Piores Jogadores (com Mechas) — 07/01/21

Os Piores Jogadores (com Mechas) estão de volta, abrindo 2021 com mais uma leva de maus comportamentos dos jogadores à mesa e seus análogos em desenhos animados de robôs gigantes! Como dei uma pausa para as festas de fim de ano e a cada interrupção há sempre perda de leitores… apelei, obviamente, para uma das nossas seções de maior audiência em nosso retorno às atividades!

Sim, é muita cara-de-pau da nossa parte mas, embora essa seção seja um serviço de utilidade pública, desde quando ela se leva tão a sério? É rir pra não chorar: só quem já lidou com tipos assim sabe como essa experiência pode ser um horror… embora em alguns casos (e com algum trabalho) tudo possa ser posto nos eixos, com bons resultados. Consertar é melhor do que expulsar.

E repetindo, vocês sempre podem ler nossas postagens anteriores (AQUI). Os piores tipos de jogadores são eternos: sempre voltarão para pegar nosso pé.

Seja um samurai nos dias de hoje e impressione as meninas —
mas ponha uma roupa, pelo amor de Deus!

O Isekai Reverso*

Fantasia medieval é o feijão com arroz dos RPGs e muita gente nem pensa em experimentar outros gêneros: esses poderiam passar a vida inteira só debulhando monstros em castelos, sem problemas. Por esse motivo, quando são chamados para jogar em ambientes fora desse espectro, ou se sentem perdidos… ou aplicam a lógica de um cenário pseudo-medieval (aonde a ordem é invadir e sentar o sarrafo) em ambientações aonde isso tem consequências complicadas**.

Nos animes: Kennosuke Tokisada Ouma***, de Kuromukuro. Essencialmente, ele é um samurai da Era das Guerras (Sengoku) jogado no século vinte e um — e, despojado de muitas frescuras atuais, consegue abrir caminho na base da técnica, da ação direta… e da força bruta**** (no caso, com o robô Kuromukuro do título). Infelizmente, Kennosuke só presta para isso: deslocado em nosso tempo, ele só causa dores de cabeça quando está longe da cabine de piloto.

Como lidar com um Kennosuke na sua Mesa? Sendo paciente em um primeiro momento. Pense em analogias simples da fantasia para a ficção científica quando possível (“os proscritos são uma horda de bárbaros berserkers”, por exemplo) e — se possível antes mesmo de montar os personagens — apele para a boa e velha sessão de filmes com os amigos. Vai ser mais fácil para ele se encaixar tendo referências práticas e, em grupo, isso tende a funcionar melhor.

Exagero tem PODER! Mas reparem no detalhe: em boa parte das
suas aparições, ele estava com as barbas de molho…

O Otaku

Esse é fã e, esperamos, conhece o gênero bem (ou razoavelmente). Isso é uma alegria para o mestre: não é preciso explicar tanto sobre a natureza do cenário… algum desenho animado de referência ele assistiu! O problema começa quando ele confia demais nos clichês, criando expectativas para a campanha e cobrando-as do mestre (“no desenho tal é assim”), podendo se decepcionar quando as coisas caminham de forma própria ou ser negligente no fator jogo.

Nos animes: Gai Daigouji, de Martian Successor Nadesico. O melhor personagem da série, a ponto de muita gente parar de assisti-la quando ele… AHAM! Essencialmente, Gai é um fã hardcore de animes de super-robô e, ao se deslumbrar com o sonho de uma vida, passa a agir como um fugitivo dos velhos animes de Nagai ou Ishikawa — com frases de efeito, postura dramática 100% do tempo e muita canastrice! Infelizmente, ele estava em uma série real robot e…

Como lidar com um Gai na sua Mesa? Na verdade ele pode se tornar a melhor coisa de sua campanha com o tempo, sem brincadeira. Caso ele seja um iniciante nos RPGs, atraído pelo tema do cenário, ajude-o a montar uma ficha capaz de sobreviver às suas eventuais mancadas. E se ele vier com “no anime x é assim”, use seu conhecimento de referências para rebater (“mas no anime y é assim e isso combina melhor com o tom do cenário”). Tenha jogo de cintura!

Lynn Minmay, de Superdimensional Fortress Macross:
Maior plot armor não existe.

A Queridinha

Mestres de jogo são seres humanos e podem não resistir à ideia de trazer seu interesse amoroso para sua sessão de jogo nos finais de semana. Mas ele não quer irritar a moça ao fazer seu papel de mestre (ou seja, colocar a vida dos personagens-jogadores em risco). Assim, ela visivelmente é protegida nas rolagens de dados — enquanto os demais personagens se ferram todos — e, claro, eles não vão gostar nada disso, criando um mau clima a longo prazo.

