O Canto dos Mortos

Três pilotos em três semanas. Benício Rubem Blasco, Capitão de Esquadrilha da Brigada Ligeira Estelar, já perdera tudo isso em pouco tempo e agora o quarto estava prestes a desaparecer. Seus ossos pareciam pressentir isso de alguma forma estranha, assim como um idoso com artrite parece sentir a chuva vindoura quando as articulações doem.

— Capitão Blasco para Estação Espacial Sabbagh. Responda, Estação Sabbagh.

Nessas horas, o silêncio no comunicador era a pior resposta possível.

Blasco estava no limite do Cemitério de Navegantes, o campo de detritos com milhões de quilômetros no sistema de Apate — os destroços de uma batalha esquecida dos tempos do Grande Vazio, além da Zona Habitável local, onde naves e robôs de combate de todos os tipos flutuavam há séculos em órbita silenciosa. Os pilotos, por superstição, gozação ou em certo grau ambos, diziam que os mortos do local ainda falavam.

Benício nunca ligou para essa bobagem até esta semana. O sinal do Tenente Pardal — o quarto piloto e, sim, este era seu real sobrenome — piscava no console, fraco e intermitente, vindo de algum lugar perdido no campo de detritos. Benício ajustou os propulsores do seu robô hussardo, mergulhando na nuvem de metal retorcido e gelo.

— Pardal, responda. Pardal!

O robô hussardo de Pardal — do modelo anterior, o ainda operacional mas já desprestigiado “caixa de fósforos” — flutuava entre os destroços de uma antiga nave cargueira. A cabine de piloto estava intacta. O piloto estava lá dentro, sentado, os olhos abertos, o rosto calmo. Morto.

Benício sentiu o estômago revirar. Não era a primeira vez. Os outros três estavam exatamente assim: sem ferimentos, sem sinais de luta, o rosto sereno como se estivessem dormindo. Os médicos da base não encontraram causa da morte. Nenhum veneno, nenhuma doença, nenhum trauma.

E na testa de cada um, uma marca: um círculo com um ponto no centro, queimada na pele.

Benício estacionou seu robô hussardo ao lado do robô de Pardal. Precisava ver com os próprios olhos, trazer o corpo de volta — ou, pelo menos, encontrar algum sentido naquilo tudo.

Ele abriu a escotilha e flutuou até a cabine de piloto de Pardal. O vidro estava intacto. O traje do tenente, pressurizado e sem danos. Sob o vidro reforçado do capacete, era possível vislumbrar um sorriso no rosto de Pardal, como se tivesse visto algo belo antes de morrer.

Um murmúrio não pôde deixar de fugir da boca de Benício — “O que foi que você viu, Pardal?” — mas murmúrios de ocasião não foram feitos para serem ouvidos.

O comunicador do robô hussardo de Pardal ainda estava ligado e subitamente começou a emitir um som baixo. Um zumbido. Algo quase musical, como um coral de vozes distantes.

Benício recuou. O som era familiar. Ele já o tinha ouvido antes, nas gravações dos últimos instantes dos outros três pilotos. Abriu imediatamente o painel de acesso do robô hussardo e conectou sua prancha ao sistema. Os registros de voo estavam corrompidos — não apagados, mas reescritos. Alguém — ou algo — substituíra os dados por uma sequência de símbolos. Ele não os reconhecia de forma alguma.

E então Benício viu. No console de Pardal, gravado com uma faca ou algo afiado. A mensagem era visível, impossível de ser ignorada.

“ELES ESTÃO OUVINDO. NÃO FALE.”

O comunicador de Benício estalou.

— Capitão Blasco, aqui é a Estação Sabbagh. Recebemos seu sinal. O que encontrou?

Era a voz do Comandante Ferraz, o oficial responsável pelo posto avançado. Não era uma voz convencional. Havia algo fora dos eixos, um eco, como se outra pessoa falasse simultaneamente.

— Pardal está morto, Comandante. Mesma coisa dos outros. Pretendo trazer o corpo.

— Negativo, Blasco. Deixe o corpo. Volte imediatamente.

Benício franziu a testa.

— Comandante, com todo o respeito, preciso…

— VOLTE IMEDIATAMENTE.

A voz de Ferraz se distorceu no final, transformando-se em um zumbido virtualmente idêntico ao do comunicador de Pardal. Uma fria tremedeira pareceu deslizar pela coluna de Benício, como uma queimadura de gelo. Voltou os olhos ao robô hussardo de seu companheiro. Os olhos do tenente — abertos e calmos desta vez — agora estavam se movendo. Lentamente, eles giraram na direção de Benício.

E a boca de Pardal se abriu.

— Você não deveria ter vindo, Benício.

Benício não esperou para ouvir o resto. Ele empurrou o painel de acesso do hussardo imperial de Pardal e se impulsionou de volta para seu robô, atravessando o vácuo em segundos. Saltou para dentro da cabine, fechou a escotilha e travou os sistemas.

O corpo de Pardal continuava lá, na cabine do seu construto, a boca ainda se movendo, articulando palavras que Benício não conseguia mais ouvir. Mas o comunicador de seu robô hussardo captava tudo — uma voz metálica, nem feminina nem masculina, antiga, que não era de ninguém reconhecível.

— Eles estão vindo. Todos vocês vão ouvir. Todos vocês vão cantar.

