O Que é um Lanceiro?

Tirado de um artigo anterior: os robôs de combate em Brigada Ligeira Estelar foram inspirados na cavalaria clássica, dos tempos das guerras lutadas a cavalo: tropas de hussardos (hussards) eram usadas para ataques de assalto, lanceiros para ataques de carga, caçadores para missões de busca e rastreio, carabineiros para baterias de tiro à distância, couraceiros para forças de cavalaria blindada e dragoneiros como tropas montadas de armamento leve.

Como já falamos de onde veio, conceitualmente, o robô hussardo no cenário, acho este um bom momento para lembrarmos do robô lanceiro… e das suas influências criativas. Afinal de contas, Brigada Ligeira Estelar tem existido desde 2012 — sem contar seu período de gestação — e sempre se ancorou nesses princípios de “cavalaria mecanizada”. A estrutura viabilizadora da existência de inúmeros tipos de robôs vindos dos animes nesta ambientação veio daí.

Mas ela sofreu… adaptações conceituais: apesar do robô lanceiro sempre ter sido pensado como um atacante de carga, ele tinha respeitabilidade — por ser parte das forças de cavalaria ligeira na vida real, ao lado dos próprios hussardos, embora tivessem atribuições diferentes em batalha. Lembram, ou já ouviram falar, da Carga da Brigada Ligeira em Balaclava, imortalizada em filmes e até em canções? Nela haviam Hussardos, Dragoneiros — e Lanceiros*.

Conceitualmente, os princípios de cavalaria ligados aos lanceiros já existiam
desde a antiguidade. Eles apenas não eram qualificados como tal.

O Lanceiro… Original?

Diferentemente dos hussardos, nunca houve uma mítica fundacional para o lanceiro: tropas com lanças datam da antiguidade e, dos Assírios aos Romanos, muita água rolou. Os próprios princípios básicos de cavalaria ligeira — de tropas a cavalo com proteção leve para permitir velocidade e manobrabilidade — tomaram forma ainda nesse período, sendo bem presentes na Idade Média**. Mas com a decadência do feudalismo e da cavalaria medieval, tudo mudaria.

Para nossos fins, a cavalaria ligeira tomaria forma quando esses modelos existentes de tropas foram devidamente organizados. Os Ulanos (correspondentes aos lanceiros em terras germânicas) foram incorporados às forças austríacas em 1780 e os alemães fizeram o mesmo logo a seguir. A partir daí eles se tornaram comuns: eles se tornavam um elemento fundamental nas táticas de choque e a lança se revelou superior à espada contra grandes exércitos. MAS…

Lanceiros. Prestem atenção na formação de ataque.
Em batalhas campais, isso fazia diferença.

…haviam poréns. Os Lanceiros, embora pudessem contar com sabres e pistolas quando perdessem suas lanças, lidavam com trambolhos com cerca de dois metros, desajeitados e vulneráveis caso oponentes com espadas os driblassem e partissem para o combate corpo-a-corpo. Para piorar, sua posição os deixava expostos, vulneráveis contra baterias de artilharia. Por isso mesmo, sua função era o ataque de carga: sua força estava em números e combate em massa.

Mesmo sendo alvos fáceis, eles foram pesos-pesados em combate até, como de costume, a tecnologia falar mais alto: rifles de assalto se tornaram precisos e, mesmo antes da Primeira Grande Guerra, já se percebia a canoa furada. Após a Guerra dos Bôeres em 1903***, a Inglaterra decidiu acabar com os corpos de lanceiros, salvo para fins cerimoniais… mas a reação conservadora foi feroz e o corpo foi restabelecido em 1909, sendo fechado apenas em 1928.

