Academias do Sabre: O Mistério da Temporada

Há uma estrutura narrativa onipresente na ficção juvenil das últimas décadas. Ela é tão antiga quanto a ficção investigativa e funciona até hoje: um grupo de jovens em um ambiente fechado (uma escola, um internato, uma academia) se depara com um mistério que se desenrola ao longo de meses dentro da cronologia da história, revelando-se aos poucos através de pistas, encontros fortuitos e investigações nem sempre autorizadas — vocês pegaram a ideia.

No final, um confronto cinematográfico resolve tudo e deixa ganchos para o próximo ano letivo. Chamaremos isso de Mistério da Temporada. A estrutura é antiga, aparece em séries de detetive juvenil desde as dime novels* da virada do século XIX para o XX, chegou à televisão e ao anime sob várias versões dentro do mesmo princípio: temos um ambiente escolar, o mistério move a trama e os protagonistas são os únicos capazes (ou dispostos) a investigar.

Para uma campanha de Academias do Sabre, com personagens cadetes, essa estrutura é extremamente funcional. Ela resolve o problema mais comum de campanhas longas — a falta de um fio condutor para amarrar as sessões — sem exigir que o mestre abdique dos momentos leves, dos torneios, das tretas de conselho estudantil ou das aulas chatas de etiqueta. O mistério está sempre lá, no fundo, esperando para ser puxado quando a trama precisa de um empurrão.

Escadas em um ambiente escuro, com iluminação fraca e paredes deterioradas.
Hora de descobrir segredos em meio a corredores escuros…

A Fórmula Básica

A estrutura se desdobra em três camadas a se entrelaçar por toda a campanha: um incidente inicial para catapultar a trama geral, uma investigação feita secretamente pelos protagonistas (eventualmente porque a situação envolve algum desses personagens de forma indireta e pode complicar sua vida se ninguém fizer nada) — e um inevitável confronto final como payoff por toda a tensão desenvolvida durante esse tempo. É uma fórmula de bolo que funciona:

Personagens em uma caverna sombria iluminada por uma tocha, com paredes de pedra e névoa no chão.
…mas lembrem-se que, embora eles sejam inevitáveis quando o assunto envolve um mistério…
Dois mechas gigantes em combate, um vermelho e outro azul, com raios de energia surgindo do impacto de suas armas.
…este ainda é um cenário sci-fi com robôs gigantes, então faça seu final apoteótico com eles!

Plantando Pistas Sem Entregar o Jogo

O maior desafio do mestre em uma campanha de Mistério da Temporada é calibrar a informação e temperar a trama com arcos menores e subtramas de resolução mais breve, como a graduação dos veteranos, a simulação de guerra entre academias ou o baile da vez (um clássico). Entregar pistas demais transforma a investigação em uma linha reta entediante, mas entregar de menos frustra os jogadores e os faz desistir. O equilíbrio está em três regras simples:

Vista aérea de uma área com três cúpulas grandes e modernas cercadas por árvores. Em primeiro plano, uma construção arquitetônica tradicional com um relógio na torre.
Academias que se prezam, nos animes, são enormes e tem MUITA coisa a se investigar.
Uma entidade futurista com tentáculos de luz azul e detalhes em neon, cercada por uma atmosfera sombria e envolvente.
O que há de tão misterioso nos subterrâneos de uma academia? Esta é só uma possibilidade…

Adaptando

Vamos ser diretos: Brigada Ligeira Estelar tem vários mistérios e fontes de intriga política — mas, ainda assim, este é um cenário de robôs gigantes e não convém enterrar os jogadores em corredores, escutando atrás das portas, quando todos querem é amassar a lataria do inimigo com mísseis e golpes de espada energética. Mesmo assim o Mistério da Temporada pode trazer contornos próprios à sua campanha e aqui vão algumas sugestões de como adaptá-lo:

Uma mão robótica detalhada, com dedos articulados e estrutura mecânica exposta, em um fundo escuro.
Vá saber no que está se mexendo quando o assunto é tecnologia secreta…
Um jovem com cabelo claro e uma expressão preocupada observa seu braço, que está iluminado por um brilho avermelhado, como se estivesse danificado ou em transformação.
Alunos-cobaia são um clássico.
Uma nave espacial futurista com detalhes pretos e verdes, emergindo de uma aura brilhante em um cenário cósmico repleto de estrelas e planetas.
Okay, não precisa ser tão maior assim, mas você é o mestre, a mesa é sua, não tenho nada a ver com isso…

O Ritmo da Temporada

Em uma campanha do tipo, o mistério deve ser um pano de fundo constante, sem dominar todas as sessões ou desaparecer por muito tempo. O mestre pode alternar entre:

Equilíbrio é fundamental. O ideal é que o mistério avance um pouco a cada duas ou três sessões, com pelo menos uma pista nova ou uma reviravolta a cada avanço.

Duas personagens de anime lutando, uma com cabelo rosa em um traje cinza e outra com cabelo castanho em um traje branco. Ambas parecem estar em um ambiente urbano.
Um pouco de vida escolar comum e interação social normal em academias.

