Vilões e Ameaças – 15/07/2021

Brigada Ligeira Estelar é um cenário de RPG inspirado na ficção científica animada japonesa e ela tem décadas de tropos a oferecer em termos de vilões e ameaças. E isso, para mestres de jogo, é ótimo. A ideia aqui é sistematizá-los para maior comodidade nas suas campanhas. Alguns, como o Ás Mascarado, já foram razoavelmente dissecados nos dois volumes de Belonave Supernova e em alguns artigos deste blog (como ESTE). Então não os esperem por aqui.

Entretanto, opção não falta! Já tivemos um artigo inicial apresentando três tipos de vilão ou ameaça, mais exemplos encontrados em outras mídias e formas de se incluí-los em campanhas de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG. Como ele foi bem recebido pelos nossos leitores, estamos de volta e voltaremos quando tivermos novamente temas a disposição, com exemplos não-examinados ainda. Contudo, não garantimos a regularidade… justamente para evitar repetições.

Aliás, sugestões são bem vindas — e quero aproveitar o gancho para convidar os leitores a uma participação maior por aqui: em geral, os comentários sobre o conteúdo dessa página tendem a se limitar na maioria dos casos às redes sociais quando postamos os links de nossos artigos. Isso é bom. Mas a presença concreta dos mestres e jogadores é melhor ainda, sempre é melhor. Então não se avexem, puxem uns dedos de prosa. Dito isso, vamos ao que vende:

Sim, esse cruzador espacial é um insetóide vivo capaz de sobreviver no vácuo
e ser propelido no espaço com quartzos orgânicos em seu organismo.

A Infestação

Pensem em uma praga alienígena de saúvas ou cupins gigantes. Ao se espalharem, eles não apenas destruirão nossos lares e cidades como também nos farão de almoço ou coisa pior (não vou descrever exemplos, basta dar uma olhada em qualquer documentário mais repelente sobre a biologia dos insetos). O jeito é concentrar nossas forças contra eles e exterminá-los como a qualquer praga. Odiá-los não adianta nada. O inimigo indiferente talvez seja o pior.

NOS ANIMES: os Vajra de Macross Frontier (cujo destino nos foi explicado em Macross Delta). Eles são um vespeiro espacial, com a característica de aprender com as derrotas anteriores, e isso faz deles perigosos. Há outros exemplos mais representativos* mas eles cumprem todos os quesitos — embora de uma forma mais viajada, até pela natureza particular da franquia** — e ainda oferecem um caminho (complicado, é verdade) para um final… conciliatório.

A INFESTAÇÃO EM CAMPANHA: a Infestação é uma variante do Incontrolável (ver AQUI) — mas com padrões próprios o bastante para merecer sua própria categoria. Ela está no berço referencial do real robot*** e precede campanhas de tom árido, nas quais a psique humana sob crise é uma ameaça maior****. Inara e Moretz, com suas biosferas particulares, são bons locais para campanhas assim: é preciso conter a infestação antes dela se espalhar pelo planeta.

Sim, o simpático protagonista da primeira fase de Gundam Age vai deixar de ser tão simpático…

O Extremista

Os fins podem justificar os meios, mas geralmente isso tem seus limites. Algumas pessoas, mesmo com motivações justas, podem mandá-los completamente para o alto e estão dispostas a tudo por uma causa ou objetivo — até de matar um milhão para salvar um bilhão. Quando ele é o líder de um grupo terrorista, as coisas são mais fáceis: é enfrentar seus homens, peitar o sujeito e acabar com tudo. Mas e se ele estiver do nosso lado e com poder sobre nós?

NOS ANIMES: Flit Asuno, de Gundam AGE. O simpático protagonista infantil do começo, após a traumática conclusão da primeira fase, encabeça um golpe de estado porque os governantes cedem à sua bancada da bala (eles também vendem armas para os inimigos Vegan na encolha e isso ajudou a estender essa guerra*****). Porém, ao conseguir, inicia uma “cruzada de purificação”… abrindo caminho para seu grande objetivo: o genocídio total da nação adversária.

O EXTREMISTA EM CAMPANHA: sendo o seu superior, o ideal é fazê-lo cair em si enquanto há tempo — isso é, se ele ainda estiver controlável e não reuniu um bando de zelotes inescrupulosos ao seu redor, instalando uma facção dentro de sua própria guarda e enchendo seu armário de esqueletos. Nesse caso, os personagens podem se ver confundidos com traidores ao combatê-lo, até a verdade se revelar. Limpar a própria sujeira é importante para uma guarda.

Glemy Toto: de pateta a serviço de um superior mais pateta ainda…

O Subestimado

Ele não parece perigoso. Um oponente caricato e ridículo, pronto para passar vergonha, mas também divertindo os protagonistas em algum grau? Um aliado inútil, frágil e estabanado mas também parte do grupo, talvez sendo até uma voz amiga para o time? Um cara sociável e legal, bom para beber cerveja e papear? Não importa. Ele é um maldito manipulador, agindo nos bastidores… e revelando-se como um perigoso vilão, quando for tarde demais para reagir!

