O Interesse Humano

Em um episódio do arqueológico seriado em preto e branco “Os Intocáveis” — isso mesmo, aquele aonde Eliot Ness e seu bando de policiais incorruptíveis semanalmente desbaratavam a quadrilha criminosa da vez* — um chefe de quadrilha foi pego na malha fina da justiça por algum crime de colarinho branco qualquer e conseguiram levar seu julgamento para um local neutro, em uma cidadezinha bem no interior dos Estados Unidos. Essa foi a grande armadilha.

O truque: esse chefe de quadrilha era simpático e sociável. Ele não podia sair da cidade, mas fora isso tinha o direito de circular livremente e ganhou a simpatia de todo mundo, enquanto do outro lado todos só tinham a oferecer números frios. Ficava bem claro: os locais enxergavam o crime como algo distante, o gângster era visto no fundo como um bom sujeito e no final, escaparia ou pelo menos conseguiria uma pena leve. Qual a saída para o dilema?

Trazer vítimas de seus atos mais brutais, preferencialmente com sequelas, para testemunhar contra o sujeito. Falamos aqui de interesse humano — trazer algum gancho de envolvimento emocional para uma pauta potencialmente fria. É um recurso tradicional do jornalismo: você abre com as consequências de um evento no dia-a-dia, como aquela simpática velhinha pagando a débito no mercado para não sobrecarregar o cartão. Aí você entra… e fala dos números.

Não consegui achar o raio do episódio com uma imagem
mais ilustrativa, então ficam aqui os Intocáveis de 1959.

É claro, precisamos ser diretos: esse é um recurso conveniente para facilitar o entendimento de uma notícia para o espectador mas também dá muita margem para manipulação e, na vida real, a emoção não é boa conselheira. Mas ele pode ser bem útil para um mestre de jogo, especialmente em um cenário de ficção científica como BRIGADA LIGEIRA ESTELAR, aonde conceitos “duros” podem precisar ser introduzidos (e explicados) o tempo todo para os jogadores.

Vamos nos lembrar do terrível Star Wars — Episódio 01: A Ameaça Fantasma. Sua premissa é até funcional em uma primeira leitura: uma Federação de Comércio gera uma crise na República ao efetuar um bloqueio planetário em protesto contra uma recente lei de taxação das principais rotas comerciais galácticas. Acreditem: isso em si é bem… sólido. Um bloqueio econômico pode asfixiar e arrasar as finanças de um país, destruindo a vida de sua população.**

A versão alien do engravatado de óculos.
Empolga como vilão? Nem um pouco.

Mas embora isso seja vilanesco — e, de fato, uma federação empresarial possa ser um vilão terrível (vide, no universo de Brigada Ligeira Estelar, a própria FEMTAR para não me deixar mentir)… essa premissa tem o apelo emocional de um nabo em um secador de legumes! É claro, tudo é bem amarrado em relação à trama central da trilogia, em retrospecto, MAS a maioria das pessoas não se move pelo racional — elas precisam do melodrama e do impacto visual.

Vamos tentar uma situação análoga em nosso cenário: a FEMTAR, secretamente, quer provocar uma crise de desabastecimento para enfurecer a população — e para isso, está plantando uma greve dos transportadores. Várias redes de mercados, ligadas à Federação, estão armazenando seus estoques de alimentos não-perecíveis e enlatados em locais secretos para vender o discurso de falta do estoque. Eles estão sendo bancados para suportar o tranco nas vendas.

“Greve de caminhoneiros? Isso aí é ameaça?” Não zombe nunca disso:
Desabastecimentos são o
primeiro passo de um golpe de estado.

A mídia, alinhada à FEMTAR, pretende jogar a culpa do desabastecimento no governo… e enfim, gerar um terreno propício para um golpe de estado parlamentar. Novamente, isso é real e é parte da cartilha dos golpes na América Latina. Mas como vamos tornar isso emocionante? Começando com quem paga o pato: mostre, aos jogadores, a população de rua sacrificando animais para comer, robôs hussardos contendo gente a depredar mercados com cargos ou refugos…

… apenas para as próprias turbas descobrirem estoques parcialmente vazios. Pense em transportadores sem trabalho porque “seus chefes não querem perder cargas” com os assaltos constantes, transportes do governo atacados nas estrada e, quando se livram dos saqueadores organizados, surgem os improvisados atraídos pela desordem e distração dos hussardos com o combate. Construa tensão com uma escalada de desgraças pessoais representativas da situação.

Caro George Lucas: Federações de Comércio não precisam de naves de
batalha!
Eles terceirizam esse serviço e nunca se comprometem!

Aqui entra o toque: Federações Empresariais não dão golpes de estado. Eles mexem pauzinhos… e patrocinam projetos de poder***. Então é preciso chegar a quem vai fazer o serviço sujo e está armando o projeto para si. As mãos que apertarão os gatilhos sempre serão de terceiros… e intercambiáveis. Aqui, precisaremos de algum personagem como conexão para a ação: um nobre e/ou parlamentar adversário político do governo local? Há várias possibilidades.

Quem sabe um representante do governo local opositor à política imperial? Um líder sindicalista dos transportadores servindo como porta-voz das suas reclamações? Um líder de milícia comunitária coordenando saques, seja por especulação oportunista, seja suprir os seus em meio à crise… ou um misto de ambos? Talvez até todas as anteriores de acordo com a complexidade da trama. O importante é nada ficar parado e terminar com robôs gigantes no espaço.

Para ser mais on-topic: Gundam Wing surfa na mesma bobeira, quando
a OZ rompe com a Fundacão Romefeller e esta… reage com suas forças.

Mais importante é trazer envolvimento emocional para seus jogadores — e isso não é difícil. Nós queremos levar tudo para um final épico, não para batidas em armazéns! O cenário não foi batizado como Brigada Ligeira ESTELAR à toa! Não se esqueça da space opera aqui! Dê uma cara ameaçadora a seus grandes vilões, use mercenários corporativos… mas lembre-se do drama e da novela! Veja os temas “duros” como ponto de partida mas ouse além!

Até a próxima!

* A série tinha como grande vilão original Al Capone, é claro. Mas nomes como Frank Sinatra (inspirador do Johnny Fontane de “O Poderoso Chefão”. É uma história muito longa, mas isso já diz tudo) e a própria máfia italiana se revoltaram — a ponto dela ordenar a execução de Desi Arnaz, produtor da série, recuando no último momento). No final, foi uma greve dos carregadores ítalo-estadunidenses nos portos novaiorquinos a responsável por colocar os Intocáveis contra gângsters fictícios daí em diante, sendo que nenhum deles seria italiano. Sobrou até para os russos, com um improvável Joe Vodka.
** Mas, é claro, eles decidiram levar o bloqueio de forma literal.
*** Vocês querem MESMO que eu desencave exemplos da vida real e torne a seção de comentários uma fonte de tretas?

NO TOPO: imagem de Nº 06. Nada a ver com o gênero, mas a imagem em si é perfeita — sem o cachorro, ela é só uma área devastada. Com o bicho, vocês prestaram atenção, certo? Interesse humano é isso.
DISCLAIMER: Os Intocáveis (a série) pertencem à Paramount Pictures Corporation; Star Wars, todos os seus personagens e elementos de cenário pertencem à Walt Disney Company; New Mobile Report Gundam Wing pertence à Sunrise, inc. Imagens para fins jornalísticos e divulgacionais. Todos os direitos pertencentes a seus respectivos proprietários.

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