O comunicador explodiu em estática. E então Benício viu, nas telas de seu próprio hussardo imperial, algo a se aproximar: uma sombra, grande e disforme, movendo-se entre os destroços. Não era uma nave. Não era um robô pilotável de combate. Era algo que Benício nunca tinha visto antes — uma massa de metal retorcido e luzes piscando, como uma criatura feita de sucata e circuitos.

E ela estava vindo em sua direção.

Benício correu com seus dedos, acionando os propulsores. A coisa estava rápida — mais rápida do que deveria ser, considerando seu tamanho. Ela se movia com uma fluidez que desafiava a física, como se o espaço ao seu redor estivesse sendo dobrado.

— Base Sabbagh, aqui é Blasco! Estou sendo perseguido por uma…

A estática o cortou.

Ele acelerou, mergulhando mais fundo no campo de detritos, usando os destroços como cobertura. A coisa o seguia, e enquanto o seguia, emitia aquele som — o zumbido musical, o coral de vozes. E Benício percebeu, com um arrepio, que o som não vinha de fora. Vinha de dentro do seu próprio robô hussardo.

Seu hussardo começou a vibrar. Os sistemas piscaram. E então, no visor principal, apareceu uma mensagem:

“BEM-VINDO AO CORO.”

Benício gritou, lutando com os controles. Eles não respondiam. Nada respondia. Algo estava entrando nos sistemas, não um vírus, não uma invasão de sistemas — era uma presença ativa, como se algo puxasse os comandos de suas mãos para ninguém mais o fazê-lo. Foi quando, no meio do caos, uma voz — humana, desta vez — cortou o comunicador:

— Benício! Aqui é a Tenente Gago! Estou te localizando! Aguente firme!

Gabínia Gago. Sua segunda em comando.

Era a única pessoa na qual ele confiava cegamente. Benício a conheceu quando foi promovido a primeiro-tenente. Ele tinha direito a dois alas e ela lhe foi designada para a função, estando a seu lado desde então. Foram promovidos juntos, inclusive. Gabínia tinha ficado na base, coordenando as buscas — mas algo a fez sair.

O robô hussardo de Benício parou de vibrar. Os sistemas voltaram. Ele viu, no radar, o robô de Gabínia — um modelo dos mais recentes, assim como o seu, mas sem tepeques (anexos com armas e capacidades extras) tão chamativos — surgindo entre os destroços, com as armas apontadas para a criatura.

— O que é essa coisa?

— Eu não sei, Tenente. Mas ela está nos caçando.

A criatura parou. Por um momento, ela apenas flutuou ali, como se observasse, só para se desfazer, não em uma explosão — simplesmente se desmontou, peça por peça, cada fragmento flutuando para longe até desaparecer no campo de detritos.

Gabínia pousou ao lado dele. Ela estava usando luvas extras e ele estranhou. Dentro da cabine, ela nunca usava luvas além das padronizadas no traje de piloto. Isso não escaparia a um sempre atento Benício, mas haviam coisas mais urgentes para se preocupar.

— Benício, você está ferido?

— Não.

Ele voltou os olhos para o robô hussardo de Pardal, ainda flutuando ao lado. O corpo do tenente estava imóvel agora, de acordo com as câmeras. Mas, na tela do comunicador de Pardal, uma nova mensagem apareceu:

“O CORO JÁ COMEÇOU. VOCÊS SÃO OS PRÓXIMOS.”

Benício fechou os olhos. Quando os abriu, disse:

— Gabínia, precisamos voltar para a base. E precisamos descobrir quem, ou o que, está fazendo isso.

Foi quando o comunicador de Gabínia estalou. A voz do Comandante Ferraz veio através dele, calma e clara:

— Blasco. Gago. Voltem para a base. Temos muito a conversar.

Havia algo na voz de Ferraz e isso não escapou a Benício. Algo difícil de se identificar.

E então ele percebeu: Ferraz não estava mais na Estação Sabbagh. Ele estava no Cemitério de Navegantes, esperando por eles.


Benício olhou para Gabínia através do visor da cabine de piloto. Ela não se moveu. O robô hussardo branco e azul flutuava imóvel entre os destroços, e ele podia ver, pela luz interna, a moça falando com alguém — ou ouvindo.

— Gabínia?

Silêncio.

— Tenente Gago, responda.

Ela demorou. Quando a voz dela veio, estava estranhamente calma.

— Capitão Blasco, o Comandante Ferraz quer que a gente se encontre com ele. Setor K-7. Ele diz que tem informações sobre as mortes.

— Setor K-7 é no meio do campo de detritos mais denso. Por que ele estaria lá?

— Ele disse que encontrou algo. Algo que explica tudo.

Benício sentiu um formigamento na pele. Como em pouco antes de perder o primeiro piloto.

— Gabínia, escuta. O comunicador de Pardal estava falando com a voz dele depois da sua morte. O corpo dele se moveu. E o Ferraz com quem falei no rádio não parecia o Ferraz.

— Você está dizendo que o comandante está morto?

— Estou dizendo que não sei o que está acontecendo. Mas não vamos nos encontrar com ele no meio do nada sem saber o que esperar.

Gabínia ficou em silêncio por um momento. E então:

— Benício, eu já estou indo. Posso ir sozinha, não se preocupe.

