O Forte Apache

Um dos meus quadrinhos favoritos de todos os tempos é Tenente Blueberry, de Jean Michel Charlier e Gir (pseudônimo do artista Jean Giraud para trabalhos artisticamente mais clássicos; ele seria mundialmente conhecido pelo seu outro pseudônimo, Moebius, para suas ficções científicas avant-garde) — mais especificamente a primeira fase da série, inicialmente batizada de “Forte Navajo” — antes do protagonista se mostrar superior ao conceito original.

Nessa etapa inicial da série, acompanhamos o tenente de cavalaria Mike Steve Donovan “Blueberry”*, enfronhado no local-título original da obra em algum ponto do deserto, tentando impedir brancos e indígenas de se matarem entre si (seu partido é o dos nativos, mas há gente ruim em ambos os lados). Ao invés de bater de frente com seus superiores, ele prefere induzi-los a lhe dar as ordens mais convenientes para suas ações e vai cumpri-las, é claro.

Eventualmente a abordagem do material mudaria: Blueberry sairia do exército, a série perderia o “Tenente” do nome e viraria apenas “Blueberry”) e o personagem se tornaria uma mini-franquia por si só, focando em diferentes fases da sua vida**. Mas por que estou mencionando um quadrinho francês de faroeste dos anos 60? Porque essa fase inicial da série tem uma estrutura muito conveniente para campanhas de Brigada Ligeira Estelar: a de Forte Apache.

O Macross original é um grande exemplo de forte apache como conceito, com um
toque de caravana (porque a cidade está em jornada por um território hostil)

O conceito é simples: estamos em uma zona de risco no meio do nada e os personagens estão em um posto avançado a ser defendido. O lugar pode estar próximo a uma cidadezinha protegida pelas forças estacionadas (ou até mesmo tê-la dentro de si, abordagem comum em sci-fi) mas o posto pode ser atacado a qualquer momento, exigindo prontidão constante e missões externas para evitar ataques maiores, trazer forças de apoio — ou repor suprimentos e armas.

Esse recurso é conveniente por trazer razões de ser para os personagens: eles estão lá para cumprir uma função (proteger o local de invasores), ter uma base de operações, receber missões relacionadas com o lugar ou não***, ter um ponto de retorno e repouso, proteger a segurança da cidade mais próxima caso haja chance de invasão… e ao mesmo tempo, serve como um ponto de partida para socializar os personagens. Há gente no forte e na cidade, afinal.

A Tokyo-3 de Neon Genesis Evangelion é outro excelente exemplo de Forte Apache:
Uma base que se fecha, protege uma cidade (interna, aqui) e é atacada sempre.

Uma série animada com características tanto de caravana quanto de forte apache é o clássico Macross original. Os personagens precisam cruzar territórios hostis, sendo atacados de todos os lados até chegar a seu destino. No entanto, eles abrigam uma cidade repleta de pessoas comuns dentro de sua nave gigante, tratada aqui não como um veículo mas como uma… fortaleza móvel. Não por acaso, o nome original da série é Superdimensional FORTRESS Macross.

A analogia com o faroeste não finda aqui se pensarmos na vertente mais clássica — a de autores como John Ford****. Ele lidava menos com histórias de pistoleiros e vinganças e mais com épicos fundacionais sobre seu país adotivo*****. A vida da comunidade era tão importante para seus filmes quanto suas tramas e por isso sempre vemos esses pequenos marcos regulares da vida local — casamentos, batizados, festas e funerais. Eles estreitam laços******.

Matilda e Woody em Mobile Suit Gundam. De certa forma, o ponto é o mesmo: construir
famílias é apostar no futuro de um processo civilizatório protegido pelos personagens.

Então eventos como o concurso Miss Macross e o casamento entre Max e Milia, na série citada, fazem sentido dentro dessa construção. São partes da fundação de um novo povo (reparem no quanto o Macross original era cosmopolita, inclusive, reunindo gente de várias nações e etnias*******). E isso se alterna com a defesa constante do lugar feita pelos personagens principais, com direito a missões paralelas (buscar sobreviventes em Marte, por exemplo).

