Dissecando o Veterano

Muita gente não entende isso: o protagonista protagoniza, o coadjuvante coadjuva e o antagonista antagoniza. Só isso. O apego ou interesse no desenvolvimento de certos personagens nubla essa percepção na cabeça de muita gente e, por isso, temos tanta dor de cabeça nas redes (“esse deveria ser o protagonista”, “só enterraram o personagem tal porque o protagonista é isso e aquilo”, “estão pondo ‘X’ na geladeira” — e outras amolações do mesmo tipo).

Mas a função do coadjuvante é essa mesma: avançar ou apoiar o arco de desenvolvimento de um personagem central e da história em seu entorno. Daí o personagem criado para morrer, fazendo o protagonista ficar revoltado ou enfrentar um drama de crescimento pessoal. Ou a personagem criada para ser salva do perigo por esse mesmo protagonista. E não há absolutamente nada de errado com isso — só é preciso gerenciar para a coisa não se tornar repetitiva.

E aqui precisamos nos debruçar sobre a figura do Veterano, um personagem clássico nas animações do gênero. Geralmente é um oficial superior, próximo o bastante em termos hierárquicos para ter um contato constante com o protagonista. Enquanto este ainda estiver ganhando habilidade nas armas e confiança em si mesmo, o Veterano estará presente para apoiá-lo. Mas eventualmente, nosso novato chegará lá. O Veterano se tornará redundante.

E aí ele morre.

Não reclamem do spoiler. Essa série tem quatro décadas, pô!

Tudo bem, talvez ele não precise morrer — talvez ele possa ser transferido ou promovido — mas sua saída do caminho é necessária. Os protagonistas não precisarão mais de sua presença vigilante e ele se tornará apenas um estorvo no caminho. Afastado para sempre, o Veterano se tornará uma inspiração para o protagonista alcançar aquilo no qual aquele se destacava, mas era muito especial, e estava além de sua função como piloto. Alguém a ser… honrado.

Talvez, em RPG, esta se torne uma dinâmica mais complexa porque um jogador pode querer ser esse veterano… e isso cria um problema narrativo em potencial caso queiramos trabalhar o tropo clássico: ele não poderá sair de cena. A história a ser contada será outra: esses protagonistas iniciantes crescerão para se tornar seus iguais e em algum momento ele perderá essa ascendência sobre o grupo. Mas sempre poderemos ter novatos precisando de seu apoio.

E como bom irmão mais velho… TOMA ESSE SACODE!

No entanto, quando isso acontece, ele não é mais um personagem de apoio — é um protagonista! E, jamais esqueçamos, o protagonismo precisa ser compartilhado por todos os jogadores em uma mesa de RPG! Ele não poderá ser mais medido pela régua do Veterano clássico, salvo se houver outro veterano ao redor deles! Estamos falando de um papel coadjuvante fundamental para manter um time de jogadores vivo enquanto não puder caminhar pelas próprias pernas!

E agora? Bom, é a hora de examinar alguns dos traços clássicos para esse tipo de personagem. Sem eles, nem existe sentido em considerá-lo um Veterano.

Anterioridade: há exceções mas, normalmente, o Veterano já está presente quando chega um time de novatos e isso faz dele uma boa fonte de explicações.

Ás: o veterano certamente é um piloto extraordinário — mesmo tendo comandados de altíssimo potencial em suas fileiras. Mas um dia eles o alcançarão e…

Fokker não estava no seu posto por ser um cara legal. Ele era um ÁS!

Cara Legal: o Veterano não exerce seu posto com mão de ferro. Geralmente ele é como um irmão mais velho para os novatos e os tira de encrencas. PORÉM…

Tudo tem Limite: …ele ainda tem um posto e pode pôr um protagonista na cela se este for longe demais. E mesmo assim, ele não será violento ou injusto.

Vida Adulta: o Veterano não é mais um adolescente, mesmo não sendo tão mais velho assim, e costuma estar mais resolvido quando o assunto são mulheres.

Um detalhe importante: o Veterano não age como um sargento durão com os protagonistas por um bom motivo: ele não precisa… e nem deveria precisar. Ao se tornarem pilotos, todos já passaram pelas mãos de um instrutor de campo. Foi este quem precisou rosnar para fazer, de seus treinandos, pilotos capazes de sobreviver aos combates espaciais. Agora, todos são qualificados para cumprir suas missões — e só é preciso lhes dar alguma experiência prática.

Compartilhar experiência é sempre bem-vindo.

De resto é possível fazer variações interessantes com esse tipo de personagem. Já vemos o embrião do conceito logo na primeira série Gundam (ele está dividido em dois personagens: Ryu José e Sleggar Law*) mas o clichê só tomará sua forma definitiva, passando a ser a base de todas as versões posteriores, com o Roy Fokker do igualmente clássico Superdimensional Fortress Macross** e, não à toa, ele foi assumidamente inspirado no próprio Sleggar Law.

A partir daí ele pôde ser subvertido de diversas formas: se revelando um oponente disfarçado, ou morrendo e reaparecendo do lado adversário muito mais tarde, ou mesmo em uma versão com defeito de fabricação (como o Ozma Lee de Macross Frontier: ele é o que acontece quando alguém sem o menor perfil para esse papel é colocado nessa função narrativa). Mas, salvo nesse último caso, ele só costuma ser desconstruído após sua utilidade inicial terminar.