Nos animes (no caso, nos mangás): Lynn Minmay, de Macross: The First. Desde o princípio ela já contava com uma armadura de roteiro ao redor, no desenho animado***** — mas, nesta adaptação inacabada****** para os quadrinhos, a montagem parece privilegiar a presença da personagem a ponto de atravancar uma trama clássica e aprovada pelo tempo como se esta fosse reduzida a veículo para o desempenho da moça. Imaginem algo assim na mesa de jogo.*******

Como lidar com uma Minmay na sua Mesa? Na verdade a culpa aqui não costuma ser dela, mas do mestre de jogo. Tudo bem ele trazer sua namorada ou alvo de interesse amoroso para a sessão, mas é importante deixar claro desde o início como tudo funciona e tratá-la como qualquer outro jogador — basta ter com ela o devido respeito, sem privilégios. Ela é capaz de preferir assim, pode acreditar. Apenas mantenha a perspectiva: mesa de jogo é mesa de jogo!

Patrick Colasour é praticamente um personagem de Asterix em Gundam,
sobrevivendo de forma ridícula a todo tipo de massacre…

O Seguro

Esse personagem foi pensado para sobreviver. O jogador fez questão de blindá-lo contra ataques e uma eventual morte mas o preço para isso foi comprometer sua eficiência em combate, limitando-o ao nível necessário mesmo quando seus atributos lhe permitiriam um desempenho até maior. Como resultado, ele não colabora em nada com seus colegas e, muitas vezes, o seu brilho reside em seu lado interpretativo. Para os demais, ele é um companheiro… inútil.

Nos animes: Patrick Colasour, de Gundam 00. Admito, ele é o meu personagem favorito ali e um alívio cômico necessário em uma série muitas vezes sombria, mas convenhamos: se eu fosse um piloto e precisasse lutar ao lado dele, eu entraria em desespero. Seu grande orgulho é ter sobrevivido a todos os Gundams mas jamais abateu nenhum, sendo zoado pelos colegas por conta disso. O seu maior feito foi casar-se com sua oficial superior no final da série!

Como lidar com um Patrick na sua Mesa? O ideal é detectar o problema na construção de personagem e avisar ao jogador. Se o dano estiver feito, o jeito é corrigir tudo em sua evolução. Em RPG, cada personagem cobre algum ponto fraco alheio. Até em fantasia é assim: o ranger conduz o grupo, o ladino abre a porta, o mago ataca a distância, o guerreiro ataca diretamente e o clérigo cura as feridas de todos. Negligenciar isso pode comprometer o grupo.

Okay, precisamos reconhecer: um sem-noção desses pegar logo ela no final é um
GRANDE FEITO, sim — mas isso não vai ajudar a manter o grupo vivo…

Aqui vale enfatizar algo importante: ninguém falou em castrar os jogadores ou impedi-los de jogar com seus personagens como eles desejam. É perfeitamente possível conciliar os conceitos por eles desejados — e devidamente aprovados pelo mestre — com a natureza de hobby coletivo dos RPGs. É preciso agradar a todos na mesa de jogo e para isso acontecer, nenhum personagem específico pode se tornar um obstáculo para os demais. Esta seção é sobre isso.

Consigo ver tranquilamente um personagem como o Gai Daigouji (deslumbrado por realizar sonhos de infância na vida real) e até mesmo um Patrick Colasour (o piloto não tão competente mas esforçado, dedicado — e com muita sorte, para compensar. E ele evolui como piloto no final!). Mas uma coisa são personagens pensados deliberadamente dessa forma. Outra coisa é quando os jogadores são assim. Nesse caso, temos um problema. Pensem nisso.

Até a próxima.

E olhem o lado positivo: pelo menos nos jogos de Super Robot Wars,
o Gai Daigouji está vivo como personagem jogador…

