O Que é um Dragoneiro?

Tirado de um artigo anterior: os robôs de combate em Brigada Ligeira Estelar foram inspirados na cavalaria clássica, dos tempos das guerras lutadas a cavalo: tropas de hussardos (hussards) eram usadas para ataques de assalto, lanceiros para ataques de carga, caçadores para missões de busca e rastreio, carabineiros para baterias de tiro à distância, couraceiros para forças de cavalaria blindada e dragoneiros como tropas montadas de armamento leve.

É interessante pensar nos dragoneiros porque eles nunca foram muito populares — e faz sentido: na sua forma original, eles só se revelaram funcionais em abordagens mais táticas do sistema, daí sua futura reformulação no novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG para torná-los mais interessantes em jogo. Mas então por qual razão eles foram incluídos? Simples: eles fecham o lote dos corpos clássicos de Cavalaria Ligeira (Hussardos, Lanceiros e Dragoneiros).

O Dragoneiro clássico cavalgava como locomoção mas lutava a pé enquanto hussardos e lanceiros desempenhavam diferentes funções montadas em combate. Motos blindadas e armadas no campo de batalha pareceram uma boa ideia mas, com isso, esqueci da regra do cool: em um cenário com robôs gigantes, há realmente apelo nisso? Esse é um problema com solução, porém, e para encontrá-la vamos precisar de um pouco de história. Assim, é hora de voltar no tempo…

Dragoneiros como eram na Guerra dos Trinta Anos
(reencenação na cidade de Lützel, Alemanha).

O Dragoneiro Original

O termo Dragão era considerado um símbolo de poder e valor na Idade Média e tais qualidades, reunidas, traziam consigo uma conotação de invulnerabilidade. Isso levou a muitos cavaleiros medievais adotarem seu símbolo… e quando essa era terminou, ele passou a ser adotado por corpos de tropa a serviço de condottières (em 1443 ou 1450, dependendo da fonte*). Seu forte era a versatilidade em combate, combinando qualidades de cavalaria e infantaria**.

Os Dragoneiros se multiplicaram durante a Guerra dos Trinta Anos e foram utilizados como forças de repressão nas rebeliões Huguenotes no século seguinte, a ponto de Dragão ter se tornado um verbo, à época, para definir a perseguição ou subjugação através de forças militares. Com o surgimento dos estados nacionais, os séculos XVII e XVIII viram sua incorporação oficial, nas cavalarias das forças armadas oficiais, por diferentes exércitos europeus.

Os Dragoneiros Franceses da era Napoleônica
fariam escola desse ponto em diante.

Dragoneiros de modo geral sempre usaram armas de fogo quanto espadas e acompanharam as mudanças nas guerras desses séculos, trocando com o tempo arcabuzes por carabinas e depois por fuzis, tomando forma de vez justamente no século dezoito com direito a elmos de inspiração romana na França (e lembram dos Dragões da Independência?). Mas se a mítica do Hussardo é a bravura e coragem e a do Lanceiro é a lealdade e devoção, qual seria a do Dragoneiro?

Bem, isso também leva a uma decisão de nomenclatura minha: em algumas línguas há a diferença linguística entre o dragão e o dragoneiro (dragon/dragoon em inglês, draak/draconder em holandês, drago/dragone em italiano, etc.) e, em outros países como Espanha ou Portugal, só existe militarmente o dragão. Mas o termo Dragoneiro existe***. Em um RPG, achei importante separar os significados e, resgatando o significado medieval dos dragões nos brasões…

Os Dragoneiros (na verdade, as cavalarias em geral) perderiam sua
relevância com a mecanização bélica da Primeira Guerra Mundial.

… o ativo simbólico do dragoneiro com certeza é resistência e vitória. E lembrando tanto do símbolo medieval como sua historicamente breve conversão em verbo, eles precisam desse espírito de luta — eles descem dos cavalos para se meter na muvuca de um combate a pé, afinal. Assim, tomei essa liberdade de tradução e batizei essa divisão em português, para fins do livro, como Dragoneiro… e não como Dragões. Dito isso, podemos voltar às tropas em si.

Assim como hussardos e lanceiros, eles não sobreviveriam à mecanização das guerras à partir de 1914. A maior parte dessas tropas ao redor do mundo passou a batizar divisões modernas de combate… mas certas coisas são difíceis de se largar: a Suíça só aboliu suas divisões de cavalaria no começo dos anos 70 e, mesmo como granadeiros hoje em dia, sua divisão de Dragoneiros ainda preserva o brasão e o grito de guerra “Por São Jorge, viva a cavalaria”!

O Dragoneiro em Brigada Ligeira Estelar bebe, sim, do conceito de
Venus Wars — motos blindadas para os operativos montados…

O Dragoneiro Espacial

Em Brigada Ligeira Estelar, se robôs hussardos são o gênero na sua forma mais tradicional (Gundam, Dragonar, etc.) e robôs lanceiros traçam a linha para um real robot mais cru e pé no chão (Votoms, Dougram, etc.), qual seria o papel do Dragoneiro — originalmente, uma ponte entre cavalaria e infantaria? Como largar um robô gigante no campo de batalha e lutar a pé é… idiota, eu me voltei, como dito lá atrás, para uma infantaria com motos blindadas.

