Dissecando o Comandante

O comandante é um coadjuvante fundamental. Misto de eixo de comando e figura paterna em meio aos jovens de malhas justas, eles inspiram a confiança necessária para os demais personagens — e quando estes não tem um rumo certo para suas ações em combate, é ele quem sabe como resolver tudo. Nesse sentido, em termos de RPG, ele é extremamente funcional: é uma figura distante, deixando os protagonistas soltos para agir, mas quando eles ficam perdidos…

É claro, aqui caímos naquela arapuca: ninguém joga RPG para seguir ordens como um robô. Isso vale também para os protagonistas em séries de anime: o comandante passa missões… e tudo fica por conta dos protagonistas. Eles devem se virar. O comandante só se move quando soluções são absolutamente necessárias mas, mesmo assim, nossos heróis devem executá-las por si. Ele tem um papel mais importante a cumprir e não pode — nem deve — dar conta de tudo.

Nesse sentido, o papel do comandante — guardadas as devidas proporções — não é muito diferente daqueles mega-coadjuvantes em cenários de fantasia. “Mas se eles são tão poderosos, por qual motivo nós devemos agir contra a ameaça capaz de destruir tal cenário de D&D ao invés de chamá-los para fazer o serviço?” É porque seus personagens são os protagonistas, cacete! Ele em tese está enfrentando ameaças muito maiores e não pode perder tempo com isso!

Capitão Avatar de Patrulha Estelar: presença moral
e decisões de alto risco para toda a tripulação.

Embora desde a era dos super-robôs possamos catalogar coadjuvantes com esse peso moral, para os termos do gênero nosso comandante quintessencial é… o Capitão Avatar de Patrulha Estelar (Juzo Okita, no original). Reparem: ele não é o protagonista. Pelo contrário, ele guia o protagonista em seu crescimento por razões pessoais muito boas (não vou dar spoilers). Cabe ao herói principal executar missões arriscadas, pilotar caças, arrumar uma namorada…

Enquanto Patrulha Estelar trata com reverência o seu comandante, Mobile Suit Gundam (o berro de parto do real robot) tinha uma função desconstrutiva e olhava com desconfiança qualquer figura de autoridade. Bright Noah estava longe de ser um comandante inspirador: ele não passava de alguém prematuramente jogado para seu papel e cometia atos mal-pensados, sejamos honestos! Se o famoso tapa em Amuro funcionasse, ele não teria desertado mais adiante!

Esqueçam os memes e pensem: um tapão realmente
é a melhor forma de lidar com uma crise?

Podemos encontrar a conciliação do gênero com seus comandantes a partir de Superdimensional Fortress Macross*. O Capitão Bruno J. Global (Henry Gloval em Robotech) não é um Okita e comete eventuais erros de julgamento mas sabe como reagir em situações de crise, inspira confiança (a começar em sua ponte de comando, pondo ordem na casa antes daquilo virar um galinheiro**) e é um pouco menos distante, participando um pouco da vida daqueles ao redor.

Mas quais serão as características esperadas de personagens como estes? Vamos observar alguns elementos bem tradicionais nos comandantes desse gênero:

Experiência de Vida: podem reparar, os grandes comandantes da animação japonesa não são jovens***. Estão ali para os protagonistas aprenderem com ele…

No Tranco: …salvo se forem empurrados ao papel pelas circunstâncias. Nesse caso, teremos atritos e seu aprendizado pode custar caro demais para todos.

Natora Einus, de Gundam Age: eu não gostaria de
servir a um capitão sem confiança como ela.

Sua missão é…: a função mais básica de um comandante! Ele distribui missões (embora elas cheguem via subordinados imediatos)… e mantém vocês ocupados!

Não pergunte agora, faça: geralmente, comandantes tem soluções urgentes para verdadeiras sinucas de bico e cabe aos protagonistas executá-las a tempo.

Figura Paterna: velhos comandantes costumam trazer aquele conselho sábio para protagonistas jovens perdidos em crises. Aí eles voltam para os robôs e…

De modo geral, a mais importante tarefa para um comandante é manter vivos aqueles sob suas ordens. Ele moverá montanhas se a vida deles estiver sob risco. Mas não é preciso ser tão dramático: ele pode livrar seus personagens de encrencas muito graves — mesmo se depois disso ele der um puxão de orelha imenso naquele bando de irresponsáveis. Tudo pode até ficar bem, mas não é conveniente puxar demais os limites de seu comandante. O bom-senso ajuda.

Na hora do aperto, precisamos confiar nas decisões
do comandante e ouvir o que ele tem a dizer.

Em Brigada Ligeira Estelar, os comandantes mais dignos de nota, até agora, são a Capitã Tereza Augusta de Monte Castelo (presente em Batalha dos Três Mundos, Volume 1 e em A Constelação do Sabre, Volume 1), o Capitão Nataniel Argus (também de Batalha dos Três Mundos — e ele virá a ter um papel muito importante no cenário em BRIGADA LIGEIRA ESTELAR VICTORY, vocês não perdem por esperar) e o Comandante Belgrano de Belonave Supernova, Volumes 1 e 2.

