O Primeiro Episódio

Algo fundamental em uma campanha de RPG é garantir a fidelidade e o interesse dos jogadores logo de cara — especialmente se o mestre quiser uma campanha longa. Eu considero os três primeiros episódios essenciais nesse processo: se todos os jogadores não forem engajados neste ponto, perca as esperanças: o grupo vai se dissipar. E como eles merecem um pouco mais de atenção, achei interessante fazer uma pequena série de artigos dedicada a este tema.

Brigada Ligeira Estelar, como qualquer RPG sem ligação com espada e magia, depende um pouco mais disso: é preciso apresentar melhor não exatamente o cenário, mas o… tipo de cenário com o qual todos estarão lidando. Já falamos bastante do uso de referências para situar o espectador, então não quero mencionar de novo o tema aqui (salvo para dizer: assistir alguns animes antes de montar personagens é válido — mas escolha bem!). Qual o próximo passo?

Você precisa formar seu time.

Eu recomendo um modelo fixo nesse sentido porque de resto, o ângulo da campanha e o tom escolhido vão determinar as diferenças. Você estabelece uma missão principal, cria um momento em separado para cada personagem se apresentar e mostrar qual é a dele, reúne a todos, introduz a missão e, em seguida, coloca todos em combate. É um modelo bem-sucedido e vou usar como exemplo não um anime, mas três gibis de super-heróis.

Quarteto Fantástico nº1, por Jack Kirby. E não
torça o nariz: isso vai ser muito útil!

O primeiro marca o início da Era Marvel nos quadrinhos: Quarteto Fantástico nº1, de 1963 (e sim, teremos alguns spoilers mas se você não conhece essa história…). A primeira edição se inicia com um sujeito misterioso pronto para emitir um sinal visível de toda a cidade, com a forma de um número 4. Então três pessoas, ao verem o sinal, qualquer atividade do momento… na frente de todos, exibindo seus poderes. Aí nós temos um flashback de sua origem.

Vemos toda a história do seu acidente, de como os quatro membros do quarteto ganharam seus poderes e, em seguida, voltamos ao presente, com seu líder — Reed Richards, o Senhor Fantástico — apresentando aos colegas sua primeira missão: uma viagem à Ilha Monstro, aonde temos uma ameaça misteriosa, permitindo ao grupo enfrentar monstros gigantes e seu primeiro grande super-vilão, o Toupeira. Reparem no padrão estrutural: indivíduos, junção e missão.

Giant Size X-Men nº1, por Dave Cockrum:
A fórmula foi reciclada com sucesso!

O modelo funciona por trazer vislumbres das personalidades e capacidades de cada um — sendo seguro o suficiente para servir de base quando a Marvel relançou uma das crias menos populares da dupla Stan Lee e Jack Kirby: os X-Men. Mesma fórmula: introduzimos os personagens individualmente, sendo recrutados pelo Professor Xavier ao redor do mundo, e cada um tem uma cena expondo seus poderes e suas personalidades. Todos são reunidos na base do grupo.

… surge o único membro remanescente da antiga formação, o Ciclope, explicando sua missão: os antigos X-Men foram investigar uma ilha com atividade mutante e lá enfrentaram um monstro gigante. Ciclope foi o único a escapar enquanto os demais são aprisionados. A semelhança com a primeira história do quarteto foi deliberada* — mas nem notamos: o monstro não é o mesmo e o meio do caminho é diferente (o fator dos reféns e a forma de vencer o monstro).

All New Teen Titans nº1, por George Pérez:
A concorrência pegando as manhas.

Os novos X-Men foram bem-recebidos, tornaram-se pouco a pouco o título nº1 do mercado estadunidense e a principal concorrente da Marvel, a DC Comics, encomendou a sua equipe um título similar para rivalizar com os mutantes. Marv Wolfman, escritor e ex-editor-chefe da Marvel, estava na editora nessa época e conhecia o caminho das pedras: uma mulher misteriosa com dons de teleporte convoca jovens superseres, um a um — e nascem assim os Novos Titãs.

Novamente, foi deliberado: eles estudaram o concorrente e seguiram sua rota. A diferença é justamente o monstro — no caso é invasão alienígena. Mas Wolfman, talvez se dando conta de como um “chefe final de fase” fazia falta para a edição, planta sinais de uma mega-ameaça para o futuro, justificando a reunião do grupo, e ainda dá um gancho para o surgimento de um vilão nos próximos números. Novamente, deu certo… e a DC tinha seus próprios “X-Men”.

