Por Trás do Sabre: As Luas de Dabog

Dabog é um caso muito especial em nosso cenário: ele nasceu fora de planejamento, para um artigo da Dragão Brasil, e agora vai ser incluído no novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG como um dos mundos “básicos”. A ideia por trás dele, no artigo, foi simples: mostrar como a ambientação pode ser expandida pelos jogadores… e se algum mundo não apresenta o perfil ideal para sua campanha, invente luas em gigantes gasosas! No entanto, terminado o tal artigo…

…tínhamos um novo local no cenário. E não apenas um: seis. Dabog é uma gigante gasosa, modelada criativamente a partir do planeta Júpiter como o conhecemos. Aqui entra um pouco de planetologia: gigantes gasosas deveriam ter se tornado estrelas, mas lhes faltou massa para isso (e se conseguissem, talvez se tornassem apenas Anãs Marrons*, como um bolo solado no forno). Porém, esse processo gerou mundos ao redor delas — agora reduzidos à meras luas.

Mas em seu papel de proto-estrela, gigantes gasosas ainda emitem radiação e calor — e com a energia de sua estrela principal, talvez possamos pensar em uma extensão menor da zona vital de um sistema solar. Não é perfeito, mas com a ajuda providencial da ficção científica, algumas dessas luas podem ser terraformadas e se tornar habitáveis. Assim nasceram as luas de Dabog e, com elas, veio o trabalho de povoá-las. Paciência. São os ossos do ofício.

Galaxy Ciclone Braiger: primeira parte da trilogia J9, com alguns
elementos científicos para aventuras no sistema solar.

Referências Iniciais

O referencial inicial mais óbvio são as duas primeiras séries da trilogia J9: Galaxy Cyclone Braiger e Galactic Gale Baxinger. O primeiro é um referencial ótimo para aventuras em um sistema solar e recomendo pular este e o próximo parágrafo se você quiser fugir dos spoilers: no final de Braiger, Júpiter torna-se uma estrela, fazendo das luas ao seu redor planetas — e não, eles não plagiaram o 2010: Uma Odisseia no Espaço II de Arthur C. Clarke**.

A premissa de Baxinger, por si só, já é um spoiler imenso do final apoteótico de Braiger: seiscentos anos depois, com um mini-sistema solar a ser ocupado, refugiados de nosso planeta chegam em massa… e esses mundos todos se tornam uma terra sem lei, arriscada para todos os seus habitantes. Surge, assim, um novo time J9 para colocar ordem nesses planetas. É uma referência muito boa para campanhas de Brigada Ligeira Estelar como um todo, inclusive.

Galactic Gale Baxinger: segunda parte da trilogia J9, focados no povoamento
de uma nova fronteira planetária no espaço: as Luas de Júpiter.

Mas luas, obviamente, não são planetas. Por sua natureza comparativamente reduzida, preferi apostar em uma abordagem evitada nos mundos principais de Brigada Ligeira Estelar: o planeta monotemático. Você conhece isso de Jornada nas Estrelas: basta partir de um aspecto específico para desenvolver todo o resto. Ilógico, mas narrativamente conveniente em estruturas episódicas, quando você está apenas de passagem e não precisa explorar todo um local.

Mas é claro, há espaço na animação japonesa para esse tipo de abordagem. Pensem na terceira temporada do Patrulha Estelar original… ou em séries como o divertidíssimo Armored Fleet Dairugger XV. Para uma opção menos nômade, jogos como Zone of the Enders (focados em um aspecto básico de ambiente) também são úteis. Para fins de campanha, não são realmente necessários todos os detalhes de um mundo: basta focar só no mais relevante para sua aventura.

Convenhamos: o Jornada nas Estrelas classicão sempre operou por uma estrutura simples de
“planeta da semana” — e a natureza monotemática destes é narrativamente conveniente.

As Luas de Dabog em Jogo

Por tais razões, os mundos de Dabog representam menos conceitos egressos da animação japonesa e mais ideias aleatórias para suas campanhas, como um satélite-santuário ecológico a ser defendido de invasores ou de ocupações indevidas ou uma lua mais industrial tocada em forma de cooperativa por seus habitantes — e por isso alvejado por mercenários corporativos e ardis sórdidos das federações empresariais, dispostos a varrê-los do mapa, por exemplo.

Aventura na Selva: Zeme é um santuário ecológico a ser protegido — e os interessados em invadi-la não faltam! Que tal uma cruza de Hatari! e Patlabor?

