Em Busca do Equilíbrio

A busca por equilíbrio é muito importante: se tudo se resumir apenas a batalhas, teremos um problema. Mas se lutas com robôs gigantes forem virtualmente ausentes… também teremos um problema! Longe de mim dizer como outros devem jogar mas, no primeiro caso, o potencial da ambientação poderá ser seriamente comprometido. Por outro lado, sem o peso dos construtos, o cenário perderá em termos de identidade — já ouvi histórias pavorosas nesse sentido*.

Assim, achei interessante discutir melhor a questão do equilíbrio. Entro em um terreno de opinião pessoal e vocês estão — na verdade, sempre estiveram — livres para discordar. A voz do autor é fundamental na hora de definir o canônico e o não-canônico mas, na mesa de jogo, até essa voz é secundária. O inaceitável é romper com esse equilíbrio em conteúdo oficial (como naqueles mangás de Code Geass publicados por aqui… sem robôs, alguém lembra?**).

Combates são uma parte fundamental do gênero. Ninguém assiste a um desenho com robôs gigantes para vê-los, sei lá, dançar (há exceções***). Claro, um cenário tem elementos políticos, intriga, mistérios… e são eles quem impedem a ação com robôs de ser gratuita. Por outro lado os combates, caso bem estabelecidos dentro do roteiro, ajudam a avançar a trama maior. Vamos dar um exemplo: a Brigada recebe ordens para NÃO enfrentar uma guarda de domínio.

O mangá de Code Geass publicado por aqui saiu em uma revista feminina, a Asuka —
e por isso removeu os robôs dessa versão. Ué, garotas não podem gostar de robôs?

Mas nossos esquentados pilotos hussardos o fazem assim mesmo — preferencialmente por uma boa razão. E isso vai ter consequências para eles, lhes dando motivos para desatar o nó e poder, sim, expor os responsáveis por tudo. Teremos um novo combate mas nesse caso a função é arrematar a história e punir os responsáveis. Nada foi gratuito. Claro, você pode alegar a não-necessidade de robôs para isso, mas eles definem o subgênero. E aí nós vamos para…

Guilty Crown (ou “quando tentaram fazer de Code Geass alto-conceito**** e quebraram a cara”). Para além dos méritos estéticos — os character designs de Redjuice são indiscutivelmente bonitos — a receita de bolo foi muito mal-interpretada e me pergunto qual a função dos robôs pilotáveis no cenário (feios, sem personalidade, narrativamente irrelevantes). Sem prejuízo para os personagens, em Geass os robôs imprimiam estilo! Queríamos vê-los em ação!

Guilty Crown: na verdade, o foco da série é em superpoderes. Os robôs são
totalmente irrelevantes. Fica a pergunta: se é assim, qual o motivo de tê-los?

Tanto combate quanto estilo são importantes, assim como investigações nos gibis de super-heróis ou vaivéns românticos nos velhos musicais da MGM. É um processo de construção e recompensa. Assim como feitos super-heróicos são o motivo para acompanharmos investigações e queremos ver raios disparados pelas mãos como paga pela nossa atenção, qualquer longa Disney usa canções para avançar a trama mais um passo. Robôs gigantes não são diferentes nisso.

Por outro lado, aproveitando os musicais como exemplo, imaginem um filme… do Elvis Presley: Ele desce do aeroporto, é recebido por uma mulher bonita no carro, ela pergunta “como você se sente ao me rever?” e ele canta. Chegando na praia, vazia, ele acha um violão e… canta. Aí os amigos dele chegam do mar, um deles… “lembra do bongô?” e o batuca. Aí Elvis canta. Quase vinte minutos se passaram — e nem sabemos do que se trata a droga do filme*****!

De acordo com um crítico que assistiu “Transformers 2: A Vingança dos Derrotados”, ele
se sentiu ao sair do cinema como se tivesse sido, hum, agredido por duzentos robôs…

Eu chamaria isso de pornografia mas é mais conveniente chamar de gratuidade.

Basicamente, ela é o outro extremo da questão: não é mais recompensa, é oferecimento. É direto e, a partir de certo ponto, saturante — pense em Transformers 2. Mesmo uma história de mata-monstro-e-pega-tesouros em uma masmorra pode ter construção, suspense, engajamento e expectativas a serem alcançadas. E vamos nós para Super Robot Wars Original Generation: The Inspector.

Aquilo está longe de ser brilhante mas é muito honesto: ele quer nos vender um videogame e mostrar combates espetaculares com robôs legais sem nunca nos esconder isso. Tudo funciona justamente por ser deliberado e com o devido senso de proporção, humor e distanciamento de quem o faz. Sempre me volto aos episódios 7 e 10******: nada ali é tão bom mas tudo é redondo. Seguindo o padrão da série, é mecha porn… mas com historinha, e dá certo por isso.

