Só para Compartilhar

Bom, sendo direto: hoje é aniversário deste que voz fala toda semana e eu gostaria de fazer algo diferente do usual, mas nada muito especial me veio à mente. Cheguei a escrever uma primeira versão do texto, falando de minhas influências, de como elas me acompanharam desde a infância, da revista ilustrada adaptando o primeiro filme de Guerra nas Estrelas (com fotografias) dada a mim por um primo (in memorian)… enfim, eu estaria entregando a idade.

E tenho certeza: vocês não querem ouvir isso, vamos ser sinceros. Até porque eu sempre procurei lembrar da contemporaneidade do gênero e de como até hoje ainda sai coisa boa no terreno dos robôs gigantes no Japão. Ainda assim, eu quero escrever algo diferente — mas do que eu iria falar? Se eu for pedir algo de aniversário para vocês, é isso: Joguem uma por mim. Reúnam amigos, façam um one-shot ou iniciem uma campanha e mandem uma foto pra cá, ok?

Dito isso eu não sei muito bem o que gostaria de partilhar com vocês hoje. Só sei isso: a palavra certa é partilhar. Então vou recomendar coisas bacanas ao alcance para vocês — foi o melhor que veio à minha mente. São coisas que, acredito, eu curtiria quando era um garoto de onze anos assistindo televisão no meu canto. E nem precisam pensar em “Ah, referências”. Pensem como minhas recomendações para o “Livro Perigoso para Garotos”* e divirtam-se.

Infelizmente a Crunchyroll daqui disponibilizou a série
com legendas em inglês. isso não se faz, gente.

GUNDAM ZZ: a Crunchyroll colocou sem alarde a terceira série Gundam clássica em sua grade — Gundam Double Zeta (ZZ para facilitar a vida). Ela representa uma guinada de tom e funciona como um terceiro ato… reconstrutivo para esse universo, com um bom humor insuspeito e a reinserção do protagonista esquentado, cheio de energia e determinado tão comum nas séries de super-robôs. Os fãs mais hardcore chiaram mas a franquia não sobreviveria sem ela**.

Muito de nossa percepção sóbria sobre o universo de Gundam vem da edição dos três longas para cinema da série original e do clima melancólico e trágico de sua predecessora, Zeta Gundam. Mas vista em retrospecto, ZZ é uma excelente série-pipoca feita para ver sentado no tapete e comendo biscoitos com guaraná. E convenhamos, na época de sua produção haviam boas séries assim (Xabungle é ótimo, gente***) mas, hoje em dia, isso é como água no deserto.

Cobra passa muito a vibração daqueles anos pós-Star Wars,
com alienígenas e uma estética bem…
setentista, não?

SPACE ADVENTURE COBRA: enquanto a Funimation não é absorvida de vez pela Crunchyroll (e um puxão de orelha nesta: a Funimation vem melhor recheada para quem curte ficção científica), eles disponibilizaram em sua grade esse clássico da virada dos anos 70 para os 80, baseado no mangá de Buichi Terasawa publicado em uma Shonen Jump bem diferente da atual. Com uma pegada bem da época, Cobra é o anime definitivo quando o assunto são piratas espaciais.

O primeiro capítulo chupa Philip K. Dick descaradamente e com a maior cara de pau****, mas imediatamente a série diz ao que veio: o personagem principal é um pirata espacial traído por uma guilda de piratas e, após um período desaparecido, com memórias e uma aparência diferentes, ele reúne velhos parceiros para dar o troco contra os responsáveis por seus problemas. A série fez um sucesso monstruoso em seu tempo***** e é divertidíssima ainda hoje.

Sim, essa segunda abertura é uma heresia — em certas
coisas não se mexe — mas eu entendo a razão dela.

