Espionagem Pop

Elementos de espionagem são partes fundamentais nas aventuras de Brigada Ligeira Estelar. Falamos de missões secretas, de segredos de estado, de operações de inteligência, de conteúdo a ser desvendado e, claro, tudo terminará na base da pancadaria com robôs gigantes. Mas acho interessante falar um pouco do conceito de espionagem pop, até porque ele também faz parte da história dos robôs gigantes como subgênero. E precisamos falar disso sem robôs.

Para começar, missões de inteligência sempre foram fundamentais em obras clássicas de aventura — pensem na missão de recuperar o colar da Rainha em os Três Mosqueteiros ou na troca secreta de identidades em O Prisioneiro de Zenda. A aura de glamour dos cenários de capa e espada costuma nos desviar a atenção disso mas eles são universos de intriga política, documentos secretos, chantagens e conspirações. Na realidade, eles podem ser bem ambíguos*.

Em ambientes contemporâneos, sem os espadachins galantes, essa abordagem tende a ganhar tons bem mais cinzentos — assistimos isso no James Bond de Daniel Craig, na série Bourne ou até mesmo no recente filme da Viúva Negra (basta pensar na organização responsável por treiná-las e por todo o horror envolvido no processo). É um mundo sem heróis — e, talvez, seu lado não seja tão santo assim. Pois bem, a Espionagem Pop da qual vamos falar não é isso.

Full Metal Panic ainda é o exemplo emblemático do
uso desses temas em animes de
Real Robot.

Para eu poder ir direto à parte importante para nós, a Espionagem Pop é o terreno do James Bond de Sean Connery e Roger Moore, do seriado britânico Os Vingadores (especialmente a partir de sua fase clássica com Diana Rigg como Emma Peel), com traquitanas bacanas, elementos de ficção científica (às vezes abraçando-a por completo)**, cientistas loucos, mega-vilões com planos megalomaníacos e certo… maniqueísmo necessário para comprar a brincadeira.

Isso teve uma influência imensa em nossa cultura pop a partir dos anos 60, notadamente pelos citados filmes de Bond: organizações malignas como a SPECTRE (acrônimo de Special Executive for Counter-intelligence, Terrorism, Revenge and Extortion — sim, eu me divirto muito com esses nomes esdrúxulos formados por iniciais quilométricas)***, missões ao redor do mundo, vilões pra lá de exóticos… e isso fez muita escola, até mesmo em outros gêneros****.

A H.Y.D.R.A. da Marvel é um exemplo perfeito
desssas organizações nos quadrinhos.

Mas como isso se encaixa com robôs gigantes? Bom, o Japão não escapou dessa influência na época — basta lembrar de animes como Skyers 5 (no Brasil, Taro Kid)*****. Aqui nós precisamos falar de um nome fundamental: Mitsuteru Yokoyama, criador das séries Tetsujin-28 Go (Homem de Ferro 28 no Brasil em tempos idos, Gigantor nos Estados Unidos) e, mais relevante agora, Giant Robo (Robô Gigante no Brasil) — pontapés iniciais do mecha como gênero******.

Robô Gigante (mais conhecido por nós graças à versão live-action de 1967) bebia por completo da Espionagem Pop. Uma organização secreta com planos mirabolantes para conquistar o mundo (a Big Fire), uma agência com personagens ultra-capazes para enfrentá-los (a Unicórnio no live-action e os Experts da Justiça — uma super-divisão da Interpol — na versão OAV*******), máquinas fantásticas e muita, muita influência dos derivados de James Bond********.

Robô Gigante: agentes ultra-capazes contra mega-organizações
do mal. Eles não são os novatos — eles são os melhores!

De modo geral, a ascensão do real robot********* trouxe consigo tons de cinza mais propícios à abordagem mais clássica e sombria da espionagem e ela está presente desde então (basta dar uma olhada em Mobile Suit Gundam Hathaway: aquilo é claramente um thriller do gênero, mas com robôs gigantes). Porém, acredito haver um espaço para sua face mais exagerada e pop em um universo high-tech de ases, pilotos e… interesses secretos. Vamos esmiuçar isso:

Organização do Bem contra Organização do Mal: bate de frente contra o anti-maniqueísmo do real robot como gênero mas, sem isso, não há espionagem pop.