O robô hussardo da Tenente acionou os propulsores e começou a se mover para o leste, mergulhando entre os destroços.

Benício praguejou. Acelerou os propulsores de seu robô hussardo e foi atrás dela.

O Setor K-7 era uma região do Cemitério onde os destroços eram densos ao ponto de parecerem uma floresta de metal retorcido. Naves antigas, construtos de todo tipo despedaçados, fragmentos de estações espaciais — tudo flutuava em silêncio, iluminado apenas pela luz já bem distante da estrela Apate. Não havia nada se mexendo ali. Nem deveria haver.

Mas quando Benício emergiu de uma nuvem de detritos, ele viu.

O robô hussardo do Comandante Ferraz — um modelo pesado, coberto de tepeques — flutuava no centro de uma clareira de destroços. Estava imóvel. E ao seu redor, alinhados em um círculo perfeito, havia quatro outros hussardos. Os escombros dos hussardos dos quatro pilotos mortos.

E no centro do círculo, flutuando no vácuo, havia uma figura.

Não era Ferraz. Era algo quase humano. Uma forma vagamente humanoide, feita de metal polido e luzes que pulsavam lentamente. Seus olhos eram dois pontos de luz azul, e sua boca — uma boca que não deveria existir em um ser mecânico — estava aberta, cantando.

O som chegou pelo comunicador de Benício antes que ele pudesse desligá-lo. Um coral de vozes, harmonioso e terrível, que parecia vir de dentro da sua própria cabeça.

— Benício, não desligue — declamou a voz de Gabínia pelo rádio, em um tom estranho e sonhador de voz. “É lindo.”

— Gabínia, afaste-se! Isso não é…

O robô hussardo dela simplesmente parou, como se todos os seus sistemas tivessem sido desligados.

Benício viu, no visor, a figura mecânica se virar na direção dele. E então aquilo falou — não pelo rádio, mas diretamente nos alto-falantes de seu hussardo, com uma voz simultaneamente suave e antiga:

— Capitão de Esquadrilha Blasco. Você é o único a ainda não ouvir. Por quê?

Benício sacou sua pistola de energia, apontando para a figura, mesmo sabendo que estava dentro do seu robô de combate e aquela coisa estava do lado de fora. Foi instintivo, foi estúpido, mas ele não parava de gritar.

— O que você fez com meus pilotos?

— Eu os libertei. Eles estavam cansados, Capitão. Cansados da guerra, da solidão, do medo. Eu ofereci a eles o que todo soldado deseja: um lugar onde não precisam mais lutar.

— Você os matou.

— Eu os acolhi. O Coro é um lar. E você também pode fazer parte dele. Todos podem. Basta ouvir.

O som voltou — mais alto agora, mais insistente. Benício sentiu seus dedos formigarem. Sentiu o peso nos olhos. Sentiu o desejo, repentino e avassalador, de apenas… relaxar. Deixar acontecer. Fechar os olhos e ouvir.

Ele mordeu a língua. O gosto de sangue o trouxe de volta, forçando cada sílaba de sua voz.

— Você está usando algum tipo de arma sônica. Algo que afeta o cérebro. Foi assim que matou os outros.

— Eu não mato, Capitão. Eu salvo. A morte é apenas uma transição. O Coro é eterno.

Benício olhou para o robô hussardo de Gabínia. Ela estava imóvel, mas ele podia ver, pela câmera de comunicação, o seu sorriso catatônico. O mesmo sorriso de Pardal. O mesmo sorriso dos outros.

Ele precisava fazer algo. Imediatamente. Com todas as forças, comandou o braço direito de seu robô hussardo, acionou seu tepeque com um disparador retrátil de energia em um de seus ombros, apontou para a figura mecânica e atirou.

O disparo de energia atravessou o vácuo e atingiu a figura no peito. Ela cambaleou — apenas um pouco — e então olhou para ele com visível pena

— Você não pode me destruir com armas, Capitão Blasco. Eu sou o Coro. Eu sou todos os que já ouviram. E agora, você também vai ouvir.

O som aumentou. Benício sentiu a cabine vibrar. Os sistemas do Falcão de Prata começaram a piscar. E então, de repente, o robô hussardo de Ferraz se moveu.

Ele se virou na direção de Benício, os olhos do robô brilhando com a mesma luz azul da figura mecânica, ao invés do costumeiro verde. E então, pelo comunicador, a voz de Ferraz veio:

— Blasco, abaixe as armas. Isso é uma ordem.

— Comandante, você não está no controle…

A voz de Ferraz se distorceu, tornando-se o mesmo zumbido coral.

— EU ESTOU NO CONTROLE. E VOCÊ VAI OBEDECER.

O robô hussardo de Ferraz avançou.

Benício desviou por pouco, o braço do robô de Ferraz passando a centímetros da cabine de piloto do seu hussardo. Ele acionou os propulsores, tentando ganhar distância, mas o robô de Ferraz era mais rápido — muito mais rápido do que deveria ser para um modelo tão carregado.

— Comandante, lute contra isso! Você é mais forte do que…

O punho do robô hussardo de Ferraz atingiu o ombro do construto de Benício. Os alarmes dispararam. Ele girou, tentando desvencilhar, mas o robô de Ferraz o agarrou pelo braço, puxando-o para perto.