YAMATO 2199 (vamos chamar logo de PATRULHA ESTELAR 2199, mesmo): ainda na Funimation. Muito se falou sobre esse remake da série clássica dos anos 70, exibida aqui no Brasil pela saudosa Rede Manchete, mas sinto que ela é muito mais falada do que vista por aqui… e sua primeira temporada, para mim, é o parâmetro do que espero de um bom remake para qualquer obra, mudando o que precisa ser mudado mas sendo reverente com o que traz brilho ao original.

A história, todo mundo já deveria estar a par: a Terra está à beira da destruição sob o bombardeio dos invasores alienígenas Garmillas (Gamilon, no ocidente) e no desespero, um velho navio é convertido em cruzador espacial com uma tripulação composta basicamente de novatos, mais alguns veteranos para segurar a peteca. Segue-se uma saga épica para salvar o planeta (e, pessoalmente, sempre achei apropriado batizar a nave de Argo****** no ocidente).

Sem as obrigações para agradar otaku de madrugada,
temos um Kawamori mostrando o seu melhor

LAST HOPE: essa série de 2018, presente com dublagem em português na Netflix, merecia um pouco mais de carinho dos espectadores. Eu a vejo como a quarta série Superdimensional*******, não-oficial e temporã, de Shōji Kawamori (criador de Macross) — e, por ser voltada ao público chinês (mesmo produzida no Japão), o autor não precisou fazer concessões ao fã hardcore nipônico: é uma excelente ficção científica com robôs de combate, no fim das contas.

A história só parece simples: o cientista co-responsável por um acidente causador de evoluções assustadoras na natureza (que destruíram a civilização como a conhecemos) volta com um robô capaz de proteger um dos últimos bastiões da humanidade, a cidade de Neo-Xianglong, das criaturas que a atacam constantemente. A primeira metade é mais focada em worldbuilding e construção de personagem, mas vale a pena ter paciência: a segunda metade é viciante.

Pergunta: porque vocês ainda não pararam
para assistir essa série até o fim?

SÉRIES: para quem gosta de séries espaciais, o cenário não está tão ruim… e decidi pôr minhas recomendações todas aqui uma vez para não deixar esse texto maior do que já está. The Expanse (Amazon Prime Video) já foi concluída, com seis temporadas, e vale a pena: começa como uma história de detetive em um ambiente espacial remetente à série Gundam******** e termina como uma mega-saga épica com direito à terraformação de um planeta em grande escala.

Star Trek: Strange New Worlds (Paramount Plus) tira um gosto ruim da boca quanto à condução da franquia e nos traz um retorno à fórmula clássica, de episódios fechados… mas com arcos maiores de fundo. Ele acompanha a Enterprise do Capitão Pike, antecessor de James T. Kirk, com um Spock ainda novato na tripulação, sem pisar na bola. E quem ainda não assistiu o Mandaloriano (Disney Plus), veja — eles ainda são o melhor produto recente de Star Wars.

Vou admitir: gostei à beça desse padrão de design
nos novos títulos da linha Star Wars por aqui.

QUADRINHOS DE STAR WARS: no tempo do onça, a Abril os publicava dentro do mix da revista Incrível Hulk (assim como enfiava as histórias de Indiana Jones no mix de Capitão América). Hoje um gibi não é mais essa coisa baratinha que você comprava ao sair da escola com o troco de seu lanche guardado por dois dias, infelizmente. Mas ainda há coisa boa nos materiais de linha — e das quatro séries de Star Wars sendo publicadas, a principal é bem bacana.

A história se passa logo ao final de O Império Contra-Ataca, com a rebelião em frangalhos. Todos os códigos de transmissão dos rebeldes foram postos à mostra e agora, qualquer contato pode denunciar os membros espalhados pela galáxia. Para piorar, não há muita confiança quanto à lealdade de seu novo membro, Lando Calrissian. Agora é preciso recuperar o terreno perdido mas tudo joga contra todos. Está na terceira edição — e vale aquela boa olhada.

Sim, coisa para ler de Asimov não
falta — o tempo é que são elas!

