Um dos motivos pelos quais os Cossacos não foram bem desenvolvidos até agora no cenário foi, bem, azar. Ainda na era da Brigada Ligeira Estelar Alpha, meu plano após os dois volumes de Belonave Supernova era um suplemento chamado Habitantes do Sabre, onde eu me afastaria um pouco dos aspectos de nobreza e militares para me focar nos povos da Constelação. E os Cossacos teriam um papel muito destacado aqui. Infelizmente, tudo correu de outra forma.
O que aconteceu foi simples. Surgiu o plano de um novo básico muito rapidamente, proposto pela editora. Mas o que veio a seguir foram anos de marchas e contramarchas, sistemas sendo feitos e desfeitos — e o único livro a sair acabou sendo, bem mais tarde, o “Arquivos do Sabre”, compilando materiais feitos para o antigo site da Jambô Editora. E isso foi uma boa pedida: eventualmente, esses materiais foram tirados do ar. A sua publicação os salvou.
Não vou reclamar. Foi um período de aprendizado. Só que, por conta de tudo isso, os Cossacos — pensados para ter sua importância dentro do cenário — acabaram se tornando quase invisíveis. Uma aventura pensada para vir dentro de um escudo do mestre que eu propus, e jamais foi publicada (mas pude mestrar em alguns eventos), daria muito destaque a eles e seria usada para se aprofundar no seu modo de vida e na sua dinâmica com o resto da constelação.

Arte de Ilya Repin. Brigada Ligeira Estelar também é cultura! 😀
O Habitantes do Sabre não se limitaria a eles, claro. Eu examinaria também outros povos mencionados ao longo dos anos no cenário, como os Ghaspvelm de Gessler, e outros grupos ainda não introduzidos mas já presentes em minha cabeça, como aqueles estabelecidos em mundos colônia ou luas terraformadas. Mas, vou admitir, a demora fez muita coisa que estava na minha cabeça mas não foi posta no papel ficar meio perdida. Muito será reconstruído do zero.
O caminho não está cem por cento livre ainda, claro. Ainda há muito a priorizar. Mas acho que os Cossacos merecem um pouco mais de atenção da minha parte, já que editorialmente vem sendo atropelados de todas as formas, e como a seção “Por Trás do Sabre” serve para destrinchar criativamente os elementos formativos do cenário… ei-los aqui. Não chega a ser o aprofundamento merecido e esperado para eles, mas espero ser este um bom ponto para começar.

em 2014, a serviço da Rússia (não com essas roupas, claro).
Referências Iniciais
Em primeiro lugar, é preciso dizer: os Cossacos não foram introduzidos tendo alguma influência dos animes e mangás em mente. Eles vieram da temática que serviu de cola para tudo. Eu tinha hussardos e tinha um corpo de brigada ligeira. Assim, a presença dos Cossacos me pareceu um desenvolvimento natural do conceito. E isso me levou naturalmente aos Cossacos históricos — que existem até hoje, aliás. Então o próximo passo foi dar uma estudada neles.
Em segundo lugar, seu nome (“Kazak”, no original), veio do turco e significa “Homem Livre”. Se algo define este povo, é sua autossuficiência. Apesar deles terem se dividido em várias hostes (esse conceito é importante) ao longo da Rússia e da Ucrânia, eles nunca se consideraram nem Russos, nem Ucranianos, nem nativos de qualquer outro país eslavo onde se instalassem — nem nunca tiveram grande fidelidade a esses países. Cossaco é cossaco e acabou.

de regimentos cossacos no Exército Vermelho. Essa foto é da Segunda Grande Guerra. PORÉM…
Mas isso nunca foi pensado em termos de nação. O que eles querem é proteger seu modo de vida: vivem em comunidades próprias (Sietch), treinam os filhos em combate desde a infância e têm suas próprias formas de organização — militar, inclusive. Fora da Sietch eles estão livres para se aliarem a quem quiserem, tanto que durante a Guerra Civil Russa (1918-1922), muitos cossacos se alistaram nos dois lados do conflito. Isso levou a arranjos curiosos.
O mais prático deles foi reconhecer suas diferentes hostes como partes das forças armadas de seu país e, por tabela, reconhecê-los meio como cidadãos. Em troca eles poderiam fazer tudo do seu jeito, preservar suas hierarquias militares próprias e continuar mantendo seu modo de vida sossegadamente, desde que na primeira crise eles se agregassem às forças de defesa. Por isso temos regimentos cossacos até hoje na Rússia, voltando após o fim da URSS.

lutou ao lado dos nazistas. Isso diz muito sobre sua não-homogeneidade.
Normalmente, a referência definitiva sobre cossacos na literatura é o romance Taras Bulba, de Nikolai Gogol. Ele já foi filmado algumas vezes, com maior ou menor fidelidade*, e até inspirou uma novela de TV Brasileira nos anos 60 (embora da forma mais insana e irreconhecível possível**). Mas é melhor encarar o livro: é curto e bom, embora ele tenha sido escrito em um contexto de Nacionalismo Romântico e a banda não tocasse exatamente dessa forma.
Ah, sim: embora os cossacos no cenário não sejam inspirados em animes, tente ver First Squad: A Hora da Verdade (2009) e me diga se aqueles jovens psíquicos do Exército Vermelho não parecem o esperado de um cossaco. Não é uma referência direta, até por não ser um anime de ficção científica (e na União Soviética, tentou-se varrer a cultura cossaca), mas o espírito — guerrilheiros romantizados, lealdades complicadas, mística militar — está todo lá.