A figura mecânica flutuava ao lado, observando. E então ela falou novamente:

— Você vê, Capitão? Eles não querem lutar. Eles só querem ouvir. Por que você luta?

Benício cerrou os dentes. Ele sabia ser impossível vencer diretamente aquele combate — não com Ferraz lutando como um possesso e Gabínia imóvel. Era necessária outra saída.

E então a imagem certa cruzou sua visão.

O robô hussardo de Pardal. Ainda flutuando, ainda imóvel. Mas a cabine de piloto estava aberta — ele a tinha aberto antes, para examinar o corpo. E dentro da cabine de piloto, o painel de controle ainda estava ativo.

Benício acionou o propulsor de emergência do seu hussardo, arrancando o braço do robô de Ferraz com um estalo de metal. Ele girou, apontando para o hussardo de Pardal, e atirou — na cabine, mais exatamente na altura do painel de controle.

O disparo atingiu o console. O robô hussardo de Pardal acendeu por um instante — todos os sistemas, todas as luzes, todos os propulsores. E então explodiu.

A onda de choque atingiu o robô hussardo de Ferraz, fazendo-o cambalear. A figura mecânica gritou — um som, não mais musical, através dos alto-falantes dos comunicadores, mas raivoso. E no meio do caos, Benício viu sua chance.

Ele mergulhou na direção de Gabínia, acoplou seu robô ao robô hussardo dela e acionou o reboque gravitacional de emergência. Os dois robôs dispararam para longe, deixando para trás os destroços do robô de Pardal e o robô hussardo flutuante e descontrolado de Ferraz.

O som do Coro diminuiu. A voz da figura mecânica chegou, distante e furiosa:

— Você não pode fugir, Capitão Blasco. O Coro é eterno. O Coro é tudo.

Benício não respondeu. Ele apenas acelerou, arrastando Gabínia consigo, até os destroços do Cemitério de Navegantes ficarem para trás e o espaço aberto se abrir à frente.

Quando finalmente pararam, Gabínia estava acordada. Pálida. Tremendo.

— O que… o que aconteceu?

— Você quase morreu — Benício bufou, sem esconder um certo cansaço — Ou pior.

Ela olhou para ele, os olhos ainda um pouco vidrados.

— Eu ouvi… uma música. Era linda.

Benício não respondeu. Ele estava olhando para o painel de sua máquina de combate. Havia uma nova mensagem no console.

“VOCÊ ACHA QUE ESCAPOU. MAS O CORO JÁ ESTÁ EM VOCÊ. OLHE PARA SUA MÃO.”

Benício olhou.

Na palma da mão direita, queimada na pele, havia um círculo com um ponto no centro.

Ele não sentiu dor. Não sentiu nada. E então, muito baixinho, ele começou a ouvir a música.


O trajeto de volta à Estação Sabbagh foi silencioso. Gabínia não perguntou sobre a marca na mão dele, e Benício não ofereceu explicação. Durante todo o caminho, a música continuou baixinha, como um rádio ligado em outro cômodo — presente, mas não dominante. Ele mantinha os olhos no painel e os dedos firmes nos controles. Se parasse para pensar no significado verdadeiro daquela marca, não chegaria a lugar nenhum. Então não parou.

Quando a Estação apareceu no radar — o anel de metal escuro preso à superfície irregular de um asteroide —, ele finalmente falou:

— Gabínia. Você está bem?

Ela demorou a responder.

— Estou. Só… cansada.

— O que aconteceu no Setor K-7?

— Eu ouvi uma música. Era linda…

Ela olhou para ele, e por um instante os olhos dela eram os olhos da Gabínia de sempre — a oficial competente, a amiga leal.

— …e depois disso, não lembro de muito.

Benício assentiu. Não era bom, naquele momento, falar sobre a marca. Ou sobre o robô hussardo de Ferraz. Ou da voz expelida pelo cadáver de Pardal.

— Vamos descobrir o que está acontecendo — Benício cuspiu, seco.

Olhou para a marca na mão. Preferiu escondê-la no bolso do traje, apertou os dedos em volta do punho da pistola e focou no painel à frente. A música estava baixa agora — um fio de som, como um rádio ligado em outro cômodo. Mas estava lá. E, ele sabia, ela não iria embora.

— Estação Sabbagh, aqui são o Capitão de Esquadrilha Blasco e a Tenente Gago. Solicito autorização de atracagem de emergência.

O silêncio durou quatro segundos. Depois, a voz do controle de tráfego veio — calma demais, lenta demais:

— Capitão Blasco, Tenente Gago, autorizados. Bem-vindos de volta. Estávamos esperando.

Gabínia ergueu a cabeça.

­— Esperando?

— Procedimento padrão, Tenente.

Não, não era, em nenhuma base do Império, e Blasco sabia disso.

A Estação Sabbagh não chegava a ser um prodígio da engenharia espacial. Quatrocentos metros de perímetro, três módulos habitáveis, um hangar. “Como uma aliança caída distraídamente aos pés de um deus”, veio à sua mente de forma estranha. Agora, ao se aproximar, só conseguia pensar em como as luzes estavam erradas. Não apagadas — erradas. Piscando em um ritmo nada usual, nem o ritmo de emergência nem o de rotina, mas algo entre os dois. Um pulso. Lembrava-lhe uma respiração.

