Falando de Deep Space Nine, Parte II

Semana passada, eu iniciei — na esteira da remoção da série Deep Space Nine da Netflix — um pequeno apanhado de episódios interessantes da série. Mesmo com alienígenas e sem robôs gigantes, esta (que considero a melhor produção televisiva da franquia — sim, já falei isso antes e estou me repetindo), tem bastante em espírito para oferecer a mestres e jogadores de Brigada Ligeira Estelar. Conta ponto para isso a natureza proativa dos protagonistas.

Não entendam mal: eu até gosto da Nova Geração. Mas ela é muito menos aventuresca, muito mais cerebral… e sinto que DS9 recupera algo da natureza um tanto mais pulp do original, com ecos de faroeste espacial, com Sisko como o xerife do pedaço, batendo o punho na mesa quando é preciso, se embrenhando no perigo como costumava ser feito no tempo do Capitão Kirk. E em Brigada, esse espírito conta muito mais como referência. Pelo menos para mim conta.

Então, novamente, vamos trazer alguns episódios bacanas (prometo que não vai ter Parte III — fiquem tranquilos) que podem trazer inspiração para os Mestres de Jogo de Brigada Ligeira Estelar — e esse recorte é meu critério. Sei que estou pulando muita coisa boa (como o genial Pingos às Pencas — Trials and Tribble-ations, no original — da quinta temporada. Vejam mais tarde pela curtição!), mas enfim, vamos logo ao que funciona para nós. E há mais.

Alguns episódios precisam ser vistos em nome da cronologia dos eventos, mais especificamente os da Guerra Dominion. “Inquisição” (S06E18-19) é um episódio excelente e introduz a Seção 31 que se tornaria importante na franquia, mas não funciona tão bem como referência de jogo (diferente do episódio seguinte). Da mesma forma, não há como pular o último episódio da sexta temporada e os dois primeiros da sétima, caso contrário você vai ficar perdido…

…mas como a ideia é referência para os mestres e jogadores, estou procurando episódios interessantes e que privilegiem a ação em algum grau, sendo a intriga um motor para essa mesma ação. Eu tenho uma política quanto a Brigada Ligeira Estelar: os elementos de thriller político são importantes para a ambientação, mas ninguém quer perder tempo se esgueirando em corredores — não em um cenário de robôs gigantes. Dito isso, vamos ao que nos interessa.

Primeiro episódio da quinta temporada. O personagem Odo perde seus poderes mas descobre no processo que o chanceler Klingon, Gowron (que quebrou a aliança entre o Império Klingon e a Federação), é um metamorfo infiltrado. Resta aos personagens uma missão arriscada: se passar por Klingons e infiltrar-se em um evento para desmascará-lo. Curioso: minha mãe, ao me ver assistindo, pensou em “Os Três Mosqueteiros”… e não é que isso tem lá razão de ser?

É um episódio talhado para uma aventura na mesa de jogo: os personagens fazem uma descoberta sobre um adversário, percebem um inimigo bem pior por trás de tudo, montam um plano cebolinha com tudo pra dar errado, temos contratempos no processo e tudo explode em um duelo de espadas (entre Worf e Gowron), mais uma reviravolta dramática que altera o que pensamos da história. Poderia, sim, ser uma das aventuras do Capitão Kirk e companhia, e das boas!

Na verdade, esse episódio depende do anterior (“A Sombra do Purgatório”, que é meio chatinho) para ser entendido, sendo antes de tudo um pagamento à expectativa do espectador após muita preparação de terreno. Aqui vão os spoilers — e são imensos: parte dos personagens está aprisionada nas mãos do inimigo, substituídas na estação por metamorfos e, em uma virada de tapete total, os Cardassianos traem o acordo com a Federação e se juntam ao Domínio.

O que temos é um episódio de restabelecimentos de alianças, grandes eventos que redefinem tudo, declarações de guerra — e sua estrutura dramática se passa em dois eixos: o primeiro é o de parte dos personagens fazendo acordos e preparando suas forças para um ataque contra o qual podem não vencer, e outra parte cavando sua fuga da prisão, até mesmo para expor os infiltrados na estação. Um ótimo exemplo de como brincar com a tensão em uma aventura.

Espetacular sequência de sete episódios que mudam a série para sempre. As máscaras caem: a guerra da Federação e dos Klingons contra os invasores do Domínio, com os Cardassianos como linha de frente, finalmente começou de forma oficial. A Deep Space 9 é conquistada pelo inimigo, decisões difíceis são tomadas — e os mocinhos estão sendo derrotados violentamente. Mas um desafio foi deixado para o líder Cardassiano: Sisko vai voltar. E dará o troco.

