O Time de Personagens

Eu credito o grande sucesso da fantasia medieval nos RPGs à sua simplicidade inerente e integração natural com a própria mídia — RPGs são uma mídia, afinal: você escolhe uma classe e uma raça, são unidos por um gancho qualquer à mão (como “o velho da taverna”), cumprem uma missão simples e, assim, temos um grupo. Eles passam a vagar sem rumo em busca de tesouros ou missões, enfrentam monstros ou vilões e partem para a próxima. Eficiente. Prático.

Qualquer outro tipo de cenário acaba exigindo algum gancho narrativo para manter o grupo unido, salvo no caso de ser derivado de uma mídia qualquer. Caso você jogue, digamos, Jornada nas Estrelas em RPG, a resposta é fácil: você é um membro da Frota Estelar. Nunca vi ninguém questionar isso e as séries de Jornada nunca nos expuseram muito bem como é a vida fora desse recorte. Você e os demais jogadores farão parte da mesma tripulação. Isso basta.

Admito ter cometido um erro inesperado no Brigada Ligeira Estelar original para 3D&T Alpha. Tenho sincero orgulho pelo cenário por mim criado — mas, ao abri-lo demais logo a princípio, dei margem ao surgimento de grupos desencontrados, incapazes de permanecer juntos a longo prazo. Ficção científica espacial não é fantasia medieval. Ela tem sua própria lógica — e beira o injusto deixar ao mestre a tarefa de, sozinho, manter unido um grupo difícil.

Sendo direto, é esse o motivo pelo qual os personagens do gênero costumam ser
militares ou fazer parte de algum grupo armado: conveniência narrativa. Só isso.

O novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG foi pensado nesse sentido. A palavra certa de agora em diante é time. Não reclame: se você aceita “Sentai” e “Nakama” no Império de Jade, pode aceitar a ideia de estar formando times de jogadores, não meros grupos. Um time tem papéis e metas definidos em conjunto. Em um time, todos jogam juntos pelos demais — e resta saber qual é a meta a unir todo mundo. Isso precisa ser discutido entre o mestre e os jogadores.

Ajuda saber qual vai ser o pilar básico de sua campanha. Eu cheguei a mencionar isso recentemente, no Twitter, mas não custa repetir: este cenário tem três pilares básicos, inspirados nas animações japonesas do gênero. Para fins práticos, defino-os como a Brigada, o Império e a Margem. O primeiro é o modo clássico: os personagens são jovens pilotos e cumprirão missões enquanto as equilibram com suas vidas. É o coração do cenário e sempre vai ser.

Ginga Kikoutai Majestic Prince: um dos melhores exemplos da formação de times
em animes de robôs gigantes. Claro, são uns zé-ruelas, mas funcionam juntos.

O segundo é o território da intriga e da política. Claro, os robôs gigantes estão aqui, mas tudo se desenvolve sob as marchas e contramarchas de interesses perigosos e conspiratórios. No terceiro, entramos no terreno dos criminosos, piratas e rebeldes — seja como algo a participar, seja como algo a ser enfrentado. Esses pilares não são estanques e podem se integrar organicamente entre si, mas é bom escolher um deles como viga-mestra para a trama.

Em miúdos, não basta criar personagens e soltá-los no mundo — isso só funciona de forma instintiva e automática em níveis tecnológicos e sociais mais baixos (e, novamente, isso explica a facilidade em se lidar com a fantasia medieval). Talvez, por isso, seja interessante pensar em sessões iniciadas in media res — ou seja, já no meio da ação. As circunstâncias de união dos personagens é secundária: eles já estão lá. Depois se inventa uma desculpa.

Em uma campanha focada em política de estado, com cenas de gabinete,
um criminoso ciborgue corre o risco de ser colocado de lado em muitas delas…

É claro, bons mestres sabem como encadear seus jogadores, mesmo os mais díspares, mas isso pode dar muito trabalho e desgaste. Não vou falar muito sobre como pretendemos enquadrar os times de jogadores no futuro BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG — isso pode ser feito na ocasião correta. Mas tenho algo mais a dizer: há um aspecto cultural envolvido e em nome da fidelidade ao gênero, eu o abracei. E ele pode ser uma fonte de ruído para alguns jogadores. 

Os primeiros RPGs foram criados nos Estados Unidos e embora eles estimulassem o trabalho de equipe, bem… peguem o D&D original ou jogos old school como os bons Knave ou Dungeon Crawl Classics. Vocês se unem para invadir terrenos alheios, matar quem estiver no caminho, tomar seu dinheiro e objetos úteis… ou seja, não dá para fugir da sociologia. Mudaram isso por puritanismo e alarmismo — algo, vindo de onde vem, sociologicamente previsível também.

Qualquer produção nipônica para garotos (Shōnen) nos mostra isso:
o mais importante no final sempre é “ser um dos nossos”.

Mas, ao ampliar seu leque temático, os RPGs agregaram novos conceitos em nome do seu maior apelo: imersão — ou seja, a ideia de ser um personagem de um mundo ficcional por poucas horas. E em um cenário inspirado na animação japonesa, elementos culturais virão no pacote. Colaboração e união são cruciais. Os jogadores não serão um bando. Eles precisam saber quais serão seus papéis. Eles precisam criar laços.

Eles precisam ser um time. 

Até a próxima.

Arte do topo por Eudetenis.

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