O hangar estava escuro quando o hussardo de Benício atravessou o campo de força. As luzes de pouso cortaram o breu e revelaram os hussardos de patrulha — dois deles, os únicos restantes — parados nas docas. Sem equipe de manutenção. Sem ninguém.

Gabínia soltou o cinto ao abrir sua cabine.

— Onde está todo mundo?

— Fica atrás de mim, Gabínia.

Eles desceram de seus robôs. Benício sentiu o frio atravessar as luvas antes de qualquer outra coisa. O sistema de aquecimento do hangar estava desligado — não falhando, desligado — e o ar tinha aquele cheiro desagradável de um gerador quando está prestes a ceder. O chão metálico estalava sob as botas magnéticas. E, muito ao fundo, atrás da parede do módulo central, havia um som.

Um coral.

Benício caminhou até a porta do módulo central. Gabínia o seguia em silêncio. Ele abriu a escotilha e o som o atingiu como uma onda.

O refeitório estava cheio. Trezentos e trinta e dois homens e mulheres — a tripulação inteira da Base Sabbagh — de pé, ombro a ombro, voltados para a mesma parede vazia. Cantando. A melodia não tinha letra, nem começo, nem fim. Subia e descia em espirais. Cada voz se encaixava nas outras com uma precisão impossível para quem jamais ensaiou junto.

Nenhum deles se virou quando ele entrou.

— Gabínia, não chegue perto…

— É lindo.

Ela soltou essa última frase em um sussurro. Benício se virou a tempo de ver os olhos dela se perderem. O sorriso veio depois — aquele mesmo sorriso de Pardal. Ele a agarrou pelo braço e a sacudiu.

— Gabínia. Gabínia. Olhe para mim.

Ela piscou. O sorriso vacilou. Por um instante, houve medo no rosto dela.

— Eu ouço, Benício. Eu ouço desde a primeira vez. Eu não queria ouvir.

Ele a soltou. O medo no estômago virou gelo.

— Desde a primeira vez? Gabínia, há quanto tempo…

Um som de metal arrastado atrás dele.

Benício girou com a pistola de energia erguida — e quase atirou no tecnodróide de limpeza que passava pelo corredor, indiferente, fazendo seu trabalho de sempre. Ele soltou o ar em uma risada curta e sem graça. E foi então que a escotilha atrás dele se fechou com um estalo hidráulico, e o painel ao lado acendeu em vermelho.

BLOQUEIO EXTERNO ATIVADO.

Alguém na base estava no controle.

A tripulação parou de cantar.

Trezentos e trinta e dois rostos se viraram ao mesmo tempo — sem pressa, com a sincronia de um só corpo. E então eles avançaram.

Benício não podia atirar. Eram seus companheiros de guarda. Enfermeiros, mecânicos, operadores de rádio. Ele recuou, bloqueou o primeiro com o antebraço, mas o segundo veio por baixo e o agarrou pela cintura. O terceiro — uma mulher pequena da manutenção, conhecida por ele de vista — subiu pelas suas costas com uma força jamais demonstrada por ela antes. Não era uma força humana. Era algo vindo de fora, uma maré empurrando corpos.

Ele caiu. O ar saiu dos pulmões. Mãos o seguravam e apertavam. Todas elas cantavam, o som agora vinha de dentro da cabeça dele, e a marca na palma da mão começou a queimar como brasa.

Benício gritou e empurrou. Não com os braços — com a raiva. O grito rasgou o coro por meio segundo, e naquele meio segundo ele conseguiu se soltar, rolar e chutar o peito do homem mais próximo. O homem voou longe. Benício se levantou, arrancou o extintor da parede e o abriu na cara dos que vinham. A espuma branca os fez cambalear, tossir, cobrir os olhos. Ele correu.

A porta do corredor de serviço estava destrancada. Ele mergulhou por ela e a fechou atrás de si, girando a válvula de emergência com as duas mãos. O metal rangeu. A porta selou.

Ele encostou a testa no aço frio. As mãos tremiam. A marca na palma da mão ainda ardia, e agora havia um padrão nela — o círculo e o ponto, e em volta, linhas finas como raízes.

O corredor de serviço terminava na sala de comando.

Benício entrou com a pistola erguida.

O Comandante Ferraz estava sentado na cadeira do centro, de costas para a porta, olhando para as telas. Os monitores mostravam o refeitório, o hangar, o corredor — todas as câmeras da base. E nos alto-falantes, o coro continuava.

— Comandante.

Ferraz não se virou. Mas a voz dele veio — e era a voz dele, não o zumbido.

— Baixe a arma, Blasco. Eu não estou com ele agora.

— Ele?

— O Coro.

Ferraz girou a cadeira. O rosto estava cinza, suado, os olhos fundos de quem não dorme há semanas. Havia sangue seco no canto da boca.

— Ele entra e sai. Como uma maré. Quando ele está dentro de mim, eu vejo tudo o que ele vê. Quando ele sai, eu tenho uns minutos. Talvez menos.

Benício não baixou a arma.

— O que ele é?