O Desfecho

O clímax de uma temporada como esta deve ser memorável, grandioso, com todas as tensões acumuladas explodindo ao mesmo tempo. É preciso ser explosivo!

Não custa lembrar novamente: apesar do componente de mistério, este é um cenário de space opera e robôs gigantes — então garanta os combates no final!

Uma multidão de pessoas vestidas de forma elegante em um evento social, dentro de um salão com iluminação moderna e janelas ao fundo.
O importante é o local estar cheio de gente para complicar mais a vida dos protagonistas!

Só para Encerrar…

Se algo torna o Mistério da Temporada tão poderoso, nas campanhas de Academias do Sabre, é a resolução de um problema intrínseco às campanhas de academia: uma vez resolvidos os conflitos iniciais (a rivalidade com o colega arrogante, o torneio do semestre, conquistar a garota mais bonita), não sobra tanto a se fazer assim, se pensarmos bem. O mistério dá aos jogadores um objetivo de longo prazo para o qual todas as tramas menores podem convergir.

Além disso, o Mistério da Temporada permite ao mestre plantar ganchos para tramas futuras. O culpado da primeira temporada pode ser apenas uma peça de um esquema maior a ser destrinchado. A organização por trás dele pode ser a TIAMAT, e ela pode estar planejando algo que só será revelado na segunda temporada. Assim, cada arco se conecta ao próximo e a campanha ganha uma sensação de continuidade que poucas estruturas narrativas conseguem oferecer.

Mecha amarelo em movimento, segurando uma arma, em um ambiente futurista com estrutura metálica.
E só relembrando, galera: NÃO SE ESQUEÇAM NUNCA DOS ROBÔS PILOTÁVEIS DE COMBATE!

Não é preciso ir tão longe assim para perceber de onde essa estrutura veio, especialmente se os personagens se demorarem mais na academia. No final, quando todos se formarem — isso vai acontecer um dia —, eles terão vivido uma história completa, com começo, meio e fim. Terão feito amigos, enfrentado inimigos, desvendado segredos e, talvez, salvado a academia — e a Constelação — mais de uma vez. Afinal, é para isso que servem as escolas de heróis.

Só mais um detalhe: caso isso se torne uma campanha realmente longa (sugerimos temporadas de treze episódios, como tem sido o formato padrão nos animes exibidos nos canais de streaming, hoje em dia), lembre-se de que na Brigada, após saírem da academia, os personagens tendem a ser mandados para mundos diferentes. Ou seja, todos vão se separar. Então é bom pensar na última temporada como um final definitivo.

De resto, até a próxima… e 13 no domingo!

Grupo de personagens em trajes brancos e pretos, todos com uma expressão séria e mãos sobre o coração, em um fundo escuro.

* Livros de ficção populares e baratos, publicados nos Estados Unidos entre o final do século XIX e o início do século XX. Tinham esse nome por conta do preço (dez centavos de dólar) e na Inglaterra eram conhecidos como Penny Dreadfuls (por custarem um Penny só). Eles acessibilizaram a leitura às classes trabalhadoras e trouxeram, além de aventuras no velho oeste e histórias de detetive, material juvenil sobre garotos aventureiros.

** Pode ser um festival cultural, uma festa de fim de ano, a premiação dos vencedores de um torneio… logo a gente fala disso.

*** Um dos melhores exemplos veio de um dos meus livros favoritos da pré-adolescência, “Um Cadáver Ouve Rádio”, do Marcos Rey, na clássica Coleção Vagalume (aviso de spoilers). O assassinato da vez foi cometido por uma adaga chinesa, um elemento completamente aleatório e que trazia estranheza ao que parecia ser um latrocínio comum. Tudo parecia um crime banal, desses lidos e esquecidos nos jornais. Bem mais para o meio do livro, temos um chinês envolvido e de repente esse elemento incomum parecia apontar para algo, não? Bem, não. Descobrimos que o “chinês” era apenas um vendedor de material contrabandeado e que a “misteriosa adaga chinesa” não passava de um brinde oferecido aos clientes no fim do ano. A faca simplesmente foi usada por estar à mão do assassino naquele momento, nada mais, e poderia ter sido uma faca de cozinha comum, sem fazer a menor diferença.

DISCLAIMER: Mobile Suit Gundam — The Witch from Mercury pertence a Bandai Namco Filmworks Inc.; Hundred pertence a Jun Misaki e SB Creative/Hundred production Committee; The Irregular at the Magic High School pertence a Tsutomu Satō e ASCII Media Works; Reign of the Seven Spellblades pertence à Bokuto Uno (ASCII Media Works) via J.C.Staff Co., Ltd.; World Break: Aria of Curse for a Holy Swordsman pertence à Akamitsu Awamura-SB Creative Corp. / WBP; Metal Skin Panic Madox-01 pertence a AIC Rights Company, Inc. (direitos originais da hoje extinta Sōeishinsha Company) e Pony Canyon, Inc.; Tengen Toppa Gurren Lagann pertence ao Studio Trigger (Trigger, Inc.). Imagens usadas para fins jornalísticos e divulgacionais, de acordo com as leis internacionais de Fair Use.

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