Falando de Deep Space Nine, Parte I

Neste último dia 8 de Janeiro, se despediu da Netflix (como baixa óbvia da guerra da empresa contra a Paramount, detentora da franquia, pela aquisição da Warner Bros) aquela que considero de longe a melhor coisa feita na história da franquia Jornada nas Estrelas (Star Trek): a série Deep Space 9. Sim, já falei em outra ocasião que todo mundo tem a sua tripulação favorita e a minha é a tripulação clássica nos filmes para cinema. Ainda penso assim.

Porém, essa série tem uma diferença das suas irmãs de franquia: ao se estabelecer não em uma espaçonave, mas em uma estação espacial localizada em uma zona de tensão política fronteiriça, ela criou um contexto onde as coisas acontecem e tem consequências de longo prazo. Eventos que mexem com o futuro da Federação não acontecem com a Enterprise, e consequências se resumiam no ir e vir de interações com algum inimigo recorrente. Aqui, a coisa muda.

Na terceira e quarta temporadas já tivemos uma tentativa de golpe militar na Terra, o surgimento de terroristas dissidentes da própria frota estelar, o surgimento de uma ameaça alienígena inegociável, com direito a destruição de uma nave da federação, a definição do Domínio como ameaça, os Klingons tomando planetas dos Cardassianos e a descoberta de que o líder Klingon é (censurado)… não tem outra série trek que seja uma montanha-russa como essa.

E por isso quero convidar aos mestres e jogadores de Brigada Ligeira Estelar a olhar essa série, onde quer que ela se instale no futuro. Mas, primeiro, algum contexto: o planeta Bajor está devastado após se libertar do Império Cardassiano. A Federação, em missão de ajuda, assume a administração da estação espacial Deep Space Nine, orbitando Bajor. Ela fica na nova Área Desmilitarizada, uma zona tampão instável entre a Federação e os Cardassianos…

…e essa roubada sobrou para o comandante Benjamin Sisko, quando temos a virada: a descoberta de um buraco de minhoca estável para o longínquo Quadrante Gama transforma esse fim de mundo no ponto estratégico mais cobiçado e perigoso da galáxia. Só que, do outro lado, temos os tiranos expansionistas do Domínio, governados pelos misteriosos Fundadores. E pronto, podemos começar — mas não do começo: a série só fica boa a partir da terceira temporada…

…mas os sinais da subida de nível começam aqui. Aqui começa um questionamento da Federação: seus princípios morais realmente funcionam com problemas de verdade? Aqui, somos apresentados aos Maquis, uma organização terrorista composta por ex-oficiais da Frota Estelar, pertencentes a mundos da federação que acabaram sob controle Cardassiano após a paz feita com eles. Mundos habitados por humanos que agora se encontram oprimidos — e precisam reagir.

Esse é o tipo de aventura, com fundo de intriga política, que poderia acontecer na sua mesa de jogo em Brigada Ligeira Estelar. Os personagens são chamados por alguma figura antagônica de importância porque eles não tem realmente interesse no conflito direto com vocês, mas temos terroristas surgidos entre os seus protegidos. Ou seja, cabe aos protagonistas “limpar a própria casa”. No entanto, não haveria terrorismo aqui sem opressão. O que fazer?

Esse tríptico é importante para entender o que vem depois. Eu gosto dele pelo primeiro episódio ser uma aventura fechada, mas os dois seguintes o transformarão em campanha. No primeiro dele, temos um evento pacífico e inócuo que os coloca inusitadamente contra buchas de canhão do inimigo principal, os Jem’Hadar. O que parecia apenas um inimigo da vez se mostra uma ameaça horrível, onde vidas serão perdidas, e tudo com o mero objetivo de — A-HAM!

Os dois seguintes são importantes porque revelarão quem é o grande inimigo por trás do Domínio — mas, embora a metade inicial do primeiro “A Busca” seja lenta, é ótima como um exemplo de preparação, onde os personagens recebem os recursos para sua missão (a nave Defiant, que passará a fazer parte da série), são informados, tem seus momentos de caracterização antes da partida… e se depararão com um inimigo pior do que imaginam. Aí, virá a surpresa.

O episódio duplo que traz o klingon Worf (da então recém-concluída “A Nova Geração”) para a tripulação da DS9 e representa também uma mudança política de status no cenário. Sob o pretexto de defender a Federação, uma frota klingon chega a DS9. O Capitão Sisko descobre que o seu real objetivo é invadir Cardássia, alegando que um golpe civil foi orquestrado pelo Domínio. Sisko tenta impedir essa ação, alertando que isso romperá a aliança. E, claro…

…isso só pode dar errado. Ao proteger o Conselho Detapa cardassiano, Sisko e a tripulação de DS9 entram em confronto direto com os klingons. A estação repele um ataque massivo (ótimas batalhas espaciais!), forçando a retirada inimiga. Como consequência, o Império Klingon rompe a aliança com a Federação e permanece ocupando planetas do território cardassiano. É um exemplo espetacular de como uma aventura pode afetar a ambientação, em escala maior.

Em que pese a natureza positiva de uma organização ou dos princípios morais por trás dela, ela sempre será feita por homens que podem corrompê-los, seja por má-fé, seja por uma visão distorcida dos mesmos princípios. É o caso: após um ataque terrorista na Terra, atribuído aos metamorfos do Domínio, o Capitão Sisko é encarregado da segurança do planeta. A paranoia se instala, levando à lei marcial — e descobre-se que o verdadeiro perigo é interno.

Um Almirante da própria Federação orquestrou uma conspiração para simular uma invasão e executar um golpe de estado, com o objetivo de militarizá-la. Enquanto a tripulação da Defiant corre para levar a prova do complô à Terra, Sisko o confronta. Para os mestres de Brigada Ligeira Estelar, temos tudo aqui: planos intrincados, investigação, paranoia, ação, um esquadrão de elite de cadetes — e uma batalha espacial que só pode ser vencida… sem armas.

A DS9 é atacada por uma horda de Jem’Hadar, e dezenas de pessoas foram mortas. Só que este não é o aguardado início da guerra com o Domínio — é um grupo de Jem’Hadar renegados, saqueando tecnologia para ativar um portal com o qual eles possam conquistá-lo… e, depois do Domínio, o alvo certamente será a Federação. Isso exige uma aliança… incômoda entre os dois lados, em uma missão na nave Defiant. É um ótimo exemplo de aventura redonda e fechada.

Esse artigo ficou meio grande e por isso ele será dividido em duas partes. Escolhi estes episódios pensando em aventuras cuja estrutura poderia ser inspiradora em Brigada Ligeira Estelar (eu falei estrutura, vejam bem — são ambientações muito diferentes para uma adaptação ser suave). Temos espaço para o thriller político, investigação, cenas de ação e batalhas espaciais. Em todo caso, vamos continuar na próxima semana.

Até a próxima e divirtam-se.

Star Trek: Deep Space 9 pertence à Paramount Pictures Corporation;  Imagens para fins jornalísticos e divulgacionais, de acordo com as leis internacionais de Fair Use.

Brigada Ligeira Estelar ® Alexandre Ferreira Soares. Todos os direitos reservados.

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