Resenhas – 16/09/21

Lembram do texto das duas postagens anteriores dessa seção, AQUI e AQUI (“falarei de filmes, livros, quadrinhos, RPGs, qualquer coisa potencialmente interessante como referência para os jogadores de Brigada Ligeira Estelar… preferencialmente ao alcance legal, é claro”)? Bom, é hora de puxar novamente o vidro de emergência e mandar ver mais uma vez. Sempre avisei a todos: essa coluna é esporádica e vai depender do material à disposição no momento.

O problema geral é simples: além de eu precisar produzir e fazer outras coisas (embora eu constantemente leia material novo), procuro escolher conteúdo ao alcance legal, mesmo sendo importado via Amazon. E, pelo menos em termos de animação, temos muito conteúdo ao alcance hoje em dia, em vários canais de streaming. Ninguém precisa apelar para um torrent com legendas em inglês (ou esperar, de alguma alma, o trabalho de legendar tudo em português).

Bom, pelo menos não em tudo. Mas como eu decidi não falar, digamos, daquele anime sci-fi com robôs gigantes de 1985 até ele ser eventualmente lançado por aqui (e essa possibilidade é bem remota), as opções à disposição são um tanto restritas. Mas isso não significa ausência completa de material. Assim, é melhor parar com esse interminável nariz-de-cera e ir logo ao assunto principal. E antes de ouvir reclamações — SIM, teremos mais Robotech aqui!

Parecem os mesmos, apenas numa estética diferente, mas as mudanças
vão além disso. Bem vindos ao novo mundo de Robotech.

Robotech, de Wood, Furman e Turini

SINOPSE: em um ano não identificado, a nave SDF-1 caiu no Planeta Terra, na ilha do Pacífico Sul conhecida como Macross. Ao longo de uma década, uma cidade foi construída ao seu redor, atraindo pessoas de todas as partes do mundo. A partir daí, uma história clássica é recontada mas… ei, esse personagem morre? Ei, esse personagem vive? Viagens no tempo? Clones? Minmay agora é o quê? Definitivamente, esse não é o Macross/Robotech da década de 1980!

COMENTÁRIOS: A proposta aqui é reinventar a franquia — de forma falsamente pontual, no começo, até mostrar suas verdadeiras garras com a inesperada morte de um personagem-chave. A partir daí tudo se torna bem diferente, ancorado no agora coeso cânone forjado pela união original de três séries diferentes* (mais os romances de Jack McKinney**) e estabelecendo personalidade própria para o cenário. É o tão necessário reboot para Robotech, finalmente!

A ruptura com a estética mangá causa estranhamento mas foi
crucial para estabelecer uma identidade própria ao material.

VALE A PENA? Vale, mas com uma ressalva: Brian Wood é um chato de galochas e o material só alcançou seu potencial real quando o trocaram pelo veterano Simon Furman (dos quadrinhos de Transformers). Talvez tivesse sido melhor romper com tudo desde o princípio e efetuar modificações mais claras ainda nos personagens, visualmente inclusive. Teria sido bom para todos. Graças a essa escolha cautelosa, é preciso alguma paciência até o material engatar.

COMO REFERÊNCIA: é uma boa fonte de ideias, até na sua subversão do original — mesmo não tendo ainda sinais claros de alienígenas, o universo de Brigada Ligeira Estelar pode absorver facilmente boa parte dos conceitos apresentados aqui. Estou evitando spoilers sobre o conteúdo em si: embora ele seja acessível a quem chega agora, muito da graça desse material repousa na surpresa para quem conhece os personagens de antemão, não importando a versão.

Primeiro livro de Isaac Asimov, parte integrante do
arcabouço que levaria à série de livros Fundação.

A Pedra no Céu, por Isaac Asimov

SINOPSE: Um idoso alfaiate aposentado sofre um acidente em um laboratório e é catapultado para um futuro distante, quando nosso planeta se tornou uma massa radioativa enfronhada nos cafundós mais distantes de um monstruoso Império Galáctico. Um tratamento para equalizar suas capacidades com as de um contemporâneo desperta nele poderes psíquicos — e ele os usará para impedir terroristas fanáticos religiosos de usar um super-vírus contra o Império.

COMENTÁRIOS: Primeiríssimo romance de Isaac Asimov***, publicado anteriormente no Brasil como “824, Era Galáctica” e algo em mim prefere esse nome apesar da edição da Editora Aleph ser bem superior. É a obra de um iniciante mas ainda assim já traz as principais características do autor — a narrativa objetiva, o foco nos eventos, a preferência por resoluções menos físicas — embora, pensando bem, ele apenas induza o trabalho bruto a outro no final.

Quarta capa da atual edição da editora Aleph.
Gostei do espírito retrô aqui.

