Sessão Zero

De relance, eu mencionei na semana passada: a velocidade de construção do 3D&T pode ser contraproducente. É legal criar um personagem e estar pronto para jogar, mas nunca deveríamos subestimar a importância de uma sessão zero — aquele último momento, anterior ao início da campanha, no qual o mestre a discute com os jogadores e os auxilia na construção dos seus futuros protagonistas na mesa de jogo. Achei importante tocar de uma vez nesse assunto.

A sessão zero é algo além daquele dia reservado para se montar personagens — uma herança de tempos no qual a norma era mais crunchy* e você precisava de um dia inteiro para montar, digamos, aquela ficha de Champions (sim, eu joguei)**. É a hora de pôr tudo às claras e cada um comentar sobre o personagem do outro, eventualmente ajudando-o a polir o futuro protagonista. Vale a pena: depois do início oficial, pôr as coisas no eixo será mais difícil.

Mas, claro, isso exige preparação. Eu vou expor tudo em termos presenciais mas, com alguns ajustes para nossos tempos pandêmicos, é possível pensar em soluções para campanhas e aventuras à distância (um dia tudo irá voltar ao normal, precisamos crer nisso). Dito isto, saiba aonde pisa antes mesmo da chegada dos jogadores na sessão zero. Como dizia o Chacrinha, para desorganizar — e seus jogadores o farão — é preciso ter tudo muito bem organizado!

Tipo de Campanha: folhetim espacial, FC militar, faroeste espacial, cyberpunk, pós-cyber, pós-apocalíptico, clássico, pulp ou space opera (o padrão)?
Tom de Campanha: árido, aventuresco, heróico, folhetinesco, épico, cômico ou uma campanha de tons cruzados?
Pilares Narrativos: a Brigada, o Império ou a Margem? Como será sua Base sci-fi?
Agrupamentos: Uma Guarda de Hussardos? Cavaleiros Regenciais? Lanceiros? Piratas Espaciais? Mercenários? Milícias?

Ter em mente tudo isso vai facilitar sua vida, podem acreditar. Imaginemos um mestre (vamos chamá-lo de Huguinho) pronto para mestrar sua campanha de Brigada Ligeira Estelar. Ele quer uma campanha nos moldes de animes como Gundam e Macross (FC militar, aventuresco, a Brigada como tom narrativo), chamando Zezinho, Luisinho, Patrícia e Asnésio para jogar. Tendo feito isso, ele precisa selecionar algumas referências para assistir com seus jogadores.

Huguinho decidiu: não vai levar os protagonistas para a frente proscrita, preferindo fazê-los enfrentar uma milícia terrorista criada para a campanha. Para piorar, ele precisa agradar a todos — e Asnésio tem Neon Genesis Evangelion como sua referência do gênero. Huguinho escolhe o episódio 1 de Ginga Kikoutai Majestic Prince***, os episódios 2 e 3 de Gundam 0083**** e o longa Gundam F91*****. Terminados os filmes, é hora de falar sobre o cenário.

“Bom, gente, vamos falar de Brigada Ligeira Estelar. Ele é uma space opera com robôs gigantes como essas que vocês acabaram de assistir. Ele se passa em um império espacial cheio de intrigas de nobreza e conspirações. Vocês serão pilotos de robôs gigantes, há um lado capa-e-espada com duelos e códigos de honra e, nessa campanha, vocês farão parte de um projeto secreto para combater uma milícia terrorista espacial, podendo fazer parte da Brigada”.

Brigada Ligeira Estelar não deveria ser tão dependente de referências. Ele precisa ser acessível tanto para quem já viu um anime do gênero como para quem não sabe a diferença entre Transformers e Círculo de Fogo. Se sua sessão zero for em algum lugar público (como uma praça de alimentação em um shopping center), se prepare com exemplos visuais — mangás, por exemplo — e aproximações meio forçadas (“pense em… Top Gun com robôs no lugar dos caças”).

Mas, é claro, recursos existem para serem usados. Se você puder usar animes para passar melhor o conceito para quem chega agora, use. Simples assim. Caso você não os assista presencialmente com o grupo, existem recursos para assistir vídeos compartilhados na rede. E, em todo caso, vai ser a hora de ouvir as perguntas dos jogadores sobre o cenário — responda-as. Enquanto isso, é interessante pôr uma trilha sonora para manter os jogadores no clima.

Ao som das trilhas instrumentais de Gundam Wing e do Macross original, Huguinho começa a falar de personagens. Ele explica sobre os Perfis de personagem — e essa é a hora de se montar um time:
• Zezinho: este optou por um impulsivo oficial hussardo da Brigada (ponto).
• Luisinho: este optou por ser um agente da inteligência (contraponto).
• Patrícia: nobreza? Ela quis ser uma princesa (coração)!
• Asnésio: ele quis ser um mercenário durão (músculo).

É hora de costurar esse grupo para todos estarem presentes na ação. Nesse caso, o projeto pode ter contratado um mercenário previamente, mas quando ele se tornou de interesse nacional, ele praticamente ficou preso no serviço — e enquanto ele ganhar dinheiro, não vai sair. Para não deixar um dos protagonistas comandando os demais, podemos ter um coadjuvante da inteligência delegando uma função nesse time a um agente treinado para missões de campo.