NOS ANIMES: Glemmy Toto, de Gundam ZZ. Eu particularmente gosto da trajetória desse personagem: quando ele foi introduzido, praticamente gritava “alívio cômico” — e vilões inofensivos tendem a ser mascotes do espectador. Ninguém o levava a sério. Ao longo da série, as revelações crescentes sobre o personagem (detalhe: sempre de forma coerente) nos fazem enxergá-lo por outra ótica: por ser tão subestimável, ele cresceu sob o nariz dos personagens.

O SUBESTIMADO EM CAMPANHA: em RPG, um personagem tão falsamente ridículo pode ser desmascarado com uma rolagem de dados. Por isso é preciso cuidado para não levantar essa lebre cedo demais. No momento certo (talvez tarde demais) chegará a revelação, o tapete dos protagonistas será puxado e teremos uma virada: se ele pareceu um vilão tolo ou um aliado inútil, pouco importa. Ele não era inofensivo… e todos pagarão caro por não terem percebido isso.

…ao vilão responsável por sérios crimes de guerra.

Isso remete de imediato à teoria de internet sobre Jar Jar Binks em Guerra nas Estrelas e sinceramente, tendo a acreditar nela por haver um precedente descarado na literatura de ficção científica (sim, isso é um spoiler MONSTRUOSO da obra citada, então leia a nota por sua conta e risco)******. Lucas saqueou muitos conceitos de outras obras e isso não chega a ser crime. Brigada Ligeira Estelar também foi praticamente definido por suas influências.

Binks e o exemplo em questão são chatos, mas isso foi mera cortina de fumaça. Já Toto apenas soava comicamente incompetente quando nos foi apresentado e acompanhamos sua gradual mudança para um oponente perigoso. Não importa. O importante em nossa mesa de RPG sempre é surpreender os jogadores. Depois da revelação, ele precisa ser um oponente difícil até o final — e descartá-lo logo é desperdiçar esse impacto dramático.

Até a próxima e divirtam-se.

* Como, por exemplo, os Blue de Blue Gender (quase os escolhi como o exemplo na matéria) ou os BETA da franquia Muv-Luv Alternative. Eles são representativos por um motivo simples: estão mais próximos das influência originais do tema.
** A partir de suas continuações, a franquia Macross abraçou um espírito de space opera bem mais livre do que seus congêneres. Os aliens gigantes eram coerentes no seu conceito original, mas depois tivemos de tudo: vampiros energéticos do espaço, biomáquinas do juízo final plantadas por alienígenas eugenistas, insetos voadores no vácuo sideral, cantoras com vozes transdimensionais capazes de deter vírus geradores de fúria… então os Vajra tendem a ser mais “absurdos” se compararmos com as infestações de outros animes. Porém, o subtexto central de qualquer Macross é a paz via conciliação entre opostos — e em um cenário como este, dá para imaginar uma conciliação e desfecho como os apresentados em Frontier e Delta (que amarra essa ponta). No final original de Blue Gender, o aceno final à possível coexistência só rendeu reclamação dos espectadores.
*** Ou seja, a inspiração de Yoshiyuki Tomino no Tropas Estelares de Heinlein para seu Gundam. Os insetos não o acompanharam, mas os demais conceitos sim.
**** Há uma perda quando o inimigo não é humanizável, tanto em identificação quanto no fator novelesco. Por isso, nesses casos, o maior inimigo pode estar ao seu lado, assim como nos filmes de zumbi pós-Romero. Neon Genesis Evangelion não lida com infestações monstruosas e tem um pé (desconstrutivo) no super robot, mas bebe muito desse espírito.
***** Ver o último capítulo da segunda fase de Gundam Age. Nunca deixem de assistir o pós-créditos nessa série.
****** Parem de ler AGORA se não quiserem esse spoiler — ISTO É UM AVISO: em A Fundação, de Isaac Asimov, um palhaço com aparentes deficiências mentais e deformidades físicas, o Giganticus Magnificus, é na verdade o inteligentíssimo telepata conhecido como o Mulo e os personagens o levaram de lá para cá, facilitando sua conquista da galáxia, ao pensar nele como uma espécie de “mascote” da tripulação enquanto buscavam ajuda contra o vilão.

DISCLAIMERS: Macross Frontier é uma propriedade intelectual do Studio Nue, Inc.; Mobile Suit Gundam Age e Mobile Suit Gundam Double Zeta são propriedades da Sunrise, Inc.; Blue Gender é propriedade da Anime International Company, Inc.; todos os respectivos direitos pertencentes a seus devidos proprietários. Imagens com fins jornalísticos e divulgacionais.

NO TOPO: imagem de Blue Gender.

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