Juntando Todo Mundo: A Tripulação

Já falamos de guardas e milícias nesta série de artigos, Hoje veremos uma estrutura que, tecnicamente, pode existir dentro de qualquer uma das anteriores (afinal, guardas e milícias também precisam de naves), mas que, como dinâmica de grupo, tem um funcionamento completamente próprio. Estamos falando da tripulação, o conjunto de pessoas que opera uma nave espacial (ou navio, ou dirigível, ou o que for, mas como este é um cenário de space opera…).

Diferente da guarda, onde a identidade do grupo vem de uma instituição, e da milícia, onde vem de uma causa ou necessidade, a identidade de uma tripulação vem do veículo que compartilham. A nave é lar, escritório, templo e campo de batalha. Ela é o que mantém o grupo unido — e é também o que pode separá-los.

Uma tripulação pode ser:

O que todas essas tripulações têm em comum é que a nave é o centro da existência do grupo. Sem ela, eles não são uma tripulação — são apenas um bando de pessoas perdidas no espaço.

Dentro de uma belonave, cada um tem sua função.

A Estrutura da Tripulação: Hierarquia e Função

Uma nave não funciona sem hierarquia. Alguém precisa dar ordens, alguém precisa executá-las, alguém precisa cozinhar, alguém precisa consertar os motores. A estrutura de uma tripulação é, antes de tudo, uma estrutura de funções — e cada função é uma oportunidade narrativa.

A hierarquia tradicional de uma belonave inclui:

E há mais: Operadores de Comunicações, Operadores de Equipamentos Especiais, Oficiais Veterinários (se houver animais a bordo), e até Ordenanças — marujos estelares mantidos à disposição de oficiais para auxiliá-los no cotidiano.

Nem tudo isso é necessário para uma campanha. Se o foco for os pilotos de hussardos, a maior parte dessa lista são apenas coadjuvantes. Mas se você quer algo mais parecido com animes como Patrulha Estelar ou Martian Successor Nadesico, onde a tripulação é mais cobrada e cada membro tem um papel ativo, distribuir essas funções entre os jogadores pode ser muito interessante.

Lembram dos Tigres Negros de Patrulha Estelar? Dá para pensar em uma campanha só de pilotos…

Tripulação vs. Guarda

A diferença fundamental entre uma campanha de guarda e uma de tripulação é o ambiente.

Em uma guarda, os personagens vão para casa no final do expediente. Eles têm uma base, têm quartéis, têm uma vida fora do serviço. Em uma tripulação, a nave é a casa. Não há “fora do expediente” — ou, quando há, é dentro da mesma nave, no mesmo corredor, ao lado da mesma pessoa com quem você discutiu na ponte de comando duas horas atrás.

Isso gera dinâmicas que a guarda não tem:

…e se pensarmos bem, esse era o foco de Armored Fleet Dairugger XV: quem não pilota é só coadjuvante.

Uma Vida a Bordo

Uma campanha de tripulação não segue o ciclo da guarda ou da milícia. Ela segue a ordem da vida a bordo — uma rotina que é interrompida por missões, emergências e descobertas.

Vandread. A tripulação dos sonhos? Pense duas vezes!

A Fricção Dramática: Onde a Tripulação Dói

A tripulação é uma família. E, como toda família, ela tem suas feridas.

Tripulações piratas tem sua dinâmica própria de funcionamento…

Tripulações Variantes

Antes de prosseguirmos, é importante destacar três variações cruciais da estrutura de tripulação que permeiam a Constelação do Sabre.

A Tripulação Pirata

Piratas espaciais são, talvez, a mais antiga tradição da era espacial — e certamente uma das mais românticas (no sentido literário do termo). Uma nave pirata é uma tripulação que opera completamente à margem da lei, sobrevivendo do saque, do contrabando e, em alguns casos, da venda de serviços para quem não quer deixar rastros.

Estruturalmente, a tripulação pirata é similar a qualquer outra — há um capitão, um imediato, pilotos, engenheiros — mas com diferenças fundamentais:

Para os jogadores, uma tripulação pirata é uma oportunidade de explorar o lado mais sombrio da Constelação. Eles podem ser piratas (ou ex-piratas) tentando se redimir, agentes infiltrados tentando desmantelar uma operação, ou vítimas de um ataque que precisam sobreviver a bordo de uma nave inimiga.