Podia ter sido melhor, mas vale a pena conferir mesmo assim.
Cossacos em Jogo
Quando decidi encaixá-los em Brigada Ligeira Estelar, isso levou naturalmente à criação de um planeta eslavo — Arkady — mas depois pensei: por que me limitar a isso? Eles se instalam onde quiserem, essa é a verdade. Assim, eu decidi que teríamos duas hostes maiores deles, uma em Arkady e outra em Villaverde (que por ser muito intocado, é perfeito para eles e seu estilo de vida), podendo estar isoladamente em outros mundos. Mas isso é só o começo.
Os Cossacos na Constelação não possuem governo unificado. Cada stanitsa (assentamento cossaco) é autônoma, comandada por um Atamã eleito pelos veteranos. As hostes — grandes agrupamentos regionais — se reúnem em Conselhos apenas em tempos de guerra ou crise. Fora isso, cada cossaco vive de acordo com seu próprio código: honrar a palavra dada, proteger a Sietch, nunca trair um companheiro de armas…*** Em jogo, eles podem aparecer de várias formas:
- Batedores e Guias: Ninguém conhece melhor os setores menos cartografados da Constelação do que os cossacos. Contratar um deles como guia é um tanto caro, mas vale cada centavo — a Brigada se vale muito de batedores cossacos.
- Mercenários de Confiança Duvidosa: Eles cumprem contratos com afinco — mas, se o contrato ferir o tal “código cossaco” (honra, liberdade, não atacar civis desarmados***), podem, simplesmente, virar as costas no pior momento.
- Refugiados ou Despossuídos: Uma stanitsa foi destruída (por piratas, pelos proscritos ou por uma força inimiga). Os sobreviventes pedem abrigo — e em troca, oferecem serviço militar. Mas cuidado: eles não se curvam a nobres.
- Inimigos Honoráveis: Um atamã cossaco decidiu que os jogadores são alvos legítimos, não por maldade, mas por questão de honra (real ou imaginária). A melhor forma de resolver isso é um duelo de sabres — ou um favor à altura.

modo de vida. Não zombe disso ou você vai se arrepender!
É claro, protagonistas cossacos são perfeitamente viáveis. Eles estão no livro básico, não estão? Cossacos funcionam bem como mercenários, pilotos de robôs (tendo até seu modelo próprio, o Bogatir), atiradores de precisão em naves ou oficiais de choque em abordagens. A principal dificuldade é interpretar a desconfiança inata contra autoridades centralizadas — algo que pode gerar tanto conflitos internos divertidos quanto momentos de grande drama.
Mas a sua utilidade mais prática para inseri-lo em uma equipe é a de batedor, com certeza. Peguem o exemplo de qualquer batedor de cavalaria em um filme de faroeste: basta colocar nele um par de calças militares e pronto, já se sabe para quem ele trabalha e qual é sua função. Mas uma boa história justifica até mesmo um cossaco como hussardo — embora haja quem diga que um cossaco dentro da Brigada Ligeira Estelar é como um lobo dentro de um canil…

de um cossaco precisam ser duras na queda por definição!
Usando os Cossacos na Sua Mesa
- Refúgio em Zona de Guerra: Os jogadores precisam se ocultar numa stanitsa após uma missão fracassada. Os cossacos acolhem mas esperam algo em troca e podem exigir que os personagens lutem ao seu lado contra um inimigo comum.
- Caça ao Atamã Desonrado: Um líder cossaco rompeu o código, tornando-se um pirata. As hostes resolveriam isso sozinhas mas, por algum motivo, pedem ajuda para capturá-lo — ou executá-lo. O alvo alega ter sido traído primeiro.
- Provas de Iniciação: Para ganhar o respeito de uma hoste, os personagens precisam passar por rituais que envolvem combate, sobrevivência em espaço hostil — e, claro, uma boa bebedeira espacial (com teor alcoólico altíssimo).
- Guerra de Hostes: Duas hostes cossacas estão à beira do conflito armado. Os jogadores precisam mediar — descobrindo que o motivo da briga é uma relíquia ancestral, um segredo do Grande Vazio ou um mal-entendido sobre terras.
Assim como os asteroides piratas, os assentamentos cossacos funcionam como locais de passagem ou bases instáveis. Cossacos da mesma hoste costumam encontrar portas abertas por lá, mesmo sendo completos desconhecidos — mas não é a mesma coisa com quem não é cossaco. Eles raramente são aliados cem por cento confiáveis, mas também raramente são vilões puros. Os cossacos oferecem dilemas morais interessantes para campanhas militares ou de exploração.
Uma dica final para os mestres: cossacos não traem sem motivo. Ao contrário de piratas, criminosos e espiões, eles valorizam a palavra empenhada acima de quase tudo. Se um cossaco diz que vai protegê-lo, ele vai — mesmo que isso signifique enfrentar uma esquadra inimiga. Por outro lado, se você quebrar um juramento feito a um cossaco, a Constelação inteira pode não ser grande o suficiente para escondê-lo. Lembre disso.
Até a próxima e divirtam-se!
* A versão cinematográfica mais famosa é a de 1962, com Yul Brynner e Tony Curtis. Está longe de ser uma versão fiel e os cossacos parecem mais mongóis, mas tem ótimos momentos visuais.
** O Sheik de Agadir, de Glória Magadan (1966). Se a ideia fosse transplantar a história para outro cenário, beleza, isso poderia ser interessante. Mas aquilo não tinha absolutamente nada a ver com Taras Bulba, em níveis inacreditáveis! É só comparar as sinopses na Wikipedia, e acreditem, quanto mais informações vocês levantarem sobre a produção, mais vai se perguntar se a autora bebeu criança quando era álcool ou coisa que o valha.
*** Bom dizer que a versão dos Cossacos usada em Brigada é deliberadamente romantizada.
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