VALE A PENA? Parte da Trilogia do Império Galáctico ao lado de As Correntes do Espaço e Poeira de Estrelas, este — como todo bom Asimov — é um… produto bem-amarrado: propõe-se a contar uma história simples e eficiente, foca-se nela e a entrega sem desvios de rota, podendo ser lida em umas poucas horas ociosas naquele fim de semana tedioso. A datação pode pesar um pouco, é verdade — mas, ainda assim, este é um bom ponto de partida para a sua obra.

COMO REFERÊNCIA: É um bom modelo de aventura fechada para seu fim de semana: os personagens chegam a um lugar afastado (pode ser uma lua terraformada ou uma antiga colônia espacial no limiar da zona habitável de um sistema solar), descobrem uma seita religiosa de terroristas com uma arma biológica, são desacreditados por algum motivo e precisam resolver tudo por conta própria — e de quebra temos um bom uso de personagens com poderes mentais aqui.

O Eureka Seven Hi-Evolution 1 e o Eureka Seven: Durmam Bem, Jovens Amantes
estão nas plataformas digitais — mas, convenhamos, a série de televisão era melhor.

Eureka Seven Hi-Evolution 1, por Kyōda e Shimizu

SINOPSE: a humanidade está sendo atacada por um inimigo não-explicado e o custo para se removê-lo da face da Terra foi apocalíptico — sobrevivemos mas o planeta ficou em escombros. Dez anos mais tarde, sem muita relação com essa trama, o adolescente Renton Thurston conta como foi o seu período de adoção por um casal de transportadores após romper com uma tal Gekko, também não-explicada. E, sem ver a série de TV, você vai continuar sem explicação.

COMENTÁRIOS: A primeira meia-hora, contando como o mundo ficou daquele jeito, é sensacional e merece ser assistida. O problema vem a seguir: entramos in medias res, recontando um recorte de tempo da obra original (episódios 20 a 24) via flashbacks não lineares, sem preocupação de explicar seu contexto original ou apresentar personagens. Isso faz do filme não só incompreensível para quem chega como é totalmente supérfluo para quem conhece a série.

O que vale a pena aqui: os primeiros vinte e sete minutos do longa, contando
como o mundo foi virado do avesso pelo pai do protagonista.

VALE A PENA? Sinceramente acho melhor procurar pelo longa Eureka Seven: Durmam Bem, Jovens Amantes — que não tem versão dublada até o momento em que escrevo mas pode ser assistido oficialmente em canais digitais como o Telecine Play. Ele não tem a mesma beleza plástica e é uma reinvenção muito radical da série original**** mas é auto-conclusivo, independente e plenamente compreensível para desavisados. Não dá para dizer o mesmo do Hi-Evolution.

COMO REFERÊNCIA: a primeira parte serve aos mestres interessados em ameaças apocalípticas no cenário. Porém, depois disso, nem mesmo as batalhas entre robôs são destaque (até porque boa parte da animação é refeitura da série). Interrompa aos 27:12 minutos e vá até o “Durmam Bem, Jovens Amantes”: seu conteúdo pode até ser uma boa referência para mundos biopunk como Moretz, na Constelação do Sabre. Quanto ao Hi-Evolution 1… nem para isso ele serve.

Peguei uma onda maneira,
Dei cutback, hang-five, hang-ten…

* Robotech nasceu da fusão entre as séries Macross, Southern Cross e Mospeada. O início foi frankensteiniano, mas com romances, quadrinhos e animações posteriores (como o abortado Robotech II, desenvolvido em livros e quadrinhos, e o longa Shadow Chronicles), esse universo aos poucos ganhou um perfil próprio — se o Macross original evoluiu para uma space opera de tons otimistas e conciliatórios, a mistura dos elementos em Robotech criou um universo de ficção científica mais militar e até sombrio em subtexto por trás da superfície pop e tramas românticas (podem reparar: a cada fase, a humanidade está cada vez mais para baixo até conseguir vencer finalmente — e alguns personagens até morrem nesses momentos, enquanto no original elas sobreviviam).
** Pseudônimo conjunto da dupla formada pelos autores Brian Daley e James Luceno (deste vimos alguns romances de Star Wars publicados pela editora Aleph — e roteiros para a saudosa série animada Galaxy Rangers).
*** Pode haver um pouco de confusão quanto a isso porque o “Pedra no Céu” foi o terceiro livro dessa trilogia, mas cada volume é independente dos demais, tendo apenas um pouco de contexto em comum. A ordem cronológica interna e a ordem de publicação desses livros não é a mesma.
**** Comparativamente, é o mesmo que aconteceu em Macross (com DYRL) e Visions of Escaflowne (com Escaflowne, the Movie). Não são longas-resumo nem continuações ou prelúdios, são obras totalmente independentes em todos os aspectos.

NO TOPO: Renton Thurston, o protagonista de Eureka Seven.
DISCLAIMER: Robotech é propriedade da Harmony Gold USA, Inc. Eureka Seven é propriedade de Bones, Inc.; A Pedra no Céu (Pebble in the Sky) é propriedade do espólio de Isaac Asimov. Todos os direitos reservados. Imagens para fins de resenha jornalística.

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