Antropologicamente…

Talvez meu escritor de ficção científica favorito seja Poul Anderson. Ele nunca foi tão publicado no Brasil quanto o ABC do sci-fi daqui (Asimov, Bradbury e Clarke*), há décadas que não temos material dele em português e só nos restam os sebos para achá-lo, mas foi ele quem me salvou, na juventude, para a literatura de ficção científica após duas experiências desastrosas**. E, dentro de seu ciclo da Liga Psicotécnica***, cito um conto específico.

Nele os mercadores da liga encontram um planeta onde esperam fazer um bom dinheiro, se apresentando em termos amigáveis. Isso só deflagrou uma caça feroz contra eles. Em algum momento, nossos protagonistas descobrem que neste mundo, um bando de saqueadores planetários se apresentou como “amigos” que vieram para “fazer negócios” e, por isso, esses termos são assocados a piratas e rapinagem em mega-escala. Agora eles precisam salvar a própria pele.

Esse conto me veio à mente quando assisti a ESTE vídeo no canal do Alexandre Linck (vejam, é muito bom), mencionando as histórias em quadrinhos do Tio Patinhas de Carl Barks. Mais especificamente, o conceito definido por Linck como Humor Antropológico: nossos personagens viajam para um lugar pouco ou nada conhecido, onde encontrarão locais esquisitos com povos com costumes estranhos, mas que geram algum tipo de construção cultural via comparação.

Infelizmente, para ler Poul Anderson em português hoje em dia, só escavando em sebos.

Pensando bem, isso já existia bem antes de Barks — mas não necessariamente como comédia. A literatura de aventura já estava entupida, à época, de aventureiros que encontravam povos exóticos e com costumes fora da caixinha, mas aqui eles são apresentados de forma satírica (até porque as aventuras dos patos sempre foram medidas pela régua do humor). No entanto, eu acho que esse pensamento antropológico pode ser interessante para os mestres de jogo.

Até porque isso pode ser encontrado até, digamos, na série clássica de Jornada nas Estrelas: os personagens chegam a um planeta, seu povo pode ou não estar mais atrasado tecnologicamente do que o nosso, mas por algum motivo um traço cultural desencadeia um perigo ameaçador****. Resta aos protagonistas desatar esse nó, salvando a si e, por tabela, a esse povo no processo. Soa paternalista? PARA CARAMBA. Mas narrativamente, funciona, então dane-se.

De novo, a tripulação da Enterprise foi envolvida em costumes letais de civilizações exóticas e precisa sair dessa.

Parte da força desse elemento antropológico repousa na sua capacidade de sátira: pega-se um comentário social sobre um tema relevante ou ao menos existente, constrói-se um fator cultural em cima disso, desenvolve-se essa civilização e pronto. Eu gosto muito do episódio 7 da primeira temporada de The Orville*****, “Majority Rule”, que mostra um planeta que parece saído da série… Black Mirror. Os personagens chegam a esse mundo e só fazem besteira…

…mas vão se arrepender amargamente: aqui, a posição de cada habitante depende de sua avaliação nas redes sociais, e qualquer pisada na bola pode render até uma pena de morte, vista como espetáculo por seu povo. Como bom Jornada nas Estrelas com os números de série riscados, o capitão não pode bater de frente contra a Primeira Diretriz Lei da União sobre Interferência nos Mundos em Desenvolvimento. O jeito é manipular a opinião pública na encolha…

The Orville: audaciosamente encontrando uma forma de livrar a própria pele de encrenca.

Sentiram o “Antropológico” aqui? Esse é um bom jeito de construir one-shots. “Ah, mas isso não tem a ver com os animes de robôs gigantes…” — calma, vão parando: na época de transição entre o real robot e o super-robot, como em Seijuushi Bismark (vulgo Saber Rider) e as séries J9, temos vários episódios dessas séries que, embora não mergulhem no aspecto de sátira velada dessa abordagem, se valem do recurso do “lugar afastado que precisa da ajuda”.

E como inserir isso em Brigada Ligeira Estelar, já que a Constelação é bem delimitada? Na verdade, é fácil. Não é preciso criar um planeta novo por sessão: se uma cidade do interior pode representar um problema bem parecido nos termos do mundo real, uma colônia mascon****** em um dos mundos inabitados da constelação ou uma lua terraformada podem muito bem dar conta do recado. Assim, vamos oferecer uma pequena matriz de possíveis ideias para isso.

Séries como Sei Juushi Bismark (Saber Rider) usaram e abusaram do “lugar do meio do nada que precisa de ajuda, MAS.”
Franquias como Macross se valem muito desse expediente, com choques culturais muito graves…

Querem um exemplo prático? Imaginem que no limiar externo da zona habitável da estrela Ialysus — ou seja, dentro da zona de guerra contra os Proscritos — exista uma lua menor de algum mundo, bem pequena, terraformada durante o Grande Vazio, cujos habitantes preferiram manter seu isolamento, sem bater de frente com a Aliança Imperial. Há representantes com o direito de sair dessa lua para eventuais contatos com as autoridades imperiais, e só. MAS…

…que são resolvidos de alguma forma conciliatória no final. Mas até lá, ROBÔS PILOTÁVEIS EM BATALHA AOS MONTES!

…com a guerra, instalar um posto da Brigada é obrigatório. Eles criam uma área na superfície onde só “pessoas dos mundos” podem circular, e raramente veem nativos. Até que eles resgatam uma moça de aparência diferenciada (e que não parece ser um evo) dos proscritos. Para piorar, ela se envolve com o piloto que a salvou… e agora, as autoridades dessa lua querem tanto a devolução da moça quanto a prisão do piloto. O motivo é pior do que se imagina.