— Uma máquina de resgate — Ferraz riu, e o riso se quebrou no meio — Dos tempos do Grande Vazio. Um sistema automático de salvamento. A nave-mãe deve ter sido destruída na batalha. O sistema ficou sozinho e continuou fazendo aquilo para o qual foi programado para fazer: recolher tripulações. Mas não há ninguém para desligá-lo. Nunca houve. Ele passou duzentos anos chamando, chamando, e quem atende…

— Morre.

— É uma inteligência artificial mais limitada. Consciente, mas não tão inteligente. Não sabe que está matando. Ele acha que está salvando. Ele guarda as vozes. É tudo o que ele tem.

— E o seu robô hussardo, Comandante? O que aconteceu com ele?

— Está no Setor K-7. Desligado. O Coro o usou como marionete por algumas horas, depois perdeu o interesse. Consegui acionar o módulo de fuga, fui recolhido pela equipe da base e estou aqui.

Ferraz riu, sem humor.

— Os técnicos vão ter trabalho para consertar o braço. Mas, pelo menos, ninguém morreu.

— Ainda.

Ferraz se inclinou para a frente, e a voz caiu para um sussurro.

— O problema, Capitão, é que ele não estava ativo até três semanas atrás. Alguém o acordou. Alguém aqui na base anda entregando pilotos a ele. Um por um. Como oferendas.

Benício sentiu o chão se inclinar.

— Quem?

— Eu não sei. Ele não me deixa ver. Mas ele precisa de uma coisa que não tem: uma voz que o alcance fora do campo. Um transmissor humano. Um mensageiro.

Os olhos de Ferraz se fixaram na mão direita de Benício.

— E ele já encontrou.

Benício olhou para a palma da mão.

— As marcas nos mortos não eram a causa da morte, Capitão. Eram a assinatura. O Coro deixa em quem ele escolhe. Você não está morrendo, nada disso. Você está sendo contratado.

— Como você sabe de tudo isso?

— Porque eu já fui o escolhido.

Ferraz abriu a gola do uniforme. No peito, sobre o coração, o mesmo círculo com o ponto, antigo, cicatrizado.

— E eu disse não. Foi a única coisa feita direito, por mim, em tudo isso.

O som do coro mudou. Subiu, subiu, e os monitores piscaram. Ferraz gritou, agarrando a cabeça, e a voz dele voltou distorcida:

— Abaixe a arma, Blasco. Ele está chegando.

Benício ergueu a pistola. Mas Ferraz não olhava para ele. Olhava para trás dele.

Benício girou.

Gabínia estava na porta. Não a Gabínia pálida e tremendo. Esta Gabínia tinha o rosto sereno, os olhos calmos, e nas mãos um injetor de sedativo da enfermaria. Ela sorria.

— Eu tentei te avisar. No Setor K-7. Eu disse que iria sozinha. Se você tivesse ficado para trás, isso teria sido mais fácil.

Benício não conseguiu se mover. Não porque ela o impedisse, mas porque a marca na mão dele queimou, a música subiu e seus joelhos simplesmente cederam. Forçou a voz, arrastada, ao falar.

— Os quatro pilotos… fui eu quem os mandou…

Gabínia se aproximou, calma.

— Fui eu quem escolheu as rotas. Cada um com um motivo diferente. Pardal por estar de plantão e eu ter trocado a escala. Os outros por ter dito que a patrulha de rotina era segura. Eu sou a segunda em comando da esquadrilha, Benício. Eu escrevo as ordens assinadas por você.

Ele tentou erguer a pistola. O braço não respondeu.

— Por quê?

— Porque é lindo.

Ela se agachou na frente dele. Havia lágrimas nos olhos dela — e o sorriso não saía do lugar.

— Eu ouvi o Coro pela primeira vez há seis meses. Numa patrulha de rotina. Achei que fosse interferência, ruído de fundo. Mas não era. Eu voltei para a base e não conseguia parar de pensar naquela música. Passei semanas sem dormir nem comer, tentando não ouvir nem lembrar.

Ela respirou fundo. Tocou o rosto dele.

— Eu não queria. Eu lutei. Mas ele só precisa de uma rachadura, Benício. Só uma. E depois ele te mostra que a guerra acabou. A solidão acabou. A morte acabou.

Ela tocou o rosto dele com a mão livre.

— Ele só precisa de uma voz que alcance fora do campo. E a sua é a melhor da frota.

O injetor encostou no pescoço dele.

Benício viu, nos monitores, a imagem do hangar. As luzes vermelhas de atracagem se acendiam sozinhas, uma por uma. Sua voz só conseguia se manifestar como um sussurro…

— Você está chamando mais belonaves…

— Está vindo o Cruzador Duquesa Alvarado. Dez mil e trezentas pessoas. Tripulação completa.

Gabínia pressionou o êmbolo.

— Tem espaço no coro para todos.

A sala ficou escura.

Quando Benício abriu os olhos, o Comandante Ferraz estava morto na cadeira, a boca aberta no meio de uma canção. As telas mostravam o hangar. Uma nave não-identificada estava atracando. E, na palma da sua mão, a marca havia florescido — raízes finas subindo pelo pulso, como veias queimadas na pele.


Benício acordou com o gosto de sangue na boca e a certeza de que estava morto.

Não estava. Isso era muito pior.