TRILOGIA DO IMPÉRIO GALÁCTICO: são obras do início da carreira de Isaac Asimov, de escrita simples (e algo empoeiradas hoje em dia) — mas ainda representam uma ótima porta de entrada para as aventuras de ficção científica espacial. Cada uma é fechada e todas são completamente independentes entre si mas guardam, como ponto em comum, o fato de serem ambientadas no Império Galáctico*********, cuja futura queda conheceremos na clássica série Fundação.

As Correntes do Espaço é sobre um homem desmemoriado prestes a lembrar-se de uma grande ameaça a ser enfrentada, forçando-o a sair da inércia e se rebelar. Poeira de Estrelas é uma história sobre conspiração e rebeldes espaciais contra um mundo opressor, com um jovem protagonista em busca de justiça. De Pedra no Céu, já falamos AQUI. Todos são fáceis de ler em uma tarde ociosa (como, aliás, boa parte da produção de ficção científica dessa época).

Aproveitando o gancho: Fundação, a série, é legal.
Só não é uma adaptação ortodoxa da obra.

PARA ENCERRAR: olhando bem, não tem tanta coisa atual nessa lista — e isso talvez reflita minha própria idade e formação. Mas este é um texto de aniversário e posso, pelo menos por hoje, me voltar ao que gostei e estou recomendando simplesmente por ter gostado. Eu quis muito sugerir mangás publicados por aqui, e falo realmente de coisas mais novas… mas, convenhamos, tem sido difícil encontrar boas space operas hoje em dia no meio, mesmo no Japão.

E sim, eu quis ao menos dessa vez evitar sugerir coisas não-oficializadas nem publicadas propriamente por aqui. Eu sei, não vamos ser hipócritas: muita coisa inédita no Brasil está ao alcance de um toque de tablet… mas, sendo muito pessoal, cresci com o cheiro da tinta de impressão de uma revista nova e não vou mais mudar.

De resto, semana que vem voltaremos à programação normal. Até a próxima — e divirtam-se, de verdade. Estamos todos precisando.

Não, esse não sou eu quando criança.
Eu não tinha tantas revistas assim!

