Pilares Narrativos: A Margem

Repetindo novamente, esta é uma série de artigos falando sobre os pilares de uma boa campanha de robôs gigantes. Dois deles já foram publicados (uma introdução, AQUI; sobre a Brigada, AQUI; e sobre o Império, AQUI). O terceiro pilar é a Margem, representando aqueles fora desse escopo de autoridade. Isso inclui tanto gente comum forçada a pegar em armas por circunstâncias ruins quanto foras-da-lei como piratas espaciais e caçadores de recompensas.

Na verdade, esse aspecto é um pouco amplo demais e sociedades não tem classes socioeconômicas isoladas entre si — boa parte das tensões em sua história podem nascer do atrito entre pilares. Em Éden Quatro*, os personagens podem ser pilotos hussardos batendo de frente com o poder das guildas — mas gostam de passar seu tempo na cidade flutuante de Satélite 18, aonde se envolvem com as pessoas comuns do local, que sofrem com os jagunços das… espere!

Se os jagunços trabalham para a guilda, conflitos com eles são a Margem ou são o Império?

Começaram a perceber como tudo pode ser difuso? De modo geral, nesse caso específico, vejo as ações nas guildas nas grandes esferas como Império — quando eles usam seu poder financeiro e influência política para forçar as autoridades a cederem. Mas quando os eventos vão para o escopo das pessoas comuns e jagunços precisam ser tratados no tapa, temos a Margem.

Por trás de toda a delinquência zoada, Combat Mecha Xabungle conta uma história de
sobreviventes e, principalmente, de luta de classes — com robôs gigantes, é claro.

A natureza ampla do conceito permite várias interpretações. É claro, os subgêneros escolhidos tendem a definir melhor qual o pilar a ser empregado. Se a ideia é uma campanha essencialmente cyberpunk com elementos espaciais aqui e ali, a margem é quase uma imposição do cenário. Se a ideia é uma space opera descabelada, os três pilares são boas opções como viga-mestra — nada impede aquele time de bandoleiros espaciais de salvarem o universo, certo?

Foras-da-Lei: dos piratas espaciais com seus saques e pilhagens aos caçadores de recompensas e tesouros… Pensem em Sol Bianca e Space Adventure Cobra.

Forças Privadas: vocês podem ser mercenários, corsários… ou lutar em forças terceirizadas para as autoridades — vide Viper’s Creed ou Comando Dolbuck.

Guerrilheiros: os protagonistas se unem a uma força rebelde ou revolucionária, procurando recursos e armas para lutar. Exemplo: Taiyō no Kiba Dougram.

Dougram não virou franquia como Gundam ou Macross, mas talvez só perca em importância
para essas duas: pariu a vertente “séria” do gênero, a de obras como Flag ou Gasaraki.

Milícia: os protagonistas formam ou se juntam a uma organização paramilitar com agenda própria**. A Gekkostate de Eureka Seven é um exemplo muito bom.

Sobreviventes: sem ajuda no momento inicial, os protagonistas são pessoas comuns forçadas a pegar em armas por sua conta. Exemplo: Ginga Hyōryū Vifam.

Trabalhadores: vocês prestam serviços honestos como transporte de carga, por exemplo — mas esse ramo tem lá seus riscos… Exemplos: ID-Ø e Crusher Joe.

Isso diz muito sobre a natureza simplificadora dos pilares: Guerrilheiros, por exemplo, podem ser ponto de partida tanto para uma violenta campanha de ficção científica militar com tom árido… quanto para uma campanha descabelada de space opera com tom folhetinesco aonde sua missão é salvar a galáxia — simplesmente não é esse o ponto aqui! Fincando uma viga-mestra, estabelecemos não só um foco de trama mas um ajuste possível para os protagonistas!

Burst Angel: mercenárias corporativas a serviço de uma organização internacional
em um futuro cyberpunk. Ah, sim, elas tem um robô gigante chamado… Django.

Vamos imaginar um jogador querendo, de qualquer forma, jogar com um nobre espadachim. Como encaixá-lo em uma campanha na margem? E se ele guardar seu passado como um segredo, escondendo-o dos demais jogadores… e preferir viver aventuras ao lado de personagens nômades sem o peso das suas obrigações de nobreza? Esse também é um clichê clássico! Mesmo assim é possível pensar fora da caixa: como classificar a maioria das super-cantoras de Macross?***

Quanto aos temas, não é difícil instalar a Margem como viga-mestra na base de ficção científica de sua trama. Na verdade, ela tende a ser mais proativa e ir por conta própria atrás de encrenca. Vamos à base: imaginem a entrada, na Constelação, de um dos mais raros objetos do universo: um iceberg de hidrogênio. As autoridades o querem para estudo, as empresas privadas o querem para uso próprio. Mas e se dentro do Iceberg estiver aprisionado… algo?

