Sobre Humor, Sátiras e Outras Coisas…

Me lembro sempre de uma teoria interessante sobre o clássico Superdimensional Fortress Macross (1982): em determinado momento, a produção decidiu fazer da série uma comédia — isso é um fato sabido — e bastou uma troca de equipe para tudo voltar aos trilhos originais. A tese era: os elementos adicionados durante essa etapa teriam sido mantidos, mas racionalizados de forma “séria” dentro do cenário. Isso faz sentido — na verdade, faz muito sentido.

Tomando essa teoria a sério, o truque para fazer isso tudo funcionar foi uma racionalização completa de todos esses elementos, nos emprestando credibilidade o suficiente para não nos darmos conta de seu nonsense. Os escudos por track ball? A base não tem energia para cobrir tudo. Os alienígenas virgens? A trama da protocultura*. A cantora pop salvando tudo? O choque cultural os fez pausar para entender o inimigo e nisso, abriu a porta para a paz.

Esse equilíbrio entre o sério e o ridículo faz parte do charme da série original — e jamais foi alcançado de novo pela franquia: ou mergulhou-se na seriedade (Macross Plus, Macross Zero), ou abraçou-se de vez a galhofa (Macross 7, Macross Delta). Quanto ao seu criador, Shoji Kawamori, aqui temos o ponto de ruptura entre ele e alguém como Yoshiyuki Tomino (Gundam): se este é um auteur**, Kawamori é um entertainer*** e como tal, joga para a galera.

“Macross é um drama intenso sobre o que faz da humanidade
uma civilização em um contexto de… ahn… bem…”

Talvez o melhor exemplo dessa sua natureza esteja no díptico Genesis of Aquarion/Aquarion Evol. O primeiro, apesar de ser vendido como um tributo às séries setentistas de super-robô, veio na esteira de Neon Genesis Evangelion**** e fracassou. Em sua continuação temporã Aquarion Evol, a impressão deixada é a do Kawamori de 2012 zombando do Kawamori de 2005 — o entertainer perguntando aonde estava com a cabeça ao brincar de auteur.

Em suma, comédia.

Quando falamos de RPG, não vejo tanta necessidade de pensar em comédia no gênero por um motivo: não importa a quantidade de drama na mesa de jogo — o humor se faz sozinho. Os jogadores se descontraem, soltam piadas e eventualmente deixam os mais sisudos personagens abrirem a guarda para o inusitado e o ridículo das situações. Mas essa é sempre uma possibilidade a ser abraçada em termos de campanha… e sim, cabem algumas palavras sobre o tema aqui.

O brilhantemente perverso nessa sequência inicial de Nadesico: quantas vezes não
vimos isso em, digamos, Patrulha Estelar — só que, dessa vez, não deu certo?

Primeiro, um dos melhores truques para adicionar humor a uma situação séria é entregar sua condução a personagens não tão sérios. Peguem Martian Successor Nadesico, por exemplo: temos uma invasão “alienígena”***** em um contexto nada cômico. Para dar conta dele, os escolhidos para a missão são experts nos seus respectivos campos de atuação. Infelizmente, eles só são bons nisso e, de resto, são um conjunto de hábitos estranhos e atitudes bizarras.

Outro bom exemplo disso é do velho conhecido desta nossa página, Majestic Prince: os personagens foram criados para serem combatentes altamente competentes contra um inimigo letal para a humanidade — mas infelizmente, eles vieram com defeito de fabricação em todos os outros quesitos: uma cozinha mal, outra assusta o sexo oposto, outro não tem noção… mas isso nos faz gostar deles. Quando a ameaça vem, nos preocupamos porque do invasor você não ri.

Sim, esses são a linha de frente da humanidade contra o invasor
em Ginga Kikoutai Majestic Prince. Boa sorte para todos nós.

Uma abordagem interessante nesse sentido é “toda desvantagem será usada contra você”: um personagem decide ser mulherengo, pensando em algo inofensivo em combate? Encare isso como um comportamento compulsivo contra o qual ele não pode resistir — e como o novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR terá o atributo vontade, exija dele testes consecutivos com crescentes redutores ao ser exposto à sua compulsão. Depois o deixe acompanhar as filhas de um arquiduque…

Esse raciocínio pode ser aplicado a qualquer desvantagem com potencial de ridículo. Estimule os jogadores a escolher desvantagens potencialmente qualificáveis como peculiaridades. Assuma o cartunesco: um personagem pode ter Maldição Suave: Azar e assim tudo vai atrapalhar seu caminho… mas não em situações de ação ou combate: um raio pode cair em sua cabeça e deixá-lo chamuscado por um turno. Logo em seguida, ele volta a ser o maior ás do império.

