Juntando Todo Mundo: a Milícia

Na semana passada, começamos a dissecar as estruturas de grupo em Brigada Ligeira Estelar — e começamos pela mais óbvia: a guarda. Hoje vamos dar uma olhada no outro lado da moeda. Aquele que não aparece nos organogramas do Império e que, dependendo de quem pergunta, é um movimento de resistência legítimo ou uma ameaça à ordem estabelecida. Na verdade, o que começa como o primeiro pode se tornar o segundo facilmente. Estamos falando das milícias.

Mas o que é uma milícia, afinal? No contexto da Constelação do Sabre, uma milícia é qualquer organização militar ou paramilitar não integrante das forças armadas oficiais — ou seja, não é uma guarda regencial, nem imperial (como a Brigada), nem nobiliárquica, nem policial. É composta por cidadãos armados que se organizam por conta própria, geralmente em resposta a uma percepção de ameaça que as autoridades não conseguem (ou não querem) enfrentar.

A origem de uma milícia, porém, raramente é simples. Há as que nascem da necessidade: uma população abandonada à própria sorte, atacada por piratas ou proscritos, decide se armar e se defender. Essas milícias têm legitimidade popular, mas frequentemente carecem de recursos, treinamento e estrutura. São frágeis, voláteis e, com o tempo, podem se tornar tão perigosas quanto a ameaça que enfrentavam… porque o poder, mesmo bem-intencionado, corrompe.

A A.E.U.G. de Zeta Gundam talvez seja o mais clássico exemplo de milícia do gênero…

Há milícias que nascem da ideologia: grupos que se opõem à ordem imperial, seja por motivos políticos, religiosos ou étnicos. A TIAMAT, a maior organização terrorista da Constelação, é o exemplo mais extremo disso: financiada por interesses escusos, ela se assume como um movimento de libertação enquanto, na verdade, serve a agendas muito mais sombrias. Tecnicamente, aqueles “exércitos do mal” das animações estadunidenses oitentistas são milícias.

E há as que nascem do interesse: financiadas secreta e ilegalmente por nobres ou corporações. São exércitos privados, usados para intimidar, cooptar ou eliminar adversários — tudo sem se comprometer. O que todas essas elas têm em comum é a falta de respaldo legal, operando à margem da lei. Isso as torna vulneráveis… mas também as torna livres para escolher objetivos, definir as próprias regras ou agir onde as guardas não podem ou não querem agir.

…forçando adversários a se unir porque os antigos “mocinhos” se tornaram os fascistas da vez.

A Estrutura da Milícia

Ao contrário da guarda, a milícia não tem uma estrutura padrão. Ela é tão variada quanto as pessoas que a compõem. Mas podemos identificar alguns padrões recorrentes: A base da milícia são seus membros — civis armados e muitas vezes sem treinamento militar formal. Camponeses que pegaram em armas para proteger suas colheitas, mineiros que se organizaram contra uma corporação predatória, refugiados que decidiram não esperar a ajuda que nunca chega…

Essas pessoas são o coração da milícia; sem elas, a organização não existe. O núcleo é formado pelos veteranos — aqueles que têm experiência de combate, seja como desertores de guardas, ex-mercenários ou combatentes de conflitos anteriores. São eles que treinam os recrutas, planejam as operações e, frequentemente, comandam as ações no campo. É o núcleo que dá à milícia sua eficácia (ou sua falta dela). Já a liderança é seu elemento mais variável.

Ironicamente, os Titãs não são uma milícia de grande porte*, mas têm tanta autonomia que se comportam como tal.

Em algumas milícias, há um líder carismático — um “general”, um “comandante”, um “pai de todos” — que centraliza as decisões. Em outras, a liderança é colegiada, com um conselho de veteranos tomando as decisões por consenso. Em milícias menores a liderança pode ser informal: quem tem mais coragem, mais experiência ou mais boca acaba liderando por osmose. O que distingue a milícia da guarda, na teoria, é a ausência de uma cadeia de comando formal.

Em um primeiro momento não temos patentes, regulamentos ou manual de procedimentos. A autoridade vem da confiança, não da nomeação. Isso torna a milícia mais flexível, mas também mais instável… porque, quando ela se quebra, a organização se desfaz. No entanto, quando a milícia cresce, ganha financiamento e se profissionaliza, ela naturalmente adota as estruturas que funcionam: hierarquia, uniformes e cadeias de comando. É uma evolução pragmática.

Lembra da Cobra de Comandos em Ação? Esse é um exemplo clássico de milícia de grande porte…

Milícia vs. Guarda: O Que Muda?

…enquanto os guerrilheiros de Genesis Climber Mospeada são uma milícia menor, resistindo como pode.
Infelizmente, grupos menores tendem a ser mais afetados por eventuais brigas internas…

O Ciclo da Milícia

Aqui, você está por sua conta e dos poucos ao seu lado. Apoiem-se uns aos outros!
Lembrem-se sempre: aqui vocês estão na ponta mais fraca da corda. O pior pode sempre acontecer.

Onde a Milícia Dói

Para uma milícia menor, cada robô e cada arma são recursos indispensáveis
“Estamos sem comida e munição.” Nada melhor para baixar a moral…

A Milícia Como Ferramenta do Mestre

Para o mestre, a milícia é um laboratório de dilemas morais e táticos. Ela permite histórias que a guarda não comporta. Em uma milícia, cada personagem tem uma história do por que está ali. O ex-soldado que desertou, o camponês que perdeu a família, o nobre que se voltou contra sua própria classe, o ex-mercenário que encontrou uma causa. Essas histórias são material narrativo de sobra — e cada uma delas pode gerar conflitos internos no grupo.

