Por Trás do Sabre: Viskey

Viskey foi um desafio quando foi criado. Em um cenário com robôs gigantes, fatalmente teríamos uma representação nipônica. O problema era definir qual Japão. Um corpo estranho, refletindo o período Edo? Um mundo ultra-urbanizado e ocidentalizado mas ainda cioso de suas identidades e tradições, como um espelho do Japão moderno apenas cosmeticamente ajustado ao Sabre? Ou um mundo… retro-atemporal, remetendo a uma atração nipônica pela europeização?

Optei pelo último mas não descartei os demais. Eles são importantes conceitualmente e em algum momento podem reaparecer (no futuro falaremos disso). O gancho dramático já está no cenário.  Mas a fascinação japonesa pelo ocidente — ou melhor, por uma visão romantizada do ocidente — contou e muito para a escolha dessa abordagem. De tendências como o gothic lolita e o elegant gothic aristocrat. De bandas Visual Kei exumando, das profundezas, o fop*.

Eu já mencionei isso em outra ocasião e não vou me repetir. Por outro lado, isso tudo de certa forma é… cosplay. É só olhar representações europeizadas em videoclipes, animes e outras fontes na cultura pop japonesa. Ele é uma interpretação cultural do ponto de vista da iconografia, não da realidade — Imagem é tudo. E do ponto de vista da constelação, há algo artificial neste mundo. Agora vocês pegaram a brincadeira por trás do nome Viskey, certo?

Tem algo mais fop — e por tabela, mais fora do tempo — do que isso?

Referências Iniciais

Mas como eu iria, em termos de ambientação, reproduzir tal conceito? Bom, Viskey ainda é um “Japão”. Isso significa manter a sociologia por trás deste mundo apesar das alterações cosméticas — e dos clichês do próprio gênero. Ou seja, ele ainda é um centro tecnológico, produz robôs gigantes… e tem cobranças sociais imensas sobre seus habitantes levando ao drama ou ao folhetinesco (o machismo recorrente neste mundo é um reflexo disso, por exemplo).

Isso curiosamente me deu um norte mas criou uma armadilha: Viskey veio mais do coração do próprio gênero e não de elementos específicos — mas, ao mesmo tempo, tem uma estética diferente, remetendo a um antropofagismo cultural muito japonês (procurem saber sobre Huis Ten Bosch… uma cidade em estilo holandês no país!). Eu poderia discorrer IMENSAMENTE sobre isso mas estou falando como autor de RPG e preciso oferecer referências objetivas ao leitor.

Aqui cabe tudo. Pense nisso.

Então Viskey é o mundo mais animê de um cenário animê por conceito, trazendo elementos mais associados à mídia em si — não necessariamente ao tema central do cenário. Jovens com poderes psíquicos? Mordomos ou criadas ninjas**? Homens andróginos com roupas de realeza europeia dirigindo carros e ostentando katanas milenares? É como se a realidade fosse otakizada em seu esforço de soar como o resto da constelação e ela reagisse com certa estranheza.

Não à toa, a Zona Perdida — uma espécie de reduto cyberpunk no planeta (ver Dragão Brasil 144) — foi modelada particularmente no bairro otaku de Akihabara, com robôs inspirados nos caminhões dekotora*** para pontuar seu fator de exagero. Mesmo gangues de delinquentes locais não escapam a isso: cosplay, lembram****? Então, assumam o excesso! Você é a persona encampada por si… e isso não deveria soar estranho. Hussardos são assim em qualquer lugar.

Pense na coexistência de diferentes anacronismos e tropos contemporâneos.

Viskey em jogo

Ao mesmo tempo, o “Deru kui wa utareru” (“O prego que se destaca é martelado para baixo”) ainda conta. Obsessões sociais ainda estão presentes e isso conta muito na construção de protagonistas: a moça que se junta à brigada por não querer se contentar com uma guarda cerimonial, o visivelmente mestiço, o jovem obcecado por se mostrar digno das expectativas ou superar alguém… mas e quanto a ambientação em si, como trabalhá-la? Vamos dar uma olhada:

Conspiração Sci-Fi: sua natureza de centro tecnológico abre margem para muitos projetos secretos envolvendo robôs gigantes, pilotos e poderes mentais.