Por que apelar para super-heróis? Porque em animes
os personagens encontram pessoas uma a uma…

A fórmula foi reprisada várias vezes com bons resultados nas duas editoras** — aí depende do material posterior para manter o leitor engajado. Mas não é tão costumeira nos animes, de robô gigante ou não. Isso acontece por causa de uma dicotomia com a qual precisamos lidar: a ficção pop japonesa, em geral, foca no indivíduo mesmo quando ele faz parte de um grupo. Os Cavaleiros do Zodíaco até formam um time mas era Seiya o personagem-título ali.***

Nos animes de real robot, até temos grupos — mas eles tendem a se formar vagarosamente, em torno do personagem central e de acordo com as circunstâncias****. Há quem quebre esse molde, como Majestic Prince e Gundam 00 (em termos*****), mas em geral a norma é acompanhar a trajetória de um protagonista específico, mesmo quando há trabalho de equipe envolvido. E em um entretenimento coletivo como o RPG, preciosismo quanto a isso não é uma boa ideia.

…e montam o time pelo caminho. É divertido,
mas infelizmente isso não funciona em RPG.

Daí eu ter apelado para os quadrinhos de super-heróis… mas isso é questão de estrutura narrativa. Precisamos pensar agora no conteúdo e é esse o ponto no qual o modelo brilha: ele depende justamente do contexto e por isso histórias tão similares podem parecer diferentes em um momento inicial. Vamos imaginar três perfis de grupo de jogo para Brigada Ligeira Estelar e ver como isso pode ser usado na sua mesa, independentemente dos temas envolvidos.

Um artigo cuja leitura recomendo em particular, antes disso, é ESTE: um dos mais antigos no site, ele estabelece de forma rápida qual tom de campanha é mais adequado para os gostos de seu grupo. Se ele preferir algo no tom de um Gundam 00, uma ficção científica militar focada em contraterrorismo pode servir. Se eles forem fãs de, digamos, Code Geass, um folhetim espacial pode ser mais indicado. Não importa — essa estrutura se presta a todos eles.

GRUPO 1: uma campanha de space opera bem tradicional, com os elementos de capa-e-espada e super-ciência tradicionais do gênero. Jogadores com um perfil mais casual, ainda verdes no cenário.

Os personagens são bem diferentes (um piloto da Brigada, um nobre espadachim, um cavaleiro regencial, uma cortesã, um animal de companhia sem mestre). O mestre precisa encontrar uma utilidade para todos na primeira missão… e dar a cada um seu momento de brilho.

Episódio 1: os protagonistas são convocados por um agente da inteligência imperial, um a um. Eles são reunidos e tem sua missão apresentada: se infiltrar em um asteroide pertencente a um nobre famoso por suas festas e ele, na verdade é um dos financiadores da TIAMAT. Uma super-arma está sendo construída por lá e após muita infiltração, eles descobrem que ela está sendo montada sobre os restos de um leviatã semi-destruído. Mas ele vai despertar e…

GRUPO 2: uma campanha de Ficção Científica Militar, ambientada na frente proscrita. Os jogadores serão membros da Brigada Ligeira Estelar ou dos corpos de voluntários.

A tendência é a maioria dos personagens pertencer à Brigada, embora sempre hajam aqueles pertencentes aos grupos voluntários — podendo ser nobres espadachins, aventureiros com um robô irregular ou qualquer outra figura capaz de pilotar e se juntar às forças de defesa da Constelação.

Episódio 1: os protagonistas são escolhidos, um a um, para montar um time específico: os Proscritos parecem estar criando, estranhamente, um portal em solo planetário — ou seja, por motivos científicos pouco importantes aqui******, eles estão partindo de uma área planetária desconhecida para os personagens. Cabe ao time entrar no portal, deixar um sinal captável em algum lugar e em seguida voltar correndo. Mas eles encontram algo a ser destruído!

GRUPO 3: uma campanha de New Space Opera com elementos Cyberpunk, protagonizada por personagens à margem: piratas espaciais, mercenários livres, caçadores de tesouros…

Os personagens terão mais liberdade. Tipos mais fora-da-lei são recomendados — mas uma boa história pode justificar qualquer presença. Um oficial da brigada pode estar infiltrado no grupo por algum motivo, um nobre pode ter sido destitulado injustamente e se junta e eles… quem sabe?

Episódio 1: um grupo de foras-da-lei é contratado, um a um, para efetuar um roubo no planeta Tarso, sendo reunidos em uma nave. Mas foram contratados justamente por serem inexperientes: o plano de seu contratante depende de tudo dar errado, fazendo deles bodes expiatórios. Obviamente eles vão querer acertar as contas com o sujeito mas ele tem costas quentes — e uma grande belonave. Que tal tomar o item roubado e explodir a nave com o cara dentro?