* Isekai é o subgênero dos mangás e animes aonde uma pessoa é arremessada de nosso tempo a um mundo fantástico. Isekai Reverso é quando ocorre o contrário — alguém desse mundo é jogado no nosso. Me pareceu adequado batizar dessa forma os jogadores presos na fantasia medieval e perdidos em ambientações futuristas ou mais contemporâneas…
** Minha história favorita sobre o assunto foi publicada em algum lugar, não sei se foi a Dragão Brasil, mas era exemplar: um mestre habituado a jogar AD&D com os colegas decide ampliar os horizontes e mestrar algo diferente — no caso, Call of Chtulhu. O jogador mais hack’n’slasher do grupo decidiu jogar com um gângster. Essencialmente, os personagens deveriam entrar em uma casa aonde certamente nos depararíamos com aqueles seres dos mitos lovecraftianos… e o infeliz decide roubar um carro pipa, sequestra um padre e o faz benzer aquilo tudo. Em seguida, ele fica com uma mangueira à espera: se o monstro demoníaco vier, é só disparar água benta e acabar com ele. Depois disso, o grupo só jogou AD&D. Esse jogador é um exemplar perfeito do isekai reverso!
*** Kennosuke está mais para Lenda dos Cinco Anéis do que para o D&D padrão, mas serve bem como exemplo.
**** Na verdade, ele é a versão sci-fi de um tropo clássico dos mangás e animes japoneses — um sujeito à antiga, preservado ou transplantado de alguma forma, mas capaz de fazer o necessário em um tempo no qual ninguém tem mais a fibra para isso. Cortesia do mangá de beisebol Samurai Giants, de 1973, criado pelo grande Ikki Kajiwara (o mesmo de Ashita no Joe). Nele, um garoto criado isoladamente do mundo guarda os valores samurais e treinos — e os leva para um time escolar de beisebol, conduzindo a todos para a vitória. Esse tema já foi muito reciclado, podem verificar.
***** É só contabilizar toda a trajetória da menina até o concurso Miss Macross: primeiro, ela sobrevive a uma queda em altitude extrema e é pega pelas mãos de um veritech (em Macross Frontier, assume-se que Ranka só não teve os tímpanos estourados na mesma situação por sua herança genética Zentradi. Tudo bem, isso foi retroativo, mas criou-se um problema: como Minmay NÃO teve seus tímpanos estourados?). Depois disso, ela foi salva por Hikaru/Rick naquele salto espacial desastrado — lembram da cabeça gigante de peixe? Por fim, ela foi eleita vencedora de um concurso na qual ela tinha poucas chances simplesmente por ser a favorita dos soldados frequentadores do restaurante chinês aonde ela trabalhava — e eles compareceram em peso! Assim, ela se torna a voz salvadora e heroína suprema da humanidade contra a ameaça de extinção. Maior plot armor não existe.
****** Macross: The First foi a tentativa de aplicar a comercialmente bem-sucedida fórmula da revista Gundam Ace para a franquia Macross, puxando uma antologia temática (a Macross Ace) com uma recontagem da série original em quadrinhos com a participação do seu artista original. Infelizmente, a revista tinha problemas e foi cancelada com apenas nove edições. Macross: the First foi para a Newtype Ace, igualmente cancelada, migrou para a antologia online Comic Walker da Kadokawa e… foi chutada. Por fim, Mikimoto fez um reboot dessa série (Macross: the First — Reboot) na página de quadrinhos online Cycomics e lá ela melhora muito, resolvendo inclusive o excesso de Minmay (que transformava a trama original praticamente em veículo para sua trajetória de ascensão) e rediagramando tudo de forma muito mais intuitiva para o leitor. Infelizmente, a série entrou em hiato quando emparelhou com a versão original e… está sem teto mais uma vez. A propósito, vocês leram o reboot de Robotech, nos quadrinhos pelo Simon Furman? Está bacana!
******* Por outro lado, já vi mestre de jogo trazer alvo de interesse amoroso para o grupo e ser recompensado com um casal se formando entre ela e outro jogador. Aí temos o risco de ter um par de insaciáveis na mesa — e isso é muito pior…

DISCLAIMER: Kuromukuro é propriedade da P.A. Works, Macross é propriedade da Satelight, Inc., Gundam 00 é propriedade da Sunrise, Inc. e Martian Successor Nadesico é propriedade conjunta daTV Tokyo, Yomiko Advertising e Xebec. Imagens apresentadas aqui para fins de divulgação e os direitos originais não estão sendo infringidos.

10 comentários

  1. “Os personagens deveriam entrar em uma casa aonde certamente nos depararíamos com aqueles seres dos mitos lovecraftianos… e o infeliz decide roubar um carro pipa, sequestra um padre e o faz benzer aquilo tudo. Em seguida, ele fica com uma mangueira à espera: se o monstro demoníaco vier, é só disparar água benta e acabar com ele.”

    Rapaz, esse é bom, heim! Como jogador que joga “para ganhar”, o cara é de alto nível, heroico, épico!

    Considerando outros quesitos, ele pode ser bom ou ruim. Depende da interpretação. Rá!

      1. Alex, essa história de Call of Chtulhu eu tenho quase certeza que saiu em uma Dragão Dourado. O que entrega a sua e a minha idade, velhão!
        Outra coisa, dá para recuperar os textos da Maximum Cosmo? Lá tinha material que não tem o direito de se perder no tempo. Infelizmente, só guardei o texto de Ideon…
        Abraços de um comprador de todos os números de Ação Magazine! lançados.

        Elrik de Melniboné

      2. Olá, Stefan! Bom, realmente estamos ficando todos velhos…
        Mas quanto aos materiais do velho Maximum Cosmo, aquilo é passado para mim. Eu precisaria manter uma conta, abrir um .com — é muito trabalho por algo do qual já me distanciei. É preciso seguir em frente… mas obrigado. 🙂

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