Insira seu Cenário

Brigada Ligeira Estelar não é um cenário de FC Hard — a ficção científica mais baseada na especulação a partir de possibilidades científicas concretas. Contudo, é impossível não retornar pontualmente a ela em certas circunstâncias. Conta pontos para isso as escalas envolvidas em um cenário como este. Em um primeiro momento, realmente pensei em amplitudes galácticas — mas, com o tempo, me dei conta do quanto isso inversamente encolheria o cenário.

Explicando melhor: quanto maior o espaço de cenário, menor a importância de cada planeta — e eles são importantes no contexto de Brigada Ligeira Estelar. Um bom exemplo disso nos animes é Five Star Stories: a história é centrada em quatro sistemas solares (a quinta “estrela” é um cometa) e temos um grande foco em cada mundo. Se esta fosse uma galáxia com centenas de planetas, nós teríamos vários planetas genéricos e quase nenhum seria importante.

Quando me dei conta dos tamanho das áreas envolvidas… para quê o “planeta da semana”? Na verdade, em dezoito constelações, cabe muito bem um verdadeiro cenário dentro do cenário. Não mini-cenário, eu falei cenário mesmo. Terraformação de planetas, construções de grandes cidades — tudo isso pode ser um verdadeiro universo, por si só, para os jogadores. E para exemplificar bem esse conceito, vamos trazer um convidado especial: o Planeta-Anão Ceres.

Localizado no cinturão de asteróides entre Marte e Júpiter e considerado um asteróide por muito tempo, Ceres cai em todas as classificações definidoras de um planeta, menos uma: não domina sua órbita*. Tem uma frágil atmosfera de vapor d’água que sublima e deixa a superfície (ou seja, não há influência gravitacional ou eletromagnética para evitar isso). Está fora da zona habitável** do sistema solar e provavelmente tem uma camada interna de água.

Por fim, Ceres tem 1.800.000 km² de superfície. Há muito mais a dizer sobre este planeta-anão, mas para fins de jogo isso é o bastante: ele tem água — o commodity mais importante do universo — e muito terreno útil a se explorar. Como seu núcleo é rochoso e aparentemente não-ativo, poderíamos (com um pouco de imaginação) pensar em terraformar seu interior e criar uma mega-colônia espacial nos termos do cenário: cinquenta andares de… 4.600 km cada.

Parem para pensar nisso: cada nível teria um “teto” suficiente para se viver na altitude de La Paz (ou Lhasa, no Tibet) e ainda ter um quilômetro de “céu” acima de sua cabeça. Por andar. Um asteróide dividido em dezenas de andares, sendo cada um praticamente um estado por si só, com grandes arranha-céus, montanhas artificiais, voos aéreos e até mesmo nuvens. Seria possível distribuir neles a população do Brasil inteira, com muito espaço de sobra.

Na verdade, pegando pesado nas projeções, possivelmente seria possível encaixar as populações da China e da Índia, juntas, nesta mega-colônia. São pensamentos feitos meio por alto mas servem como um exercício para se explorar senso de escala — e causar um curto-circuito mental naqueles com horror à números em sua sci-fi. Para fins de comparação, a superfície da primeira Estrela da Morte, em Guerra nas Estrelas, tinha 49.553 km² (e uns quebrados).

Agora pensem: qual a área espalhada em seu mundinho de fantasia medieval favorito? É um recorte de um continente maior, certo? E mesmo assim vocês vivem todas as suas aventuras em um lugar como esse. Imaginem agora o tanto de conteúdo criado pelo mestre e passível de ser encaixado em um espaço livre da Constelação do Sabre. Uma “Ceres” terraformada poderia estar enfiada na zona habitável de algum sistema qualquer do Império e pronto, é só povoar.

Talvez o mestre precise de um personagem qualquer só para fazer conexão com o cenário principal, mais para constar, ou algumas bases da Brigada caso seja importante e… talvez esquecer disso. Ao longo de muito tempo, criamos alguns links úteis para os interessados em povoar e personalizar seu canto no universo. Povoar terreno vazio? Enquadrá-lo em algum campo da ficção científica? Quem sabe encampar algum aspecto não abordado até agora no cenário?

Da mesma forma, os jogadores podem aproveitar a própria liberdade para estabelecer pontos fora da curva. Lá nos primeiros tempos do cenário, um jogador, na versão antiga do fórum da Jambô Editora, perguntou se seria possível criar uma comunidade republicana no cenário, funcionando como uma cidade isolada. Como seria a reação oficial? Eu diria depende do mundo. Em um mundo como Arkady ela estaria sujeita a um ataque secreto das autoridades locais.