Dito isto, vamos repassar tais possibilidades mais organizadamente para possíveis abordagens “Forte Apache” nas suas mesas de Brigada Ligeira Estelar?

Ficção Científica Militar: ao serem designados em caráter fixo para um posto avançado, os personagens precisam defender o local dos ataques invasores.

Locais a Proteger: além do próprio posto avançado, vocês terão pontos importantes a proteger — como a cidade aonde o quartel se reabastece de víveres.

A despedida informal de (spoiler) em Macross Delta: funerais operam pela mesma
dinâmica — são marcos de passagem de tempo na história de uma comunidade.

Missões de Alto Risco: sob a segurança da sua base de operações, os personagens receberão missões externas dos superiores e terão um local de retorno.

Se você não vai à encrenca…: postos avançados e as cidades em sua órbita são locais de parada no meio do nada e visitantes podem trazer dor de cabeça.

Tensões Internas: o convívio com civis poderá ter seus atritos — de eventuais brigas de bar a algum eventual problema sério com as autoridades locais.

Os mundos envolvidos na frente proscrita são perfeitos nesse sentido. Podemos considerar — em termos estruturais, vejam bem — os Proscritos como os “índios monstruosos********” e os Cossacos como os “índios bons”. Aliás, há toda uma aventura pronta jamais publicada, A Aliança Partida, toda em cima desses conceitos (um dia ela sai). Villaverde é particularmente conveniente por contar com cidades-fortaleza blindadas sob a guarda da própria Brigada.

Não minimize o ataque à base militar se a cidade não estiver em seu interior:
Adivinhe quem vai ser o próximo alvo caso ela caia?

De quebra, temos toda uma série de clichês convenientes para a mesa, egressos do faroeste de cavalaria mas muito convenientes para campanhas de Brigada Ligeira Estelar — como a adorável e bem protegida filha do general, o oficial recém-graduado e completamente ignorante sobre o cenário aonde está se atolando, o superior intransigente e com ódios capazes de levá-lo a atos estúpidos (podendo levar seus comandados para o túmulo)… pensem nessa ideia.

O novo Brigada pensa em termos de times de personagens e, como o artigo citado nas notas mencionou, os faroestes de Ford são muito focados na dinâmica conjunta. E embora tal abordagem pareça menos óbvia quando se fala de faroeste espacial (um aspecto formativo da space opera ao lado do capa-e-espada espacial), definitivamente ela se encaixa como uma luva em Brigada Ligeira Estelar — e, tá, eu me divirto com essa ideia.

Até a próxima e divirtam-se!