Essa lua é comandada por uma seita religiosa e ela jamais causou nenhum problema a ninguém. Por isso, durante a Guerra do Sabre, eles foram deixados em paz e se comprometeram a não se opor à nova ordem ao final do processo. Mas para eles, o sexo é a raiz de todo o pecado, e por isso, a reprodução passou a ser feita in vitro, proibindo sua prática. Só que isso está gerando jovens divergentes e essa gente quer evitar sua multiplicação, isolando-os.

Pensando bem, várias séries que vieram na cola de Macross (como esta*******) se valeram desse expediente.

O que a Brigada vai fazer? Intervir no planeta, salvar os jovens divergentes e desmontar essa ordem? Eles podem fazer isso? E quanto aos Proscritos? E ao mestre, como inserir os conflitos com robôs que definem o cenário? Apesar do tom dramático (em comparação com os exemplos mais cômicos anteriores), não é difícil entender os elementos de crítica social e a pertinência dos temas presentes aqui. É um contexto que pode dar caldo para tramas longas…

…mas isso não é mandatório e essa estrutura pode ser muito conveniente para sua aventura improvisada em uma tarde de sábado! Pense em ganchos de resolução (preferencialmente ligados a um confronto entre robôs gigantes). A seita pode ser uma fraude? Seus líderes religiosos podem fazer algo que leva parte de sua população a romper com eles? Um ataque proscrito pode pôr tudo a perder? Há um sem-fim de possibilidades aqui!

Até a próxima e divirtam-se.

E no final, se tudo der errado, CORRA E SÓ VOLTE COM UM CRUZADOR ARMADO ATÉ OS DENTES!

NO TOPO: arte do grande Don Rosa.

* Isso é mais entre o fandom de ficção científica no Brasil (que é um ovo). Lá fora, no lugar de Ray Bradbury, quem ocupa essa posição no pódio é o Robert A. Heinlein de Tropas Estrelares, e há até uma piada nos Simpsons mostrando como o fandom local não sabe muito bem onde encaixar o Bradbury.

** No caso, com Piquenique na Estrada, de Arkady e Boris Strugatsky (juro que NÃO batizei o planeta em homenagem a ele) e Jornada de Esperança, de Brian Aldiss. Esses dois foram os primeiros livros de ficção científica que li na vida e quase mataram o encanto com o gênero que encontrei no cinema e na televisão. Foi o Noite sem Fim de Poul Anderson quem me salvou, graças a Deus!

*** O ciclo da Liga Psicotécnica de Anderson foi inspirado na Liga Hanseática dos séculos XII e XVII, com mercadores aventureiros que viajam pelo espaço encontrando mundos onde possam fazer grandes negócios e enriquecer. Pense em uma cruza de Jornada nas Estrelas com as aventuras do Tio Patinhas. Não riam, porque é muito bom.

**** Podemos encontrar isso nas diferentes gerações de Jornada nas Estrelas. Meus exemplos favoritos são os episódios O Retorno dos Archons (S01E21),onde a Primeira Diretriz é vista de uma forma muito elástica, A Taste of Armageddon (S01E23), onde dois povos encontraram uma forma “limpa” de fazer guerras com vítimas civis sem destruir a estrutura social (e envolvendo inadvertidamente os tripulantes da Enterprise. É o meu favorito nessa linha) e A Piece of the Action (S02E17), onde eles são forçados a intervir porque de certa forma, a culpa pela evolução dessa sociedade ter seguido este rumo foi de um ato negligente da própria Federação.

***** Basicamente, uma série de Jornada nas Estrelas pós-Nova Geração em tudo, menos no nome, criada pelo mesmo Seth MacFarlane de Uma Família da Pesada. Pense em todos os episódios “engraçadinhos” ao longo da história da franquia (sempre tem algum em todas as séries de Jornada), e que jamais deixaram de ser ‘Star Trek’ em espírito por causa disso. Curiosamente, ele revelou um melhor entendimento de Jornada do que as próprias séries Trek da mesma época (sim, Discovery, eu estou olhando para você).

****** Só relembrando, “Mascon” é um acrônimo para Concentração de Massa e define as cidades fechadas em planetas tecnicamente inabitáveis, dentro do cenário de Brigada Ligeira Estelar.

******* Super Dimension Cavalry Southern Cross (1984). No caso, este personagem desertou das forças terrestres para ficar com uma alienígena cujo povo exige uma espécie de linearidade genética bizarra, de trigêmeos que casam com outros trigêmeos, e ela quebra isso. O mais lógico seria ela desertar, não ele, mas essa série é toda mal pensada em cada mínimo aspecto, chega a ser inacreditável. Mesmo assim, serve como exemplo desses choques culturais com consequências graves.

DISCLAIMER: Tio Patinhas, Pato Donald, Huguinho, Zezinho, Luizinho e a série The Orville pertencem à The Walt Disney Company; Star Trek (Jornada nas Estrelas) pertence à Paramount Skydance Corporation; Sei Juushi Bismark pertence à Pierrot Co., Ltd..; Macross Delta pertence aos Studio Nue, Inc. & Satelight, Inc.; Superdimensional Fortress Macross pertence à Tatsunoko Production Co., Ltd../Big West Advertising Co., Ltd. (BWA); Super Dimension Cavalry Southern Cross pertence a Tatsunoko Production Co., Ltd..

Brigada Ligeira Estelar ® Alexandre Ferreira Soares. Todos os direitos reservados.

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