Relação com a Brigada: Em mundos como Forte Martim, a Brigada Ligeira Estelar frequentemente caça os piratas que atacam comboios de suprimentos ou exploram o caos político para lucrar. A relação é de caça e caçador — mas, em situações extremas, até mesmo a Brigada pode fazer um acordo com piratas para enfrentar um inimigo comum, como os proscritos.

…mas, piratas ou não, eles ainda são uma tripulação com funções e sua dinâmica interna.

A Tripulação Mercenária

O mercenário é o soldado que não serve a uma causa — serve a um contrato. Uma tripulação mercenária é uma unidade militar que se aluga para quem pagar, operando em uma zona cinzenta onde a lealdade é uma mercadoria.

A estrutura de uma tripulação mercenária pode variar dramaticamente, mas alguns elementos são comuns:

Para os jogadores, uma tripulação mercenária é uma oportunidade de explorar a ética do combate. Eles podem ser mercenários tentando encontrar uma causa em que acreditem, soldados de fortuna presos em um contrato que se tornou pessoal, ou veteranos que cansaram de lutar por dinheiro.

Relação com a Brigada: A Brigada Ligeira Estelar tem uma relação ambivalente com mercenários. Em alguns casos, os contrata como apoio logístico ou para missões que não podem ser oficialmente reconhecidas. Em outros, ela os caçará como criminosos. E, em Forte Martim, mercenários são frequentemente usados por ambos os lados — pelos clãs nobres para intimidar camponeses e pela Regência para proteger comboios.

Embora a Tekkadan de Iron-Blooded Orphans não fique na nave todo o tempo, dá para ver a dinâmica.

Caçadores de Recompensas

Os caçadores de recompensas ocupam um espaço único na Constelação. Não são piratas (não atacam inocentes), não são mercenários (não servem a um contratante fixo), e não são uma guarda (não têm jurisdição). São caçadores — pessoas que rastreiam e capturam alvos por dinheiro.

Para os jogadores, uma tripulação de caçadores de recompensas é uma oportunidade de explorar a zona cinzenta entre a lei e o crime. Eles são justiceiros? Mercenários disfarçados? Aventureiros que encontraram uma maneira de ganhar a vida? A resposta depende de cada caçada.

Não consegui uma versão “limpa” da imagem, mas ela é boa demais: perdas e traumas são compartilhados!

A Tripulação Como Ferramenta do Mestre

Para o mestre, a tripulação é um laboratório de relações humanas em espaço confinado. Ela permite histórias que nenhuma outra estrutura comporta.

Tripulações podem fazer história. E isso é um tesouro em termos de jogo.

O Lar na Fronteira Final

A Brigada Ligeira Estelar tem suas próprias naves e suas próprias tripulações. Mas, mesmo dentro da estrutura militar, a dinâmica de tripulação se mantém. Uma nave mais antiga e menos prestigada, por exemplo, é uma “banheira velha” que transporta refugiados — e, nela, a tripulação não é apenas um conjunto de soldados, mas uma comunidade que compartilha o espaço, o perigo e a esperança.

Personagens da Brigada em uma nave têm a vantagem da estrutura militar e o desafio da convivência forçada. Eles são soldados, mas também são tripulantes — e, muitas vezes, a lealdade à tripulação pode entrar em conflito com a lealdade à hierarquia. A tripulação é a estrutura da sobrevivência e da comunidade.

Em uma tripulação, os personagens não estão juntos porque receberam ordens ou porque compartilham uma causa. Estão juntos porque a nave é o único lar que têm, e porque, no fim das contas, confiam uns nos outros mais do que confiam em qualquer instituição. É uma estrutura mais íntima, mais vulnerável e, por isso mesmo, mais funcional para sua mesa de jogo.

Seja a bordo de uma nave da Brigada, de uma nave pirata, de uma nave mercenária, de uma nave de caçadores de recompensas ou de uma nave de carga independente, a dinâmica da tripulação oferece um terreno fértil para histórias de lealdade, sacrifício, amor e perda — os temas que fazem o gênero space opera continuar vivo após tantas décadas.

Na semana que vem, vamos explorar a estrutura de esquadrão, talvez a menor e mais prática de se lidar. Até lá, pensem em que tipo de história vocês querem contar. E, mais importante, em que tipo de lar melhor serve a essa história.

Até a próxima e divirtam-se!

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