Porque rimos de Nekki Basara (Macross 7) aqui? Porque ele se mostra uma
criatura sem noção e soa ridículo para nós. Humor sempre é contra algo…

Segundo: humor a favor não é engraçado e, se não é engraçado, não é humor bom. Ele sempre parte de falhas e inconsistências apontadas com o dedo e enxovalhadas. Se você, mestre de jogo, estiver disposto a ir além dos jogadores e tentar colocar o humor no mundo aonde os personagens habitam, pensem em pontuar o ridículo intrínseco por trás de sua racionalização (lembram do começo deste texto?). Aqui precisamos pensar em elementos de sátira.

Se a paródia caçoa de falhas alheias via proximidade (em certos casos, como quem brinca com um amigo), a sátira vem para destruir. Mel Brooks era um gênio da comédia e dominava os dois espectros: quem curte Star Wars tende a curtir Spaceballs — é uma paródia. Mas Banzé no Oeste simplesmente matou o faroeste clássico — ele não tinha mais como ser levado a sério depois disso******. É uma sátira. E não é preciso chegar a nenhum desses extremos aqui.

…mas se for assim, que seja contra os alvos certos! Shimoneta é off-topic aqui, mas é
um exemplo extraordinário do humor contra a hipocrisia por trás do puritanismo!

Claro, ninguém está dizendo para tornar tudo uma paródia grosseira e pouco sutil de nossa política, cultura ou coisa parecida. Isso… nunca… dá certo. Mas o Darkseid de Jack Kirby foi assumidamente inspirado em Richard Nixon e seu lacaio, o Glorioso Godfrey, no pastor Billy Graham*******. Reparem como os nomes e títulos desses vilões não soam necessariamente negativos********, mas sua pomposidade os torna irônicos… e isso faz muito sentido, aliás!

A propósito, esses personagens funcionam até hoje. Seu trunfo foi partir do real mas deixar a ficha cair sozinha para os leitores e tudo isso só aponta para um princípio simples: a sátira, com ou sem humor, parte da realidade. Era o ovo de colombo do Hermes e Renato clássico — eles falavam como pessoas normais nas suas posições falariam, embora seu texto fosse completamente absurdo. O humor vinha desse contraste e não era preciso nada além disso.

Um exemplo de sátira não-cômica: o Glorioso Godfrey, do Quarto Mundo de Jack Kirby
inspirado abertamente no evangelista Billy Graham, que ajudou a eleger Richard Nixon.

E se a pequena nobreza do nosso Império espacial for como aquelas elites de interior, procurando impressionar forasteiros de alta posição e soando apenas… bregas? E se seu vilão empreendedor tiver discursos motivacionais*********? Esse recurso pode ser usado para adicionar humor, via sátira social, a contextos mais sérios — telenovelas fazem isso! Pense nas sequências com o Barão Prudo Gurran, em Belonave Supernova: quantos Prudos não tem por aí?

Para acabar (o texto já está longo demais): eu só recomendaria ao mestre se deixar mestrar, caso queira estimular o humor na mesa. Deixe os jogadores soltos e lide com as consequências com os devidos sensos de ironia e maldade. Não tenha uma mão pesada nessas horas… e responda com o mesmo espírito. Deixe-os se divertir, mas se divirta também. Aliás, você também está ali pela diversão — caso contrário, qual é o sentido de se mestrar?

Até a próxima.

AKB0048: idols com sabres de energia para defender a… liberdade.
Sim, Kawamori, um entertainer não tem medo do ridículo!