Se não quiserem ver toda a lista de recomendações desses dois artigos, assistam pelo menos a esses sete. É claro, é um prazer imenso para quem acompanhou até agora ver tudo se encadear, tomar forma e fazer sentido (como o destino da nave obtida no segundo episódio da quinta temporada ou finalmente a explicação do porquê de Bajor não entrar na Federação até agora). Mas mesmo quem não assistiu vai apreciar essa consecução de missões e reviravoltas.

Logo após a porrada K. Dickiana de Inquisição (S6E18), o episódio seguinte também lida com o mesmo tema: é lícito sacrificar seus melhores princípios para garantir a sobrevivência desses mesmos princípios? Aqui, o Capitão Sisko praticamente quebra a quarta parede e se dirige ao espectador, de forma teatral, contando como jogou fora todos os seus princípios para poder garantir a salvação da Federação e dos Klingons, contra os invasores do Domínio.

Essa é uma referência interessante em termos de jogo porque, por trás dos dilemas morais, o esqueleto da história é o mesmo de um heist movie, onde temos um golpe a ser planejado, algo ilegal e proibido, cuja revelação seria um desastre, exigindo dos protagonistas proatividade em diversas perícias para fazer tudo a contento e, se não der… bom, virem-se. O episódio “Inter Arma Enim Silent Leges (S07E16) também vale a olhada e segue a mesma linha.

Somos o Esquadrão Vermelho e podemos fazer qualquer coisa!” Pense numa versão desconstrucionista do filme de Jornada nas Estrelas de 2009 (danem-se os puristas, gosto pra caramba dele e não o pus na filmografia do novo livro de Brigada Ligeira Estelar RPG sem motivo). Aqui, um bando de cadetes assume uma nave quando todos os seus superiores são mortos e, ousados, audazes e inconsequentes, decidem tomar as rédeas da situação. Mas dá tudo errado.

Nos termos de Brigada Ligeira Estelar, essa funciona muito bem como premissa para uma campanha de cadetes. É bom lembrar: o Esquadrão Vermelho de Jornada nas Estrelas é justamente isso, uma elite de cadetes que recebe vantagens, favores e até missões, sendo o alvo de inveja dos demais colegas — quantas vezes não vemos isso nos animes de Battle Academy Shōnen? Na prática é a premissa que move o subgênero. Apenas não sejam como estes aí, por favor.

A reta final da série (que conclui no 26*)! Primeiro, puxe o tapete do espectador: no episódio anterior a essa sequência, dois personagens caíram nas mãos inimigas e escapam delas com uma informação importante, só para descobrirem que… bom, nessas horas, jogue um twist que seja coerente mas que também bagunce o coreto em níveis impensáveis. Bem, tivemos isso aqui, e é a hora de amarrar todas as pontas restantes para nos levar a um desfecho épico!

A partir daqui recomendo que assistam tudo, tudo, TUDO mesmo. O mestre de jogo deveria ter tudo anotado desde o começo de sua campanha para surpreender seus jogadores, e aqui as coisas são muito bem amarradas, do papel da Seção 31 (que só foi introduzida na sexta temporada) até a batalha épica do final (com elementos fantásticos que são coerentes com a trama apresentada até agora). Não vou dar mais grandes comentários, apenas assistam, nada mais.

Muita coisa foi perdida mas, repetindo, este é apenas um recorte. Não é o mesmo que assistir uma série desde o começo (e convenhamos, tirante a série original, todas as séries modernas de Jornada nas Estrelas começaram com problemas e levaram tempo para se encontrarem). Devido à sua importância na cultura pop, não acho ruim levá-la como referência em algum grau —apesar da diferença de nossos robôs em guerras para o universo pacifista de Jornada.

Não à toa, optei por DS9, que deve reaparecer em algum outro streaming no futuro. É algo com o qual os personagens de Brigada Ligeira Estelar podem se identificar: ter altos padrões a proteger e agir movidos por uma causa digna em si, mas serem obrigados a lutar e fazer sacrifícios reais em nome do realmente importante. Ah, tem um RPG de Jornada nas Estrelas, publicada pela New Order no Brasil. Vale a olhada.

Vida longa e próspera — e divirtam-se.

* Na Netflix, e não sei se isso se aplica a sua presença em outros canais, o último episódio é apresentado como um capítulo duplo de uma hora e meia ao invés dos dois capítulos exibidos em sindicação (“O que deixamos para trás”, Parte I e Parte II). Por isso ele apareceu sendo o episódio 25.

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