Dissecando o Piloto Acidental

O Piloto Acidental, assim como o Ás Mascarado (de quem falamos já falamos AQUI), é outro esteio do gênero mecha — e tão clássico quanto. Essencialmente, um aborrescente qualquer vive sua vida quando o invasor chega, ele foge, tromba acidentalmente com um robô gigante, miraculosamente sabe pilotá-lo e acaba sendo a esperança generalizada naquele momento de barata voa. No final, ele acaba alistado… e a história segue normalmente. Fica uma pergunta:

Não é mais fácil criar um personagem piloto desde o começo? Quer dizer, um garoto de quatorze anos com um carro nas mãos — e sem nenhum treino prévio — é capaz, com sorte, de no mínimo bater com o carro na porta da garagem e dar um belo prejuízo a família caso o seguro não faça a cobertura. Um robô gigante nas mãos de uma criatura dessas, com certeza, cairia no chão ao primeiro passo e esmagaria todas as pessoas indefesas em seu caminho. Contudo…

…isso tem razão de ser. Na verdade, a figura do Piloto Acidental não passa de um simples recurso de identificação: você acompanha os passos de um garoto qualquer, com uma rotina normal como a de qualquer pessoa de sua idade — alguém como o próprio espectador. Ele, por algum motivo (tá, tá) crível, é arrastado pelas circunstâncias e acaba se tornando O piloto de um robô gigante. Por fim, ele leva tempo como interino até ser eventualmente alistado.

E às vezes, nem isso: já reparou que, em Valvrave the Liberator,
o ambiente escolar permanece apesar de tudo?

Na verdade, isso não passa de um truque tão velho quanto a própria ficção científica: criar um preâmbulo comum, em um contexto mais próximo ao nosso, mesmo tendo suas diferenças aqui e ali, para driblar qualquer estranheza capaz de alienar o leitor médio. Feita uma conexão, é hora de descartar esse recurso e mergulhar o protagonista de cabeça nesse futuro distante — ele já se tornou nosso ponto de vista. As primeiras space operas se valiam disso.

Sempre citei muito o Legião do Espaço, de Doc Williamson. Não por acaso, o livro abre com uma sequência contemporânea: alguém, com poderes mentais de clarividência, deixa um manuscrito com uma história do futuro para o autor da introdução, antes de morrer… e, mesmo descrente, ele compartilha o texto. Isso tudo é esquecido a seguir — nunca mais voltamos ao assunto — mas a ponte com o crível foi feita: isso pode ser real ou não. Obstáculo removido.

Você pode também “pular” no tempo de alguma forma. Você não precisa
entender bulhufas de um cenário para montar um personagem.

Uma variante desse recurso é o homem congelado: alguém de nosso tempo é adormecido por séculos, ou é transportado para o futuro distante, e desperta em um cenário tão estranho para ele quanto para nós. Ele se torna alguém para o qual as coisas precisam ser… continuamente explicadas, servindo não só como fonte de identificação mas também como um recurso para compreender este mundo. O primeiro livro de Isaac Asimov, A Pedra no Céu, se valeu disso*.

Esses recursos ainda existem mas envelheceram, à medida em que a ficção científica tomou vulto no imaginário. Então porque o Piloto Acidental resiste?

Herói Relutante: o piloto acidental não entrou nessa por querer — e custará a aceitar seu papel. Talvez represente dor de cabeça para seus superiores.

Antecedente Incomum: o personagem tem alguma vantagem ou perícia útil, lhe permitindo aprender a pilotar robôs logo no primeiro contato… e sobreviver.

Provavelmente o antecedente mais lógico para Amuro Ray, da primeira série Gundam,
é o de leitura dinâmica — ele pôde pilotar porque descobriu o manual e o leu a jato!

Depois a gente explica: o personagem talvez descubra (mais tarde) ter poderes psíquicos ou alguma capacidade especial, explicando seu sucesso inicial.

Sorte? O personagem vencerá o grande ás inimigo em um de seus primeiros combates. Infelizmente, o infeliz vai querer sua revanche pelo resto da série!

Oficializando: em algum momento ele poderá, finalmente, ser substituído e assim, voltar à vida normal. Para continuar pilotando, precisará se alistar.

Na verdade esse recurso ainda é conveniente, especialmente se os espectadores tiverem certa reserva com protagonistas militares: qualquer um em algum momento da vida pode se ver alistado em uma circunstância extrema de guerra. Além disso, esses personagens costumam tomar liberdades não permitidas a quem pretende se tornar um piloto de carreira — eles não são militares, afinal. Porém, lembrem-se do ditado: quem fala o que quer ouve o que não quer…

Não foi à toa que Judau Ashta, em Gundam ZZ, foi quem deu um chega pra lá
em Bright Noah antes de levar um na cara, já repararam? Mas isso é off-topic.

Pensando, agora, em RPG: um personagem acidental pode ser tanto um acerto quanto um problemão — já falamos disso na nossa lista de piores jogadores, lembram? Por um lado, ninguém joga para virar um robozinho nas mãos do mestre. A própria Brigada foi pensada para evitar isso adotando um espírito mais mosqueteiro: você recebe suas missões e terá apoio, se precisar, mas de resto estará por sua conta. Regras podem ser torcidas em nome dos resultados.

Para um personagem acidental, o ideal é se tornar um piloto de protótipo. Cautela, porém: em uma animação japonesa do gênero, esse recurso é um elemento residual dos velhos super-robôs — mesmo sendo um robô “real”, ele ainda é superior aos demais, debulha robôs oponentes aos montes e é o mais cool. Os demais jogadores dificilmente irão aceitar isso muito bem e a chance de abrirmos as portas para um jogador Power Player fazer a festa é bem grande.

