Em uma Galáxia muito Distante…

Uma memória de infância: ganhei aos onze anos um “livro ilustrado” com a adaptação literária do primeiro filme (de Alan Dean Foster, aqui trabalhando como ghost writer: o livro foi creditado ao George Lucas mas, na época, eu não tinha como saber). Na verdade, aquilo foi publicado como uma revista — com lombada canoa e formato magazine — e as imagens do filme enchiam meus olhos. Infelizmente, ela não resistiria ao tempo e às releituras constantes.

Retomei meu contato literário com Star Wars graças à Editora Aleph. Infelizmente ela encerrou suas atividades com a marca este ano. Uma pena. Eles fizeram um belíssimo trabalho e publicaram vinte e oito livros com a marca — alguns dignos de nota e outros nem tanto — mas no geral bons, no sentido de dar ao leitor o que prometeram. Infelizmente algumas séries foram interrompidas, como a decalogia X-Wing, mas a vida é assim mesmo e o baile continua.

A animação japonesa não seria a mesma sem o impacto de Guerra nas Estrelas, o primeirão de 1977 — e BRIGADA LIGEIRA ESTELAR, sendo inspirada nas grandes sagas épicas da ficção científica japonesa, não poderia fugir a isso. Aproveitando o barulho do novo longa da franquia, encerrando a nonalogia iniciada há quatro décadas, selecionaremos cinco livros do universo expandido de Star Wars, todos úteis como referência para mestres de jogo. Divirtam-se.

MARCAS DA GUERRA, de Chuck Wendig: um dos marcos zero do novo Universo Expandido de Star Wars (os anteriores, agora apócrifos, ganharam o selo Legends). O império caiu mas ainda não está morto — e alguns de seus figurões articulam sua reconstrução. Um grupo de aventureiros se forma ao acaso e tromba com o inimigo no processo. Essa parte é divertida, os personagens são clichês simpáticos e tudo funciona bem… mas o ouro, aqui, está nos interlúdios.

Explicando: em paralelo à trama principal, temos pequenas histórias mostrando as consequências da queda do Império ao longo da galáxia. De criminosos com artefatos terríveis em mãos à piratas espaciais aproveitando o caos institucional para amealhar poder, elas são uma fonte inestimável de ideias para um mestre de jogo em qualquer RPG de space opera. Infelizmente Wendig não manteve o nível nos livros seguintes — mas o primeiro continua muito bom.

UM NOVO AMANHECER, de John Jackson Miller: o primeiro livro do novo cânone. Ao lado do “Marcas” de Wendig, é uma de suas pedras fundamentais e um prelúdio para a série Rebels, trazendo o encontro dos personagens Kanan Jarrus e Hera Syndulla. Em um planeta industrial, o Conde Vidian é responsável por manter a extração de metal em alta para o Império. Porém, quando seu posto é ameaçado, seus planos desesperados podem destruir o planeta no processo!

Miller tende a pesar a mão no worldbuilding mas, quando engata, gruda até o final. “Amanhecer” tem de tudo: astrofísica de botequim, heróis dispostos a salvar mundos, vilões malvados e caricatos na medida certa (Vidian é um achado — reparem na sátira social ao redor de sua figura: ele é o CEO perverso popularizado na mídia por discurso motivacional barato e, de quebra, é descrito na prática como uma action figure ambulante)… o que mais é preciso?

ESQUADRÃO ROGUE, de Michael Stackpole: o primeiro da decalogia X-Wing, de Stackpole e Aaron Allston. Eles se focam em dois esquadrões de pilotos comandados por Wedge Antilles (o arroz de festa do cenário) — Stackpole cuida do Esquadrão Rogue e Allston toca o Esquadrão Wraith. A ideia é “Top Gun no universo de Star Wars” e… bem, é isso mesmo. O primeiro volume mostra a formação de um novo time após as baixas da Batalha de Yavin (no filme de 1977).

Historicamente ele é importante por ter sido o primeiro livro de Star Wars protagonizado por personagens próprios — mas para jogadores e mestres de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR, é uma leitura preciosa: ases impulsivos em uma guarda com ativo simbólico (e por isso transformada em um alvo pelas forças do Império), temos política interferindo na formação e missões do grupo… e Stackpole sabe muito bem como escrever combates “aéreos” no espaço. Imperdível!

