Por Trás do Sabre: Alabarda

Alabarda não nasceu realmente de referências originárias das animações japonesas ou de vertentes da ficção científica — mas se ajustou muito bem a elas. Na verdade, esse mundo acabou surgindo por… acidente: eu precisava povoar minha Constelação e havia lido à época livros sobre a Guerra Civil Espanhola. Paralelos claros com os descaminhos da América Latina me saltaram à mente e daí, para esses elementos espirrarem sobre o Sabre, foi um mero pulo.

Pessoalmente, gostei do resultado mas entendo bem o motivo pelo qual este se não se tornou um dos mundos mais queridos entre os jogadores do cenário. Enquanto muitos conflitos internos no Sabre tem um verniz aventuresco e suas divisões são delimitadas com clareza, Alabarda nos joga em terreno desconfortável — e perigosamente familiar a nós. Ele nos traz algo muito incômodo. É um mundo de instabilidade institucional. Há uma sombra asfixiante aqui.

O capítulo sobre Alabarda em A Constelação do Sabre, Vol.1 (AQUI) é claro quanto a isso mas nos traz uma questão: como os animes de robôs gigantes se encaixam conceitualmente, em termos referenciais? Bem, se Annelise pode ser definido como “O Real Robot de Tadao Nagahama”… Alabarda seria, nesses termos, “O Code Geass pseudo-latino de Ryōsuke Takahashi” — e quem chegar de pára-quedas certamente não vai pegar o ponto. Calma, calma, a gente explica!

Gasaraki: uma mostra dessa visão mais sóbria do gênero, trazendo consigo temas
reais e explosivos da atualidade. Infelizmente, Evangelion estava em voga e…

Referências Iniciais

Em termos de importância para o gênero, Takahashi só perde para Yoshiyuki Tomino (Gundam) e Shōji Kawamori (Macross). Criador de séries como Dougram, Gasaraki e Flag, ele deu o pontapé inicial nas abordagens mais realistas do gênero, se aproximando muitas vezes dos conflitos reais de seu tempo (Dougram foi inspirado no clássico do cinema político A Batalha de Argel, inclusive). Não é sua única faceta* mas talvez seja a mais importante neste caso.

Pense nessa abordagem histórica e geograficamente próxima de nós: conflitos urbanos, atentados terroristas, execuções… Em campanhas com peso maior da nobreza, a política feita à bala pode dar as caras (especialmente quando há interesses empresariais na jogada). E tudo com robôs gigantes, embora sua abordagem tenda a ser mais… sóbria. Esse aspecto não deveria ser obrigatório para mestres ou jogadores — cada grupo conhece o tom da própria campanha.

Por “terrorismo”, você espera milícias armadas com robôs gigantes —
e aí algum desgraçado deixa bombas no metrô…

Gundam 00 também levantou discussões sobre terrorismo mas o ponto é a sombra do real sob contextos de ficção científica, a discussão de temas difíceis e explosivos… e se esta faceta está presente em uma vertente nos animes de robôs gigantes, também deveria ter seu lugar no cenário. Como Alabarda puxa conceitualmente todos esses fatores, pensem na prisão de Pinochet, na luta contra os pactos del olvido, nas acusações mútuas após o 11-M na Espanha…

Animes como Code Geass ou Guilty Crown (é, eu sei) podem servir de referência por descrever bem esse conflito entre autoridades e milícias armadas, mesmo tendo um tom menos sóbrio em comparação aos exemplos anteriores (o primeiro capítulo de Geass é muito bom nesse sentido). Mas Alabarda não é o “Império Britânico” e não há nem mesmo um contexto de ocupação aqui: a escalada de violência vem dos próprios Alabardinos. Isso faz a diferença no final.

Sim — Code Geass, com seus excessos, é em muito o oposto das obras de Takahashi — mas
reparem o quanto, sob a capa folhetinesca, é dito sobre a volatilidade de muitas rebeliões.

Alabarda em Jogo

Alabarda vive um momento no qual todos os lados se veem como vítimas e acusam ao outro. Qualquer evento pode ser o estopim para a destruição do pouco de estabilidade institucional existente (e uma guerra civil seria o pior dos cenários: exigiria a intervenção das forças imperiais quando elas são necessárias na frente proscrita). E é claro, isso se dá em um contexto de ficção científica com robôs gigantes, nunca esqueçam. Há muitas possibilidades.

Conspiração: as tramoias e reviravoltas tradicionais do cenário até cabem aqui mas poderão ser menos aventurescas, tendendo mais ao thriller político.

Contra-Terrorismo: milícias se multiplicam neste planeta em ambos os lados e inocentes são postos em risco. É fácil ser arrastado para o fogo cruzado.

Cyberpunk: tecnologia no topo, vida no chão. De novo, a linha divisória entre a rebelião e o terror é fina e há quem corra o risco de andar sobre ela…

Lembrem-se sempre, pessoal: este ainda é um cenário sci-fi com robôs gigantes e
batalhas espaciais — ou seja, todos os demais elementos ainda valem aqui!