Nostromo, de Alien, o Oitavo Passageiro: talvez fosse melhor deixar
aquela nave alienígena quieta no planetoide aonde foi encontrada…

Não é difícil imaginar em ação durante a corrida em si mas é bom para o mestre ter uma ideia clara de qual ameaça pode estar embutida em um iceberg de hidrogênio. Um monstro com a capacidade de sobrevivência de um tardígrado? Um robô com tecnologia alienígena similar à encontrada no planeta Altona — e com maior potencial destrutivo? E se, ao se libertar, ele quiser passar por todos e voar para esse planeta com uma agenda definida? Qual seria ela?

Agora podemos pensar em nossa trama: há uma corrida ao Iceberg. Se ele for interceptado por uma força imperial, será usado para pesquisas e equipamentos na guerra contra os proscritos. A Corporação Monastério pode ter enviado uma flotilha de mercenários da Estrela Negra. Os protagonistas podem ser caçadores de tesouros em uma nave furreca — e talvez queiram tomar posse do material para leiloá-lo. O problema é disputar a presa com peixes grandes…

Mais uma semente de aventura aqui e, de novo,
só falta trabalhá-la. Não será difícil desta vez.

Não é difícil imaginar o papel dos demais pilares. No caso do Império, temos autoridades prontas para requisitar o material ao encontrá-lo. Eles representam uma oposição e vão procurar colocar os personagens fora do caminho — mas procurarão fazê-lo dentro das regras. A Brigada, por sua vez, é representada pelas forças militares públicas e privadas. Vale notar: como a autoridade detém suas armas, “O Império” e “A Brigada” estão numa zona conjunta…

Temos com isso uma aventura sem grandes complexidades, mas também uma amostra do potencial desse pilar. No final todos os pilares em si são tematicamente intercambiáveis — mesmo a sociedade mais estratificada não é encapsulada em bolhas (embora eles possam acreditar nisso) e, na ficção, isso não deveria ser diferente. Os eventos em uma esfera sempre influenciarão as demais.

Para encerrar essa leva falaremos, no próximo texto, sobre a Base. Até lá!

E não se esqueçam das batalhas espaciais, pessoal!
elas fazem parte da diversão!

* Apenas para lembrar: Éden Zero foi rebatizada e recontextualizada como Éden Quatro. Não gosto de retcons mas, embora essa série tenha sido criada primeiro durante o período de Brigada Ligeira Estelar na Social Comics, um mangá de nome similar surgiu e não queremos ter problemas com advogados no futuro — ainda mais com advogados japoneses (não vamos brincar com o perigo)…
** Só para deixar claro: não queremos em nenhuma hipótese glorificar ou validar o milicianismo nos termos conhecidos em nosso país. Há no cenário uma organização miliciana criminosa, a TIAMAT — mas também há um grupo teoricamente bem intencionado, a Vanguarda Sideral. No entanto, é preciso alimentar e trazer armas e equipamentos para essas forças. O quanto um grupo, independentemente da validade de suas intenções, pode se manter fiel a seus princípios e não se tornar uma ameaça maior em comparação aos seus inimigos originais? Isso pode ser interessante — mas exige maturidade dos grupos de jogo. Pensem nisso.
*** Teoricamente isso é classificado como a Margem apenas pela amplitude do conceito — tudo fora do eixo das autoridades políticas ou armadas. Reparem o quanto as séries da franquia Macross davam voltas e forçavam muito a barra para encaixar suas cantoras salvadoras da pátria. Macross Delta, embora seja muito criticado, tem o mérito de ter finalmente resolvido esse problema.

Imagem do Cabeçalho: os Ravagers da cinessérie dos Guardiões da Galáxia. É uma série da Margem, sem discussão!

3 comentários

  1. Grande artigo. Sempre quis montar uma aventura de piratas espaciais em Tom Heroico combatendo os Proscritos e fugindo da Brigada.
    Só um detalhe: o link para o artigo do iceberg de hidrogênio está quebrado, tem um “mailto:” no começo atrapalhando.

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