Mas é claro, a Brigada acabou envolvida como parte desse interesse nacional e por isso escalaram algum piloto jovem, altamente talentoso — mas, como todo bom piloto hussardo da Brigada, potencialmente encrenqueiro — para esse time. Isso cria uma dinâmica entre ele e o agente da inteligência: um toma iniciativa e ignora ordens… enquanto o outro se descabela para não precisar reportar isso aos superiores. Resta a princesa: como encaixá-la no grupo?

O Mestre sugere à Patrícia uma princesa caída — mas ela quer ainda esse título e entrar em circuitos de nobres, com festas e intriga. 
“Mas este é um time de pilotos. Como você entra aqui?”
Sugestão: seu clã foi o responsável pelo projeto secreto original. A FEMTAR****** armou contra eles, falindo-os para tentar tomar seus protótipos. Agora ela foi reduzida à fidalguia mas pilota por orgulho — e quer recuperar suas terras e posses. Patrícia gostou.

Parte do papel do mestre é esse: trabalhar o personagem com o jogador para enquadrá-lo no grupo, sugerir quando ele parece não saber o que fazer, conciliar quando temos alguma discrepância. Por fim, ele precisa agora apenas orientar os jogadores a montar suas fichas de acordo com seus conceitos de personagem. É questão de saber as regras e trabalhar com eles. No 3D&T, isso é um trabalho rápido. Agora fica a pergunta: como gastar o resto do tempo?

Minha sugestão, caso vocês não tenham terminado ainda, é ir já comendo a pizza (alguém pediu, não?) e papear sobre seus novos personagens. Mas caso tenha sobrado bastante tempo, sugiro ao mestre narrar um prelúdio. Não o episódio um, mas narrar a cena no qual todos os personagens são convocados, uma a uma, mostrar seu primeiro encontro na base secreta — e terminar quando eles forem apresentados, por algum cientista, aos seus protótipos no hangar.

Huguinho decide narrar um prelúdio. A trilha já havia acabado e ele coloca de novo a trilha anterior para prosseguir. A princesa está vivendo na corte de um nobre aliado da família, mas este quer usá-la como moeda de barganha com um outro nobre menor. O oficial da Brigada recebe sua convocação de um comandante no quartel após uma cena com colegas. O agente de inteligência é convocado por seu superior para a missão. O mercenário… só está à espera.

É claro, avise aos jogadores: este é só um prelúdio e não teremos grandes cenas de ação. Prometa toda a ação ausente aqui para a primeira sessão de sua campanha. O mestre agora tem uma responsabilidade (os três primeiros episódios precisam ser matadores para manter os jogadores ligados) mas isso já não é mais função de uma sessão zero. A ideia aqui é ter tudo preparado para várias e várias semanas de diversão com seus jogadores… e robôs gigantes.

De resto, aproveite e estimule de antemão os laços entre personagens quando eles forem criados. Quanto mais o grupo interagir entre si, melhor. Atice os jogadores para fazerem sugestões uns aos outros quanto a seus personagens e… deixe rolar. Eles estão pavimentando um caminho, não o trilhando ainda. Quanto menos buracos forem deixados na estrada, menos problemas teremos no futuro. Todos agradecerão por isso.

Até a próxima — e divirtam-se, sempre.

* Crunchy é um termo aplicado a jogos com mais complexidade nas regras — é só procurar sobre Crunch e Lore por aí.
** Champions é um RPG clássico de super-heróis, jamais publicado no Brasil. Ele é excelente em sua proposta simulacionista e seus suplementos são ótimos mas… esse jogo tem uma certa reputação infame por conta da complexidade da construção de sua ficha — ela toma o dia inteiro! Funciona como um ótimo sistema genérico.
*** Ginga Kikoutai Majestic Prince, EP. 01: a introdução dos personagens pode parecer meio zoada, mas é um capítulo estruturalmente exemplar — os personagens são apresentados como um time disfuncional, são convocados para uma missão, mostram seu desempenho, surge uma situação exigindo o descumprimento de ordens e eles se revelam, para sua própria surpresa, como heróis. Para quem não conhece o gênero, essa é uma excelente introdução!
**** Mobile Suit Gundam 0083 — Stardust Memories, EPS. 02 e 03: essa série toca muito no tema do orgulho entre pilotos. Aqui temos duelos de robôs gigantes movidos à testosterona. As coisas demoram um pouco para acontecer no segundo episódio, então talvez seja interessante deixá-lo logo no ponto (no confronto entre o protagonista e o vilão). É ótimo para estabelecer um lado meio intrépido no cenário.
***** Mobile Suit Gundam F91 não é a melhor obra da franquia — é um longa-resumo de uma série abortada na produção, com um final enxertado para lançá-lo nos cinemas e minimizar as perdas financeiras (daí os desenvolvimentos tão velozes de personagem). Mas ele é ótimo para estabelecer o tom de um cenário do gênero.
****** FEMTAR: Federação dos Empresários de Tarso — com certeza, a organização mais corruptora da Constelação!
N. do A.: se o Huguinho optasse por outros tipos e tons de campanha, as escolhas seriam completamente diferentes!
DISCLAIMER: imagem de abertura roubartilhada de algum blog japonês. Imagem de encerramento do quadrinhista Yamatogawa. Todos os direitos reservados aos autores/proprietários originais.

4 comentários

  1. Nada haver com o assunto da postagem mas vim pra dizer que recentemente eu li o Batalha dos três mundos e gostei bastante! Já tô ansioso pelo próximo!

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