Por Trás do Sabre: Arkady

Arkady não nasceu, exatamente, de nenhuma origem inspirada em anime. Ele foi puxado, na verdade, do próprio contexto no qual eu cavucava inspiração: tem hussardos? Vamos ter cossacos. E se tivermos cossacos, uma Rússia espacial é obrigatória. A questão era: se ele não veio das inspirações ligadas ao gênero, ele poderia ser enquadrado dentro delas? Na verdade, poderia sim, e até com muita facilidade. Percebido isso, me bastava só seguir em frente.

Arkady ganhou peso para mim posteriormente, quando já estava publicado e ainda era uma mera “Rússia Czarista… NO ESPAÇO”. Foi quando veio a ideia de introduzir seu elemento de ficção científica mais ostensivo: a volta do mamute. Como sabemos, vários corpos congelados desses bichões peludos foram encontrados na Sibéria e muito se discutiu sobre trazê-los de volta. Parece pouco? Sim, mas imagens mentais são fundamentais na construção de um cenário.

E isso cristalizou a imagem definitiva do planeta em minha mente: um cossaco em meio à neve com um robô gigante por trás e um ou mais mamutes ao fundo. E temos uma backstory: nesse mundo gelado, no qual vivemos uma reprise da era czarista, tivemos uma desastrosa tentativa de reinserção dos mamutes… e eles acabaram se espalhando pelo planeta. Não é como os monstros de Inara mas já é um bom motivo para se ter um robô gigante em cada cidade pequena…

Convenhamos, a Lenda dos Heróis Galácticos é o Guerra e Paz dos animes.
E embora o outro lado seja péssimo, a nobreza aqui é pavorosa…

Referências Iniciais

A palavra-chave para este planeta é uma só: sobrevivência. Há grandes centros urbanos, há uma nobreza decadente muito calcada na era czarista (e ela era realmente assustadora), mas tudo isso em um ambiente hostil. Em uma definição muito troncha, seria como o Reich de Lenda dos Heróis Galácticos no mundo de… Overman King Gainer (mas com mamutes). E precisamos retornar a uma citação inesperada: o faroeste espacial Blue Gale Xabungle. Não, não bebi.

Por trás de todo o escracho, Xabungle fala sobre luta de classes em meio a um ambiente de faroeste com robôs gigantes. Overman King Gainer, para muita gente, é uma espécie de Xabungle na Sibéria. E sim, um dos modelos de robô é o dos Silhouette Mammoths. Quanto ao faroeste, ele é menos uma época ou um lugar e mais um espírito. Se quiserem faroestes no gelo, com ênfase em sobrevivência, pensem O Vingador Silencioso ou Mais Forte do que a Vingança

Overman King Gainer. Você só precisa ver os primeiros
capítulos se estiver com dúvida. É perfeito.

…(mas russos. Com veículos futuristas desgastados pelo ambiente. Mais robôs gigantes. E mamutes).

Como Overman King Gainer já fez metade do trabalho, vamos falar da nobreza. E não citei Lenda dos Heróis Galácticos à toa: na versão de 1982, os episódios sobre o Reich pintam um panorama assustador mas a “nobreza vampírica” do Mundo das Trevas da White Wolf já mostra bem como a banda tocaria nos bastidores. Eles só não precisam sugar sangue. Ah, sim…

Eu… preciso… falar de Nikolai Dante. A MELHOR série da saudosa Juiz Dredd Magazine nacional, mas todo mundo metia o pau na arte maravilhosa do Simon Fraser e preferia o padrãozinho Área Cinzenta. Não é preciso abraçar suas brutalidade, sexo e bizarrice (é para adultos, amiguinhos), nem de seus alienígenas, mas de resto é Arkady em quase tudo. E puxa os aspectos de capa-e-espada até o último volume. Sim, adoro esse material…

…(mas não tem mamutes).

Nikolai Dante: ladrão, espadachim, nobre bastardo e revolucionário.
Isso em uma Rússia Czarista do futuro. Mais Arkady não existe.