Porém, salvo exceções****, comandantes são em essência coadjuvantes. Pense: ao jogar um RPG de supers da Marvel, usando os X-Men, você joga com o Ciclope, o Wolverine, a Jubileu (alguém realmente jogaria com a Jubileu?)… mas nunca, nunca com o Professor X. Ele está lá para convocar o grupo (“a mim, meus X-Men”) e mandar instruções caso seja preciso, cumprindo uma função de apoio e segurança. O mesmo se aplica aqui. Só.

Até a próxima e divirtam-se!

Por outro lado, sabe quem é afetado pelas
decisões ruins de um comandante?

* Vulgo Robotech no ocidente, como a maioria de vocês já está careca de saber, mas sempre preciso contar com quem chega aqui pela primeira vez.
** Não me olhem como eu fosse um monstro machista. Temos essa cena no anime!
*** O grande modelo para essa abordagem é o citado Capitão Okita (Capitão Avatar no ocidente, e eu sempre vou chamá-lo assim) de Patrulha Estelar.
**** Como o Imediato — e depois capitão interino, para ser efetivado oficialmente no cargo logo a seguir — Mamoru Kodai de Patrulha Estelar (Derek Wildstar no ocidente). Mas ele sempre seguiu uma linha mais parecida com o Capitão Kirk de Jornada nas Estrelas, com o protagonista descendo em missão e participando da ação bruta, inclusive tendo um caça à disposição. Essa abordagem também foi adotada em Brigada Ligeira Estelar (ver Batalha dos Três Mundos).

NO TOPO: Juzo Okita, de Patrulha Estelar (Capitão Avatar, no ocidente); Bruno J. Global, de Superdimensional Fortress Macross (Henry J. Gloval, em Robotech); Mamoru Kodai, de Patrulha Estelar (Capitão Derek Wildstar, no ocidente); Capitão Nemo, de Nadia: the Secret of Blue Water (seus olhos não estão enganando você: o visual do personagem ficou tão idêntico ao Capitão Gloval de Macross que em determinado momento, eles precisaram alterar seu design com um novo visual); Ryu Hijikata, de Patrulha Estelar (Capitão Gideon, no ocidente); Grodek Ainoa, de Mobile Suit Gundam Age (sério candidato a melhor capitão da franquia em minha humilde opinião, podem jogar as pedras. É quem comanda a Belonave Diva na primeira fase da série); Lee Sumeragi Noriega, de Mobile Suit Gundam 00; Millais Alloy, de Mobile Suit Gundam Age (na primeira fase da série, ela era uma tenente de vinte e quatro anos sob o comando do capitão Grodek; reaparece na segunda fase aos cinquenta anos, como capitão da Diva); Ernest Johnson, de Macross Delta (o primeiro capitão Zentradi da franquia no lado dos mocinhos); Maximilian Jenius, de Macross 7 (o mesmo ás da série original, aqui promovido a Capitão); Yurika Misumaru, de Martian Successor Nadesico (temos um comentário genial, em um dos episódios, sobre a substituição dos comandantes velhos e de presença sólida por gente bonita nos animes do gênero); Justy Ueki Tylor, de The Irresponsible Captain Tylor; Lefina Enfield, de Super Robot Wars: Original Generation; Bright Noah de Mobile Suit Gundam, talvez o mais seminal caso de oficial jogado no olho do furacão e forçado a exercer no tranco um papel de capitão; Natora Einus, de Mobile Suit Gundam Age (capitã da Diva na terceira fase da série e a mais insegura em sua posição, quando a Belonave já era uma banheira velha e ela foi designada ao posto porque… bem, porque ela não inspirava confiança mesmo e precisava ser encaminhada para alguma nave à disposição. Curiosamente, um já idoso Flit Asuno, protagonista da primeira fase, exerce aqui uma função de mentor para a personagem); Alexander Row, de Last Exile; Murrue Ramius, de Mobile Suit Gundam Seed (especialista em táticas e estratégias pouco convencionais em batalha); Rick Hunter, em Robotech II (um exemplo dramaticamente interessante porque ele aqui, mais velho e com um design meio irreconhecível, ele foi posto em posição de comando e se mostra um péssimo comandante, tremendamente inseguro e frustrado por estar longe do cockpit de um robô Valkyrie); Rin Suzukaze, de Ginga Kikoutai Majestic Prince, capitã da belonave Godinion e comandante da Equipe Rabbit; e o pior de todos, Holland Novak de Eureka Seven — um escroto de marca maior, cuja atitude não deveria inspirar ninguém a segui-lo.

DISCLAIMER: todos os direitos pertencem a seus respectivos proprietários intelectuais e todas as imagens aqui presentes foram usadas para fins jornalísticos e de divulgação, sem infração de direitos autorais. Por favor, não me peçam para discernir uma a uma ou a lista vai ficar, novamente, enorme.

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