Por Trás do Sabre: Albach

Eu andei protelando qualquer comentário sobre Albach por conta da vindoura trilogia de romances (caso vocês não lembrem, anunciei publicamente AQUI o mundo no qual a história aconteceria). Quis evitar possíveis spoilers em potencial… mas, agora, essa preocupação não tem mais sentido. Isso ocorreu por um motivo simples: ele jamais partiu de uma ideia específica. Era mais um planeta, um nome, uma ideia crua e algo a ser explicado melhor mais tarde.

A única ideia em minha cabeça era um mundo de gigantismos remetentes à velha ficção científica das eras Pulp e de Ouro* — e seu eterno aprisionamento cultural a um passado glorioso mas sem retorno. Mas nunca foi pensado sobre o que ele foi. Seu papel só foi definido graças a um detalhe originalmente não planejado, mas transformador, quando foi percebido após a cronologia ter sido escrita: os Nove do Sabre pararam para negociar quando Albach caiu.

De repente tudo ficou claro. Eles foram a grande autoridade colonial do Sabre um dia. Isso preencheu várias lacunas: ocuparam Gessler no passado e o nome deste mundo veio deles (falaremos melhor disso no futuro). Foram os responsáveis pelo trauma colonial de Ottokar no passado. Vários planetas agiam a seu serviço, orbitando sobre sua esfera de influência. E quando Albach caiu, após uma longa decadência, seu senso de superioridade foi esmigalhado.

Houve um tempo no qual nossos sonhos de futuro foram gigantes.
O que aconteceu com o futuro? O que aconteceu com esses sonhos?

Referências Iniciais

Esse não é um conceito comum e a animação japonesa não ajuda tanto, mas podemos encontrar correspondências. Isso nos leva de volta à Lenda dos Heróis Galácticos e Tytania, ambos baseados nos romances de ficção científica de Yoshiki Tanaka. Os dois, especialmente o último, falam de impérios decadentes — mas, no final, a transformação pode ser radical porém renovadora. Este último aspecto é bem comum na animação e nos quadrinhos japoneses**, aliás.

As questões ligadas à derrota de Albach podem ser traçadas em qualquer momento no qual um império é posto de joelhos merecidamente, do pós-Vietnã, nos Estados Unidos, à derrota dos Japoneses na Segunda Guerra Mundial. Obviamente isso tende a ser mencionado em mangás mais adultos, com exceções, mas em termos de ficção científica isso costuma ser digerido no ponto de vista dos vilões — e faz sentido. São culpas sendo postas na mesa via alegoria***.

Capitão Harlock e a Nave Arcádia (Waga Seishun no Arcadia) é um reflexo
melancólico da derrota e ocupação japonesas pelos Estados Unidos.

Na verdade, a animação de ficção científica japonesa amadureceu através da alegoria. Ideon e Baldios lidavam com nossa natureza autodestrutiva, Capitão Harlock (na fase Arcadia/SSX) refletia traumas da ocupação estadunidense pós-II Guerra… e são obras amargas, concebidas sob o sombrio zeitgeist dos anos 70 para os 80.**** Após a viagem dos anos 60, e o naufrágio de seus sonhos coletivos, essa amargura cultural foi uma colher necessária de xarope…

Mas em algum momento esse peixe ficou bem complicado de vender — e na verdade, nunca foi tão simples. Porém, os japoneses tendem a lidar melhor com esses temas mais difíceis e vimos muita exploração disso nos OVAs dos anos 80 (e começo dos 90), voltados a um público mais adulto — ou quando os animes ganharam o horário da madrugada,***** permitindo obras mais maduras em uma grade televisiva. Albach pode refletir abordagens assim em suas campanhas…

Obras como Ideon e Baldios, com um escopo maior, não parecem referências
óbvias — mas eles refletiam um zeitgeist desesperançoso da época.

Albach em Jogo

…e isso não significa ausência de ação. Ela apenas costuma evoluir em consequência desses fatores mais sóbrios. São elementos até presentes nos demais mundos, mas algo sublimados por conta de seu aspecto mais aventuresco (e está certo assim! Intriga é interessante, mas ninguém quer jogar em um cenário de robôs gigantes para ficar se esgueirando em corredores — explodir coisas é parte da diversão). Aqui, porém, não dá para ignorar esses contextos.

Contraterrorismo: com a mídia jogando sal nas feridas da unificação e a nostalgia da “Albach grande”, temos um terreno fértil para milícias fascistas…

Ficção Científica Tradicional: os elementos de super-ciência neste mundo também servem de gancho para essa abordagem. Talvez sejam até mais adequados.

Folhetim Espacial: uma opção meio óbvia. Nobres querem ascender com diferentes discursos, um passando por cima do outro… e de quem estiver no caminho.

Tytania é um exemplo claro de política em um cenário sci-fi
e de como essas conspirações costumam dar errado…

Lei e Crime: este é um mundo cujo status já desceu de vez, seu povo recusa-se a notar isso… e para o crime organizado, é um bom terreno a ser marcado.

Space Opera: Albach foi gigante e sua super-ciência ainda está à vista como os restos de um passado maior. Sempre há quem queira trazer isso de volta…

Technothriller Político: altas tecnologias, espionagem, política, ação e paranóia, envolvendo os protagonistas em encrencas até o pescoço. É perfeito.