Os Melhores: vocês não estão lá como novatos tentando sobreviver ao inimigo. Todos aqui são especialistas em alguma coisa… e de quebra, pilotam robôs.

Megalomania: os objetivos do inimigo são gigantescos — conquistar um mundo, a Constelação, nada pequeno. Isso envolve planos ambiciosos e super-armas.

Kishin Corps pode decepcionar um tanto no quesito ação com
robôs gigantes — mas também é uma boa referência no tema.

Escala Crescente: apesar dessa megalomania é possível ver os primeiros sinais desses planos em uma escala menor, destinada a culminar em algo gigante.

Ficção Científica Pulp: não se comprometa com o real. Máquinas capazes de trazer ameaças extra-dimensionais ou tirar luas de suas órbitas? Detenha-os!

Vilões Exóticos: não pense em humanizar ninguém aqui. Os vilões podem até ser ridículos, mas compensam isso com um grande adicional de periculosidade!

Quanto a regras, ainda para o 3D&T Alpha, pensem nas regras de nicho de Mega City (Páginas 107-108). Quem sabe esta seja a abordagem perfeita de gênero para o Uhuuuuuuu! nas suas campanhas de Brigada Ligeira Estelar (BLE Alpha, página 46), com personagens de 12 pontos inclusive? Nesse caso, não esqueça de turbinar suas máquinas e de fazer o mesmo com as máquinas dos inimigos. No atual estágio do 3D&T Victory, talvez não seja preciso pensar nisso.

Máquinas fantásticas pelo caminho! Armas do Juízo final
a serem destruídas! NUNCA PENSE PEQUENO!

Da mesma forma, as referências vão precisar de algum ajuste porque o real robot abraçou certa sobriedade e a espionagem pop a esnobou. Giant Robo e Esquadrão do Espaço (Akū Daisakusen Srungle) são respectivamente um super robot de primeira fase e um exemplar da transição do super para o real robot… mas ambos tratam de equipes de combate contra mega-organizações “do mal”. Animes de fora do gênero como Read or Die também podem ser boas referências.

É claro, não podemos esquecer de Full Metal Panic. Ele tem um pouco mais de pé no chão nesse sentido, se aproximando mais de filmes militares de ação como Comando Delta, mas o resto está lá: uma organização secreta (a Mithril) lutando contra outra organização secreta (a Amalgam), agentes ultra-capazes em missões de inteligência que acabam culminando em uma grande ameaça final física a ser enfrentada… Talvez o melhor exemplo do tema em Real Robot.

O OAV Read or Die tem agentes com superpoderes, mas não
precisamos chegar a tanto.
Temos super-máquinas, ora!

No cenário, também não é difícil pensar no encaixe desses conceitos. Já existe a TIAMAT como mega-organização terrorista, e ela se presta muito bem a esse papel, mas você pode criar seus vilões sem problemas. Da mesma forma, seu grupo de pilotos pode ser uma divisão especial da Brigada Ligeira Estelar. Isso tudo remete a material já publicado aqui********** mas, como dito anteriormente, isso acontece graças a sua influência pesada na cultura pop.

Para terminar, pense nisso apenas como mais uma entre muitas opções para os mestres e jogadores de Brigada Ligeira Estelar. Esta não é uma guinada em nada. Há espaço para campanhas militares sóbrias com personagens de baixa pontuação, de space operas épicas com personagens heróicos salvando a constelação… de campanhas de todos os tipos possíveis no gênero, enfim. Esta é só mais uma delas. O importante, no final, sempre é a diversão.

Até a próxima.

Não se esqueçam: façam protagonistas que se garantam,
porque os vilões precisam ser potencialmente letais!

