A Campanha de Ficção Científica Clássica

No novo BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG nós teremos várias possibilidades, dentro dos diferentes subgêneros da ficção científica, para sua campanha de robôs gigantes — e já falei delas como um todo neste artigo AQUI. Após falarmos da Space Opera, da FC Militar, do Faroeste Espacial e do Folhetim Espacial, nosso próximo passo é a Ficção Científica Clássica — talvez a mais difícil de se trabalhar em toda essa lista: aqui precisaremos lidar com CIÊNCIA!

Bem… mais ou menos. De modo geral, há uma divisão na ficção científica entre o Hard e o Soft. O Hard é baseado na lógica das ciências exatas e usa invenções ou descobertas (e seus usos e consequências) como força motriz, criando desenvolvimentos dramáticos delas. O Soft independe disso e inclui tanto as ficções científicas pulp, com suas pistolas de raios e batalhas espaciais, quanto as ficções científicas sociais, baseadas nas ciências humanas.*

Na verdade essa divisão pode ser restritiva — e sua aplicação, meio nebulosa — mas, se tomarmos os termos sob uma escala de “mais científico”, ou “mais livre”, há degraus de aplicação. É incrível notar que muito da Nova Space Opera, ao combinar elementos hard e aventurescos de forma livre, me parece já estar presente na animação japonesa de ficção científica dos anos 80The Expanse só precisa de robôs gigantes para tornar-se uma série Gundam!**

Um pequeno resumo (para anglófonos) das primeiras temporadas de The Expanse:
Exploração espacial, tensões políticas, colônias nos asteroides… familiar?

Na verdade, os bons animes de robôs gigantes operam sob um tripé: As batalhas entre robôs pilotáveis, o lado humano dos pilotos e a ficção científica permeando a história para explodir na cara de todos ao fim. A campanha Belonave Supernova (você pode encontrá-la AQUI e AQUI) foi pensada dessa forma — mas esse é um pensamento para campanhas longas. Em uma base mais episódica, o resultado tende a não ser diferente de um Jornada nas Estrelas, mesmo.

Muitas vezes a função para tais elementos é a de estabelecer pilares no cenário e Gunbuster talvez seja o melhor exemplo disso: dilatação temporal causada pela viagem acima da velocidade da luz e lasers realistas, chegando ao cúmulo de trazer mini-curtas explicando a ciência da série para os espectadores (Hoshi no Koe, de Makoto Shinkai, se vale do mesmo tema mas em função do drama romântico)***! Mas e se a ambientação tiver suas próprias regras?

Eu deveria ter postado um dos mini-curtas sobre a ciência de Gunbuster
mas vamos ser sinceros: ao ver essa série, queremos saber é DISSO!

No caso da ideia ser a de dar destaque ao aspecto da ficção científica nesse tripé temático, nosso primeiro passo é ter verossimilhança, não realismo — este é o possível na vida real. O verossímil parece realista dentro das regras do cenário: até mesmo a mais hard das ficções científicas parte de alguma ideia questionável. Então nunca tenha medo do absurdo aparente de um conceito qualquer, especialmente se ele puder gerar problemas aos jogadores.

Assim, precisamos basicamente de situações convincentes dentro da escala apresentada no cenário. Cabe aos personagens, encrencados até a medula, resolvê-los. O anime ID-Ø é uma referência boa nesse sentido: os personagens são mineradores espaciais e acabaram perseguidos por uma entidade planetária no rastro de uma de suas tripulantes (sem spoilers, pessoal) — um bom exemplo de como o elemento de ficção científica pode colaborar para uma aventura.

ID-Ø não é realmente uma obra-prima, mas é um excelente exemplo de anime
voltado à aventura, com conceitos consistentes de ficção científica — e robôs, claro.

Em um contexto episódico — mais útil para mestres de jogo em sessões únicas — o ideal é a “ameaça da semana”, talvez adicionando dilemas éticos a tais elementos. Imaginem uma bactéria espacial se revelando uma forma de vida baseada em silício e possuindo os robôs gigantes no hangar como “corpos”. A belonave está em perigo: é preciso tomar as máquinas para salvar a todos… mas fazê-lo seria exterminar uma nova forma de vida.**** Como escapar dessa?

É preciso pensar em um papel de solucionador: muitas vezes havia um papel de protagonismo dedicado a cientistas e engenheiros (e eles encampavam muitos dos arquétipos dos heróis de ação) — mas, bom lembrar, tudo foi ficando mais cerebral à medida em que o gênero amadurecia nas revistas de contos. Quando veio a televisão, aspectos pulps foram necessários para fazer o material relacionável com o público — e de novo, temos Jornada nas Estrelas…*****

Na verdade, Roddenberry sempre se ressentiu das concessões ao pulp em Jornada nas Estrelas.
O primeiro filme para o cinema talvez tenha sido a epítome da sua visão pessoal — MAS…

A literatura de ficção científica — especialmente contos — pode servir como fonte de ideias para uma aventura ou campanha (sempre se lembrem, caríssimos leitores: não existe polícia do copyright na mesa de jogo) mas não é preciso ficar apenas nela: publicações de divulgação científica como a Scientific American Brasil sempre podem oferecer conceitos interessantes para ameaças (imaginem, a partir DISSO, um esquadrão inimigo com mentes conectadas)!

Mas o fundamental é nunca deixar esses conceitos amarrarem a diversão da aventura. Nada impede a existência de uma história movimentada e com conflitos — e mesmo assim se preservar algum rigor científico. Se por algum motivo for importante saber como funciona o mecanismo antigravitacional de uma nave, que isso tenha aplicação prática na mesa de jogo: gravidade zero pode ser um obstáculo e tanto!

O importante é nunca ser chato. Nunca.

Até a próxima.

Só lembrando: as colônias orbitais de Gundam (os Cilindros de O’Neill) não foram
criadas para a série —
elas foram uma proposta científica séria feita nos anos 70!

* Algumas almas procuram limitar a FC apenas a “Hard é baseado em ciências exatas e Soft é baseado em ciências humanas”, como um modo de exilar a space opera da ficção científica. Prefiro ignorá-los.
** Colonização do sistema solar, disputas políticas entre a Terra e as ex-colônias… e as capacidades especiais geradas pelas Pílulas de Foco remetem e
muito aos Newtypes de Gundam.
*** O tema na verdade foi inspirado pelo clássico setentista da ficção científica
Guerra sem Fim, de Joe Haldeman (publicado no Brasil pela Editora Aleph) e influenciado pelas experiências do autor na Guerra do Vietnã.
**** A partir daí temos duas possibilidades: a do capitão e da equipe buscarem uma solução que permita a todos se salvarem… ou dessa “vida” tornar-se um monstro a ser enfrentado.

***** Quando o piloto original, The Cage, foi rejeitado por ser “cerebral demais”, várias circunstâncias levaram à troca de elenco. Optou-se por um capitão remetente aos valentes personagens de faroeste herdados da Space Opera… o Kirk que conhecemos.

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