Precisamos dizer os rumos mais óbvios para quaisquer ameaças vindas deste mundo? São “vamos fazer Albach grande de novo” e “esse era um item/projeto/crime ocultado e sua descoberta/revelação trará consequências nefastas”. Isso vai fatalmente cavucar feridas do passado. Por outro lado uma atitude mais heróica buscaria exorcizar as culpas pelo passado de Albach ou re-significá-las por um viés supostamente positivo, para o bem — ou para o mal.******

Por outro lado, os personagens do universo de Capitão Harlock não baixam a cabeça.
Eles querem seguir em frente. É o lado positivo de uma situação como esta.*******

Aqui preciso falar do futuro livro. Como originalmente a trilogia foi pensada como um romance só (e ele acabou dividido em três partes), ele vai em um crescendo de escopo, envolvendo inicialmente uma cidade siderúrgica nos moldes de uma Volta Redonda futurista********, depois os rumos de um planeta e no final justificará melhor o “Estelar” do título. Terá combates de robôs e duelos de espada, mas não se iludam: será um livro pesadamente político.

Com essas referências em espírito, segue-se o tom de animes desconstrutivos mas não exatamente os seus temas. Desconfio ser esta a razão dele ser o mundo menos popular do cenário: alegorias sobre pós-colonialismo, falso orgulho pátrio — e, principalmente, derrota — são ingredientes amargos. Por isso, fazer de Albach o palco do primeiro romance de Brigada foi importante: era preciso mostrar o potencial dramático deste mundo. Veremos.

Até a próxima.

E lembrem-se sempre, pessoal: não se esqueçam dos robôs gigantes.

* Respectivamente, as ficções científicas dos anos 20 e 30, desvairadas, imaginativas e reminiscentes do faroeste e do capa-e-espada, com heróis aventureiros; e dos anos 40 e 50, com foco em ficção científica hard, narrativas lineares e heróis solucionadores. Foram os grandes esteios da space opera clássica.
** É um tema até recorrente: a solução para a intrusão não vem de combater e eliminar o inimigo, mas de conciliar-se com ele no final, mesmo alterando radicalmente nosso modo de vida em consequência. É presente em vários gêneros: vemos isso em Lady Devilman de Go Nagai, Parasyte de Hitoshi Iwaaki — e, para nos mantermos no território dos robôs gigantes, no Macross clássico: os humanos passam a viver pacificamente, lado a lado, com os Zentradis no final. Isso exige perdoá-los pela destruição de boa parte da humanidade.
*** Capitão Harlock é o caso mais emblemático, mas Gundam faz isso ao mostrar a federação como um lado não tão santo da questão (apesar de Zion ser pior — sua iconografia é claramente nazista, o grande vilão Gihren Zabi é comparado a Hitler em determinado momento e os robôs zakus, nos estudos originais, eram mais visivelmente nazificados). Em Zeta Gundam, a federação (via Titãs) claramente se torna uma vilã tão ruim quanto. O criador de Gundam, Yoshiyuki Tomino, cresceu no pós-guerra e diferentemente de Leiji Matsumoto (Patrulha Estelar, Capitão Harlock), tinha uma visão bem mais crítica quanto ao caminho tomado por seu país na Segunda Grande Guerra — visão partilhada por vários outros autores de sua geração.
**** É só observar a ficção científica do período, mesmo no ocidente: obras como A Odisseia da Metamorfose, de Jim Starlin, e filmes como Dark Star e Alien, o Passageiro, já sinalizavam essa desesperança quanto a nós mesmos independente de chegarmos ou não às estrelas. Os Estados Unidos amargavam a surra tomada no Vietnã, mas no Japão, havia um claro senso de derrota pelo esmagamento dos movimentos estudantis no início da década.
***** Rahxephon foi enterrado no horário caveira-de-burro das quatro ou cinco da manhã, mas várias pessoas que trabalhavam longe passaram a assisti-lo enquanto se arrumavam para trabalhar. Isso gerou um boca-a-boca positivo e se estabeleceu um padrão: séries da madrugada podem ter traço de audiência, mas os interessados gravam-na enquanto dormem e a assistem, trazendo retorno em produtos de merchandising derivados.
****** Patrulha Estelar é um exemplo emblemático disso. Há um artigo acadêmico muito bom sobre esse papel terapêutico representado pela obra para a psique popular japonesa. Por outro lado, isso pode implicar em uma simbólica passada de pano sobre os crimes da Segunda Grande Guerra, via discurso nacionalista — e sobre isso tem outro artigo aqui (não me entendam mal: amo essa série e esses personagens, mas também não podemos ignorar o discurso velado).
******* Novamente, sem esquecer a visão crítica e deixar de lembrar que, embora os Estados Unidos estejam longe de ser santos bonzinhos, os Japoneses eram claramente os vilões da história ali. Tanto é que um trend relativamente comum de história alternativa nos animes e mangás são japoneses contra nazistas, de alguma forma: no ótimo Kishin Corps, por exemplo, a humanidade é obrigada a se juntar ao Eixo com a chegada de invasores alienígenas… e de repente, os aliados nazistas se tornam um problema ao tentarem obter os segredos tecnológicos japoneses. Em Jin-Roh, os Estados Unidos não entraram na guerra, os japoneses se juntaram aos aliados e acabaram conquistados. Por outro lado, há muita leniência nos animes com a iconografia nazista…
******** Antes da entregarem a CSN a troco de bala, é claro.

DISCLAIMER: Capitão Harlock e a Nave Arcádia e Queen Emeraldas são propriedades de Leiji Matsumoto e Toei Animation; Space Runaway Ideon e Turn A Gundam são propriedades de Sunrise, Inc.; Tytania é propriedade de Yoshiki Tanaka via Artland, Inc.; Imagens para fins divulgacionais.

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