Sendo Derivativo

Uma dos meus aprendizados importantes ao trabalhar com RPG foi o de aceitar a derivatividade como algo potencialmente positivo, caso seja bem trabalhado, e seguir em frente. Isso porque ela é uma condição necessária para esses jogos como mídia: os jogadores podem construir qualquer personagem e vão tomar como referência qualquer conceito à mente. Por outro lado, derivatividade não é cópia — embora ela se assuma, desde o começo, como não-original.

Parece complicado mas BRIGADA LIGEIRA ESTELAR é um exemplo até bem claro disso. Desde o começo assumi honestamente: tudo neste cenário veio de algum lugar, mas não necessariamente como vieram em suas formas originais. Um ponto fundamental para mim foi o de não atrelar necessariamente o cenário à grande ameaça principal, como ocorre em Tormenta, mas evoluir sua trama: na eventualidade dessa trama se fechar, outra grande ameaça vai tomar seu lugar.

Mas, de resto, tudo tem referências no gênero por mais obscuras que sejam. Tendo a me esquecer de algumas delas, inclusive. A história do kit Cavaleiro Regencial é bem emblemática: ela surgiu do kit Cavaleiro na adaptação de Code Geass publicada na edição 40 da saudosa revista Dragonslayer. O conceito se enquadrava de forma perfeita na Constelação do Sabre, me levando a adaptá-lo para ganhar identidade própria — e incorporá-lo ao cenário, no fim.

Cavaleiros em Code Geass. Encaixáveis como uma luva.

No final ela se tornou a segunda forma mais simples de se montar um grupo coerente de jogadores (a primeira é juntar-se a uma guarda): um nobre, protagonista ou coadjuvante, precisa de uma guarda pessoal. Ele escolhe um cavaleiro regencial de confiança — novamente, protagonista ou coadjuvante — como primeiro-cavaleiro, obtendo a vantagem capitania, e este reúne outros cavaleiros para montar uma guarda. E em tese, qualquer um pode ter esse título.

Os Cavaleiros do Sabre em Brigada Ligeira Estelar não são cem por cento como os Cavaleiros Britânicos de Code Geass — embora eles também sejam um instrumento de ascensão social, não consigo ver um cossaco das estepes ganhar tão facilmente um título de cavaleiro por algum feito importante na Britânia dessa terra alternativa. Sao as necessidades de um RPG falando: é preciso abrir o leque para permitir ao jogador encaixar logicamente seu personagem.

Dirty Pair: é bem óbvia a inspiração das Agentes da BRISCA em Brigada Ligeira Estelar.

Aliás, são tanto as questões mecânicas quanto o entorno lógico do cenário os fatores mais importantes ao se encaixar um elemento de inspiração externa. Ele nunca vai ser exatamente o mesmo e é interessante pensar em ideias para torcer o conceito de uma forma capaz de fazê-lo imediatamente reconhecível mas nunca uma mera cópia. As Agentes da BRISCA foram outro exemplo claro dessa mecânica criativa até porque sua inspiração é descaradamente… óbvia.

Eu sempre fui um grande fã das animações sci-fi japonesas do final dos anos 70 aos meados dos anos 90. Meu maior desafio em Brigada, inclusive, é não deixar o cenário tão retrô assim. Não lembro meus motivos ao fazer algo inspirado em Dirty Pair mas… como transformar elas em algo próprio? Nesse caso específico, apelei para a desconstrução porque, se pensarmos bem, a nossa dupla de agentes é particularmente horripilante ao olharmos as entrelinhas.

Valvrave the Liberator (dead crib: “Gundam com Vampiros Adolescentes”)

Para não usar um exemplo apenas meu, vamos para o primeiro episódio de um anime que começou muito bem antes de despencar ribanceira abaixo: Valvrave the Liberator. A rigor, ele começa como uma variação esperta de qualquer primeiro episódio na maioria das séries Gundam — no caso, a invasão de um time inimigo na estação espacial aonde está o protagonista. Aqui, os vilões são eficientes, vencem o protagonista facilmente… e aí temos o twist da série!

