Por Trás do Sabre: Moretz

O novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG inevitavelmente trará um ou outro retcon (a alteração retroativa de um elemento previamente estabelecido). Pessoalmente, eu detesto fazê-los e prefiro muitas vezes dar voltas para estabelecer um novo status quo ao invés de dizer “isso nunca valeu”. No entanto, às vezes, essas mudanças são inevitáveis. E isso nos leva fatalmente a Éden Zero: o local (estabelecido no planeta Moretz) será rebatizado de Éden Quatro.

Não vou fingir: o motivo foi o mais recente trabalho de carreira do Hiro Mashima, “Eden’s Zero”. Se o primeiro álbum tivesse saído antes, eu poderia bater na mesa. Obviamente, mera coincidência* — apesar da Mãe me lembrar visualmente uma certa ginóide no universo de Brigada. De resto não quero topar com um documento de cease and desist de advogados japoneses ou com a encheção de otakus furiosos quanto ao nome. Fica sendo logo Éden Quatro, acabou.

Em todo caso, a proposta da obra era a de ser a mais voltada à ficção científica clássica dentre as quatro séries de Brigada originalmente planejadas para a Social Comics — a mais próxima de uma série live-action para televisão. E como os conceitos dela estão bem firmados no planeta Moretz descrito em “A Constelação do Sabre, Vol.2” — AQUI — este é um ótimo momento para falarmos dele. Que na verdade se enquadra em certas tradições da space opera…

Se a superfície é inabitável mas o mundo ainda pode ser explorado,
a maior parte da ação só pode estar nos céus.

Referências Iniciais

As sementes de inspiração vieram de dois animes em especial: Nausicaa do Vale dos Ventos, de Hayao Miyazaki, e Last Exile. O primeiro trouxe o conceito de mundo coberto por fungos letais à vida humana, mesmo a longo prazo, mas com uma rica biosfera. O segundo trouxe a ideia de um mundo aéreo aonde as pessoas trafegam em veículos voadores para ilhas flutuantes. Combinadas, elas trouxeram outros conceitos — como a pirataria aérea da década de 1920.

Mas ideias agregadas costumam atrair ideias novas. Como o cenário não tem o elemento vagamente fantástico de Last Exile (como aquelas ilhas flutuam?), veio a ideia das cidades construídas em plataformas flutuantes — um ambiente artificial no qual a humanidade pode viver longe dos fungos e ainda assim explorar economicamente a superfície do planeta. Foi quando entrou em ação uma das melhores fontes de inspiração para qualquer autor — o mundo real.

É claro, há locais habitados pelas classes alta e média, mas a maioria dessas cidades
flutuantes — lar dos trabalhadores que descem à superfície — não é nada agradável…

Embora tenhamos metrópoles urbanas bem desenvolvidas sobre essas plataformas, a maior parte dessas cidades é ao mesmo tempo atrasada e tecnológica — são lugares feitos não para se viver, mas para se sobreviver. Se alguém controlar essa infra-estrutura, terá o poder nas mãos. Isso gerou uma dinâmica de interior coronelista e violenta: pessoas humildes descem ao planeta para trabalhar em máquinas precárias, sendo aos poucos infectadas pelos fungos.

Éden Quatro é a grande exceção: a vejo como se fosse um ambiente asséptico de ficção científica setentista — “futurista”, isolado e protegido na superfície. O quatro implica a existência prévia de outros três, mas só resta o quatro, restaurado como um bunker de civilização científica possível em meio a um rincão de faroeste barra-pesada. Por fim, o planeta atende a uma demanda da space opera: a de mundos perigosos pela própria natureza “exótica”.

Se você precisasse descer em um planeta infestado de fungos mortais,
com certeza se blindaria ao máximo contra o exterior.

Moretz em Jogo

Em RPG, bons mundos são aqueles com problemas — e isso Moretz tem de sobra. É um mundo com suas próprias regras e isso pode não apenas ultrajar quem busca trazer alguma ordem como também pode colocar sua segurança em risco. Embora as características do real robot se encaixem por aqui, ele traz vários aspectos de ficção científica para além dos temas militares tradicionais — e seus graves problemas sociais não podem ser resolvidos na base do tiro.