Ficção Científica Militar e Espionagem Pop*****: conservantismo e xenofobia andam juntos — e isso é terreno para o surgimento de milícias terroristas!

Folhetim Espacial: um universo de nobres e tramóias, com jovens pilotos procurando não ser engolidos pelas tramas maiores ao redor. Funciona bem aqui.

Code Geass, aliás, é um bom exemplo desses excessos.

Pilotos Duelistas: este é um ótimo local para estabelecer bases de pilotos e rivalidades, envolvendo códigos de honra, rancores, orgulho… e superação.

Pós-Cyber e Cyberpunk Bubblegum: uma ficção científica urbana é possível — mas as particularidades deste mundo podem levá-la para um caminho mais pop.

Space Opera e Cripto-fantasia Científica: segredos do passado deste mundo podem ser propícios ao quase fantástico e isso casa bem com uma space opera.

Aproveitando, é preciso falar um pouco sobre a presença relativamente maior de espers neste mundo. Ela tem origem justamente em uma tradição de poderes psíquicos na ficção científica japonesa. Esta foi uma forma de dar identidade ao local, em relação a outros planetas do cenário, mas também de cobrir diferenças de abordagem do tema: tanto o piloto com capacidades especiais****** quanto aquela figura com poderes crescentes e descontrolados*******.

Espers são figuras clássicas nos animês — inclusiive os de robôs gigantes.

Isso não os impede de surgir em outros planetas, mas uma organização como o Instituto Takemiya — em algum momento será preciso falar dele — não seria possível em outro lugar. A ideia de organizações públicas como esta já é antiga na ficção científica (recomendo muito a leitura de O Homem Demolido, de Alfred Bester) — e, é bom lembrar, a geração de criadores japonesa dos anos 70 e 80 era uma leitora recorrente da FC ocidental******** e isso conta.

Aliás, cada mundo tende a, naturalmente, puxar uma aventura — ou etapa de campanha — para um tom próprio. O fator pop embutido em Viskey colabora com isso. Não tenha medo dos clichês visuais, eles ajudam a dar personalidade ao local, mas também não pense neste mundo como mera zoação referencial: há herança histórica aqui (o Japão teve o seu histórico com milícias no pós-guerra*********) e seus elementos mais sombrios não deveriam ser banalizados.

A Tatenokai de Yukio Mishima: adicione robôs gigantes e temos vilões perfeitos!

Para Terminar:

Viskey é um excelente mundo para se iniciar campanhas: como a Brigada Ligeira Estelar leva pessoas de diferentes mundos para servir o ano inicial em outros planetas, personagens de toda procedência podem parar por lá. Milícias nacionalistas, alta tecnologia, projetos secretos com tudo para dar errado (tanto contra quanto a favor da ordem atual), pessoas com poderes psíquicos, anacronismos visuais misturados a elementos futuristas… é preciso mais?

Bom… na verdade é preciso sim. RPG sempre precisa. Mas a partir daqui e dessas referências, muita coisa pode ser tirada para suas campanhas de Brigada Ligeira Estelar. Falando nisso: falta só um mundo para fecharmos a lista de planetas habitáveis da Constelação do Sabre. Mas isso não vai parar esta seção. Há muitos locais com inspirações específicas e conteúdo criativo a ser dissecado aqui. Fiquem tranquilos.

Até a próxima — e divirtam-se, sempre.

