O Segundo Episódio

Este é o segundo artigo em uma série dedicada aos três primeiros episódios em uma campanha de Brigada Ligeira Estelar. O primeiro pode ser lido AQUI. Depois de reunir o grupo e lhes dar uma missão para forjá-lo como uma equipe, o próximo passo é estabelecer seu status quo. Aqui entramos em um terreno mais convencional nos animes de robô gigante, especialmente durante a transição entre o Super Robot e o Real Robot. Me esqueci deles semana passada.

Porque eles são importantes? Porque eles costumam trabalhar (um pouco) melhor com equipes e cometi o deslize de esquecer seus primeiros episódios, apelando para gibis de super-heróis. Mesmo assim, olhando friamente, eles ainda apelam para um personagem central e juntam o grupo sob sua ótica. Relevável… mas, em RPG, ainda acho a estrutura de convocar um a um mais eficiente. Dito isso, fica a pergunta: o que nós entendemos como status quo por aqui?

No primeiro episódio não havia um time: mostramos como ele foi formado. Agora é a hora de definir o papel do time… mas é preciso estabelecer um sabor de novidade: eles devem ser apresentados à sua nova base de operações (uma estação espacial, uma base militar, uma grande belonave, qualquer coisa assim), conhecer seus novos brinquedinhos, talvez encontrar seus futuros coadjuvantes e, logo em seguida, efetuar uma primeira missão em caráter oficial.

Muito bem, nós temos um time. E agora?
(Esquadrão Trunfo. Arte por
Eudetenis).

Vamos usar três animes como exemplo. O primeiro será o mais antigo: a série de super-robôs Combattler V — a primeira da clássica Trilogia do Romance dos Robôs de Tadao Nagahama*. Curiosamente, seu primeiro episódio é um raro exemplar mais próximo do modelo apresentado no artigo anterior. Mas o segundo é quem nos interessa agora: primeiro, após apresentar a nova ameaça plantada pelos vilões, temos uma apresentação das máquinas aos figurões da ONU.

Essa apresentação é fundamental, porque aqui são descritas as máquinas e suas funções — e, dessa forma, as explicamos para os espectadores (e aos jogadores, se esta fosse uma segunda sessão). Aqui os pilotos revelam descoordenação e conflitos entre si. O roteiro resolve isso ferindo o professor (figura paterna geral) para garantir um elo emocional entre eles. Em seguida, a ameaça só poderá ser resolvida pela combinação de habilidades individuais.

Combattler V, o primeiro anime da trilogia de Nagahama.
Sem esses super-robôs, o real robot não seria o mesmo.

Com isso, estabelecemos o status quo dos personagens (eles respondem à ONU), tivemos drama para manter os espectadores/jogadores ligados e ainda se deu um laço emocional para unir o grupo. É claro, contextos diferentes pedem soluções diferentes, mas as necessidades básicas são as mesmas. E isso nos leva à primeira série da trilogia J9**, Galaxy Cyclone Braiger. Eles são “vigilantes de aluguel”, bem diferentes dos heróicos pilotos de Combattler V…

Já reunidos no primeiro episódio, abrimos o segundo com uma apresentação do cinturão de asteroides — e a base do grupo se oculta em um deles. Gangues de motoqueiros espaciais arregaçam uma colônia espacial em outro asteroide e um policial é morto. A irmã do policial quer vingança e contrata o time. De repente, um conflito moral: um protagonista encontra a irmã de um bandido morto por ele no passado e empatiza com os sentimentos dela. Tá, e agora?

Braiger é a primeira série da trilogia J9, emblemática
da transição entre o
super robot e o real robot.

Eles ainda precisam exterminar a gangue, mas depois ele resolverá o problema apresentando a moça à sua cliente, apaziguando um pouco essa fúria. Assim, apresentamos o status quo do grupo em sua base e tivemos um elemento melodramático chamando a atenção — isso em meio a um episódio com muita ação. É claro, o melodrama ajuda… mas nem sempre é necessário tanto para entrosar um time. E isso nos leva ao segundo episódio da série Seijuushi Bismark***.

O time foi reunido quase por acaso no episódio anterior. Aqui eles são avisados de um ataque a uma usina de plasma pelos invasores e partem em sua enorme nave/base. Aqui, temos “explicações técnicas” durante a viagem para apresentar os brinquedinhos aos espectadores****. Eles chegam à cidade próxima à usina e a encontram devastada, tomada pelos inimigos. O reator principal foi tomado e, agora, alimenta uma base inimiga a ser reconquistada. Porém…

Seijuushi Bismark (vulgo Saber Rider no ocidente):
Outro exemplar desse período de transição.

…o elemento humano a costurar essa história (novamente, com muita ação) é uma discussão meio… ridícula sobre adotar um lagarto do deserto como mascote. Mas o “fica ou não fica” traz discussões entre o grupo e isso leva a alguma integração entre eles. É claro, não podemos contar sempre com uma atitude espontânea dos jogadores como esta. Mas isso nos faz entender um pouco melhor a função do segundo episódio após o time ter sido reunido no primeiro:

Definir o Papel do Time: qual será a função aqui? Um esquadrão militar de guerra? Um time de elite para missões secretas? Tripulantes de uma belonave?

Apresente seus recursos: hora deles conhecerem seu novo lar (ou base de operações). É o momento para ser descritivo e apresentar futuros coadjuvantes.

Primeira Missão Oficial: é preciso reforçar a natureza da ameaça. Sua primeira missão será mais conclusiva mas dará o tom do inimigo a ser enfrentado.

