De novo — esta é uma série de artigos dedicados a cada um dos vinte perfis de personagem do futuro livro básico de Brigada Ligeira Estelar (AQUI). Os doze primeiros artigos cobriram os perfis ligados ao Ponto, ao Contraponto e ao Músculo. Falamos dos perfis ligados ao Cérebro, cujo trunfo é usar a cabeça para resolver problemas, com o Técnico e o Conhecedor. Chegou a hora de falar do Científico — sempre com uma solução milagrosa vinda da ciência.
Aí vem a pergunta óbvia: o científico não seria apenas um conhecedor e esta categoria não seria redundante? Na verdade, ele é separado do conhecedor por características muito próprias. Enquanto este domina um campo de conhecimento à perfeição e faz dele útil em situações de crise, o Científico parece não ter limites quanto a campos de atuação. Se o assunto for ciência e tecnologia, ele é um verdadeiro compêndio ambulante… e faz milagres com isso.
Em termos de RPG, ele é aquele com a vantagem Science! para o suplemento GURPS Atomic Horror. São aqueles gênios dos filmes de ficção científica dos anos 50 capazes de falar de biologia, estrutura atômica, radiação, viagem no tempo, o diacho, e prontos para desenvolver uma mega-arma gigante pronta para deter a grande ameaça contra a humanidade… ou criá-la, caso sua soberba fale mais alto e ele cometa um erro. Definitivamente, algo pouco realista.

mas implementar soluções dá trabalho para caramba.
Por isso, eles são costumeiramente pouco presentes nos animes de real robot. No geral, todos estes têm um mínimo de pretensão de verossimilhança em algum grau — e, por isso, o científico é bem mais fácil de ser encontrado nas séries de super robôs e no período de transição entre as duas vertentes, no começo dos anos 80. Mas como “realismo” é algo muito, muito flexível por aqui, vamos dar uma olhadela em alguns exemplos à mão nos animes do gênero.
Desty Nova (Battle Angel Alita): um vilão, para variar. Domina da cibernética à engenharia genética para realizar seus planos e ferrar a protagonista!
Leeron Littner (Gurren Lagann): além de criar anexos para robôs, ele subiu a humanidade de nível tecnológico*. Não se faz isso sendo só um conhecedor!
Louie Nichols (Robotech): um Conhecedor na fase Southern Cross (Robotech Masters), é praticamente “promovido” a Científico no longa Shadow Chronicles.
Nils Nielsen (Gundam Build Fighters): É, apelei. Mas ele tem três doutorados científicos — a desculpa manjada para gente assim dominar tantas áreas…
Ritsuko Akagi (Neon Genesis Evangelion): multidisciplinar ao extremo — podem reparar, ela domina biologia, engenharia, computação, física, medicina…**
Cada um desses personagens segundo o TV Tropes é “um cientista conhecedor de todas as formas de ciência exigidas pela trama.” Está aí o científico***.
Só essa definição já entrega: é um conceito construído para fins dramáticos. Ele não está ali realmente para ser verossímil — está ali para ajudar a história a andar, sem precisar multiplicar o elenco nem criar cenas de encaixe para cada personagem especializado extra. Outro detalhe a se pontuar é que todos os personagens aqui são coadjuvantes ou antagonistas. É possível, mas muito difícil, encontrar um personagem assim em meio a um time de ação.
Isso ocorre muito por conta de suas… funções narrativas: um técnico pode criar uma arma especializada capaz de derrotar um inimigo aparentemente invencível, um conhecedor na área de software pode desenvolver um vírus para infiltrá-lo — mas só o científico é capaz de entender a ciência absurda por conta de uma tecnologia alienígena e desenvolver uma contramedida (cheia de technobabble) para destruí-lo, mesmo se esses dois a viabilizarem. Funciona.
Talvez não haja lugar para ele nas campanhas de tom árido. Afinal, repetindo, sua capacidade de entender qualquer campo da ciência ao seu alcance é só conveniência dramática e isso fere a proposta mais sóbria do conceito. Mas do aventuresco para cima, tá valendo: pode ser o professor, o oficial de ciências da nave (cabendo a vocês realizarem seus planos no campo de batalha) …e fica a pergunta — há como fazer desse personagem um dos protagonistas?

enfiar inúmeros diplomas no currículo do personagem…
Há. O mais complicado é explicar por que ele estaria ao lado dos demais, pilotando um robô e arriscando a própria vida (seu cérebro é um ativo precioso!), ao invés de estar em uma base militar ou nave capitânia buscando soluções (sua função primordial no time). Mas uma boa história de origem resolve tudo: ele pode ter sido obrigado a se alistar como piloto por força das circunstâncias, por exemplo, mas seu lugar ideal não é este e ele sabe disso.
Por outro lado, um protagonista assim pode galgar muitas posições interessantes no futuro graças a sua capacidade de… trazer soluções. Afinal, um personagem capaz de salvar a vida de todos por saber a diferença entre uma begônia e uma catléia, ou poder digitar o valor de Pi na íntegra em meio a um combate (conhecimentos específicos demais, mas perfeitos na hora certa, sabe-se lá como) merece um mínimo de atenção séria.
Até a próxima e divirtam-se.
* Isso é implicado ao invés de explicitado, mas ocorre por conveniência dramática. Gurren Lagann é um passeio metalinguístico pela história do gênero mecha dividido em quatro atos bem claros: a era dos super-robôs, a era de transição entre o “super” e o “real” robot (quando o Gurren Lagann não está mais sozinho e começamos a ter personagens menos heróicos e com mais dramas a superar), o domínio do real robot e de uma ficção científica mais pé-no-chão — mas também com muita política e tons de cinza — e, por fim, o retorno aos elementos de horror cósmico prenunciados por Getter Robo e encampado por Evangelion e seus descendentes conceituais. Para não me desviar do assunto mais do que já desviei (eu acabo de cortar um bocado de texto sobre isso), basta dizer que a evolução tecnológica humana em tão pouco tempo é necessária para trabalhar esses meta-temas em uma trama maior e o personagem do Leeron Littner acaba sendo uma conveniência ambulante para justificar isso dentro dessa narrativa.
** … e mais de uma vez salvou a pele de todo mundo graças a esse conhecimento dramaticamente conveniente. Basta lembrar de quando um anjo invadiu a base como uma espécie de vírus de computador.
*** No original, “A scientist who is knowledgeable in every form of science that the plot requires”. Isso já entrega sua natureza amigável à ficção e ao facilitamento da mobilidade da trama. Não há nada a ver com a realidade aqui, e tudo bem com isso!
COMENTÁRIO EXTRA: O leitor Mathias, no servidor do Discord de Brigada Ligeira Estelar, fez o favor de me lembrar disso — eu havia esquecido completamente. É uma boa opção para fazer de um científico parte de um time de ação.
https://brigadaligeiraestelar.com/2021/06/17/os-configuradores/
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Como se representa o conceito do Científico em termos de ficha? Afinal, ele têm de ser exagerado.
Ele é o gênio sabe-tudo. Logo, não precisa de especialidades.