* De Conn e Hal Iggulden. Basicamente um mega-almanacão de conhecimentos úteis e brincadeiras para crianças, falando inclusive de jogos de RPG (a melhor explicação sintética sobre o que eles são, eu vi nesse livro) e filmes. E eu preciso respeitar uma obra que recomenda, para moleques, Meu Ódio Será Tua Herança do Sam Peckimpah (embora eu tenha certeza que ele está falando da versão com cortes exibida por anos na televisão, até o lançamento da versão definitiva lançada em 1995, com o corte original do autor, e que mudou sua classificação indicativa: de R, no qual ele pode ser assistido por menores, ele passou para NC-17, nos Estados Unidos — qualquer produção não-pornô voltada para adultos. Sei porque eu também vi essa versão por algum tempo na vida).
** O Estúdio Sunrise não vinha gostando da condução madura que Yoshiyuki Tomino, criador de Gundam, dava para sua principal franquia, à época. Por isso, eles esperavam que após o verdadeiro massacre de Zeta Gundam, os espectadores estariam enfastiados de tantas sombras e desenvolveram, às costas do autor, uma franquia substituta: Metal Armor Dragonar. O plano da Sunrise era deixar ZZ fracassar naturalmente e entrar com a nova série logo a seguir na mesma grade. Provavelmente ciente disso, Tomino puxou o tapete de todo mundo, fazendo de Gundam Double Zeta uma série mais leve, engraçada e divertida. Assim, ZZ deu muito certo, e embora Dragonar tenha se dado bem, o conceito de um real robot mais pop e para cima não veio como uma novidade, solando os planos da Sunrise. Mas não deixem de ver Dragonar mesmo assim — é uma série muito legal, com um mix de ação e humor próximo aos filmes hollyoodianos da época (o diretor era assumidamente um fã dos filmes da Amblin produzidos por Spielberg) e realmente merece ser vista!
*** Eu já falei, meia dúzia de vezes, de Xabungle neste blog. Talvez a melhor série “leve” de Tomino, ela é um ótimo paradigma de campanhas de faroeste espacial com robôs gigantes em Brigada Ligeira Estelar.
**** Ele praticamente decalcou We Can Remember It for You Wholesale“, conto de Philip K. Dick que inspirou as duas versões de Total Recall (o Vingador do Futuro), doze anos antes da versão com Arnold Schwarznegger.
***** Cobra foi um hit japonês em sua época e um sucesso internacional, embora não tenha chegado por aqui (salvo por uma fracassada tentativa da editora Dealer em publicá-lo, com apenas uma edição). Na França, ele faz sucesso até hoje e rendeu inclusive um RPG local em 2013 — e ele chegou a ter um piloto rejeitado de animação estadunidense, mais próximo à animação que se fazia na época e misturando animação nova da TMS a pedaços reciclados do anime.
****** Da Mitologia Grega. Remete a um dos mitos fundacionais do ocidente — a busca pelo Velocino de Ouro. E a associação mítica e simbólica, apesar de incidental, vem bem a calhar nessa série.
******* Superdimensional era um bloco televisivo de animações produzidas inicialmente pela Tatsunoko e pelo Studio Nue de Shōji Kawamori. A primeira série foi vencedora: Superdimensional Fortress Macross. A segunda, Superdimensional Century Orguss, também fez bonito em seu tempo. Mas o dinheiro ganho pelo sucesso de Macross, em especial, os fez acreditar que poderiam dispensar a outra parte da parceria e produzir uma série sozinhos para o bloco, sem precisar dividir a grana com mais ninguém. Assim veio Suuperdimensional Cavalry Southern Cross — uma bomba tão grande que, quando de sua exibição nos Estados Unidos como parte da trinca de Robotech, os executivos japoneses elogiaram a pesada edição feita pelos estadunidenses. De acordo com aqueles executivos, a série havia se tornado assistível. Em todo caso, o fracasso de Southern Cross encerrou o bloco, unido pela temática do “dimensional”. E Last Hope soa como se o bloco tivesse sido estranhamente retomado após tanto tempo.
******** Muito já foi dito das semelhanças entre The Expanse e Gundam — faltando apenas os robôs gigantes na equação. Este artigo (em inglês), em especial, merece uma olhada.
********* O Império Galáctico de Asimov está espalhado pela Via Láctea e conta com quase 25 milhões de planetas colonizados exclusivamente por humanos. Por mais de doze milênios a sede da autoridade imperial esteve localizada em Trantor, uma ecumenópole (cidade que ocupa a superfície de um planeta inteiro) com cuja população de quarenta bilhões até sua queda. O vemos em dois momentos diferentes nas obras do autor, com sua queda em Fundação.

DISCLAIMER: Mobile Suit Gundam Double Zeta é propriedade de Sunrise, Inc.; Uchuu Senkan Yamato 2199 é propriedade de Yoshinobu Nishizaki/2014 Space Battleship Yamato 2199 Production Committee e 2012 Space Battleship Yamato 2199 Production Committee; Space Adventure Cobra é propriedade de Buichi Terasawa/A-Girl Rights e TMS Entertainment Co., Ltd.; Last Hope é propriedade intelectual de Shōji Kawamori, Satelight Inc. e Xiamen Skyloong Media; The Expanse é propriedade intelectual de Daniel Abraham e Ty Franck, via Alcon Entertainment LLC. e Amazon Studios; Star Wars é propriedade da The Walt Disney Company; e as obras de Isaac Asimov (1920-1992) estão sob controle da Asimov Holdings LLC.; Imagens e vídeos para fins jornalísticos e divulgacionais.

4 comentários

  1. Feliz Aniversário Atrasado Ale. Te admiro imensamente como escritor e ao seu trabalho também, ter um exemplo de autor tão perto de mim torna meus sonhos muito mais plausíveis e realizáveis 😀

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