E lembre-se: queremos ver robôs gigantes
detonando outros robôs gigantes!

Defina o Tipo de Campanha: Qual tom os jogadores devem esperar em suas futuras aventuras? Árido? Aventuresco? Folhetinesco? Hora de deixar isso claro!

Entrosar o Grupo: todos estão em um time… mas ainda não são um time. Crie ganchos dramáticos capazes de fazê-los trabalhar juntos por vontade própria.

Muita, MUITA Ação: aqui não é lugar para se plantar tramas futuras ou desenvolvimentos futuros de personagem — ponha foco em aventura e cenas de ação!

Vamos voltar aos três exemplos mencionados no artigo anterior (cantei a bola para eles já neste artigo, ao mencionar o papel do time. Primeiro, a campanha de space opera. Um time para missões de elite, quanto mais secretas melhor? Bom, eles poderão ser levados à sua nova base (talvez uma estação espacial), apresentados à sua equipe… uma boa referência inclusive é o segundo episódio do velho super sentai Changeman: cada membro comanda uma divisão!

Digno de nota: em geral, séries tokusatsu
lidam melhor com dinâmicas de grupo.

O mesmo vale para a campanha de ficção científica militar: os personagens podem ser mais um time dentro de um esquadrão maior, mas este é seu time. O próprio Changeman canta essa bola ao introduzir os Senshidan — um grupo formado pelos soldados não-escolhidos, no final, pelas misteriosas forças míticas responsáveis pelos poderes dos protagonistas. No entanto, esses soldados treinaram duro para isso e põem sua vida em risco… mesmo sem ter poderes.

A campanha dos fora-da-lei por outro lado tem sua vantagem por ser mais proativa: os personagens jogadores tendem a estabelecer seus próximos passos e alvos. Eles se vingaram do sujeito responsável por fazer deles um alvo para a lei? E se, pior ainda, eles não forem um alvo para a lei mas para uma mega-organização criminal? O jeito é destruí-la antes deles fazerem de nosso time um exemplo. E ir tomando seus bens e dinheiro no processo, quem sabe…

Space Adventure Cobra: ótima referência para foras-
da-lei e organizações criminosas no espaço.

Essa premissa daria um alvo aos protagonistas e criaria uma linha mestra para a campanha, remetendo ao anime Aku Daisakusen Srungle***** e ao clássico setentista Space Adventure Cobra******, aliás… mas deixe os jogadores decidirem seus próximos passos. Talvez a questão do primeiro episódio termine lá mesmo e os personagens decidam seguir seu próprio rumo como foras-da-lei. Só estabeleça, sem falta, uma base (talvez a própria nave) e coadjuvantes.

Com isso, os personagens tiveram uma promessa de futuro e os jogadores tiveram diversão. Resta fazer uma promessa de futuro aos jogadores também — dar a eles ótimos motivos para eles seguirem adiante em sua campanha (especialmente se ela prometer ser longa) após essas três primeiras sessões de jogo. Por isso, em nossa próxima semana, nós vamos concluir essa série de artigos falando sobre o Terceiro Episódio. Não ousem perder!

Até lá e divirtam-se!

* Já falamos várias vezes da Trilogia do Romance dos Robôs, mas não custa: composta das séries Combattler V, Voltes V e Tosho Daimos, essa trinca — criada pelo diretor Tadao Nagahama — amadureceu o gênero dos robôs gigantes, ainda na fase dos super-robôs (antes tratados de forma muito infantil de modo geral), e muitos de seus conceitos narrativos acabaram sendo incorporados pelo vindouro Real Robot. Para começar, eles romperam com o conceito do vilão imbecil e não saem sem sequelas da história. Em Voltes V, romperiam com o maniqueísmo e inseririam elementos novelescos na trama de fundo. Em Tosho Daimos, abriram as portas para o romance — embora na época o resultado não tenha sido dos melhores. Tudo isso seria importante mais tarde.
** Trilogia composta pelo citado Braiger, por Galactic Gale Baxinger e Galactic Whirlwind Sasuraiger — e os mais bem-sucedidos (no Japão) durante o período de transição entre as duas principais vertentes do gênero robô gigante. Eram séries de super robô, mas com maior seriedade na ficção científica, ênfase em times de personagens e uso mais constante de equipamentos menores pela maior parte do tempo (como veículos combináveis ou armaduras). Falamos disso AQUI.
*** Conhecida no ocidente como Saber Rider and the Star Sheriffs. Não tente comparar nosso artigo com a versão estadunidense da série: eles mudaram a ordem dos episódios e capítulos novos foram escritos por lá (e animados no Japão) para alterar o lore da série. O pior: inacreditavelmente, não ficou tão ruim. Mas isso é o difícil dentro do raro, acreditem.
**** Como se essas séries não fossem feitas para vender isso mesmo…
***** Passou no Brasil como Esquadrão do Espaço e pouca gente lembra.
****** Obra marcante da Shonen Jump setentista (1978), acompanha um pirata espacial na lista negra de uma guilda pirata. A Funimation o tem em sua grade como Space Cobra. Aproveitem enquanto não tiram essa série de lá.

NO TOPO: Title Card do segundo episódio de Overman King Gainer. É uma série legal.
DISCLAIMER: Tirante o Esquadrão Trunfo (do universo de Brigada Ligeira Estelar), todos os personagens e séries descritas pertencem aos seus respectivos proprietários intelectuas e estão aqui em caráter meramente jornalístico e divulgacional.

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