Kira Yamato, de Gundam Seed: começa como um garoto mais ou
menos normal e termina como o mega-uber-oberpower.

Talvez seja o caso de pensar em um esquadrão especial, com robôs acima da média: ele apenas ocupou um lugar originalmente destinado a outro piloto, podendo este estar revoltado por ter perdido sua posição graças a um infeliz caído de paraquedas… ou simplesmente nem ser convocado, permanecendo ignorante de tudo. Caso um dos protagonistas morra na campanha, basta assumir o novo personagem como o dono original na vaga. É lógico, fácil e conveniente.

Quanto a um eventual Buck Rogers**, ele tem a duvidosa vantagem de não conhecer nada sobre o cenário, podendo entrar no grupo de forma imediata e sem grandes explicações — não é como se um jogador precisasse mergulhar no cenário para criar um background. Mas é bom o mestre de jogo ficar atento: um protagonista dos tempos do Grande Vazio*** pode ser o gancho necessário para o jogador criar alguém virtualmente onipotente na mesa de jogo. Olho vivo.

É o mesmo cuidado necessário com personagens amnésicos
em jogo (em breve, na nossa lista de Piores Jogadores)!

Notem: todos esses recursos, e suas variantes, são bem conhecidos por nós mas vieram a se tornar supérfluos com o tempo por um motivo simples: dos anos 70 para cá, tivemos uma grande presença da ficção científica em todas as mídias. É muito difícil termos alguém com menos de quarenta anos completamente ignorante de histórias com viagens espaciais e pilotos audazes, gostando delas ou não. Quanto aos nossos robôs gigantes, isso não se aplica tanto.

Para o japonês esse tipo de gambiarra pode não ser necessária mas, para uma grande parte do mundo para quem animações japonesas significam personagens de cabelo espetado soltando golpes luminosos com artes marciais, isso pode ser importante. É um recurso fácil e transitório. Por outro lado, para jogadores de RPG, uma mera sessão de vídeos com referências talvez seja uma introdução mais eficiente. Escolha com sabedoria.

Até a próxima e divirtam-se.

Vamos lá! Você consegue entender esse painel e pilotar! É fácil!
Qualquer colegial destreinado de quatorze anos consegue!

* Primeiro livro de Asimov, ainda preso a algumas demandas editoriais de seu tempo. Pessoalmente eu gostava mais do título com o qual ele foi publicado no Brasil no tempo de Dom João e Charuto (“827, Era Galáctica” é um nome melhor do que “A Pedra no Céu”, cá entre nós) mas as traduções atuais são melhores.
** Talvez o primeiro herói da ficção científica espacial, criado por Philip Francis Nowlan. O primeiro livro, Armageddon 2419 A.D., era mais um Mad Max com aviões de guerra e xenofobia contra chineses a dar com pau — mas o autor foi convencido a transformar o romance em uma tira de jornal, em parceria com o desenhista Dick Calkins, A obra foi reiniciada do zero e o protagonista, inclusive, foi rebatizado como Buck, transformando tudo em uma space opera e fazendo o personagem viajar por nosso sistema solar, com mundos habitados por descendentes de terrestres. O personagem teve várias encarnações (a mais conhecida por nós certamente é o seriado dos anos 80) e ganhou um bom RPG pela velha TSR em 1990 (Buck Rogers XXVC), além de dez romances (uma coletânea de contos e três trilogias). Infelizmente ele não deu tão certo quanto seria o ideal e deu lugar a um RPG não tão bom, o High Adventure Cliffhangers Buck Rogers Adventure Game (arre!), tentando voltar às raízes pulp do personagem — sem sucesso.
*** Para quem não leu ainda:
é o grande vácuo temporal, em Brigada Ligeira Estelar, aonde temos as transformações pelas quais o cenário assumiu sua identidade atual.

NO TOPO: reconheceu todos? Vamos ver se você conseguiu: Akito Tenkawa (Martian Successor Nadesico, que despertou com aquele treco na mão capaz de fazê-lo pilotar), Uso Ewin (V Gundam), Renton Thurston (Eureka Seven; ele não “achou” o robô mas se tornou co-piloto de Eureka pela força das circunstâncias), Kira Yamato (Gundam Seed), Bit Cloud (Zoids: New Century), Garrod Ran (Gundam X), Tapp Oceano (Metal Armor Dragonar. Embora ele já fosse um treinando, as circunstâncias — e a tecnologia dos robôs — são totalmente à parte e elas se aplicam aqui), Lowe Guele (Gundam Seed Astray), Kazuki Yotsuga (Dual! Parallel Trouble Adventure), Seabook Arno (Gundam F91; ele sabia como pilotar e se voluntariou, algo incomum no gênero, mas como não era um militar e achou o robô ao acaso, o clichê se aplica); Aoba Watase (Buddy Complex), Lohan Cehack (Turn A Gundam), Haruto Tokishima (Valvrave the Liberator), Kio Asuno (Gundam AGE), Coop (Megas XLR), Tobia Arronax (Crossbone Gundam, apenas em mangá; novamente tem algumas discrepâncias, mas no geral segue o clichê direito), Kōichi Hayase (Linebarrels of Iron), Judau Ashita (Gundam ZZ), Crinn Cashim (Fang of the Sun: Dougram), Banagher Links (Gundam Unicorn). Repararam quantos pilotos em Gundam caíram nessa por mero acaso? Incrivelmente, a quantidade de mascarados faz mais sentido!

DISCLAIMER: Todos os personagens aqui apresentados em ilustrações ou menções pertencem a seus respectivos proprietários intelectuais. Imagens para fins jornalísticos ou divulgacionais. Todos os direitos respeitados.

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