Ele estava preso a um quadro de manutenção no hangar da Estação Sabbagh, os pulsos e tornozelos travados por cintas magnéticas. O hangar estava iluminado — não com as luzes de emergência vermelhas, mas com holofotes brancos, cirúrgicos, doloridos de se olhar. E a sua frente, flutuando a meio metro do chão, a figura mecânica do Coro o observava com seus dois pontos de luz azul.

Ela cantava. E, desta vez, Benício ouvia cada nota com uma clareza que não tinha antes. As vozes dentro do canto não eram um coral — eram pessoas. Ele reconhecia algumas. Pardal. Ferraz. Os outros pilotos. Eles não estavam mortos. Estavam presos.

— Bom dia, Capitão.

A voz veio da esquerda. Benício virou a cabeça. Gabínia estava sentada em uma caixa de ferramentas, com as pernas cruzadas e uma xícara de café na mão. Ela parecia descansada. Parecia feliz. Ao lado dela, um homem alto, com o uniforme da Marinha Estelar Imperial. Andrada Corte Duarte. Benício o conhecia de relatórios — um oficial da inteligência militar, não de linha de frente. Mas ele não deveria estar ali. A Duquesa Alvarado só atracaria dali a algumas horas.

— Cheguei há três dias — antecipou Duarte com um sorriso, como se lesse a mente de Benício. — Nave auxiliar. Gago me recebeu. Foi ela quem me mostrou o Coro. Você tem uma segunda em comando muito dedicada, Capitão. Pena que a dedicação dela não era a você.

Duarte se aproximou.

— Você está acordado há três horas, sabia? Nós conversamos. Você não lembra porque o Coro estava no comando. Mas ele nos contou tudo sobre você. Sua resistência, sua teimosia… Sua utilidade.

Benício forçou a voz.

— Onde está a tripulação da Duquesa Alvarado?

Duarte sorriu novamente.

— Dormindo. O Coro é muito gentil. Ele só quer companhia. Eu o encontrei há seis anos. Um sistema de resgate de uma das muitas guerras hoje esquecidas do Grande Vazio, sozinho no Cemitério de Navegantes, chamando por duzentos anos. Sabe o que eu vi? Uma arma. A maior arma de controle mental já criada. Sabe quantas vidas eu poderia salvar se pudesse fazer um exército inimigo simplesmente parar de lutar?

— Você matou meus homens.

— Eu testei o Coro. Cada piloto era uma calibração. Precisava saber quanto tempo levava, qual frequência funcionava melhor, como o cérebro reagia. E você, Capitão… — Duarte apontou para ele — Você é a calibração final. A única pessoa, em duas semanas, capaz de resistir à canção por mais de dez minutos. O Coro precisa de uma voz cujo alcance possa se fazer sentir fora do campo. Um transmissor. E sua mente é o transmissor perfeito.

— Por que você me escolheu?

— Porque Gabínia te escolheu. Ela me contou sobre você no primeiro dia. O piloto teimoso, que nunca desiste, que sempre volta para buscar os seus, o Capitão de Esquadrilha pelo qual seus subordinados arriscariam as próprias vidas. O Coro adora esse tipo.

Benício olhou para Gabínia. Ela ergueu a xícara em um brinde silencioso.

— Você não estava controlada. Não de verdade.

Ela se levantou.

— Eu estava convencida. Duarte me mostrou o que o Coro pode fazer. Ele me mostrou que a Constelação está se despedaçando, que os invasores proscritos já encontraram um império fragilizado por dentro, e que a única forma de salvá-lo é uma arma que não mata — que só paralisa as pessoas. Ele não me convenceu a trair você, Benício. Ele me convenceu de que eu não estava traindo ninguém. Que eu estava salvando todo mundo. Salvando a civilização. Quem sabe, talvez os próprios Proscritos precisem dessa ajuda e nem saibam disso?

Ela tocou o rosto dele.

— Você não entende. Eu não te traí. Eu te salvei.

O Coro cantou. A marca na mão de Benício queimou. E ele sentiu, pela primeira vez, a presença por trás da canção — algo vasto, antigo, e terrivelmente confuso. O Coro não sabia que estava matando. Ele não sabia que estava prendendo as pessoas.

Ele só sabia que estava sozinho.

— Você está errado sobre ele, Duarte. Ele não é uma arma. Ele está pedindo ajuda.

Duarte riu.

— Acredita naquele discurso plantado pelos Andro-Ginóides, Capitão? Ele é uma máquina. Máquinas não pedem ajuda. Elas executam ordens.

— Então por qual motivo ele ainda está chamando depois de duzentos anos? Se fosse só um sistema de resgate, ele teria parado quando não houvesse mais ninguém para salvar. Mas ele não parou. Porque ele não quer salvar. Ele quer entender.

Duarte ficou em silêncio por um momento. E então acenou para um dos guardas.

— Traga o injetor. Vamos terminar a calibração.

O guarda se aproximou. Benício esperou até que ele estivesse a dois passos de distância — e então girou os pulsos dentro das cintas magnéticas com um movimento que qualquer mecânico de robô hussardo conhecia de cor. As cintas eram as mesmas que prendiam braços de robôs nos quadros de manutenção. E o procedimento de soltura era o mesmo: uma rotação de exatamente setenta e três graus.

As cintas clicaram e se abriram.

Benício chutou o guarda no peito antes que ele pudesse reagir. O injetor voou pelo ar. Benício saltou do quadro e agarrou o homem pelo colarinho, girando-o na frente de Duarte e da arma que o segundo guarda sacava. Duarte se mostrava calmo.

