda, orgulhosa.

Maya: — Senhor, creio que temos um time! — A voz de Maya é grossa, firme e gutural com um sorriso confiante.

Andrei começa a esboçar rapidamente um leve sorriso vendo os trejeitos de Bianca.

Issar: — Sim, temos um time e toda a glória e apoio para nossa estrela, mas… e o resto de nós? Não somos celebridades em ascensão, então a necessidade que nos chama envolvendo os robôs laranja e o show é…

Maya: — Senhor, voltando aos robôs laranjas… Eu já usei Refugos envenenados para resistir a forças maiores, conheço alguns truques que o inimigo possa estar empregando.

Íon: — Sim, os lanceiros laranjas. Modificações ilegais? Motores nucleares? Tecnologia experimental?

Dom Rodrigo: — Sim. Milícia não identificada. Nosso serviço de inteligência não tem nada muito profundo sobre eles, mas lanceiros modificados não costumam ser muito difíceis de se vencer. Podem ser piratas.

Arcturus: — Adotarem uma cor e modelo mais ou menos padronizados para suas unidades parece apontar para um esforço — ou pelo menos pretensão — de imitar unidades regulares. Ou pelo menos criar uma identidade comum para minimizar fogo amigo. Não é uma preocupação comum entre piratas em minha experiência.

Dom Rodrigo: — Provavelmente eles atacarão no dia do evento, esperando uma guarda baixa. Andrei aparecerá com seu urso como dois mecânicos de bastidores. Issar estará como mero público e irá buscar seu robô no hangar para enfrentá-los. Temos duas belas jovens brigadianas para chamar a atenção da mídia, estando uma já pré-indicada como primeira-cavaleiro. É só darem o melhor de si.

Ele se levanta, e sua voz ecoa pela sala com a autoridade de quem está acostumado a encerrar questões.

— Cavalheiros, vocês agora são um time.


FIM DA PRIMEIRA PARTE DO EPISÓDIO 1


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