* Se analisarmos friamente, quem defendia realmente os interesses da França em “Os Três Mosqueteiros”? A Rainha Ana da Áustria ou o inescrupuloso Cardeal Richelieu? A continuação da obra, “Vinte anos depois”, joga uma sombra sobre esse assunto ao mostrar o respeito deles pelo seu antigo inimigo (em comparação ao seu sucessor, o Cardeal Mazarino) e sugerir que, talvez, nossos heróis tenham lutado a favor do lado errado no passado…
** Na série britânica “Os Vingadores” — nada a ver com os super-heróis da Marvel — nossos agentes secretos encontravam todo tipo de ameaça exótica além dos espiões de sempre, desde raios encolhedores até homens com poderes elétricos. Não havia limite!
*** Ian Fleming, o criador de 007, acreditava que a Guerra Fria era um problema pontual e poderia se encerrar entre a publicação de seu próximo livro e sua conversão em filme. Para não correr o risco de ficar datado, ele substituiu os soviéticos dos primeiros livros/filmes de James Bond por uma organização internacional superficialmente apolítica, agindo tanto contra os estadunidenses quanto contra os russos, buscando enfraquecê-los até o momento no qual ambos poderiam ser atacados simultaneamente com sucesso. Na sua versão literária, a SPECTRE tendia a ser mais sóbria, usando o tráfico de heroína como sua sustentação financeira. No cinema, porém, eles se tornaram o protótipo da mega-organização do mal voltada à conquista do mundo — e, novamente, esse conceito não apenas deu certo como fez escola, permitindo aos criadores trafegar por um terreno mais imaginativo e menos limitado (ou potencialmente controverso) por sua âncora em eventos e pessoais reais.
**** Se pensarmos bem, o Military Action Commando subgênero de animação que santitizava o gênero “guerra” para consumo infantil — bebeu muito dessa fonte. Basta lembrar da Cobra em Comandos em Ação e de todos os seus imitadores genéricos em desenhos como MASK e o Rambo da Ruby-Spears.
***** Baseado em um mangá de Noboru Kawasaki, Skyers 5 acompanhava um time de agentes secretos contra uma super-organização criminal chamada Fantasma (Ghost, no original).
****** O Super-Robot se subdivide em duas fases específicas: a primeira, quando garotos comandavam seus robôs à distância (como nos dois exemplos citados) e a segunda, a partir do Mazinger Z de Go Nagai, quando os robôs passam a ser pilotados.
******* Giant Robo: The Day the Earth Stood Still (1992), com certeza a versão definitiva do material e um grande tributo à obra de Yokoyama.
******** Na verdade, provavelmente os James Bond genéricos dos anos 60 (Flint, Matt Helm, Agente da U.N.C.L.E. e até mesmo a paródia Agente 86) tiveram mais importância para depurar e instalar esses clichês no imaginário do que os próprios filmes de James Bond, podem acreditar, afastando o conceito de suas origens e o levando para um terreno de super-vilania quadrinhística.
********* Só relembrando: Super-robot define aqueles robôs com cem metros de altura e que protegem, sozinhos, cidades de monstros e outros robôs gigantes das mesmas dimensões. O Real Robot define histórias sci-fi, na maioria militares, com robôs menores (na faixa dos vinte metros em geral, embora tenhamos exceções) e produção em massa.
********** Falamos do Military Action Commando AQUI.

NO TOPO: a base Atlantis do filme 007: o Espião que me Amava.
DISCLAIMER: James Bond e 007 são propriedades da EON Productions Limited, Danjaq LLC e Metro-Goldwyn-Mayer Studios; Robô Gigante (Giant Robo) é propriedade do espólio de Mitsuteru Yokoyama via Mu Animation Studio e Phoenix Entertainment; Alien Defender Geo-Armor: Kishin Corps é propriedade de Masami Yamada, via Anime International Company, Inc. e NBCUniversal Entertainment Japan LLC (braço japonês da Universal Pictures International Entertainment); Read or Die é propriedade de Hideyuki Kurata via Studio DEEN Co., Ltd.: H.I.D.R.A. é propriedade da Marvel Entertainment, Inc.; Full Metal Panic! é propriedade de Shōji Gatō via estúdios Gonzo K. K., Kyoto Animation Co., Ltd. e Xebec, Inc. Imagens para fins divulgacionais. Todos os direitos reservados a seus respectivos proprietários.

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