Nunca gostei de Brian W. Aldiss, mas é ele a quem preciso recorrer. Escritor-chave da New Wave of Science Fiction ao lado de J. G. Ballard, Roger Zelazny e Samuel R. Delany, ele e sua geração se voltaram ferozmente contra os ditames da ficção científica clássica, trazendo temas adultos e controversos para o gênero e tratando tropos clássicos como alvo de desconstrução ou fonte de ironia. Porém, Aldiss conhecia bem o gênero — e, nas suas palavras…
“Idealmente a Terra deve estar em perigo, deve haver uma busca e um homem presente na hora mais decisiva. Tal homem deve confrontar alienígenas e criaturas exóticas. O espaço deve fluir pelos portos como vinho de um jarro. O sangue deve correr pelos degraus do palácio e as naves devem ser lançadas nas profundezas sombrias. Deve haver uma mulher mais bela que os céus, um vilão mais sombrio do que um Buraco Negro e tudo precisa dar certo no final.”
Não sei qual o contexto original, e provavelmente talvez seja melhor assim, mas eu adorei. E podemos esquematizar isso muito bem na hora de criar aventuras espaciais para Brigada Ligeira Estelar. Por isso mesmo, vamos abrir uma nova seção neste blog sobre cada um desses itens e ela se chamará… Space Opera, sim. Porque embora possamos abrir o leque, no fundo esse DNA está em qualquer aventura do subgênero digna deste nome. Então vamos começar com…

armada de belonaves, é melhor sair correndo enquanto se pode.
“O MUNDO PRECISA ESTAR EM PERIGO”
Como os planetas da Constelação do Sabre não são “A Terra”, isso se aplica a qualquer lugar. “O mundo” é algo genérico aqui. Mas temos um ponto: a escala da grande ameaça, no final, precisa ser ENORME. Já falamos da Space Opera como gênero e dos excessos divertidos da era Pulp (embora o maniqueísmo seja opcional), mas é realmente caso de vida ou morte, com consequências catastróficas. Como fazê-lo em sua campanha?
Para ficarmos dentro da escala anime da força, vamos ao nosso bom e velho Patrulha Estelar — tão exemplar para a Space Opera japonesa que, com certeza, deve se tornar uma menção frequente em todos os artigos desta coluna: toda santa temporada, a Terra está prestes a ser destruída por ALGO. Os personagens empreendem uma jornada e encontram do outro lado da galáxia uma belíssima mulher etérea com algum tipo de solução etc., etc. e etc. E… tudo bem.
O ponto é: a escala das ameaças foi crescendo e crescendo com o tempo até chegar a um ponto absurdo. Isso é parte da diversão, mas tudo tem limite! É só seguir a linha de tempo: primeiro, buscar uma arma para limpar a radiação do planeta. Depois, enfrentar um império conquistador dentro de um cometa. A seguir vem uma horda de invasores. Então, o sol fica prestes a explodir. Aí, somos ameaçados por uma bomba capaz de aniquilar a humanidade de vez.
Por fim, um novo inimigo decide usar um planeta aquático para inundar a Terra e nos invadir, concluindo a antiga cronologia contra um buraco negro capaz de destruir nosso sistema solar inteiro. Não entendam mal, eu adoro Patrulha Estelar, mas quando a coisa chega a esse ponto, nem os fãs mais fiéis vão levar os personagens a sério. E sim, isso vale para RPG também. Então é importante pensar na credibilidade da sua abordagem de ameaças no cenário.

foi exterminada dessa forma em Macross — e de uma vez só!
Em primeiro lugar, “fim do mundo” é uma coisa relativa e depende da escala envolvida. Um país do oriente médio é destruído pelos bombardeios estadunidenses, restando apenas escombros? Para os sobreviventes, foi o fim do mundo. A própria invasão de um continente em Ottokar, no universo de Brigada Ligeira Estelar, foi “o” fim do mundo para quem estava lá — e gerou um nicho pós-apocalíptico no cenário — mas sua escala foi muito maior. Então, pensem:
Qual a escala da ameaça final? Para manter alguns excessos: um evento astronômico catastrófico poderia ameaçar a Constelação do Sabre, incluindo o colapso de uma estrela massiva, gerando uma supernova que ameaça destruir vários sistemas estelares. Outro exemplo seria uma tempestade de buracos negros ou um fenômeno galáctico desconhecido a distorcer o espaço-tempo, afetando a navegação e potencialmente arrastando mundos inteiros para a destruição.

