Pilares Narrativos: o Império

Como dito anteriormente, esta é uma série de cinco artigos falando sobre os pilares de uma boa campanha de robôs gigantes — a Brigada, o Império e a Margem. Dois deles já foram publicados (uma introdução, AQUI, e sobre a Brigada, AQUI), nos liberando para o segundo pilar: o Império, representando os aspectos ligados ao poder, intriga e dinheiro. Ele não precisa se referir ipsis litteris à nobreza, na verdade — uma corporação pode ser “o Império”.

Os personagens também não precisam fazer parte da Nobreza, na verdade. Eles podem estar inseridos dentro dessa mecânica do poder em suas aventuras regulares — mas precisam tomar cuidado ou serão esmagados por essa força maior. Belonave Supernova é o grande exemplo disso em termos do cenário, e recomendo interromper esse texto agora e pular o próximo parágrafo, caso você pretenda jogar a aventura no futuro — teremos spoilers. Vocês foram avisados.

Em Belonave Supernova, vocês procuram encontrar tomar uma antiga e gigantesca nave de batalha a serviço de três nobres interessados em restabelecer a paz no império. Os personagens precisarão cometer atos questionáveis em nome dessa missão — e eles terão consequências. Paralelamente a isso, a base da ficção científica na trama nos traz uma inteligência artificial em crescente desenvolvimento. No final tudo isso vai explodir na cara dos jogadores.

Belonave Supernova: claramente o Império como pilar da campanha…
mas não subestimem a Margem aqui. Arte de Simone Beatriz.

Lembram de quando citamos a ideia de Três Mosqueteiros no espaço no artigo anterior? Pilares não determinam se uma trama vai ser cerebral e sombria — eles só definem o grau de envolvimento desses temas “maiores” em sua aventura… e há muitas opções de personagem nesse contexto. Lembrem-se sempre: a intriga é interessante mas ninguém quer ficar se esgueirando nas paredes, escutando conversas quando temos robôs gigantes prontos para explodir coisas.

Agentes da Ordem: os protagonistas tem status oficial contra os crimes da nobreza, batendo de frente contra o seu poder (exemplo: Saikyō Robo Daiōja).

Cavaleiros Regenciais: os protagonistas são pilotos de elite a serviço da nobreza — com chances de ascensão social. Code Geass os traz como oponentes.

Casa de Nobreza: os protagonistas todos pertencem ou servem a um mesma família nobre… e, se ela é envolvida, todos o são. Tytania é um exemplo válido.

Baxinger: unidos pelo nobre Dom Condor para trazer ordem a um sistema
solar sem lei… e fazendo inimigos grandes demais no processo.

Em Nome de…: protagonistas agregados em torno do representante de uma causa e fazendo inimigos poderosos por isso. Ginga Reppuu Baxinger é um exemplo.

Estado-Maior: protagonistas militares ou nobres lidando com as consequências políticas de suas ações explosivas. Exemplo: Lenda dos Heróis Galácticos.

Falso Pilar: protagonistas criados sob outro pilar são arrastados para essa órbita graças a um evento folhetinesco. Aconteceu no super-robô Voltes 5*.

A Brigada Ligeira Estelar em si pode ser facilmente envolvida na maioria desses contextos: um nobre sem nada realmente a esconder (ou alinhado seriamente a interesse nacionais) pode requisitar a presença de um hussardo imperial para lidar com crises específicas ou servir como um elo oficial de ligação entre as autoridades e as ações de seus comandados. Sim, ele também pode fazer isso para afastar eventuais suspeitas — MAS, caso seja desmascarado…

Só aproveitando para lembrar: intrigas de nobreza e interesses políticos não significam
muito falatório e pouca ação. Os robôs de Code Geass estão aí para nos lembrar disso.

De qualquer forma, esse eixo permite certa amplitude de personagens — e não é preciso reduzir a quantidade de combates… salvo se mestres e jogadores o preferirem. Imagine um time formado por um nobre espadachim, seu primeiro-cavaleiro, um mediador imperial (com habilidades de combate em seu passado), um oficial da Brigada Ligeira Estelar incumbido de ser seu guarda-costas e uma Cortesã/Agente Secreta. Não há motivos para esse grupo não funcionar.