Arkady em Jogo

Curiosamente, tendo isso tudo em mente, Arkady é perfeito para campanhas mais convencionais de real robot. Ele é um dos mundos da frente proscrita e, das Guerras Napoleônicas à Stalingrado, há toda uma tradição de histórias russas de guerra. Nesse sentido, cabe tanto um Macross, com jovens pilotos e romances entre missões, quanto um Votoms, com seu aspecto impiedoso e casca grossa…

…(mas com mamutes e… tá bom, chega, essa piada já perdeu a graça).

Capa-e-Espada Espacial: temos tudo aqui para isso! Nobres pouco confiáveis, intriga política, donzelas em perigo… desembainhe a sua espada de energia!

Drama de Guerra: seus personagens são enviados para a frente proscrita — mas vocês lidam diariamente com o lado humano de gente comum a ser protegida.

Faroeste Espacial: Arkady é um local inclemente — e como as autoridades estão longe de tudo (ou são o problema), a justiça nos rincões é feita à bala.

First Squad é sobrenatural, envolve zumbis e está fora de nossa “época referencial”
mas pode ser uma referência esteticamente interessante para zonas de conflito.

Ficção Científica Militar: além da frente proscrita, você pode deter milícias locais ou a própria nobreza (parte do papel da Brigada é coibir abusos).

Folhetim Espacial: aqui a coisa pode ganhar proporções… épicas. Famílias nobres ascendem, famílias nobres caem, o elenco é enorme e temos muito drama.

Space Opera: com proscritos no céu e nobres vilanescos, é fácil imaginar planos mirabolantes, super-ciência… e ameaças para a constelação neste mundo.

Aqui precisamos abrir um espaço para falar dos Cossacos. Eles estão presentes em Villaverde e, em menor grau, em outros planetas da Constelação… mas Arkady é o mundo mais identificado com esse povo por razões óbvias. Com seu espírito marcial como povo, eles praticamente se prestam ao papel de índios em um contexto de faroeste espacial, embora não tenham realmente um fator étnico visível. Podem ser encaixados em várias dessas narrativas sem drama…

A Balada do Hussardo: é praticamente um longa açucarado da Disney com seres humanos,
mas quando as forças napoleônicas ele fica legal. Se forem curiosos, sejam pacientes.

…e, mais importante, eles ainda existem no mundo real (embora muitas hostes tenham se perdido). Isso significa uma boa fonte de referências caso você se dedique a pesquisá-las. Do batedor oficial de uma unidade da Brigada a uma campanha só de cossacos na luta contra os Proscritos, eu os considero um dos meus acertos pessoais no cenário. Infelizmente, não os explorei tanto como gostaria. Tinha prioridades e o novo livro de RPG mudou vários planos.

Com isso, Arkady se tornou um mundo com grande variedade. Campanhas de sobrevivência em ambiente hostil? Faroestes espaciais? Intrigas palacianas? Atrocidades a ser impedidas? Quem sabe uma espécie de “gótico científico” (a aventura “A Face de Stéphanos”*, no fundo, é a versão sci-fi de uma história de fantasmas)? Tudo isso entre nobres, cossacos e jovens pilotos descobrindo a vida enquanto evitam a morte.

E tudo isso com… ah, chega!

Até a próxima.

E um bom descanso para todos.

* A Face de Stéphanos foi uma aventura pronta publicada em quatro partes no antigo site da Editora Jambô. Um dia ela será atualizada e republicada como deve. E vejam só, eu não entupi o texto de notas dessa vez!

DISCLAIMER: Legend of Galactic Heroes, Blue Gale Xabungle, Overman King Gainer, First Squad: The Moment of Truth, Nikolai Dante, Hussar Ballad , Girls and Panzer e outras obras que porventura tenham sido mencionadas são posse das respectivas empresas proprietárias e todos os direitos deles pertencem a seus respectivos donos.

3 comentários

  1. Arkady? Mudou a escrita do nome?
    O primeiro personagem de BLE que eu fiz (e acabou não utilizado, infelizmente) foi um Cossaco de lá. É um planeta muito rico em histórias e com muito trabalho a fazer para os heróis.

    1. É mais uma correção, na verdade. Eu usava a grafia lusitana do nome, que traduzia esses nomes russos (culpa minha, por ler aquelas coleções portuguesas de livros sci-fi de bolso. Mas agora, com o novo livro, estou aproveitando para fazer todas essas correções em nomes de origem estrangeira (como a grafia correta de Schulman).

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