No caso, eles usaram da familiaridade com o gênero e seus clichês no Japão, boa parte perpetrada pela franquia Gundam, para surpreender quem esperava estar vendo mais uma reciclagem. É um truque funcional quando todo mundo já está familiarizado com o gênero e não espera nada mais de novo dele. E os animes não tem problema nenhum em produzir dead cribs — ou seja, tomar outras séries conhecidas e introduzir uma variável para fazer dela outra coisa.

Rahxephon: na verdade ele parece Evangelion mas é mais calcado em Brave Raideen.

Na verdade o japonês não tem pudor em ser derivativo. O truque é pegar item a item e trabalhá-lo até fazer dele outra coisa. Rahxephon é um exemplo gritante: elementos individuais estão embaralhados ou pulverizados entre vários personagens e aqueles mais passíveis de serem cópias diretas acabam tomando formas bem próprias*. Mas funciona e ninguém está enganando ninguém: a série é claramente um Evangelion passado a limpo e isso nem é disfarçado**!

Sátiras e paródias dão uma desculpa mais direta para esse tipo de aproximação — Dual! Parallel Trouble Adventure** que o diga — mas lembrar de que nem toda sátira é cômica pode ajudar. E isso nos traz de volta à mesa de jogo, aonde os jogadores sempre pensarão em seus protagonistas como algo visto antes por eles… ou algo que eles gostariam de ver em um anime, ou filme, ou qualquer outro lugar… e será feito por eles, agora, em uma campanha de RPG.

Pra não ficar na lata: UMA personagem aqui não tem correspondente em Evangelion.

Eu recomendo, especialmente em se tratando de jogadores novatos, se aproveitar de conceitos existentes para oferecer um contexto reconhecível. Se a melhor referência dos jogadores for, digamos, Voltron, recomendo realmente apelar para o “esquadrão de elite” com cinco membros e em uma espaçonave para uma missão especial (não, não é preciso o gattai***: eles ficam, na maior parte do tempo, com seus leões e tudo tem tons real robot nesses momentos).

Da mesma forma, se for o citado Evangelion, apele para o projeto secreto com tensões internas. Ou, se for Círculo de Fogo, crie uma missão especial para enfrentar monstros no planeta Inara. Novamente, não é preciso ser original. O importante é não ser descarado, salvo se houver um fator embutido de sátira. Isso facilitará a vida dos jogadores e tornará menos complicada a inclusão futura de conceitos próprios do cenário.

Até a próxima. Divirtam-se.

Não são a Asuka nem a Rei mas… você vai ligar para isso? 😀

* Comparar Rahxephon com Evangelion parece até óbvio em um primeiro momento, mas depois não se mostra tão fácil quanto parece — seus criadores foram espertos: primeiro, a “Misato” é dividida em duas personagens. As relações de parentesco e inter-personagens acabam embaralhadas. E aquela com mais sintomas iniciais de uma potencial Asuka (Tsundere, “ele não é meu namorado”, etc.) acaba enterrada no papel de bridge bunny e sai do caminho, graças a Deus!
** Se vocês duvidam, apenas comparem os capítulos um de ambas as séries.
*** As junções de veículos ou robôs para fazer um super-robô maior. Tem no 3D&T Alpha.

IMAGEM DO CABEÇALHO: Dual Parallel Trouble Adventure. É o Shinji genérico sendo amolado pela Asuka genérica MAS, como é tudo em nome da zoação, tá de boa.
DISCLAIMER: Code Geass, Dirty Pair, Valvrave the Liberator, Rahxephon e Dual: Parallel Trouble Adventure são propriedades intelectuais das respectivas empresas proprietárias. Imagens para fins divulgacionais ou jornalísticos. Todos os direitos respeitados.

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