Quanto aos temas, é só instalar o Império como viga-mestra na base de ficção científica de sua trama e orbitem os demais pilares em torno dela. Primeiro a base: que tal bioengenharia e poderes mentais? Imaginem, digamos, um arquipélago no planeta Inara sendo atacado por um monstro de dimensões gigantescas, acima do normal para as criaturas deste mundo. Mas e se, ele por algum motivo obscuro, foi geneticamente criado para ser comandado por Espers?

Deu para notar como, em uma trama com intrigas de nobreza e muita política,
ainda dá para inserir um monstrossauro gigante comandado por espers?

Agora podemos pensar em nossa viga-mestra: uma das ilhas desse arquipélago foi supostamente atacada por um monstro há décadas e o domínio de clã único ali existente foi extinto… mas isso abriu caminho para uma articulação econômica do arquipélago, sob o comando de três clãs de nobreza. Eles prosperam sob oligopólio mas veladamente competem entre si: para cada um dos três lados, mostrar fraqueza é atiçar com sangue os demais clãs. E chega a crise…

Um ou mais monstros estão fazendo ataques calculados. Acusações mútuas despertam tensões entre os clãs. O pilar da Brigada turbina o Império ao fazer os três lados se armarem, gerando escaramuças e exigindo mediação externa — temos o gancho de entrada para nossos protagonistas! Quanto à Margem… e se a vida do povo sob o domínio desses clãs for infeliz? E se surgir um culto popular, enxergando os ataques de monstros como a “vingança das estrelas”?

Novamente: esse trabalho nos dá uma semente de aventura.
Cabe ao mestre desenvolvê-la.

Aqui entra nosso “vilão”: um sobrevivente ou o último descendente do clã extinto, um mentalista comandando monstros criados geneticamente para responder a poderes espers e responsável por estimular o crescimento de um culto religioso em torno das criaturas sob seu comando. Reparem no quanto tudo orbita em torno do poder: a destruição de um clã, a fragilidade das alianças entre casas de nobreza, a manipulação do desespero das pessoas mais simples…

É claro, tudo acabará em uma luta de robôs gigantes contra monstros — mesmo com uma vitória dos protagonistas, os três clãs podem sair destruídos dessa história — mas no meio disso podemos ter complôs, interesses políticos, tentativas de assassinato… e é essa a alma da coisa, inclusive quando desemboca em combates clássicos. A primeira aventura de Brigada (“A Serviço da Princesa Regente”) foi assim, lembram?

Nosso próximo pilar é a Margem. Até lá!

Se Rogue One tem claramente a Brigada como pilar, a trilogia clássica
de Guerra nas Estrelas tem como pilar… o Império (dã).

* Em Voltes 5, temos quatro atos bem claros dentro da estrutura do Kishōtenketsu — a narrativa oriental em quatro atos (ver AQUI) — e nos dois primeiros, o pilar claramente era a Brigada, embora no segundo ato fossem sendo apresentados os elementos responsáveis pela virada. No terceiro ato, revelações sobre o passado dos três irmãos e algumas tramas paralelas sobre os vilões acabam não apenas revirando a trama do avesso como alterando a viga-mestra de sua trama — agora o que temos é uma trama graustarkiana (AQUI, sempre recomendo esse texto) sobre tronos usurpados em outros planetas e herdeiros afastados. É uma novela!

Imagem do Cabeçalho: Duna (1982), a controversa adaptação de David Lynch para a obra de Frank Herbert. É um exemplo óbvio para o pilar: é um “Guerra dos Tronos” no espaço, tendo como base um ecossistema alienígena — e, claro, os famosos vermes de areia. A margem é extremamente importante na figura dos Fremen e o conflito revolucionário em si contra os Harkonnen (com direito a uma arma secreta baseada em som — uma grande sacada, inexistente no original) estabelece o pilar da Brigada nessa história. Tem problemas, mas merece ser visto.

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