Aventura Pulp: aqui temos piratas aéreos em cidades flutuantes fora-da-lei. Pense em aventuras de aviação à antiga, com muitos sopapos fora da cabine.

Faroeste Espacial: a dinâmica nas cidades flutuantes mais atrasadas, sob mando das guildas. Éden Quatro funciona como um Forte Apache nessa abordagem.

FC Militar: se pensarmos em guerrilhas (de terroristas a eco-guerrilhas), o tema é viável*** — e se os Proscritos chegarem, Moretz é um alvo provável.

Convenhamos: uma superfície coberta de mato tóxico não é o lugar
mais seguro para se travar um combate. Perfeito para uma guerrilha.

Monstro da Semana: dos pés-de-caverna — árvores gigantescas com enxames mortíferos — à própria biologia local, Moretz é excelente para essa abordagem!

Pós-Cyber: novamente, Éden Quatro funciona como um epicentro desses temas. Biotecnologia, cibernética, pesquisas e uma biosfera interessante ao redor.

Space Opera: uma ótima parada para sua viagem entre planetas. Tesouros e tecnologias podem ter sido ocultados neste mundo — quem deseja tirar a prova?

Um bom elemento a ser levado em conta em Moretz é justamente seu aspecto social. O motivo pelo qual Silas Falconeri não desceu com tudo sobre as Guildas foi o fato delas deterem a infra-estrutura responsável pela sobrevivência humana em um ambiente como este — uma situação impossível de ser resolvida a curto prazo pelos jogadores. A solução mais viável, mas também a mais difícil, é a eliminação desses fungos. Sem eles, as Guildas não terão poder.

Sim, nas cidades flutuantes de Moretz, seus personagens provavelmente
precisarão lidar com tipinhos como este a serviço das guildas.

Além disso, Moretz é repleto de ganchos para elementos mais ostensivos de ficção científica em suas campanhas. E se Evos estiverem começando a desenvolver resistência aos fungos? E se secretamente uma nova variedade humana for engendrada para sobreviver a esse ambiente? Novas armas bioquímicas podem vir daí? Como os proscritos reagirão tecnologicamente para lidar com este mundo caso seja seu próximo alvo? Pensem nisso.

Obviamente, pesquisadores são alvos para os jagunços das Guildas: o esforço civilizatório passa pela luta contra quem lucra com o atraso. É interessante lembrar do papel da Brigada Ligeira Estelar nessa dinâmica: apesar de tudo, quem vive em bolsões urbanos desenvolvidos — como a própria Éden Quatro — pode não enxergar a realidade em seu planeta. Circulando entre as cidades flutuantes, os Hussardos Imperiais podem ter uma visão ampla do panorama.

Até a próxima e divirtam-se.

Antes que alguém pergunte, a Cidade das Nuvens em O Império Contra-Ataca não tem
uma haste no chão. Isso é um estabilizador! Dêem uma olhada AQUI!

* Sinceramente, não acredito em um quadrinista japonês fuçando em um site de acesso pago no Brasil. Sejamos realistas.
** De Jorge Amado. Rendeu uma telenovela extraordinária, jamais reprisada. Outra referência interessante é Herança de Sangue, de Ivan Sant’Anna. Embora sejam narrativas de época, nada mudou tanto até hoje.
*** Uma boa referência para campanhas militares em ambientes proibitivos é a série em quadrinhos
Renegado (Rogue Trooper), de Gerry Finlay-Day e Dave Gibbons (Watchmen). As primeiras histórias saíram na Juiz Dredd Magazine, da editora Mythos. Ainda podem ser encontradas.

2 comentários

  1. Vou fazer uma campanha de meninas piratas chamada Moretz Pirates. XD . Piada infame, eu sei.

    Moretz é um mundo que eu curto bastante. Quero fazer uma campanha sobre exploração científica nele um dia, com o grupo tendo que combater/navegar as diversas facções de lá. E de quebra eu posso enchê-lo de criaturas bizarras.

    Eu vejo a natureza hostil dele como uma “força superior” que pode atacar sem aviso. Especialmente quando as pessoas estiverem mais entranhadas nos próprios problemas, pra lembrar que “ei, galera, tem uma nuvem de esporos assassinos aqui. Que tal a gente resolver isso primeiro?”.

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