Exploração: locais como o Cemitério dos Elefantes** abrem terreno para isso — e as chances de topar com milícias ou jagunços no caminho são bem altas!

Ficção Científica Militar: essa rota é inevitável caso uma milícia armada cresça demais e, para piorar, temos um protetorado nas mãos de uma junta***…

Folhetim Espacial: a natureza desse mundo não o exila do novelesco. Uma guerra no passado? Ódios sociais? Clãs divididos? Lealdades à prova? Perfeito!

Este último item não está aqui à toa: Takahashi passou a seguir por um caminho pseudo-documental com os anos (vide Gasaraki e Flag) mas também foi o responsável por Armored Trooper Votoms e, por trás da sua face de ficção científica militar casca-grossa, temos uma grande mecânica narrativa de folhetim, podem reparar****! Não é preciso tratar tudo com tanta gravidade caso mestres e jogadores não queiram — e cá entre nós, sisudez pode ser um porre…

Guilty Crown: sim, a série tem mil problemas, os robôs pilotáveis são praticamente decorativos…
mas a grande verdade é que provavelmente seus jogadores farão sua mesa parecer com isso. 😀

Como já dito em outra ocasião, referências não existem para ser copiadas: elas trazem caminhos e soluções. Alabarda não é um mundo em guerra civil e muito do papel dos jogadores, aqui, é o de impedir tal catástrofe. Mas ele não deve se limitar a uma faceta: sempre há foras-da-lei, os duelos de sabre e demais elementos tradicionais do cenário ainda estão aqui e o planeta está em uma rota estratégica, envolvendo-o nas tramas maiores da Constelação.

O ponto é sempre a armadilha da institucionalidade e os freios sobre os hussardos imperiais não são tão frouxos sem razões. Os protagonistas precisam de liberdade para entrar em locais nos quais não deveriam entrar — ou enfrentar forças legalizadas sem sofrer grandes punições. A atitude da guarda regencial de Alabarda, a propósito, tende a justificar (não-oficialmente) os atos de nossos protagonistas (Ver A Constelação do Sabre Vol.1, página 12).

As cidades de Alabarda não são zonas de guerra. Elas podem ser agradáveis, preservam
alguns elementos nostálgicos e as pessoas tem vidas normais nelas. E, de repente…

É importante lembrar: as autoridades de nobreza (e muitos cidadãos comuns) tendem a fechar um dos olhos para certas milícias armadas quando há afinidades ideológicas, mesmo quando não há envolvimento direto com elas… sim, tecnicamente eles podem estar limpos! Por outro lado, em meio às divisões da população, trombar com aliados ou simpatizantes é relativamente simples para os protagonistas. Mas as ambiguidades desse mundo sempre podem vir à tona…

… e sempre existe a chance do adversário acreditar estar lutando do seu lado quando na verdade só causa problemas. Talvez ele esteja sendo um amigo leal — e quando os protagonistas estiverem cientes disso, ele já terá ido longe demais. Não é tão fácil quanto enfrentar uma “organização do mal” como a TIAMAT — e se pensarmos bem, essa dualidade é bem presente nas animações de real robot.

A vida não é tão simples em Alabarda. Não mesmo.

Até a próxima.

… BUUUUUUMMMMMM!!

* Takahashi também usou aspectos mais realistas para emprestar credibilidade à tramas mais tradicionais no gênero, como no ótimo SPT Layzner e no não tão bom Blue Gender.
** 
A Constelação do Sabre Vol.1, página 12.
*** O Protetorado da Occitânia ganhará seu próprio artigo no futuro. Basta dizer, por enquanto, que ele é visto como uma ameaça e um centro de articulação para eventos piores na Constelação — e as forças da Brigada por lá vivem uma relação tensa com as autoridades do local.
**** Pessoalmente considero o primeiro episódio de
Armored Trooper Votoms um sério candidato a melhor Capítulo 1 de anime em todos os tempos. Em um episódio só, de forma orgânica, ele apresenta todas as tramas principais da série de uma vez mas as desenvolve, uma a uma, em arcos de capítulos — praticamente sem gordura narrativa em seus 52 episódios!

Imagens e vídeos meramente ilustrativos. Code Geass e Gasaraki pertencem à Sunrise. Zankyō no Terror ao estúdio MAPPA; Guilty Crown à Production I. G.; e Violet Evergarden, que nada tem a ver com o nosso assunto mas deu uma passada por aqui assim mesmo, por Kyoto Animation.
Na imagem de topo, Patlabor 2 de Mamoru Oshii. Não é uma escolha comum para Alabarda, mas este longa em especial lida com esse tipo de paranoia — e quando tanques vão para as ruas, algo de ruim certamente deve acontecer…

2 comentários

    1. Uma saída para isso é o mestre pensar em referenciais externos, mas que possam trazer esses paralelos para a mesa. Z, de Costa-Gavras, é ambientado na Grécia mas pode ser um bom ponto de partida em termos de thriller político. Citei animes como Gundam 00 não sem motivo (e olha que eu estava tentando maneirar quando o assunto é Gundam, porque eu estava citando a franquia demais). E Brigada ainda é um cenário de ação, o que sempre faz a diferença.

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