O importante no final das contas é reunir seu time
e dar a eles um pouco de carne para moer.

Com isso, muita coisa pode ser construída ao redor da estrutura 1) um a um o grupo é convocado, 2) o grupo é reunido, 3) ele é apresentado à sua missão e 4) vai precisar enfrentar uma ameaça maior. De quebra, você oferece um episódio auto-conclusivo, aonde os personagens terão uma ideia prática do tom do jogo — e do tipo de aventura a ser encontrado nas próximas sessões. Fazendo tudo direito, eles sairão plenamente satisfeitos. É um ótimo começo…

…mas não termina aí! Nossa missão, na sessão seguinte, será a de manter os jogadores engajados e definir um status quo sólido para os personagens (melhor dizendo, para o time recém-formado) após os eventos do primeiro capítulo. Depois de um início divertido e empolgante, vocês não querem realmente deixar sua mesa perder o fôlego, querem? Não percam: na próxima semana, falaremos sobre o segundo episódio de sua campanha!

Até a próxima e divirtam-se!

Furo meu: esqueci de mencionar as séries da transição entre o
real robot e o super robot*******. Na próxima corrijo isso.

* De acordo com Sean Howe em seu Marvel Comics: a História Secreta.
** Como na primeira edição dos Novos Guerreiros, na Marvel, ou na minissérie Lendas, da DC — cujas últimas duas edições seguiram parcialmente essa estrutura para apresentar a sua nova encarnação da Liga da Justiça.
*** É bom lembrar: o título original da série era Saint Seiya.
**** O melhor paralelo vem dos mangás Shōnen (e de alguns Shōjo, como Sailor Moon) aonde o protagonista faz amigos e companheiros de jornada, um de cada vez — e reunidos paulatinamente, eles acabam formando uma equipe. Essa não é uma estrutura tão comum no Real Robot.
***** Gundam 00 já nos traz um time pronto mas não se furta a dedicar o primeiro capítulo ao Gundam Exia do protagonista Setsuna — para demarcar o território do protagonismo.
****** Momento sci-fi hard do cenário: em resumo, se os proscritos invadissem um mundo abrindo um portal com a atmosfera em uma ponta e o vácuo espacial na outra, causariam uma destruição imensa dos quais eles não escapariam. Logo, eles saltam sempre do vácuo para o vácuo. Para executar um salto em ambiente planetário, precisam ter um ambiente planetário, com gravidade e atmosfera, no outro extremo de seu portal.
******* Séries como a trilogia J9 (Braiger, Baxinger e Sasuraiger), Akū Daisakusen Srungle e Sei Juushi Bismark (conhecida no ocidente pela versão localizada Saber Rider) costumam reunir seu grupo sem perder tempo. Mas eles sempre estabelecem um ponto de vista para um protagonista, apenas concentrando no mesmo episódio o processo de juntar todos um a um. Mesmo assim, não vamos esquecer deles no próximo artigo.

NO TOPO: Title Card de G no Reconguista. Eu adoro title cards, sinto falta quando os animes apenas põem uma legenda besta na animação para usá-lo como título.
DISCLAIMER: Quarteto Fantástico e X-Men pertencem à Marvel Entertainment; Novos Titãs pertence à DC Comics; Mobile Fighter G Gundam e Gundam: G no Reconguista pertencem à Sunrise, Inc.; Legend of the Galactic Heroes é propriedade intelectual de Yoshiki Tanaka, (atualmente) via Production I.G., Inc., Family Gekijo, Tokyo MX, MBS e BS11; Tenchi Muyo pertence à Anime International Company Co., Ltd. e Toei Company, Ltd.; Ginga Kikoutai Majestic Prince pertence à SOTSU・Fields/ MJP Project; Sei Juushi Bismark pertence à Pierrot Co., Ltd. Todos os personagens pertencem a seus respectivos proprietários intelectuais. Imagens para fins divulgacionais e jornalísticos, sem infração de direitos autorais.

6 comentários

  1. achei curioso que um povo cuja ênfase no grupo seja tão forte faça histórias com destaque no indivíduo.

    no mais, bom texto, com didática e sementes de idéias, como sempre 🙂

    (e cade o povo que tava comentando aqui semana passada? :P)

    1. Supernova se valia de um artifício comum dos animes do Tomino: temos um ataque, o protagonista entra em um robô gigante e depois se refugia com civis que entram às pressas em uma nave. Até funciona, mas isso não forma necessariamente um time.

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