A milícia não luta contra monstros abstratos, mas contra algo: alguma Guarda Regencial, contra os proscritos (caso se sintam abandonados pelo Império), contra mercenários contratados por nobres. O “inimigo”, na maioria dos casos, é composto por pessoas que também têm famílias, motivações e, em alguns casos, dúvidas. Isso permite cenas de tensão humana que a guarda nem sempre explora, como encontrar um ex-colega no lado oposto do campo de batalha.

Aqui temos uma meta bem clara: derrubar o tirano que destruiu a família do príncipe protagonista.

Além disso, a milícia existe em algum tipo de contexto político. Ela precisa de aliados, de financiadores, de fontes de suprimento. Precisa negociar com facções que podem ser tão perigosas quanto o inimigo oficial. A política de bastidores é tão importante quanto o combate e oferece um campo vasto para intrigas, traições e alianças improváveis. Diferente da guarda que é um instrumento do estado, a milícia pode ser uma expressão de uma comunidade.

Os personagens não estão apenas lutando; estão construindo algo — um refúgio, uma rede de apoio, uma alternativa a um sistema. Isso dá à campanha um propósito que vai além de “cumprir a missão”. No entanto, quanto mais ela cresce, mais precisa sustentar sua estrutura, e esse pode ser o vetor da sua corrupção — cometer atos criminosos para juntar dinheiro capaz de comprar armas e equipamentos, roubar tecnologia de quem não tem nada a ver com isso…

A Tekkadan de Gundam: Iron-Blood Orphans? Fácil: eles lutam pela própria dignidade.

Dentro do Cenário

É importante lembrar que a Brigada Ligeira Estelar, embora seja uma guarda imperial, tem uma relação complexa com milícias. Em mundos como Forte Martim, a Brigada muitas vezes se vê aliada a milícias que combatem inimigos comuns. Essa aliança é sempre tensa, sempre provisória, mas também pode ser uma fonte de histórias fascinantes. Basta se lembrar da Facção Una de Batalha dos Três Mundos (e dizer mais do que isso seria um spoiler deste tamanho).

Nesse caso, a relação é de desconfiança mútua e necessidade compartilhada. Além disso, personagens da Brigada podem ser enviados para neutralizar uma milícia que se tornou perigosa demais, da mesma forma que enfrentam piratas espaciais e invasores. É por isso que eles mesmos, volta e meia, têm a missão de capturar membros de uma milícia tecnicamente benevolente como a Vanguarda Sideral (ver BLE RPG, página 251). Todos sabem aonde isso vai acabar.

E convenhamos: vocês acham que a Aliança Rebelde de Guerra nas Estrelas é O QUÊ?

Só para Fechar…

A guarda e a milícia são estruturas opostas em muitos aspectos, mas ambas são respostas à necessidade de se defender ou, ao menos, defender algum tipo de interesse (convenhamos que a TIAMAT tem uma causa, mas ela não é nada nobre). A guarda é a resposta institucional. A milícia é a resposta de quem não tem outra opção. Nenhuma é intrinsecamente melhor ou pior para uma campanha e cada uma oferece um conjunto diferente de desafios e possibilidades.

Só vou deixar um toque: que isso não se confunda com uma defesa velada das milícias como as conhecemos. Já temos exemplos terríveis na vida real de como o limite entre elas e aqueles quem elas dizem combater se torna cada vez mais tênue — até desaparecer de vez. Mas vamos lembrar também da sua presença na ficção. A Aliança Rebelde de Star Wars que o diga!

Na semana que vem, vamos falar de outra estrutura: a tripulação. Até a próxima e divirtam-se!

* Os Titãs, os grandes vilões de Zeta Gundam, são uma unidade de forças especiais oficial subordinada diretamente às Forças da Federação Terrestre (Earth Federation Forces), e não uma milícia privada. Eles foram criados em dezembro de 0083 (no final dos eventos de Stardust Memory) sob a justificativa de caçar os remanescentes do Principado de Zeon. No entanto, a organização operava com ampla autonomia, comanda por oficiais extremistas pró-Terra como Jamitov Hymen, e agia com total impunidade — o que fê-los atuar na prática como uma força paramilitar ou um exército próprio de fachada fascista dentro do próprio governo federal. Por isso, eles são uma excelente referência de Milícias de grande porte para suas campanha de Brigada.

DISCLAIMER: Code Geass: Lelouch of the Rebellion, Mobile Suit Zeta Gundam, Heavy Metal L-Gaim, Fang of the Sun: Dougram e Mobile Suit Gundam: Iron-Blooded Orphans pertencem à Bandai Namco Filmworks, Inc.; Genesis Climber Mospeada é propriedade de Tatsunoko Production Co., Ltd. e Harmony Gold USA, Inc.; G.I. Joe (Comandos em Ação) e personagens derivados pertencem à Hasbro, Inc.; Star Wars pertence a Disney Enterprises, Inc.. Imagens para fins jornalísticos e divulgacionais, de acordo com as leis internacionais de Fair Use.

Brigada Ligeira Estelar ® Alexandre Ferreira Soares. Todos os direitos reservados.

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