Dead Crib (ou “Partindo de uma Ideia”)

Dead Crib é um termo cunhado nos anos 70 pelo time editorial da antologia semanal britânica Action — uma das melhores revistas mix de todos os tempos e uma dessas histórias editoriais trágicas nos quadrinhos: ela foi destruída pela censura britânica, a mesma responsável pelo esmagamento similar da revista Warrior (de V de Vingança e Miracleman) na década seguinte. Os Dead Cribs foram um ingrediente esperto e fundamental na sua receita de sucesso.

O conceito é simples: pegue um conceito popular no momento e apresente uma virada esperta, capaz de transformá-lo em uma coisa completamente nova aos olhos dos leitores. Um dos maiores sucessos na Action foi a série Hook-Jaw (cujo sucesso entre o público infantil deflagrou a intervenção do judiciário contra a revista). O conceito popular? Tubarão, estourando nas bilheterias de todo o planeta à época. A virada: e se o tubarão fosse o protagonista?

Para servir de exemplo mais próximo: Tormenta tem muitos Dead Cribs e, embora hoje se tenda a questionar essa linha de roteiro, a origem do vilão Camaleão foi bem sacada. Ao romper com o clichê da elfa loura, bela e distante violada por humanos sujos — a própria imagem da pureza conspurcada — e inverter a equação, a superioridade moral élfica foi contestada. Elfos não são tão diferentes dos humanos e esse ato de violência nos diz algo sobre eles.

Arton, cenário de Tormenta RPG: um lugar pouco saudável para os elfos. E isso faz parte da sua identidade.

E há uma zona de conforto rompida aqui. Muitos jogadores de Tormenta acostumados com versões mais tradicionais dos elfos, desejosos de vê-los recolocados ao “seu devido lugar” em seu cenário favorito, pedem por uma virada de mesa — mas esses seres, moralmente falhos e ferrados na vida graças à própria soberba, são assim por um motivo: representam um diferencial! Reverter isso faria deles elfos como todos os outros. E não, isso não valeria a pena.

Brigada Ligeira Estelar, assim como Tormenta, tem vários deles — na maioria referenciais ao seu gênero inspirador e à ficção científica em geral. Seu elemento heróico foi pensado como um diferencial em meio a um subgênero repleto de tons cinzentos (e eles estão presentes. A mudança foi a ótica: a ideia é enfrentá-los). Como bom dead crib, Brigada foi além de seu gancho de virada conceitual com o tempo. Mas, de novo, ele está longe de ser o único.

Sim, homenagem. Mas admito: não resisti a postar essa belíssima abertura aqui.

É fácil traçar as inspirações conceituais, digamos, das Agentes da BRISCA. Elas são uma homenagem óbvia à Dirty Pair — com um twist: seu comportamento é fruto de insanidade funcional. Elas são o fruto de modificações genéticas oferecidas a jovens em situação pavorosa na infância, fazem serviços sujos pelo preço mais alto e a BRISCA, graças ao alto retorno financeiro, investe pesadamente em suas agentes. Ou seja: elas não fazem parte dos mocinhos.

Tudo em Brigada veio de algum lugar, eu costumo dizer, mas nem tudo no cenário é um dead crib calculado — a combinação de todos em um mesmo espaço costuma gerar desenvolvimentos diferentes. Um autor precisa se dar ao trabalho de trabalhar a evolução própria desses conceitos: eles tendem a ir bem longe e eventualmente se distanciar em algum grau de suas inspirações. O Juiz Dredd da 2000 A.D. britânica (sucessora sci-fi da Action) é um bom exemplo.

“Circulando, bando de vagais, ou ponho vocês nos isocubos por encher meu saco!”

Dredd surgiu como um dead crib futurista de filmes policiais populares em seu tempo como Dirty Harry. Se identifico um gancho mais visível para além de sua mudança de contexto é o fato de, nesses filmes, o policial durão e violento ser mal-visto enquanto nesse futuro, ele é uma norma — mas com o tempo, toda uma complexa mitologia se aglomerou ao redor do personagem (recomendo este como ponto de partida). Ele já foi muito além do conceito inicial.

Isso nos leva a um trunfo concreto: Dead Cribs nos oferecem um aceno de familiaridade quando uma obra nova nos é oferecida. Temos mais segurança ao nos arriscar — mas, ao mesmo tempo, ela promete não ser necessariamente mais do mesmo. E The Orville é bem isso. Ele não é uma paródia de Jornada nas Estrelas (algo surpreendente vindo de seu criador, Seth MacFarlane — o mesmo de Uma Família da Pesada). Ele é um Dead Crib — e nem é um Dead Crib sutil!

Isso não é Jornada nas Estrelas. Eu acho.

Na verdade, The Orville é uma série de Jornada nas Estrelas (tomando como base a safra de Nova Geração, Deep Space Nine e Voyager) com números de série riscados. E ele faz questão de ser percebido como tal, podem reparar. O gancho de virada é simples: toda série de Jornada tem episódios humorísticos periodicamente, sem nunca comprometer o discurso por trás do cenário. Orville é apenas uma série aonde elas são a norma, não a exceção — e nada mais.

Por fim, Dead Cribs pertencem à própria natureza de um RPG. Essa é uma mídia aonde a derivatividade é abraçada e até estimulada — muitas vezes, um jogador na hora de determinar o conceito de um personagem nos virá com um “Quero jogar com o Riddick. Com olhos esquisitos e tudo. Tem como encaixar?” O personagem vai sofrer algumas adaptações para o cenário, claro, mas… por que não? Foras-da-lei durões também fazem parte da Constelação do Sabre, ora!

“Você não está com medo do escuro, está?”

Igualmente, um cenário precisa ser aberto desde o começo a esse tipo de possibilidade e carregar, sempre, esse mesmo espírito. Todo cenário atual de fantasia medieval com anões, elfos e halflings é um dead crib do Senhor dos Anéis de quarta ou quinta geração — dead cribs de dead cribs de dead cribs — e não há absolutamente nada de errado nisso, conquanto você consiga introduzir um gancho bem-pensado, capaz de infundi-lo com personalidade própria.

Após sete longos anos, eu posso defender a personalidade própria de Brigada Ligeira Estelar. Ele veio de princípios derivativos — da minha relação pessoal com a ficção científica animada japonesa e do seu histórico como gênero, com robôs gigantes, grandes belonaves disparadoras de raios e protagonistas impulsivos — mas, do meu lado, sempre trabalhei duro na sua coerência interna e o novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG é fruto concreto desse esforço.

Se essa imagem trouxe a você associações mentais antes de criar um personagem, tivemos sucesso.

Na verdade eu tenho uma teoria simples: todo bom cenário de RPG é um Dead Crib ou um guarda-chuva para vários deles. E podemos até ir mais longe: Guerra nas Estrelas, o de 1977, voltou-se para as velhas matinês de cinema dos anos 30 e 40 (digite o nome “Buster Crabbe” no google — ele interpretou Buck Rogers e Flash Gordon). E incluiu na receita as viradas de gancho certas para uma nova geração.

Viram aonde quero chegar?

Divirtam-se e até a próxima.

Não pusemos imagens de Hook-Jaw no topo deste artigo por razões de violência excessiva, então fiquem com um simpático tubarão branco.

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