Super Robot Wars: Original Generation não engana ninguém — é a regra do cool ao
volume máximo — mas mesmo eles procuram desenvolver seus personagens de papelão…

Talvez meu ponto seja este: encontrar equilíbrio quando este pode ser algo pessoal dentro de um leque de preferências e variar entre os membros de uma mesa. E sim, temos a questão da identidade de um gênero em campo quando os participantes podem não ter identificação, aceitação ou reconhecimento básico dos elementos que a definem — e como um mestre pode amarrar ou ferrar tudo por questão de gosto e bagagem pessoal. Não é um assunto simples assim.

Eu também não vou negar certa incerteza quanto ao norte desse artigo. Esse é um assunto subjetivo e escorregadio até dizer chega. Mas toda proposta de jogo traz expectativas. Se você tem vontade de encarar uma adaptação para RPG de, digamos, Full Metal Panic!, uma sessão sem robôs como um respiro pode valer a pena MAS, se ele for transformado em Full Metal Panic: Fummoffu, alguém vai ficar frustrado*******. Só pensem um pouco nisso.

Até a próxima.

Sim, essa galerinha na série Full Metal Panic original estava em uma série
de ação, tiroteio e robôs gigantes. Esses itens não estão aqui!

* A pior história até onde sei foi um grupo aonde todos os jogadores, experimentando Brigada Ligeira Estelar pela primeira vez, se recusaram a pilotar robôs gigantes — deixando o mestre de jogo desnorteado. Depois de duas sessões capengas de jogo, eles pularam fora dizendo não ter “se encontrado” nesse cenário. Bem, a culpa aqui não foi nem do mestre, nem da ambientação: imaginem um jogo de fantasia aonde todos se recusassem a usar armas ou magia…
** O único mangá de Code Geass a seguir a continuidade da série de televisão não foi publicado por aqui: Code Geass: Oz the Reflection e sua continuação Oz the Reflection O2 (ambas com cinco volumes), de Chika Tōjō e Ichiro Okōchi. É um material interessante e, mesmo com uma ressalva ou outra, eu o acho o único mangá de Code Geass digno de alguma atenção. O site J-Box tem um artigo sobre os demais mangás da franquia — e não é difícil entender o motivo deles serem tão… dispensáveis.
*** Basquash!, criado por Shōji Kawamori e o francês Thomas Romain, é sobre robôs gigantes pilotáveis, usados para jogar basquete profissional. Na verdade, são poucos os animes a apresentar utilidades não necessariamente violentas para tais construtos.
**** Alto-Conceito é uma ideia original capaz de ser compreendida em uma só frase. É a base de todas as propostas hollywoodianas. Vários filmes, séries de televisão ou animações se tornaram “Alto-Conceito”, sintetizando ainda mais a ideia: “‘Força em Alerta’ é ‘Duro de Matar’ dentro de um navio”, “‘Valvrave: the Liberator’ é ‘Gundam’ com vampiros”, etc.…
***** “Seresteiro de Acapulco”, se a memória não me trai… mas faz diferença? Todos os filmes do Elvis são iguais e nem mesmo os nomes dos protagonistas importam — são “o Elvis”, mesmo. 😀
****** Aqui cabe uma explicação. SWROG: The Inspector tem um elenco enorme, e por isso acompanha diferentes núcleos de personagens enquanto não os agrupam. Até aí, tudo bem. O problema é justamente nos deixar secos com um cliffhanger e partir para outros personagens antes de voltar aos anteriores. Esse é o motivo pelo qual o episódio 10 é a continuação direta do episódio 7: antes de prosseguir, foi preciso tirar outros dois times de personagens do aperto…
******* De novo, uma explicação. Full Metal Panic! é uma série que mistura comédia colegial à ação militar (com robôs gigantes, é claro) e faz por tabela um tributo ao cinema e à televisão oitentistas (a ponto de um dos temas de sua trilha sonora ser basicamente um plágio descarado da trilha de abertura do Esquadrão Classe A). Infelizmente, sua segunda temporada adaptou uma série paralela mostrando as desventuras do personagem principal na escola — Fummoffu. Como a série prosseguiu, em retrospecto dá para avaliar o material pelos seus próprios méritos como comédia (e ele tem alguns episódios muito bons), mas na época — pelo menos para mim, que adorei a primeira série — foi uma tremenda ducha de água fria… ah, sim, eles tem seu próprio RPG de mesa no Japão, sabiam?

NO TOPO: Go Shogun, um exemplo claro dessa falta de sincronia: enquanto a série original foi um real robot divertido e com algum humor feito com os clichês do gênero, o longa-metragem era uma obra sombria, com pretensões adultas, experimentalismos estéticos… e SEM robôs gigantes. A crítica elogiou, mas não foi uma boa ideia.
DISCLAIMER: todos os personagens e obras mencionados estão aqui apenas para fins jornalísticos ou divulgacionais e pertencem legalmente a seus devidos proprietários.

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