* Protocultura, no Macross original, era a cultura perdida da raça responsável por povoar a galáxia com experimentos genéticos e, por tabela, o ponto de partida do modo de vida das raças por ela criadas. A tragédia dos Zentradi foi mergulhar em um modo utilitário de vida e negligenciar a cultura, deixando de ter uma no final — passando a ter uma vida sem beleza, sentimentos ou motivos para viver. E eles só entenderam o tamanho da perda quando reencontraram esse conceito conosco. Isso subitamente tornou a natureza “virjona” dos Zentradis… trágica.
** Auteur, em francês mesmo, é para aludir à Teoria Cinematográfica do Autor. Yoshiyuki Tomino é sem dúvida um, buscando impor sua visão na tela pequena e frequentemente tendo atritos com produtores: em Space Runaway Ideon, ele usa um desenho feito para vender brinquedinhos a garotos de dez anos como uma coda da sci-fi como gênero, um exame da natureza humana sob pressão e uma constatação niilista sobre os medos da Guerra Fria; O Mobile Suit Gundam original desconstruía um discurso cultural belicista embutido na animação japonesa e buscava na empatia um caminho de entendimento; Blue Gale Xabungle, por baixo de sua camada de comédia, falava da luta de classes. Tomino tinha algo a dizer e usava animações com robôs gigantes para fazê-lo.
*** Entertainer, em inglês mesmo, é… isso: um artesão do entretenimento. Ele faz o melhor para o seu público. Notem, entertainers podem ter temas autorais e auteurs podem usar o entretenimento para veicular sua mensagem de forma mais eficiente, mas no final suas prioridades falam mais alto. Shoji Kawamori até, volta e meia, usa temas de crítica social aqui e ali (tanto o Macross original quanto Aquarion Evol condenam, via alegoria, as construções culturais japonesas que impedem um entendimento entre homens e mulheres — e podemos ver isso na atual crise nipônica de natalidade) — mas essas séries não são sobre isso. Elas são o que parecem ser: histórias de ação e romance com um background de ficção científica. Ele criou e dirigiu AKB0048 — e enfiou idols em Basquash quando uma série originalmente infantil foi enfiada no horário caveira-de-burro da madrugada! Isso não é coisa que um auteur faça!
**** Quando Hideaki Anno despontou com o sucesso de Evangelion, os medalhões do gênero mecha se sentiram desafiados e fizeram seu próprio Evangelion genérico — todos com resultados questionáveis: Ryōsuke Takahashi (Votoms) veio com Gasaraki, Tomino veio com Brain Powerd e Kawamori veio com Sousei no Aquarion. Este em especial veio com valores respeitáveis de produção, equipe técnica de primeira e… foi um desastre. Daí o espanto quando do anúncio de Aquarion Evol: o primeiro episódio inclusive tem um meta-comentário sobre uma obra que não deu certo… e lá pelas tantas, há uma informação que torna impossível levar a sério novamente o Aquarion original.
***** As aspas são por conta da verdadeira identidade dos invasores jovianos. Não vamos dar esse spoiler.
****** De acordo com Mel Brooks, embora o filme tenha sido um sucesso monstruoso de bilheteria, muitos executivos passaram a lhe virar a cara e evitá-lo: ao esmigalhar os clichês básicos do western mais tradicional, eles deixaram de funcionar com seu público, acabando com a fonte de renda de muitos estúdios. Foi quando eles abraçaram o faroeste revisionista, com resultados comercialmente trágicos para o gênero a longo prazo.
******* Billy Graham (1943-2018) foi uma espécie de equivalente estadunidense a nossos bispos evangélicos de grande visibilidade e influência política, tendo uma relação muito próxima ao presidente Richard Nixon (como “conselheiro espiritual”). Foi um grande manipulador de multidões.
******** Vovó Bondade, Glorioso Godfrey, Maravilhoso Willik… e vê-los cometendo abusos e atrocidades até trazem um link com canalhas da vida real. Todos soam caricatos e meio ridículos, mas ao mesmo tempo ninguém ali é cômico — quando eles fazem coisas muito ruins, não há como achar engraçado. Eles são perfeitos exemplos de quadno a sátira não serve necessariamente à comédia: há uma lista enorme de comparativos assim na vida real, mas não vou dar exemplos nesse sentido. Não quero iniciar discussões na caixa de comentários.
********* Prestem atenção no Mysterio do mais recente filme do Homem-Aranha, quando ele se dirige à sua equipe. Uma analogia parecida foi feita no livro Um Novo Amanhecer, de John Jackson Miller, para o universo expandido de Star Wars, publicado no Brasil pela Aleph — olhem atentamente para o Conde Vidian.

E chega de notas de pé de página por hoje! Já passei da conta!

NO TOPO: cena de Space Battleship Tiramisu. Apenas não perguntem. Só isso, não perguntem.

DISCLAIMER: Glorious Godfrey, o Quarto Mundo e todos os personagens relacionados são propriedade da DC Entertainment; Superdimensional Fortress Macross e Macross 7 são propriedades de Studio Nue/Satelight; Martian Successor Nadesico é propriedade da Xebec, Inc., Tv Tokyo e Yomiko Advertising; Ginga Kikoutai Majestic Prince é propriedade de Rando Ayamine e Hikaru Niijima via Doga Kobo; Shimoneta é propriedade de Hirotaka Akagi via AT-X, Tokyo MX, KBS, CTC, tvk, Sun TV, TV Aichi, BS11; AKB0048 é propriedade de Satelight, Inc. e Space Battleship Tiramisu é propriedade de Satoshi Miyakawa e Kei Itō via Gonzo K. K.. Todas as imagens e menções apenas para fins divulgacionais, sendo seus direitos pertencentes a seus proprietários.

Um comentário

  1. Com as Desvantagens de 3D&T, a comédia pode se escrever sozinha, mas o grupo tem que abraçar a ideia. E nossa, AKB0048. Foi um dos primeiros animes que eu vi fansubado (naquele período “tudo vale” quando alguém descobre sites piratas de anime) e tinha esquecido completamente da existência até hoje. Acho que isso é bom. Há coisas melhor deixadas no esquecimento.

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