Lanceiros germânicos a cavalo na Primeira Guerra Mundial (1914-1918). Em tempos de
aviões com bateria de tiro e tanques blindados de guerra, só poderia dar muito errado…

Isso veio por seu ativo simbólico: Se Hussardos representam bravura e coragem extremas, Lanceiros representam lealdade e devoção. Basta compará-los na ficção popular: se hussardos trazem conotações de capa-e-espada com guerras como pano de fundo (vide o Brigadiano Etienne Gerard de Conan Doyle), lanceiros são ligados às aventuras de guerra (vide filmes como Lanceiros da Índia ou A Carga da Brigada Ligeira****) e, claro… sacrifícios heroicos.*****

Mas de qualquer forma, não havia como durar: cavalarias convencionais não tinham como sobreviver em um conflito mundial como o de 1914, com aviões e tanques de guerra, e surgiu assim o conceito de Cavalaria Mecanizada — na qual veículos motorizados substituíam os cavalos em missões de busca, defesa de área e táticas de choque. Alguns exércitos preservaram o título de Lanceiro como mera lembrança de suas origens. E assim, podemos voltar ao futuro…

Os robôs e combates de Heavy Gear (baseado no RPG da Dream Pod 9)
são uma referência simplesmente perfeita para Lanceiros em jogo.

O Lanceiro Espacial

Ao estabelecer nosso cenário, a analogia me pareceu clara: Robôs Hussardos representariam o gênero na sua forma mais tradicional. São eles quem vão à frente, o robô do protagonista sempre tem algum diferencial sobre os demais, ele debulha vários inimigos menores de uma vez, há duelos e sempre podemos aplicar o espírito nekketsu****** ao piloto. O Real Robot não descartou totalmente o elemento super-heroico e isso casa com a imagem de um hussardo.

O Lanceiro não é isso. Literariamente falando, ele é parte de um todo maior: suas vitórias e conquistas serão compartilhadas. Mesmo descartando discursos heroicos, ele ainda é a pessoa comum fazendo de tudo para impedir o inimigo de fazer coisas horríveis com os seus. Então me pareceu óbvio aonde, na escala narrativa dos animes de robôs gigantes, ele se encaixaria: ao lado de séries como Dougram, Gasaraki e até mesmo Gundam: Iron-Blooded Orphans…

O Lanceiro Imperial: blocudo, resistente. À esquerda, estudo original.
à direita, mecha designs de cabeça. Arte de Wal Souza.

… mas ainda são corpos de Brigada Ligeira. Então preferi robôs não tão visivelmente heroicos como os hussardos mas ainda relativamente próximos a estes para preservar certa uniformidade conceitual: Robôs Lanceiros não são nem deveriam ser tanques com braços e pernas. Ativos simbólicos para robôs são um elemento fundamental do cenário e, se o discurso é lealdade e devoção, ele precisa transmitir um misto de resistência absoluta e sóbria dignidade.

No entanto, assim como seu equivalente real, o Lanceiro não poderia ser tão eficiente contra um Hussardo: a sua força está nos números e nos ataques em grupo. Na verdade, no real robot mais tradicional, robôs assim geralmente são buchas debulhados pelos heróis. Por isso mesmo, recomendo seriamente seu uso em uma campanha de Ficção Científica Militar aonde todos sejam lanceiros. Não é preciso fazer dela uma campanha de tom árido, acreditem.*******

O Lanceiro Imperial é uma máquina de força bruta. Ao atacarem em carga,
precisam passar uma sensação de manada. Mecha design de Wal Souza.

Mas não há espaço para lanceiros em uma campanha mais heterogênea? Bem, um oficial lanceiro pode comandar um batalhão em operações conjuntas com hussardos e carabineiros na sua missão. Idealmente, ele seria quem não deseja ser herói: apenas pretende cumprir sua obrigação, voltar vivo… e quer proteger seus homens de serem usados como buchas de canhão por exigências superiores absurdas. Em termos de arquétipos, claramente seria “O Soldado”********.

Esse é um ponto de atrito bem interessante: Lanceiros não devem olhar com muito bons olhos o lado mais irresponsavelmente heroico (sob seu ponto de vista, “mais exibicionista”) dos hussardos. Mas, no fundo, ambos tem os mesmos problemas — embora haja um certo “conflito de classes” aqui. É apenas uma diferença de papéis. Definitivamente um lanceiro não tem a mesma flexibilidade. Mas o seu senso de união com os demais? Pode ser único.

Até a próxima.