Já em um mundo como Forte Martim, apesar de certo incômodo, a princesa-regente evitaria um eventual massacre deles pelas forças ao redor, contando com uma eventual fragilização dessa estrutura com o tempo e de sua dependência externa de víveres e bens. A Brigada Ligeira Estelar poderia eventualmente protegê-los em caso de um ataque da pequena nobreza ao seu redor (afinal, a guarda regencial deste mundo não é confiável). Mas podemos ir mais longe.

O jogador em questão poderia construir sua comunidade no espaço, terraformar secretamente um asteroide ou planeta-anão qualquer e viver em seus termos, procurando passar batido pela Aliança Imperial (afinal, eles ainda estão em seu território): isso causaria a eles problemas, especialmente caso o local caia sob o radar proscrito. Porém, isso só acontecerá se o mestre quiser. Aí entra o fator das escalas — esse lugar pode ser um cenário por si só.

Mas não é mais fácil criar o próprio cenário? Bom, essa é uma opção honesta — mas, na verdade, não: isso dá um trabalho imenso. Por outro lado, inseri-lo em um cenário existente, ainda mais um cheio de lacunas (deliberadas) como o de Brigada Ligeira Estelar, permite o uso de certa… infra-estrutura narrativa para facilitar sua vida. Proscritos? Leviatãs? Piratas espaciais?  Elementos pinçados do cenário podem garantir funcionalidade à ambientação.

Aí é só questão de ocupar o novo espaço com os nichos de seu interesse. “Ah, eu quero um núcleo afro-futurista”. Perfeito: dá até para sincronizá-lo esteticamente com alguns elementos do cenário caso você queira (um análogo espacial ao movimento de independência do Haiti pode ser uma boa pedida***). “Eu quero por aqui meu destino ideal para os ancestrais Viskeyjin”. “Eu quero um nicho criado por animais de companhia mutantes zoo-antropomórficos”.

Vocês podem, vocês todos podem. Nada aqui é canônico, mas lembre-se: quando você compra um livro de Brigada Ligeira Estelar, o cenário passa a ser seu. O autor não é o Grande Irmão olhando por cima de seu ombro. Aliás, não existem tantas lacunas no cenário sem motivo — eu o emparedaria se colocasse um nome e um estado físico para todo e qualquer planeta secundário. O espaço para os jogadores criarem é importante aqui.

Divirtam-se, e até a próxima.

A mesa é sua para vocês fazerem até mesmo isso.

* Vamos à nossa amiga Wikipedia: Um planeta (…) é um corpo celeste que orbita uma estrela ou um remanescente de estrela, com massa suficiente para se tornar esférico pela sua própria gravidade, mas não ao ponto de causar fusão termonuclear, e que tenha limpado de planetesimais a sua região vizinha (dominância orbital)“. Usualmente os planetas-anões gabaritam todos esses itens, menos o último — eles não tem gravidade para isso. Ceres é um bom exemplo — sua órbita é cheia de asteroides.
** Zona Habitável é o território do sistema solar no qual a água pode existir em estado líquido, e portanto, há teoricamente a chance de vida. A água evapora nos mundos próximos demais ao sol e, nos mais distantes, ela congela. Lembrem-se do “teoricamente”: Vênus e Marte estão na Zona Habitável de nosso sistema, mas nem por isso eles são capazes de abrigar vida.
*** A Revolução Haitiana aboliu a escravatura no Haiti em 1804. Mas o país pagou caro por isso, sendo isolado e por fim, forçado a indenizar a antiga metrópole — destruindo qualquer chance de futuro do país. Claro que a Constelação do Sabre tem um contexto completamente diferente, e um território autônomo no espaço poderia ser construído sem problemas, sendo ligado ao Império e talvez tendo até apoio de certos setores. As coisas não precisariam ser tão dramáticas.

NO TOPO: Imagem Interna de um Cilindro de O’Neill, o modelo proposto nos anos 70 para a exploração espacial, adotado nas séries Gundam clássicas.
DISCLAIMER: todas as imagens pertencem a seus respectivos proprietários, para fins divulgacionais ou jornalísticos, sem infração de direitos autorais.

3 comentários

    1. Guilherme aqui outra vez (acho que você adquiriu um pirralho de seguidor kkkk). Belo texto Alexandre, e uma grande coincidência pois eu estava justamente tentando conciliar o interesse de meus dois (talvez futuros) jogadores em Faroeste e Super-heróis com a Brigada Ligiera Estelar que acabei de adquirir klkkk.
      Valeu pelas dicas e não se esqueçam da pesquisa Galera!

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