Ah, sim: não tenham medo do ridículo. Isso é Viskey! 😀

* Fop é um termo pejorativo muito antigo em língua inglesa — de acordo com o Dicionário de Inglês Oxford em 1672 (!), representa “alguém tolamente atento e vaidoso com sua aparência, roupas ou maneiras; um dândi, um requintado”. Apesar deles soarem muito, muito afeminados aos olhos de hoje, o Fop era um modelo de masculinidade, por mais surpreendente que isso pareça — talvez um protótipo exagerado da metrossexualidade. Pimpinela Escarlate e Zorro, nas suas identidades civis, se passavam por Fops (e não custa lembrar: Dom Diego de la Vega flertou bem-sucedidamente com a esposa do Alcaide no clássico A Marca do Zorro de 1940… como um Fop!). O vilão Vanoli Berval da novela Que Rei sou Eu?, interpretado pelo saudoso Jorge Dória, provavelmente também era — basta compará-lo com os demais personagens masculinos na corte do reino de Avilan — mas nele, todos esses arranjos visuais só o deixavam repulsivo e, definitivamente, ninguém punha sua sexualidade em dúvida. É uma opinião pessoal, mas a ambiguidade sexual de certos cantores e bandas japonesas me remetem muito a esse conceito e, julgando pelos trajes de certas bandas, isso não me parece totalmente incidental.
** Ver Serviçais de Combate — A Constelação do Sabre, Volume 2, páginas 63 e 83.
*** Dekotora é uma cultura dos caminhoneiros japoneses de veículos excessivamente coloridos e decorados, cheios de luzes e cores exageradas, andando pelas estradas. Digite “Dekotora” no Google (ou dê uma olhada neste pequeno documentário) e divirta-se.
**** Se você duvida, basta lembrar das gangues de Akira. Tudo bem, elas tem uma linha direta referencial com clássicos como Selvagens da Noite e Laranja Mecânica, mas convenhamos: conceitos visuais como a Gangue dos Palhaços e outras gangues “tematicamente caracterizadas” não deixam de ser uma espécie de cosplay.
***** Por Espionagem Pop, me refiro à abordagem mais jamesbondiana do gênero. Em algum momento — talvez em breve — vou falar dela, com certeza absoluta. Espionagem faz parte do cenário de Brigada Ligeira Estelar!
****** Como os Newtype de Gundam (e seus derivados de outras séries da franquia, como os X-Rounders de Gundam Age ou os Coordinators de Gundam Seed), os Psychodrivers de Super Robot Wars: Original Generation, os Divers de Five Star Stories e tantos outros. Não dá para fazer copyright do termo “Esper” a essa altura do campeonato!
******* Esse tropo praticamente marcou os anos 80 nos mangás e animês. Akira, Mai a Garota Sensitiva, Genocyber… se formos mais longe, ficaremos aqui o dia todo falando de poderes mentais e coisas explodindo!
******** No Japão, os anos 60 e 70 foram marcados pela publicação em massa de vários autores de diferentes gerações da ficção científica ocidental, com o surgimento de publicações importantes no país (como a veterana SF Magazine, publicada até hoje). Essa é uma generalização imensa, mas de modo geral, enquanto vários nomes masculinos pareceram beber da Era de Ouro da Ficção Científica (décadas de 40 e 50), autoras de shōjo — a produção japonesa para meninas — pareceu responder de imediato à Nova Onda da Ficção Científica (décadas de 60 e 70): de um lado, autores como Yoshiyuki Tomino e Shoji Kawamori jamais negaram suas respectivas inspirações em Tropas Estelares, de Robert A. Heinlein, e Inherit the Stars, de James P. Hogan, para as séries originais de Gundam e Macross. De outro, autoras dessa geração como Moto Hagio (They Were Eleven), Reiko Shimizu (Himitsu) e Keiko Takemiya (Terra E…) abraçaram os temas sociais e de gênero da Nova Onda e abriram uma seara de ficção científica nos quadrinhos femininos de seu tempo.
********* O melhor exemplo disso foi a milícia paramilitar de direita nacionalista Tatenokai (“Sociedade do Escudo”), liderada pelo escritor Yukio Mishima. Eles foram tolerados — e até reconhecidos legalmente por seu discurso pró-imperial, gravando discos, fazendo ensaios fotográficos na mídia e chegando ao ponto de serem treinados pelas próprias forças japonesas de autodefesa — até sua tentativa fracassada de golpe de estado em Novembro de 1970, culminando na morte de Mishima. Sendo bem sincero: a Tatenokai é um modelo perfeito em tudo, até visualmente, para uma milícia vilanesca na Constelação do Sabre. Só faltam os robôs…

DISCLAIMER: Metropolis pertence à Tezuka Productions Co., Ltd. e Madhouse Inc.; Sakura Taisen/Sakura Wars, em todas as suas versões, pertencem à Sega Corporation; Code Geass pertence à Sunrise, Inc.; todos os direitos reservados a seus proprietários originais; imagens para fins jornalísticos e divulgacionais.

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