Não adianta: quando o protagonista tem aquele robô especial, o papel de
construtos como estes é o de serem debulhados em massa…

* Mais especificamente, dois regimentos de Dragoneiros (o Quarto e o Décimo-Terceiro), Um regimento de Lanceiros (o Décimo-Sétimo) e dois regimentos de Hussardos (o Oitavo e o Décimo Primeiro). No filme de Tony Richardson sobre o assunto (1968), é possível ver claramente o papel de cada um em combate: hussardos à frente com espadas em riste para abrir caminho, lanceiros logo atrás com suas lanças.
** Como os Koursores Bizantinos, os Hobelars irlandeses ou os JInetes Espanhóis.
*** Tecnicamente, a Segunda Guerra Anglo-Boer (a primeira é mais conhecida como Guerra do Transvaal). Foi travada entre o Império Britânico e duas nações sul-africanas: a República Sul-Africana (Zuid-Afrikaansche Republiek) e o Estado Livre de Orange (Oranje-Vrystaat). Após sua derrota, foram transformadas em colônias, fundidas na União da África do Sul (Unie van Suid-Afrika) — e só viriam a ser a República da África do Sul (Republiek van Suid-Afrika) de nossos dias em 1961, quando se livraram da guarida britânica de vez. Ufa!
**** Aqui precisamos separar arte de realidade. Esses filmes pertencem a um ciclo de Hollywood aonde a autoridade colonial britânica era glorificada — e para fazerem em 1936 um filme sobre a Carga da Brigada Ligeira (um dos erros militares mais estúpidos de todos os tempos), mandaram toda a história com H maiúsculo às favas: misturaram os eventos de Sebastopol à Guerra dos Sipaios (que além de ocorrer na Índia — a “Carga” ocorreu na Guerra da Crimeia, bem longe dali e com alguns anos de diferença), criaram uma nação fictícia, inventaram uma chacina inexistente de britânicos desprotegidos, transformaram a morte dos soldados em um sacrifício compensado ao menos pela morte do Rajá malvado… agora, independentemente dessa doideira, Michael Curtiz era um grande diretor, o elenco era de primeiríssima linha (Errol Flynn? Olivia de Havilland? David Niven? Como diminuir essa gente?) o filme é um dos melhores exemplares do cinema de aventura clássico da velha Hollywood. Se vocês não tem problemas em assistir um filme preto e branco da década de 1930 e relevar essa tendenciosidade, recomendo realmente. Agora, se vocês querem uma versão mais fiel aos fatos desses eventos e sem medo de morder a ferida do colonialismo, realmente o seu filme é o Carga da Brigada Ligeira de 1968, do já citado Tony Richardson. Por motivos absolutamente diferentes, ambos são filmões.
***** Podem reparar: nesse ciclo do colonialismo britânico em Hollywood (que incluiria também Gunga Din, As Quatro Penas Brancas e Beau Geste), o tema do sacrifício heroico era recorrente — mas isso muitas vezes vinha da fonte, no caso de adaptações. Cabe desconstrução e ceticismo, é claro, mas os temas citados de Lealdade e Devoção são recorrentes aqui. Essa imagem dos Lanceiros não foi tirada do nada.
****** Literalmente, “Sangue Quente” em japonês. Se reflete à atitude heroica esperada de um protagonista e às virtudes intensas à ela associadas, como senso de justiça, lealdade aos amigos e força de vontade para vencer. Se você lê mangás shōnen (para garotos) e reconhece esses elementos, acabou de pegar a ideia.
******* Os próprios filmes citados são bons exemplos disso, em um gênero histórico: se o Carga da Brigada Ligeira de 1936 é aventuresco (o padrão de nosso cenário, aliás), o de 1968 é árido (e chegamos a propor algumas regras opcionais para ajustar o 3D&T Alpha a este tom). É só aplicar esse raciocínio à ficção científica no nosso caso.
******** Ver Belonave Supernova, Volume 1, página 10.

NO TOPO: arte dos Lanceiros Imperiais de Brigada Ligeira Estelar por Wal Souza.
DISCLAIMER: Total War: Rome II é propriedade de Creative Assembly / Sega; Heavy Gear 2 é propriedade intelectual da Dream Pod 9 (sob licença da Activision); New Mobile Report Gundam Wing é propriedade de Sunrise, Inc.; imagens para fins divulgacionais e todos os direitos respeitados.

Um comentário

  1. Ótimo artigo. Eu não achava os lanceiros tão viáveis como protagonistas, mas mudei de ideia. Jogar com o cara comum tem seu charme. Dá até pra fazer um “Freudian Trio” com nobre de superego, hussardo de id e lanceiro de ego.

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