K. Dickianamente

Já falei de ficção científica fora dos animes, por aqui, antes… tanto de autores como Isaac Asimov quanto de franquias como Star Trek e Star Wars. Mas acho interessante pensarmos um pouco em Philip K. Dick por um motivo simples: influência. Sua popularidade só iria disparar após sua morte: ele faleceu três meses antes do lançamento de Blade Runner: o Caçador de Andróides. E se disse encantado pelas partes exibidas à ele pelo diretor Ridley Scott.

Dick é simplesmente o autor de ficção científica mais adaptado para o cinema. Embora ele não se furtasse às ambientações clássicas do gênero — outros planetas, viagens espaciais, etc. — isso era o menos importante em seu trabalho. O fundamental aqui era a questão da identidade: quem somos… e se somos realmente quem pensamos ser. Não vou mergulhar em sua biografia mas, em todo caso, ele tinha problemas de verdade… e isso se refletia em suas obras.

Mas qual o motivo para falarmos de Dick? Sim, houve uma influência enorme de Blade Runner na animação japonesa dos anos 80 mas ela foi estética e essa fagocitose cultural já havia acontecido antes com Star Wars e 2001 em diferentes momentos. Alguns autores japoneses, porém, foram mais fundo nesses temas: pense nos longas de Mamoru Oshii (Ghost in the Shell, Sky Crawlers… e não custa lembrar do sensacional episódio 10 de Patlabor: The New Files*).

Só por curiosidade: o primeiro capítulo de Space Adventure Cobra, de Buichi Terasawa, plagiou
na cara dura o mesmo conto de K. Dick que inspiraria, anos depois, “O Vingador do Futuro”!

E quais são os temas de Dick? De acordo com ele, seus textos sempre remexem uma dessas duas questões ou ambas: “O que é a realidade?” e “O que é ser humano?”, usando recursos como viagens no tempo, viagens espaciais, realidades alternativas, psiônicos, mutantes ou andróides para discuti-las. Esses conceitos também costumam ser apresentados de forma cinematográfica — ele não foi tão adaptado à toa. No entanto, raramente essas adaptações são fiéis…

… e com bons motivos. Dick podia imprimir em seus contos elementos muito cinemáticos (e um grande senso de suspense) — mas também podia ser esquisito. No fim, Hollywood só toma de suas obras os conceitos gerais e torna o resto palatável para as multidões, com suas doses de acertos (Blade Runner, o Vingador do Futuro original, Minority Report), erros (o remake de Vingador do Futuro) e, eventualmente, desastres de automóvel com vítimas (O Vidente).

Tanto Psycho-Pass (acima) quanto o shōjo Himitsu são claramente calcados em
Minority Report, conto de Philip K. Dick adaptado por Steven Spielberg em 2002.

Sou o primeiro a admitir ser muito raso resumir Philip K. Dick a isso MAS — levando em conta as necessidades de uma campanha de Brigada Ligeira Estelar — elas são nosso melhor ponto de partida. De forma prática, fomos menos marcados pelas obras do autor e muito mais por suas adaptações. Foram estas a entrar em nosso imaginário. Por isso, é conveniente pensar Hollywoodianamente aqui… bem, vamos dar uma examinada nos seus elementos mais constantes?

WTF?: os personagens principais não tem como entender sua real situação — e, até a hora das explicações, tendem a ser perseguidos de todos os lados**.

Corporações: muito antes do Cyberpunk estabelecê-las como O bicho-papão, Dick já percebia seus tentáculos invadindo nossas vidas em várias obras suas.

Desconfie dos Superpoderes: enquanto vários autores veem poderes como alegoria para minorias perseguidas, Dick os via como o nosso futuro opressor***.

Andróides, Mutantes, Deuses extraplanares… não importa: K. Dick tinha certeza que, em uma
posição de poder, eles fatalmente se voltariam contra a humanidade por mera sobrevivência.

Poderes Mentais: precognição é um elemento muito comum em suas histórias — e quanto mais ele acerta o alvo, mais erramos ao interpretar esses acertos.

Isso é Real?: instrumentos indutores de percepção (realidades virtuais, drogas, equipamentos alteradores de memória) são bem frequentes em suas obras.

