Igrejas, Seitas e Cultos Inimigos

Um dos melhores mangás que ando lendo atualmente é o seinen* de horror Smiley, de Mitei Hattori. Publicado na revista Weekly Manga Goraku da Nihon Bungeisha em 11 volumes no Japão (aqui, serão apenas cinco, compilando toda a história em mais páginas por volume), ele conta a história de um jornalista que, após a perda da filha, é abandonado pela esposa e fica à deriva. Anos depois, ele a localiza em uma seita barra-pesada e se infiltra nesta para…

Bom, não quero dar spoilers, mas basta dizer que o culto não é só barra-pesada (é uma história de horror, afinal). Ele está pesadamente infiltrado na sociedade, tem muita grana e, mais importante, tem seguidores misturados à população, identificados por um sorriso macabro quando se revelam (todos passaram por uma lavagem cerebral assustadora ali dentro). A polícia já foi cooptada. Grandes jornais já tem o dedo dela por trás. Você não está seguro.

Igrejas e cultos como instituição, ou fanáticos religiosos, têm um grande potencial como vilões em uma campanha de RPG — em vários gêneros — por um motivo simples: os primeiros envolvem abusos institucionais… e os últimos remetem ao horror dos filmes de zumbis, mas muito pior, porque eles não são uma turba descontrolada. Eles sabem o que fazem, mas perderam suas restrições morais para os mais terríveis atos possíveis. Afinal, eles estão “salvos”.

Essas crianças mataram os pais e se tornaram crianças-soldado sob a
influência de uma liderança religiosa picareta que lhes fez lavagem cerebral

Curiosamente, eu não os vejo com grande destaque em animes de real robot, quando muito algum elemento esparso, aqui e ali. Mas vários elementos dão as caras, de vez em quando. A adoração dos seus súditos pela rainha Maria Pure Harmonia em V Gundam (e o Império Zanscare nem chega a ser uma teocracia), a manipulação de crianças para fins homicidas por um falso líder religioso em Gundam 00**… mas isso não impede vocês, jogadores, de explorar o tema.

Só um detalhe: eu não vou apontar nenhuma igreja, seita ou culto do mundo real aqui, mesmo aquelas à qual tenho aversão pessoal (algo de meu direito). Se alguém achar que alguma coisa foi uma indireta… não, não foi, até porque não quero dor de cabeça na minha vida. Porém, se algum revoltoso achar que estou me blindando para poder seguir acusando sua queridíssima congregação, bem, para mim isso é vestir a carapuça. E dito isso, vamos ao que vende.

…e agora uma dessas crianças cresceu, se libertou da lavagem cerebral, está cheia de traumas
e quer ACABAR COM ESSE MALDITO FILHO DA (CENSURADO). Com robôs gigantes.

Em primeiro lugar, o que faz dessas instituições tão perigosas? O que faz uma igreja, culto ou seita ser um antagonista mais assustador do que um exército ou uma corporação? A resposta está na natureza da crença. Um soldado pode ser convencido a mudar de lado. Um executivo pode ser subornado ou coagido. Mas um fanático religioso acredita com todas as fibras do seu ser — e essa crença o torna imune à lógica, à compaixão e, frequentemente, ao medo.

Ele não age por ganância ou ambição (embora seus líderes possam, e certamente o façam). Ele age porque está certo, e você está errado, e o universo exige que o certo prevaleça. É claro, muitas vezes o maior chamariz de uma crença é validar socialmente algo (ou tudo) o que é moralmente questionável: você pode continuar sendo uma pessoa da pior qualidade, agredir aos outros ou passar por cima das leis. O importante é que ele está salvo e vocês não.

A perseguição da Humanidade aos Coordinators (pessoas criadas por engenharia genética)
em Gundam Seed, entre outros fatores, tambem foi movida pelo medo religioso.

No cenário de Brigada Ligeira Estelar, parte do motivo pelo qual a Terra ficou inabitável foi o fato de várias religiões turbinarem o negacionismo científico contra todo esforço de salvá-la. Isso fez com que a criação de igrejas de grande porte fosse coibida, mas não acabou com a existência das religiões em si — e o Culto às Estrelas é algo tão… fragmentário, com bases tão simples e vagas, que dá margem a inúmeras seitas e movimentos sincréticos.

E cada uma dessas tradições pode gerar facções que os jogadores enfrentarão — ou com as quais terão que lidar. O que vou fazer aqui é adaptar os arquétipos clássicos de “igreja como vilã” para o universo de Brigada Ligeira Estelar, mostrando como cada um deles pode aparecer em suas campanhas. Não são categorias fixas — uma organização pode combinar elementos de várias delas. Mas são pontos de partida para criar antagonistas religiosos memoráveis.

Os Mayans de Macross Zero não são uma ameaça — na verdade, eles são muito gente boa.
Mas eles zelam por algo que não entendem, uma dispositivo criado pela Protocultura…
…que na verdade é uma máquina do apocalipse sob os oceanos, pronta para varrer a vida na Terra.
Por isso, embora não sejam uma igreja, eles são Adoradores da Imagem dentro do gênero.
A gigantesca Igreja da Instrumentalidade, do excelente quadrinho sci-fi Dreadstar, de Jim Starlin.
Um ótimo exemplo de Entidade Corrupta e uma das teocracias mais assustadoras dos quadrinhos.
Os Inquisitores armados de Warhammer 40K, a serviço de uma estrutura teocrática horripilante.
Esse é o futuro mais assustador da humanidade, e ele não pode acontecer de jeito nenhum!