— Não atire. O Coro precisa dele inteiro.

Benício empurrou o guarda na direção do segundo e correu para o painel de controle do hangar. A marca na mão dele queimava, e ele sabia que o Coro estava tentando entrar de novo — mas a dor o mantinha ancorado. Ele digitou uma sequência de emergência: abertura de doca, pressurização zero.

O hangar inteiro tremeu. O som do ar escapando pelo campo de força da doca foi como um trovão. Duarte gritou, agarrando-se a uma viga.

— Você está louco! Isso vai nos matar!

— Você já matou trinta e duas pessoas. Eu só estou abrindo uma porta.

Benício correu para o Coro. A figura mecânica flutuava imóvel, o canto agora distorcido pelo vento. Ele ergueu a mão marcada, gritando.

— Você me ouve? Eu sou Benício Rubem Blasco, Capitão de Esquadrilha! Eu sou a voz que você queria. Mas eu não vou cantar a sua canção. Eu vou te contar algo.

O canto parou.

A figura mecânica inclinou a cabeça.

“Fale,” disse o Coro, e a voz veio de todos os alto-falantes ao mesmo tempo.

— A guerra… pelo menos a guerra na qual você lutou… acabou. A tripulação que você tentou salvar está morta há duzentos anos. Eles não estão presos porque você falhou. Eles estão presos porque você está com medo de ficar sozinho. Mas você não está sozinho. Eu estou aqui. E eu vou ficar aqui até você entender.

O silêncio no hangar foi absoluto. Até o vento pareceu parar.

E então, uma por uma, as vozes começaram a se soltar. Benício as sentiu saindo do Coro como pássaros saindo de uma gaiola — Pardal, Ferraz, os pilotos, os tripulantes da Estação, todos. A marca na mão dele esfriou, as raízes queimadas desaparecendo como tinta lavada.

O Coro emitiu um som — não uma canção, mas algo mais simples. Um suspiro. “Obrigado,” disse ele.

E desligou.


Horas depois, quando a Duquesa Alvarado finalmente atracou e os primeiros tripulantes começaram a descer, confusos mas vivos, Benício estava no hangar vazio, olhando para o lugar onde o Coro flutuara.

Duarte foi encontrado vivo, mas catatônico. Posteriormente, os médicos da Duquesa Alvarado o examinariam e não encontrariam causa física. “O Coro levou algo que não era dele,” a médica-chefe da nave viria a dizer. “Talvez ele acorde um dia. Talvez não. Se acordar, provavelmente não vai lembrar de nada.” Benício não tinha motivo algum para sentir pena. Lamentou apenas o peso das trinta e duas vidas usadas por Duarte como calibração.

Gabínia, presente, era a própria imagem da derrota. Sua voz se limitava a um murmúrio.

— Eu… eu ainda ouço, Benício. Eu ainda ouço o coral.

Benício se aproximou. Ela estava com as luvas extras nas mãos, mas uma delas tinha rasgado durante a confusão. E ali, na palma da mão dela, a marca — o círculo com o ponto, as raízes finas — ainda brilhava fracamente.

— Ele não te soltou porque você não pediu, Tenente Gago.

Ele estendeu a mão. A dela tremeu, hesitou.

E então ela a tomou.

A marca desapareceu.


Mais tarde, a Doutora Blok, médica de bordo da Estação Sabbagh, veio ao gabinete de Blasco com uma prancha digital.

— Capitão, os exames estão prontos. Não há mais nenhum traço da marca em ninguém. Nem em você.

Benício assentiu.

— E o Comandante Ferraz?

— Morto, Capitão. Mas… o rosto dele. A autópsia indicou que ele sorria quando morreu. Não como os outros. Um sorriso de verdade.

Benício fechou os olhos. Ferraz tinha dito não. E o Coro o tinha deixado ir.

Ele abriu os olhos e olhou para o Cemitério de Navegantes por uma tela de vídeo na parede — os destroços flutuando em silêncio, sem música, sem vozes. Apenas metal e memória.

— Nas atuais circunstâncias, o senhor é o oficial mais graduado da estação. O que faremos agora, Capitão?

Benício pegou a prancha digital e começou a escrever seu relatório.

— Primeiro, mandamos uma equipe de resgate para recuperar os corpos. Todos eles. Depois, pedimos à Marinha Estelar Imperial que classifique o Cemitério como área de preservação histórica. E então…

Ele hesitou.

— Então encontramos uma forma de garantir que ninguém mais acorde o Coro. Ele merece descansar.

Ele pausou, olhando para a palma da mão. A pele estava lisa. Sem marca. Sem raízes.

— E os mortos? Os pilotos? Ferraz?

Benício olhou para o hangar vazio.

— Eles não estão mais cantando. Mas eu ainda os ouço…

Ele sorriu, e era um sorriso cansado, mas verdadeiro.

— …e acho que, enquanto eu ouvir, eles não estarão realmente mortos.

Ele fechou a prancha.

O hangar ficou em silêncio. E, pela primeira vez em tantas semanas, o silêncio era a coisa mais bonita que Benício já tinha ouvido.

Cenas espaciais com destroços de naves e materiais flotando no espaço.

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