TARKIN, de James Luceno: essa história corre em duas linhas de tempo — uma no passado, narrando a ascensão de Wilhuff Tarkin (o personagem de Peter Cushing no longa de 1977) ao posto de Grande Moff e comandante da Estrela da Morte… e outra no presente, mostrando sua caça a uma belonave imperial tomada por insurgentes. Mais cerebral e menos aventuresco do que os outros citados, mas creiam: é um dos melhores livros de Star Wars publicados por aqui.

Para mestres e jogadores de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR, ele é uma ótima referência para caracterização dos vilões, uso de política em suas campanhas e até para a representação de antagonistas: Tarkin veio de elites regionais e, nos grandes centros, foi visto como provinciano. Sua… natureza é mais uma construção social — combinando ambição pessoal e banalização sociológica do mal — e menos alguma grande maldade inerente. Friamente, isso é assustador.

BATTLEFRONT — COMPANHIA DO CREPÚSCULO, de Alexander Freed: pessoalmente, eu o acho o mais… bem escrito dentre os livros de Star Wars publicados por aqui. Diferente dos demais, alinhados à space opera, este é abertamente uma ficção científica militar — e nesse sentido, é mais próximo a Rogue One do que aos filmes da trilogia principal. Embora tenha sido criado como divulgação do videogame homônimo, nem parece: ele tem alma e se sustenta muito bem.

A história acompanha o 61º regimento de infantaria das forças rebeldes, conhecidos como Companhia do Crepúsculo. O personagem principal é Hazram Namir, um sargento seco e desencantado que se uniu à rebelião apenas para sair de seu mundo hostil e carrega um bocado de desapego para continuar lutando (evitem se apegar demais aos personagens, só digo isso). Isso não impede a obra de trazer uma discussão sobre idealismo embutida na trama. Vale a pena.

Para os interessados, deixei os links de compra nos títulos de cada livro — com o encerramento das atividades da Aleph com a franquia, os preços despencaram, então recomendo correr atrás. Há altos e baixos no geral e, por isso mesmo, evitei fazer listas de melhores e piores, preferindo me focar no material mais interessante para mestres de jogo. Tomei como recorte o material da Aleph mas posso falar de outras editoras em outro momento, quem sabe?

Cheguei a pensar em falar mais sobre a influência de Star Wars na animação japonesa, mas fica para outra oportunidade — o artigo ficou um tanto longo. De resto é isso, pessoal — vamos ter uma pausa de duas semanas neste blog (quem vai ler nossas postagens logo após as festas de final de ano? É só conferir o calendário) e voltaremos no dia 9 de Janeiro. Até lá, boas festas — desejo a todos um 2020 promissor… 

… e que a Força esteja com todos vocês.

7 comentários

  1. Uma pequena correção – que mané Top Gun, Esquadrão Rogue é a ÁGUIA DE AÇO/Comando Delta do Universo Guerra nas Estrelas! Top Gun é icônico, mas está muito aquém a nível de representação! 😛

  2. Você leu Lost Stars (Estrelas Perdidas no Brasil)?

    Eu sinceramente acho o melhor livro do novo cânone. Ele não foi publicado pela Aleph no Brasil, mas pela Seguinte.

    A história é bem novelesca e acho que casa bastante com o clima de BLE. Além do que a Claudia Gray manda melhor que o Wendig no novo cânone (eu particularmente acho a trilogia Aftermath um desperdício de potencial enorme, frustante pra dizer o mínimo… nem o primeiro livro me pescou e li tudo mais na “obrigação”).

    1. Meu problema com a trilogia Aftermath foi quando o Wendig decidiu enfiar desenvolvimento de personagem aonde ele não cabia — e começou a arrastar tudo. Mas eu gosto bastante do primeiro por ser bem fechado, no bom sentido, e pelo monte de ideias jogadas para todos os lados.
      Quanto ao Estrelas Perdidas, ainda não li o livro, mas li a adaptação japonesa em mangá. E realmente se encaixa bastante em tom. Mas a julgar pelo que li, acho difícil ser melhor do que Battlefront.

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