Cada um desses representa algum tipo diferente de ameaça. Uma Entidade Corrupta pode ter legitimidade e tradição — ou, caso isso lhe falte, dinheiro e influência. A Ordem Armada pode estar acumulando poder de fogo para implantar poder secular. E há sempre a ameaça da Teocracia quando a igreja se torna o governo. As leis laicas são substituídas por leis religiosas. A dissidência não é apenas crime — é heresia, punível com exílio, prisão ou morte.

O perigo da Teocracia é a fusão de autoridade espiritual e secular. Quando seus líderes são também autoridades religiosas, questioná-lo é questionar a própria fé. E como vimos, a fé não pode ser questionada facilmente. Quem não crê não pode contar com a presunção de isenção das leis. Personagens que se opõem a uma Teocracia precisarão lidar com a hostilidade não apenas do estado, mas de uma população que vê sua oposição como um ataque ao sagrado.

O Império Zanscare de V Gundam não é tratado como uma teocracia, mas,
indiscutivelmente, sua rainha Maria Pure Harmonia é um objeto de culto.

Geralmente, temos dois tipos de oponentes principais no caminho. O primeiro é o Sacerdote Carismático. Ele pode liderar uma entidade estabelecida de grande porte ou um culto marginal, mas suas características são as mesmas: carisma, manipulação, e uma ausência total de escrúpulos. É perigoso não por sua fé (ele não tem nenhuma), mas por sua habilidade de dissimular. Pode parecer santo, sábio, compassivo… e usar essa aparência para destruir vidas.

O outro é o Cavaleiro Templário. Ele crê profundamente, ao ponto de justificar os meios para seus fins. Diferente do Sacerdote Carismático, ele realmente acredita em fazer o bem. Mas sua visão de “bem” exclui tudo que não se encaixa nela. Heresia, dúvida, compaixão — tudo isso é fraqueza, é pecado e deve ser eliminado. Nem lógica, nem suborno o deterão. A única maneira de pará-lo é derrotá-lo… e mesmo assim, ele morrerá acreditando ser um mártir.

O Su-Cordismo de Gundam: G no Reconguista é um sistema social, tecnológico e religioso
que mantém a tecnologia terrestre estagnada, tornando campos de pesquisa um tabu…

E, depois de tudo isso, como podemos pensar as igrejas na Constelação do Sabre? Para começar, elas não precisam ser sempre antagonistas. Organizações religiosas podem ser aliadas, neutras ou divididas. Os personagens podem defender um sacerdote bondoso de uma facção corrupta da sua igreja, negociar com líderes religiosos para obter acesso a um local estratégico ou ser membros de uma ordem religiosa — como os monges guerreiros de Santa Stanislava.

Para os mestres, a dica é: não tratem organizações religiosas como blocos monolíticos. O que faz delas interessantes como elementos de cenário é a… tensão entre fé e ação, entre crença e realidade, entre o ideal e o pragmático. Uma igreja que prega a paz mas mantém tropas armadas. Uma seita que promete salvação, mas exige sacrifícios. Personagens podem encontrar aliados improváveis em lugares inesperados — e traidores onde pensavam estar seguros.

…mas embora eles sejam sem dúvida antagonistas, é complicado dizer que eles são OS vilões,
apesar de definitivamente termos UM vilão principal entre eles (e não, não é o “papa”).

Então não as use como caricaturas. Em vez disso, inspire-se em elementos — o carisma do líder, o isolamento da comunidade, a manipulação psicológica — para criar algo seu. Dê nuances. Nem todo membro de uma seita é um monstro. Muitos são vítimas — pessoas que buscavam algo e foram manipuladas. Mostrar essa humanidade faz da história mais rica e os dilemas mais reais. Pense na estrutura. Como a organização funciona? Como ela recruta novos membros?

Por outro lado, qualquer crença pode despertar um monstro que só esperava para ser acordado… e alguns cultos buscam por isso mesmo. Mas lembre-se do tom. Brigada Ligeira Estelar é um cenário de space opera com elementos de real robot. As histórias podem ser sombrias, mas também podem ter momentos de esperança. Uma organização religiosa maligna pode ser derrotada — e as pessoas boas que foram enganadas podem ser salvas.

Até a próxima e divirtam-se.

* Seinen (青年) é uma categoria demográfica de mangás e animes voltada para o público masculino adulto (geralmente entre 20 e 50 anos) e jovens adultos.

** Ali al-Saachez certamente é um dos maiores monstros psicopatas na história do gênero, criando uma seita que agregava crianças, efetuando nelas uma lavagem cerebral para transformá-los em seu exército de soldados-mirins — e fazendo-as matarem os próprios pais como prova de lealdade ao culto. Esse desgraçado sofreu foi pouco no final, ele merecia ser (censurado por excesso de gore).

DISCLAIMER: Mobile Suit Gundam 00, Mobile Suit Gundam Seed, Mobile Suit Victory Gundam e Mobile Suit Gundam: G in Reconguista pertencem à Bandai Namco Filmworks, Inc.; Macross Zero é propriedade de Satelight Inc. e Studio Nue; Dreadstar pertence à James P. Starlin; Warhammer 40K pertence à Games Workshop Group PLC. Imagens para fins jornalísticos e divulgacionais.

Brigada Ligeira Estelar ® Alexandre Ferreira Soares. Todos os direitos reservados.

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