Gente comum, não elites: protagonistas Dickianos nunca pertencem aos andares de cima. Eles só querem tocar sua vida… e de repente se veem encrencados.

Em geral, as adaptações de Dick para outras mídias tendem a ser filtradas por algum ângulo compreensível — e não sem motivos: ele tinha problemas psicológicos sérios e, lá pelos anos setenta, isso se radicalizou. Para puxarmos esse espírito sem viajar na maionese, precisamos de um filtro e ele se chama Alfred Hitchcock: ele era um formalista e pouco se interessava realmente em roteiros, salvo como instrumento para eletrizar seus espectadores****.

Os filmes de Hitchcock eram meticulosamente planejados para prender o espectador.
E as adaptações de Philip K. Dick, em geral, se prestam muito a essa abordagem.

O universo de Hitchcock é composto de pessoas injustamente perseguidas, desconfiança geral, perigos constantes e um senso de desastre iminente. Isso é perfeito tanto para RPG quanto para os conceitos de K. Dick. Traga vilões corporativos, faça seus personagens desbaratarem conspirações e serem perseguidos por isso, puxe desconfianças sobre Espers ou Andro-Ginóides… Talvez tons Pós-Cyber sejam mais indicados para uma campanha assim na Constelação.

Talvez seja interessante falar sobre os personagens típicos de Dick. Eles são muito competentes, mas não são heróis. Frequentemente são pessoas comuns, com vidas comuns… e de repente elas são envolvidas pelas circunstâncias, por descobertas inacreditáveis, por algo cujo próprio conhecimento da existência põe seus pescoços em risco. Eles não são heróis de queixo quadrado, prontos para derrubar tudo a seu caminho. Na verdade, tudo joga contra eles.

Seu perfil não é o do piloto da máquina maneira destruidora de inimigos —
é o do cara a ser explodido. Ou seja, você tem mais a perder nisso tudo.

No entanto, elas tendem a evoluir em sua jornada — é isso ou morrer. Nos termos da Constelação do Sabre, talvez personagens com quatro pontos em 3D&T Alpha sejam o mais interessante. Seu piloto não é um ás: é só um piloto comum, cumpridor de ordens. Talvez nem seja um piloto e sim um oficial de suporte, um burocrata… nobres tem poder demais e alguém menos poderoso nessa estrutura é recomendado. No entanto, eles precisam cavar meios para se virar.

Recomendo focar em mundos com predisposições à elementos distópicos: Tarso é o exemplo mais óbvio — mas há outras opções: Winch (com sua guerra fria), Arkadi (já envereda um pouco nesse terreno — lembram da aventura A Face de Stéphanos, no antigo site da Jambô?), Uziel (com organizações criminosas instaladas dentro de seu governo), Alabarda (no mar de facções, qualquer ás na manga é vantagem)… no contexto de nosso cenário, faz muito mais sentido.

Tem um motivo realmente IMENSO para Megazone 23 estar aqui —
mas, se falarmos qual, daremos um tremendo spoiler sobre a obra.

Por fim acho importante pensar nas diferenças entre Brigada Ligeira Estelar e a obra de Dick. Há um choque legítimo: enquanto ele era desconstrutivo e paranóico, nosso cânone é reconstrutivo… MAS, a partir do momento no qual o jogador compra o livro, o cenário é seu. É interessante lembrarmos do Minority Report: a Nova Lei do Spielberg: se olharmos bem, o roteiro é construído em subtexto para reforçar a confiança na lei, na ordem e na autoridade.

Não há nada mais anti-dickiano… mas o filme é ruim?

Recomendo pensar no mais interessante para os seus jogadores. Eu já falei de Cyberpunk antes para o universo de Brigada Ligeira Estelar. Se a ideia é simplesmente sugar a estética, pense Bubblegum Crisis ou até Silent Mobius***** e estamos conversados. Mas inserir o elemento de paranóia e risco de um Dick pode ser uma abordagem enriquecedora para a mesa de jogo. O resto é com vocês.

Até a próxima.