Venus Wars foi uma inspiração imediata e eu realmente recomendo sua leitura**** — é uma ficção científica militar bem tradicional, sim, mas muito bem escrita e envolvente. Spiral Zone acabou vindo por tabela: operativos especiais com motos blindadas. Um exemplo mais acurado ainda do soldado a pé com seu veículo como locomoção. Tudo muito coerente com os conceitos por trás do cenário. Mas aprendi no tranco: coerência é bom… mas não é o suficiente.

…mas fora delas, poderiam ser operativos de infantaria
bem competentes. Spiral Zone aponta o elemento.

A debandada final dos jogadores quanto aos Dragoneiros veio com o advento dos Centauros de Aço. Inspirados em animes como Zillion e Mospeada*****, eles pilotavam veículos chamados de Estradeiros, com motos capazes de se converter em armaduras e capaz de anexar armas especiais. Sem perceber, eu havia dado o material necessário para o público ainda interessado nos Dragoneiros — o soldado montado e também a pé. Mas, diacho… eles testam armas, certo?

Assim, a partir do novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG, os Dragoneiros também vão passar a pilotar estradeiros. Quanto aos Centauros, não se preocupem: eles não perderão seu elemento especial (as Pistolas Ixion******) e pertencem a times reduzidos com maior escopo de ação, enquanto os Dragoneiros ainda se valerão de armas mais padronizadas… e isso não é ruim: eles fazem parte de uma tropa com funções simultâneas de infantaria e cavalaria mecanizada!

Esses dois elementos agora vão ser conciliados com a moto transformável em
armadura — a melhor conciliação entre o soldado montado que luta a pé.

Com isso eles podem atrair outro tipo de jogador: o interessado em personagens com armaduras de combate (Fuzileiros também as tem mas eles pertencem à infantaria e, avisamos, só falaremos desta muito no futuro). Eles tem sua importância: um robô hussardo não tem como perseguir um inimigo em nas escadas de um edifício ou caminhar pelas ruas sem o risco concreto de derrubar um prédio em combate (mas tudo bem, Dragoneiros ainda terão suas bazucas…).

Eles são muito talhados para combates urbanos — e o ativo simbólico de resistência e vitória é fundamental até para o seu psicológico. Em um cenário com robôs gigantes em campo, os Dragoneiros ainda tem uma boa chance de serem mortos por ameaças de escala maior… mas sua escala menor os torna versáteis e os números os tornam mortais. Isso de nada valeria sem o foco de sempre aguentar o tranco e cumprir suas missões até o fim. Sempre.

Até a próxima.

Apenas lembre: em um campo de batalha com máquinas de grande porte,
perdas serão inevitáveis. Dragoneiros
pedem por campanhas de fc militar.

* As tradições quanto à efetivação militar oficial dos Dragoneiros se dividem entre o condottière Pierre Strozzi (1510-1558) em 1543 e o militar Charles I de Cossé, Conde de Brissac (1505-1563), em 1450. Ambos receberam o título de Marechal da França (respectivamente, em 1552 e 1550).
** Essa duplicidade de funções os levou a carregar certas particularidades. As primeiras divisões de Dragoneiros eram organizadas como companhias militares (como na infantaria), não como tropas ou esquadrões. O tempo os encaixaria em definitivo na cavalaria, entretanto.
*** Do latim draco e do sufixo onis — ou seja, os sufixos dragão e eiro. Ele também batiza um mineral e é aceito como um nome alternativo para a planta Dragoeiro. Também batiza um gibi italiano de fantasia muito bacana (sai pela editora Mythos).
**** Venus Wars foi escrita e desenhada por Yoshikazu Yasuhiko — o character designer do Gundam original. Ele se revelaria um roteirista de mão cheia com o tempo. Em um planeta Vênus terraformado pelo choque de um cometa, os colonos humanos formaram duas grandes nações e… bom, a guerra entre os dois lados é inevitável. Um deles usa tanques de guerra gigantes e o outro, motos blindadas e armadas de grandes trabucos. Foi toda publicada nos Estados Unidos pela Dark Horse em revistas avulsas mas só encadernaram seu primeiro volume (e as duas partes da série foram publicadas como Venus Wars e Venus Wars II). Ainda guardo o meu. 😉 Ah, sim: o filme é muito bacana e merece ser visto, sim, mas adapta apenas a primeira parte da obra.
***** Genesis Climber Mospeada mais conhecido no ocidente como a terceira parte de Robotech. Permanece oficialmente inédita no Brasil embora tenha sido exibida por um breve período de tempo pela Netflix (novamente, via Robotech).
****** Ver Arquivos do Sabre, páginas 42-43.

NO TOPO: imagem de Venus Wars. Elas também estão em boa parte desse artigo.
DISCLAIMER: Venus Wars é propriedade de Yoshikazu Yasuhiko via Gakken / Shochiku / Bandai; Spiral Zone é propriedade da Hasbro, Inc.; Genesis Climber Mospeada é propriedade de Tatsunoko Production Co., Ltd. e Harmony Gold USA, Inc.; Todos os direitos reservados. Imagens para fins jornalísticos e/ou divulgacionais.

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