* Blueberry é um faroeste europeu e por isso podemos até relevar uma imprecisão ou outra — o Stephen King chegou a dizer que a ausência de noção geográfica nos faroestes italianos ajudavam a estabelecer uma natureza meio à parte do tempo e do espaço nesses filmes, como se eles se passassem em algum outro mundo muito próprio, e isso o inspirou a criar sua saga da Torre Negra — mas, à parte minha admiração pela qualidade dos roteiros de Charlier… um ser humano ser batizado de “Mike Steve” ao invés de Michael Steven não dá (a Wiki brasileira publica “corrigido”, mas fui ver algumas fontes francesas e ninguém parece ter feito um retcon nesse nome até agora). Equivale a alguém no Brasil ser registrado no cartório de “Guto Zé”, “Alê Nico”, “Casé Guel” ou algo assim. Tudo tem limite, gente.
** Além da série principal, seguindo em uma linha mais cronológica, temos spin-offs como La Jeunesse de Blueberry e Marshal Blueberry. Na Wikipedia tem uma lista dos álbuns, não na ordem de publicação mas na ordem cronológica dos eventos na série. Caso leiam dessa forma, não levem um susto pela arte dos álbuns mais antigos e nem os dispensem — tem coisa muito boa neles.
*** Em “O Homem da Estrela de Prata”, sexto álbum da série, Blueberry — ainda tenente — é designado como xerife interino para uma cidade sem lei enquanto um novo boi de piranha para essa função não chega. Isso é temporário, o personagem retoma sua função no final e esse é um conceito até aplicável para uma campanha de Brigada Ligeira Estelar.
**** Indubitavelmente o maior cineasta de faroeste em todos os tempos (Sergio Leone era um gênio e fez alguns dos meus filmes favoritos nesse gênero, mas mesmo ele concordaria comigo).
***** Aqui eu tomo a liberdade de recortar o trecho de um artigo de Pedro Butcher (2010) para a Folha de São Paulo: “Enquanto o Western clássico apresenta uma visão individualista do mundo, marcada por uma forte ideia de violência física ou interior (um caubói e seu desejo de vingança; um fora da lei que tenta escapar de seu passado; um atirador e sua vontade de matar), em Ford a linha de força raramente é constituída em torno de um sentimento individual ou de um motivador negativo, destruidor (…). Os filmes são odisseias de caravanas de emigrantes, patrulhas de um grupo de cavaleiros, travessias do deserto por uma diligência, ou bandidos procurados pela polícia. Ford só se interessa por problemas pessoais na medida em que se interceptam aos da comunidade (…). Sua ética só existe em relação a um sentimento de ordem coletivo. Nos filmes de Ford, são evidentes os conflitos entre o indivíduo e a civilização”. Gosto de pensar, como autor mesmo, que isso se enquadra profundamente aos temas fundamentais de Brigada Ligeira Estelar.
****** Isso é algo bem visível nos filmes de Ford sobre a cavalaria. Não é difícil traçar um paralelo com eles e as relações entre pilotos nas animações do gênero — forjando amizades e romances em meio a um momento de crise definidor para seu povo ou até para a própria humanidade. Você não cria pontes para o futuro quando espera um fim trágico inevitável.
******* É interessante pontuar que a nova humanidade forjada em Macross foi mais generosa do que a sociedade estadunidense jamais foi: ela se reconcilia com seus ex-inimigos Zentradis e permite a participação deles no melting pot formativo desse novo futuro, iconizado simbolicamente pelo casamento de Maximilian Jenius e Milia Falyna. Isso é uma constante em animes e mangás, quando temos um final feliz após uma situação de crise total: há conciliação, mas com isso o mundo é “refundado” — ele jamais será o mesmo e tudo é uma incógnita. Vemos isso no mangá Parasyte e até no Lady Devilman de Go Nagai.
******** Joss Whedon não é o melhor ser humano do mundo mas fez a melhor série sci-fi televisiva de seu tempo, o faroeste espacial Firefly. De acordo com ele, “Toda história precisa de um monstro. Nas histórias de faroeste eram os Apaches”… e realmente isso é verdade — até a chegada da virada dos anos 60 para os 70, quando o papel dos nativos nessa dinâmica começou a ser questionado e revisado: em Quando é Preciso ser Homem (Soldier Blue, de Ralph Nelson; 1970), o monstro é claramente a cavalaria, abrindo radicalmente o faroeste revisionista nos Estados Unidos. Whedon criou os Reavers como uma forma de incluir a figura do “monstro” sem conotação racial.

FOTO DO TOPO: Blueberry, de Charlier e Giraud.
DISCLAIMER: Superdimensional Fortress Macross e Macross Delta são propriedades de Studio Nue, Inc.; Mobile Suit Gundam é propriedade de Sunrise, Inc.; Neon Genesis Evangelion é propriedade de Khara, Inc.; Shingeki no Kyojin é propriedade de Hajime Isayama, via Wit Studio, Inc. e MAPPA Co., Ltd.; Blueberry é propriedade conjunta dos respectivos espólios de Jean Giraud e Jean-Michel Charlier. Todas as imagens para fins divulgacionais.

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