Reconstrução

Brigada Ligeira Estelar é uma ambientação reconstrutiva. Embora este seja um cenário de RPG e o tom de uma campanha deva ser aberto para os mestres e jogadores escolherem, todo cânone tem um padrão, este é o nosso e isso nos força a falar justamente sobre essas três claves narrativas — construção, desconstrução e reconstrução. Porque esta última não costuma ser uma palavra tão associada às animações japonesas de robôs gigantes que nos inspiraram.

Para começar, todo gênero narrativo absorve muito do senso comum de seu tempo e de seu local de origem. O faroeste, por exemplo, nasceu como uma romantização do processo de povoamento dos Estados Unidos. Os super-heróis nasceram questionadores mas foram rapidamente domados: eles só tomaram forma como gênero após a 2ª Grande Guerra, reforçando “valores americanos para os jovens”. A virada dos anos 60 para os 70 pôs todos esses discursos em cheque.

Os quadrinhos de super-heróis começaram a se voltar para temas sociais — eventualmente batendo de frente com o código de ética — questionando tanto a moralidade defendida pelos super-heróis em nome da “Murica” quanto sua efetividade contra problemas reais, enquanto o faroeste decidiu revelar toda a monstruosidade higienizada por um discurso nacionalista questionável. Esses gêneros foram desconstruídos. Isso não foi negativo em si. Foi necessário.

Isso não diminui o valor artístico dessas obras clássicas em si, importante dizer — é descabido
chamá-los de “lixo anacrônico”. Mas é preciso ter consciência crítica e encará-los em seu contexto.

Talvez o melhor comparativo seja o conserto de uma máquina. Em um primeiro momento, ela foi construída. No segundo, é preciso desmontá-la para entender quais peças funcionam e quais não funcionam mais tão bem. Por fim, no terceiro e último momento, será preciso remontá-la, trocando determinadas peças para fazê-la funcionar de novo. De novo: falamos de construção, desconstrução e reconstrução… e, em algum momento, pediremos de volta nossa máquina!

Qual é o risco da desconstrução excessiva? Sem a devida reconstrução, um gênero pode ser perdido — como se jogássemos fora nossa máquina ao invés de consertá-la. A reconstrução dos supers eventualmente veio e suas versões heróicas hoje dominam os cinemas. Quanto ao faroeste, sua longa desconstrução o maculou no imaginário popular. Antes sinônimo de aventura, passou a evocar um antro de sujeira e de maldade. Sua janela de reconstrução foi perdida.

Para visualizar isso de forma entendível: imaginem o efeito sobre os filmes de super-heróis
a longo prazo caso não existissem os filmes da Marvel quando este filme estreasse.

E aqui voltamos a nossos robôs gigantes. O real robot de Gundam, Macross e tantos outros foi uma construção nascida de uma desconstrução, afinal. Ele veio não só como um contraponto realista ao super robot mas também, teorizo, como uma reação aos instintos nacionalistas despertados pelo sucesso de… Patrulha Estelar. Eu adoro essa série, nunca neguei — mas considerando os perrengues passados por uma geração mais velha, entendo bem o incômodo aqui.

Yoshiyuki Tomino estabeleceu um arco conceitual: Gundam 0079 trouxe a construção, Zeta Gundam a desconstruiu — e Gundam ZZ deveria tê-la reconstruído. Depois disso, por várias vezes, ele tentou restabelecer o laço entre o real robot e o público mais jovem (a tentativa mais recente foi G no Reconguista). Mas algumas pessoas tem uma imagem, digamos, estática demais sobre a natureza do real robot — e isso nos leva de volta à Brigada Ligeira Estelar.

Enquanto Zeta Gundam desconstruiu o universo estabelecido na primeira série,
Gundam ZZ se propôs a reconstruí-lo sob uma luz mais positiva no final.

Em uma ocasião, nos primeiros anos após o lançamento do livro, um jogador elogiou o cenário mas considerou que se a série era real robot, os robôs hussardos eram muito super robot — e por isso mesmo, decidiu usar modelos de um anime qualquer, mais militares e secos em tom, para esse fim. Mas isso não representa o real! Há super robôs tratados com o pé extremamente no chão, como Dai-Guard e até mesmo Ideon (quando não banca a arma do juízo final)!

Da mesma forma, há séries de real robot com ação “pouco realista” e/ou visuais não exatamente sóbrios. Combate Mecha Xabungle é uma série na qual vemos robôs usados para trabalho, mas seus robôs chegam a beirar o cartunesco nos seus atos. Os robôs de Gundam Wing também trazem uma boa dose de exagero e ninguém questiona a classificação dessas séries como real robot — a linha de separação entre as duas vertentes é bem mais difusa do que se imagina.

Os robôs de Gundam Wing assobiam e chupam cana —
e ninguém os chama de super-robô por isso.

Acima de seus temas ou do poder e aparência de seus robôs, quem separa o real do super é o seu papel no cenário. A desconstrução se infiltrou na construção do real robot de Yoshiyuki Tomino, sim, mas a abordagem da fase transicional entre o super robot e o real robot (Saber Rider, Esquadrão do Espaço, etc.) — aventurescas e com super-robôs mas abraçando a ficção científica — poderia ter sido absorvida posteriormente. O gênero teria ganho com isso.

E estes são apenas exemplos. É claro, eu sempre vou repetir: quando você compra um RPG, ele passa a ser seu. Nada está escrito em pedra na sua campanha, salvo se assim você quiser, e não serei eu como autor a ficar olhando por cima dos ombros de um mestre de jogo (quanto ao jogador incomodado pelos robôs, não o questiono realmente — ele tem o direito de fazer isso na sua mesa e, se pensa assim, deve fazê-lo). Mas há, também, uma questão de visão.

Uma trilha sonora cairia bem aqui…
Mas que seja: “Nós podemos ser heróis”. É este o espírito.

Assumir Brigada Ligeira Estelar como um cenário reconstrutivo é uma declaração de princípios temáticos, no fim. Seus pilotos atendem a um chamado heróico e desafiam quem abusa de seu poder — a analogia de “mosqueteiros do espaço” não é gratuita. Reverenciamos nossas referências, sem dúvida, mas este é o ponto no qual nós mesmos desviamos delas para abrir nosso próprio caminho — e, em Brigada, isso está na própria raiz do conceito. Desde o início.

Se vocês quiserem ser anti-heróis, ou meros sobreviventes, em meio a um conflito — e sim, há muitos tons de cinza no cenário a serem enfrentados — a decisão ainda é dos jogadores e mestres, cada um do seu próprio jeito. Mas na Constelação do Sabre vocês podem ser heróis. Vocês podem mudar o futuro. Sempre puderam. E isso no cômputo geral é o mais importante. 

Agora aceitem o desafio, peguem seus capacetes e entrem em seus robôs gigantes de uma vez.

Arte do topo por Eudetenis.

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