Se Motoko troca de corpo periodicamente, ela ainda é a Motoko? Sim, não
poderíamos deixar uma citação obrigatória à Ghost in the Shell aqui.

* Sono wa na Amnesia (ou “O nome disso é Amnésia”) é uma paródia óbvia e ululante a todos os tropos clássicos associados à obra de Philip K. Dick, com direito a uma sequência estranhíssima de abertura. Todos os episódios dele para Patlabor: New Files, aliás (além do 10, o 6, o 8 e o 13) valem ouro. Oshii tem um timing espetacular para a comédia, e largou isso de mão em seus trabalhos autorais. Volte para a comédia por favor, Oshii!
** Momento Hitchcock (1): durante as filmagens de “Intriga Internacional”, James Stewart chegou para Hitchcock em determinado momento das filmagens e declarou: “Olha, estamos filmando, filmando, filmando e não estou entendendo nada dessa história”. Hitch devolveu na lata: “Tudo bem, o seu personagem também não está.”
*** Nas próprias palavras de K. Dick (sobre o seu conto “O Homem Dourado”): “Se introduzirmos um mutante para manter os humanos seguindo em frente, serão os mutantes, não nós, que herdarão a Terra (…). Se eles forem realmente superiores ao homo sapiens, nos vencerão em qualquer competição justa. Para sobreviver, temos que enfrentá-los desde o início.” O conto “O Fabricante de Gorros”, da coletânea Sonhos Elétricos, também expõe melhor essa visão.
**** Momento Hitchcock (2): no roteiro de Pacto Sinistro (Strangers on a Train), havia uma sequência na qual o protagonista entrava na casa discretamente, passava pela sala, subiria pela escada, entraria no corredor e encontraria alguém na casa. O problema: ao filmá-la, ela se tornaria muito longa e isso poderia ser o gancho para o espectador menos engajado sair para fumar um cigarro ou ir para o banheiro. Assim, mesmo não havendo nada nesse sentido no texto, Hitchcock colocou um cachorro ao pé da escada — dividindo a cena em duas com um pico de tensão. O protagonista segue, subitamente para, a música sobe, mostra-se o cachorro, ficamos tensos… e o cão, bobo, sai da escada e vai para outro canto da casa. Assim a cena reinicia, mais curta: ele sobe a escada e encontra alguém. O espectador não largou o filme e continua grudado com os olhos na tela. Hitchcock é uma aula até para mestres de jogo.
***** Silent Mobius é simplesmente a invasão de um elemento sobrenatural em um futuro cyberpunk. Se retirarmos esse fator, ele cai em todos os clichês do subgênero. Mas racionalizá-lo em termos de ficção científica pode ser mais interessante, por que não? Substitua os Lucifer Hawks por algo mais tecnológico, como monstros biomecânicos formados pela gosma cinzenta nanóide, insira-os em um ambiente mais cyber na Constelação do Sabre (como Metropolitana, em Tarso, ou a Zona Proibida de Viskey) e seja feliz. Ah, a propósito: o conto “Segunda Variedade”, de Dick (base do filme Screamers: Assassinos Cibernéticos), foi um dos primeiros a tratar dos aspectos auto-replicantes da Gosma Cinzenta.
PARA FINALIZAR: se vocês forem olhar algum conto em especial, recomendo O Pagamento, publicado pela Editora Aleph na coletânea Realidades Adaptadas. Não é mais tão fácil de achar, mas é o conto mais aventuresco ali — e daria uma grande aventura de RPG. Autofab, na coletânea Sonhos Elétricos (pela mesma editora) também é bastante interessante: os personagens tem a missão de fazer uma tecnologia descontrolada parar. O citado O Fabricante de Gorros também merece uma olhada atenta para quem desejar inserir uma conspiração de espers…

NO TOPO: Eve Tokimatsuri, a Idol de Megazone 23. Não vamos dizer o motivo, mas é extremamente on-topic.
DISCLAIMER: Imagens de Space Adventure Cobra, Blade Runner: Black Out 2022, Ghost in the Shell, Psycho-Pass e Alfred Hitchcock Presents para fins meramente ilustrativos. Todos os direitos pertencem aos seus respectivos proprietários.

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