Capa-e-Espada Espacial: se os grandes mundos da constelação fossem a Europa dos mosqueteiros, a lua de Lada seria uma ilhota com piratas no Caribe!

Folhetim Espacial: Vesna é bem propícia. Seu diferencial é ser um centro político local… mas sujeito às decisões da metrópole, revirando a sua rotina.

Zone of the Enders, aliás, tem muito a ver com um Outland: Comando Titânio em
termos de ambientação: pessoas trabalhando no espaço, longe de tudo…

Hard Sci-Fi: a gestão cooperativa de Hala é interessante nesse sentido. Pense numa cruza de Outland: Comando Titânio*** e o citado Zone of the Enders.

Ficção Científica Tradicional: Ziva abriga laboratórios de engenharia genética e tecnologias de terraformação. É perfeita para esse tipo de abordagem.

Space Opera: Dola, com seu povo de origem estranha, é uma lua prática para inserir “viagens” e/ou elementos culturais mais… alienígenas ou futuristas.

Repararam o quanto algumas ideias soam “livres” — como no caso de Zeme, por exemplo? Eu mesmo não me lembro de nenhum anime com esse conceito (essa na verdade era uma ideia pessoal minha guardada em algum lugar), mas isso pode render ideias interessantes para aventuras. É essa a ideia por trás da terraformação de luas no cenário ou da construção de cidades em áreas mascon: elas são um recurso para mestres e jogadores personalizarem a ambientação.

A propósito, Outland: Comando Titânio tem uma adaptação para os quadrinhos
feita por ninguém menos do que Jim Steranko, inédita no Brasil.

Nesse sentido, as Luas de Dabog existem mais como um exemplo prático da execução desses princípios no cenário… mas agora elas são canônicas. Precisam funcionar como tal, tendo suas próprias fontes de conflito (como as tensões com a minoria Nephilim****) ou os ardis das empresas privadas para desmontar a cooperativa de Hala, com direito a mercenários corporativos e outras ameaças desse naipe. E é claro, nossos protagonistas vão protegê-los, certo?

Da mesma forma, o seu cânone de jogo precisa funcionar na sua mesa, com os seus jogadores, não importando se é uma lua terraformada, uma estação espacial ou uma colônia mascon em um planeta desconhecido. Ter conflitos e gerar motivos para seus personagens entrarem em ação. Não somos arrogantes ao ponto de acreditarmos ser possível cobrir todos os buracos de um cenário… e seria muito chato se o fizéssemos. A Constelação é sua também.

Até a próxima.

E não se esqueçam dos robôs gigantes!

* Anãs Marrons são uma espécie de estrelas fracassadas: enquanto as gigantes gasosas não tem massa o suficiente para entrar se tornarem estrelas, elas até se tornam — mas não tem massa suficiente para desencadear a fusão nuclear sustentada de hidrogênio em hélio (ou seja, não vão entrar em ignição total e brilhar). Grosso modo, elas morrem na praia. São pouco brilhantes e cerca de quinze a vinte por cento menores do que Júpiter, mas ainda podem ter cerca de oitenta vezes mais massa. Afinal de contas, eles ainda estão acima dos planetas na classificação astronômica.
** Galactic Gale Baxinger e 2010: Uma Odisseia no Espaço II saíram com uma diferença muito pequena de tempo — os episódios finais do anime (são eles quem contam) foram ao ar em Junho de 1982 e o romance de Clarke saiu em dezembro do mesmo ano. Naquela época não havia internet e não havia como o autor, em seu cafundó do Sri Lanka, saber da existência dessa produção tão cedo. Quem escreve e tem um editor por cima do seu ombro sabe o quanto essas coisas demoram a ser inseridas, ainda mais levando em conta o fato dele escrever em um país e publicar em outro.
*** Já falamos um pouco sobre esse filme AQUI. Dêem uma olhada nos parágrafos de abertura.
**** Nephilim são uma minoria entre os evos, presentes nas luas de Dabog. Essencialmente eles são refratários à miscigenação, acreditam em manter a própria pureza racial e creem na existência mítica de um mundo chamado Novaterra, criado por eles em um passado distante para os Evos e apenas para os Evos — e perdido em algum lugar.

DISCLAIMER: J9 e todas as marcas associadas (Galaxy Ciclone Braiger, Galactic Gale Baxinger) são propriedade da MIC: Movie International Co. Ltd.; Jornada nas Estrelas (Star Trek) é propriedade da Paramount Pictures Corporation; Zone of the Enders é propriedade da Kabushiki-gaisha Konami Holdings; Imagens para fins divulgacionais. Todos os direitos reservados.

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