Ah, sim: não é de mau tom dar um robô distintivo a esse personagem.

Por fim, se é para fazer dele um cara legal, invista pesadamente na sua caracterização! Crie frases de efeito, faça-o dizer a coisa certa quando a situação exigir, deixe-o soltar aquela frase fundamental para o protagonista encontrar uma luz e seguir em frente… mas lembre-se: o coadjuvante coadjuva. Cabe a ele ajudar ao protagonista a se virar por si só (“eu posso dar cobertura, mas esse disparo é por sua conta!”), nunca a fazer o trabalho deste!

Isso será importante quando for a hora de nosso veterano partir. Os próprios jogadores precisam sentir o impacto de sua perda quando isso acontecer, mesmo não sendo de forma trágica (“nunca mais as coisas serão as mesmas sem ele”). E isso não acontecerá sem o devido esforço do mestre. É um ponto de virada, marcando o momento no qual nosso time de protagonistas não é mais um bando de novatos. Seus jogadores agradecerão.

Até a próxima e divirtam-se!

E não esqueçam da Death Flag, pessoal!

NO TOPO (pegaram quem é quem?): Roy Fokker, de Superdimensional Fortress Macross (a pedra fundamental do conceito como o conhecemos); Sleggar Law, de Mobile Suit Gundam (a inspiração de Fokker), Ozma Lee, de Macross Frontier (o “Fokker Incompetente”, falhando em todas as atribuições esperadas do personagem — até mesmo a de morrer); Woolf Enneacle, de Gundam Age (um caso curioso porque em uma série generacional, dividida em fases marcadas por saltos de tempo, ele desempenha os dois aspectos do personagem para pai e filho: na primeira, ele é o irmão mais velho meio folgado, o ás mulherengo, mas está lá para empurrar o personagem para a frente. No segundo, ele é um veterano de verdade, sendo paciente e fornecendo uma meta para o personagem se inspirar e superá-lo); Mikhail Blanc, de Macross Frontier (como o Ozma é uma negação, o Mikhail acaba suprindo essa função); Mu la Flaga, de Gundam Seed (mais Fokker do que ele não existe); Pierre Bonaparte, de Comando Dolbuck (tá, ele não era o “mais velho e experiente”, mas funciona como o “irmão mais velho sem noção”, era dos bons e sua perda faz diferença para o protagonista — o ciclo narrativo em grande parte foi o mesmo); Ryu José, de Mobile Suit Gundam (ele cumpre a metade moral da equação, servindo de exemplo ao protagonista sobre como um combatente deve se comportar); Kamina, de Gurren Lagann (“Se você não acredita em si mesmo, tudo bem! Então acredite no Kamina que acredita em você!” — ele pode não ser literalmente um veterano mas cumpre todo o seu papel inspiracional); Ricardo Fellini, de Gundam Build Fighters (o conceito aplicado em um mundo aonde robôs não são gigantes nem pilotados, mas está lá); Randy Maxwell, de Majestic Prince; Shanarua Mullen, de Gundam Age (Fase 3); Irvine, de Zoids: Chaotic Century e Zoids: Guardian Force; Lockon Stratos, de Gundam 00 (o original, Neil Dylandy. Seu irmão gêmeo Lyle assumiu seu lugar na segunda temporada mas não tinha a mesma personalidade e não se enquadra aqui). Gai Daigouji, de Martian Successor Nadesico (o Fokker otaku. Aliás, em um toque de humor negro bem mandado, o dublador estadunidense do personagem é o mesmo do Fokker em Macross!); Kacricon Cacooler, de Mobile Suit Zeta Gundam (digno de nota por pertencer ao lado inimigo, desempenhando esse papel para o antagonista Jerid Messa); Holland Novak, de Eureka Seven (o “Fokker tóxico” — ele parece legal, mas cedo se revela como um grande escroto. Na segunda metade da série, após cair em si, ele se aproxima mais do veterano clássico mas a essa altura já é tarde demais…); Naze Turbine, de Gundam: Iron-Blooded Orphans; Gain Bijou, de Overman King Gainer (forçando um pouco a barra…); Argo Gulskii, de Mobile Fighter G Gundam.

ARTIGOS ANTERIORES DA SEÇÃO: Ás Mascarado (AQUI), o Piloto Acidental (AQUI) e a Princesa (AQUI).

DISCLAIMER: Todos os personagens aqui mencionados ou retratados são pertencentes a seus respectivos proprietários intelectuais. Imagens para fins jornalísticos e divulgacionais (por favor, não me peçam para buscar os estúdios e direitos de copyright de toda essa gente, não aqui. Viram o tamanho das notas de rodapé?).

(agradecimento ao Pedro Henrique Leal por me ajudar a fechar o álbum de figurinhas).

5 comentários

  1. O veterano também é bom pra apresentar o clima do cenário. Se ele puder quebrar as regras e se dar bem quando o resultado for positivo, os PJs também aprendem esse modo de agir. E se, ao contrário, ele for cínico e lutar sujo, isso também passa pro grupo.

    Acho que ficaram faltando as notas de rodapé dos asteriscos dessa vez.

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