Space Opera: Uma Mulher Mais Bela.

Idealmente a Terra deve estar em perigo, deve haver uma busca e um homem presente na hora mais decisiva. Tal homem deve confrontar alienígenas e criaturas exóticas. O espaço deve fluir pelos portos como vinho de um jarro. O sangue deve correr pelos degraus do palácio e as naves devem ser lançadas nas profundezas sombrias. Deve haver uma mulher mais bela que os céus, um vilão mais sombrio do que um Buraco Negro e tudo precisa dar certo no final.”

Sim, a seção Space Opera — guiada pela definição precisa do escritor britânico Brian W. Aldiss — está de volta em sua antepenúltima edição. Aqui, vamos levantar um aspecto necessário de se observar, nos dias de hoje, com certa delicadeza: o interesse amoroso que, muitas vezes, funciona como uma força motriz para os personagens. Okay, as abordagens podem mudar nos dias de hoje — mas, sejamos honestos:

Vou começar de forma bem aleatória. Certa vez perguntaram ao Maurício de Sousa (sim, o criador da Turma da Mônica) qual é o segredo de uma história de sucesso. E ele respondeu: “Dinheiro, Violência e Sexo.” Foi um susto, mas rapidamente ele se explicou: O dinheiro é aquele objetivo importante tão buscado pelo personagem, a ponto dele mover mundos e fundos para isso. A violência é o combate aos obstáculos entre ele e esse objetivo. Quanto ao sexo…

Calma aí, campeões, não vamos por esse caminho que vocês estão pensando!

Bem, quanto ao sexo, ele precisa ter algum tipo de paixão humana que o magnetize e o faça agir, sendo talvez (mas não necessariamente) a própria motivação da busca pelo dinheiro. E isso faz muito sentido. Vamos imaginar um personagem simples para um jogador de Brigada Ligeira Estelar RPG: ele é um jovem sem grana ou grandes perspectivas de futuro que se alista na Brigada para sair de seu mundo, reunir uma graninha, ter sua casa própria algum dia…

…e com isso encontrar uma garota bacana algum dia e quem sabe poder ter uma família no futuro. Pronto! Temos o dinheiro (a perspectiva de futuro e sustento), temos a violência (ele vai precisar enfrentar obstáculos para crescer e alcançar seus objetivos)… e temos o sexo, manifestado na figura dessa menina que tecnicamente só existe no plano da teoria (ou um menino, se for mais o interesse do jogador — o gênero não é realmente o ponto neste caso).

Pegaram a ideia? Mesmo o mais inócuo casal de moleques tem essa sombra por trás, sim.

O resto depende claramente das fantasias envolvidas e, sim, isso faz parte da ideação por trás de todo personagem de ficção, não importa a mídia. Reparem quanto o gênero está cheio de mocinhas bem-comportadas, mulheres duronas mas leais, sensuais femme fatales, mulheres cientistas frias por fora mas quentes por dentro… enfim, vocês entenderam. Todas elas encampam algum tipo de desejo embutido do leitor/espectador e vale a pena examinar uma a uma.

Mas lembrem-se: arquétipos são só ferramentas. A riqueza está justamente em combiná-los, subvertê-los e investir em personagens completas, com motivações e agência próprias. A chave é perguntar aos jogadores o que tal figura representa para seus personagens. É um objetivo a se conquistar? Um par para se igualar? Um segredo a se desvendar? Um lar a ser proteger? Lembrem-se: o coadjuvante coadjuva e ele é pensado a partir do ângulo do protagonista!

Convenhamos, sem uma princesa a ser salva, não teríamos história aqui.
Convenhamos, a Misa Hayase de Macross é o próprio paradigma da durona.
Gigi Andalucia de Hathaway’s Flash: alguma dúvida de que está escrito “vai dar ruim” só de olhar?
Eureka (Eureka Seven) é um “humano artificial” feito por corais inteligentes (!) e é meio esquisita, mas…

Antes de me acusarem de machismo, francamente: todas elas, ao interagir com um protagonista, afetam a dinâmica da trajetória deste e ajudam a defini-lo. Coadjuvantes servem para isso, não importa sua natureza! O importante é mover a história, mover o protagonista para que se envolva em uma trama maior — e todas elas fazem isso de alguma forma: para o herói, cair nas garras de uma femme fatale, por exemplo, é ser jogado no colo de uma conspiração.

Fa Yuiry (Zeta Gundam): é uma “garota da porta ao lado” melhor do que o protagonista merece.

Da mesma forma, se envolver com uma “Estranha” é trazer um mistério e possíveis inimigos para seus calcanhares. Se meter com uma Cientista pode enfiá-lo em uma trama de protótipos secretos ou coisa que o valha. A “Princesa”? Pode ter certeza, a mera presença dela irá mergulhá-lo em algo grande, perigoso e muito maior do que você. Mesmo a Garota da Porta ao Lado tem serventia narrativa, te dando motivação — ou algum tipo de apoio muito necessário.

Por isso, há tantas deusas cósmicas como a Teresa** de Patrulha Estelar, ou mulheres artificiais como a personagem-título de Eureka Seven, ou inimigas que mudam de lado como a Milia Farina de Macross, ou comandantes linha-dura com um coração como a Misa Hayase da mesma série. Elas são instrumentos narrativos. E funcionam. Eu deveria parar por aqui, mas preciso falar do outro lado da questão: dá pra funcionar invertendo gêneros? Teoricamente, sim…

O Jin Muso de Aquarion Evol é um exemplo perfeito de clichê com gênero trocado***, podem reparar.

Mas tem o fator cultural envolvido e isso, só resolvendo de mesa em mesa. Por exemplo, já notaram o ponto comum que envolve a história do garoto criador de porcos que pega uma espada e vai salvar uma princesa e a história, digamos, de uma Cinderela? Todos envolvem uma diferença de classe. Porém, em contos de fadas sobre “princesas”, geralmente a posição delas é passiva. E, em um RPG, só se exige uma coisa de um personagem jogador: a proatividade.

Um protagonista precisa se mover, e à história, no processo. Isso independe de gênero. Se uma piloto feminina cair nos braços de um espião sedutor, tudo bem. Se ela se apaixonar por um nobre e se juntar à defesa dele por isso, sem galho (embora acho que ela não vá se apaixonar por alguém passivo, mas tudo bem). Se ela sonha em voltar para o namorado de infância na sua cidadezinha, ótimo. Só não fique parada. Por favor.

Até a próxima e divirtam-se.

* Por favor, não peguem no meu pé. Eu reescrevi essa última frase do parágrafo várias vezes para não dar a entender nada digno da quinta série. Quanto mais eu reescrevia, pior ficava. E não, não perguntem.
** Trelaina de Telezart nos Estados Unidos, Trilena no Brasil.
*** No caso, ele ocupa o espaço da garota alien inimiga que desce entre os humanos, se apaixona por alguém e muda de lado. Só que o interesse amoroso dele está longe de ser um personagem proativo, infelizmente.

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Brigada Ligeira Estelar ® Alexandre Ferreira Soares. Todos os direitos reservados.

3 comentários

  1. Especialista Técnico “Masculino” poderia ser um Floricultor e/ou Engenheiro de Plantas de Annelise ou até um Designer de Moda de lá. Me lembro de pelo menos uns dois interesses românticos desses Dating Simulator da vida que são assim.

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