e talvez no Permiano-Triássico, por que não funcionaria de novo?
Para não descambarmos para o exagero, vamos a algo mais prosaico: o espaço entre os sistemas é mantido navegável por tecnologia de saltos, mas o surgimento de uma anomalia gravitacional ou uma guerra cibernética pode começar a desligar esses pontos. Isso isolaria planetas e sistemas inteiros, quebrando o fluxo de suprimentos e comunicações, e rapidamente mergulhando regiões inteiras da Constelação no caos. Se a falha for total, o império colapsa.
Ambas as ameaças representam algum tipo de “apocalipse”, motivando uma busca cheia de adversários no caminho. O importante é detê-lo a todo e qualquer custo. Há vários ganchos possíveis nesse sentido. A civilização perdida que deixou suas armas e tecnologias em Altona ou no Quadrângulo Negro pode ter enterrado uma “entidade” adormecida, talvez uma inteligência alienígena incompreensível capaz de absorver a energia vital dos planetas, por exemplo.

surgisse no caminho, você também ficaria preocupado.
É claro, a ameaça precisa gerar inimigos menores a enfrentar. Pensem na CIPED: a ruptura da própria realidade devido a experimentos fora de controle pode ameaçar toda a Constelação. Corporações poderiam brincar com forças que não compreendem, abrindo portais para dimensões caóticas ou liberando monstros além da imaginação. Antes de se darem conta do tamanho da ameaça, para proteger a empresa, eles podem jogar mercenários no caminho dos jogadores.
Da mesma forma, uma praga de Nano-máquinas ou uma inteligência artificial autorreplicante poderia se espalhar pela Constelação do Sabre. Essas máquinas invisíveis consomem tudo à sua frente, transformando planetas e estações em sucata inerte ou convertendo seres vivos em autômatos sem vontade própria. Essa ameaça é quase impossível de conter e apenas uma solução extrema poderia evitar a destruição total da humanidade. Cabe a vocês encontrarem-na.
Como inimigos menores pelo caminho, podemos falar de seres vivos convertidos — e até de máquinas! Imagine um mamute de Arkady devidamente transformado em autômato e jogado contra os personagens sob o comando de uma inteligência artificial central, por exemplo. Isso pode dar margem a uma escada de crescimento não tão diferente assim de um mangá shōnen* de luta, no qual enfrentamos inimigos progressivamente mais fortes até chegarmos ao chefe final.
Lembrem-se, grande escala! No último episódio da clássica terceira temporada de Patrulha Estelar, a última coisa no caminho entre o cruzador Argo (me deixem em paz, não vou mais chamar a nave de Yamato a essa altura da vida) e impedir a explosão do próprio Sol com a arma milagrosa da vez era um exército de inimigos com uma arma capaz de criar buracos negros! Pensem épico — seus personagens já reuniram pontos de experiência o suficiente para isso!
Voltando a Aldiss: apesar de tudo, ele até gostava do gênero — apenas não o levava muito a sério. Em suas palavras, “Ficção científica é uma criatura grande, musculosa e cheia de tesão, com uma massa de antenas eriçadas e proprioceptores em seu crânio. Ela tem uma irmã menor, uma criatura gentil com lábios vermelhos e uma pitada de poeira estelar em seu cabelo. Seu nome é Space Opera (…). Ficção científica é real. Ópera espacial é para diversão.”
Pessoalmente, e não me importam as carteiradas, vejo a Space Opera como parte da Ficção Científica sim, até por questão de iconografia. Talvez seja o seu lado mais inconsequente, mas isso conta! E uma coisa não exclui a outra: se você encontra diversão genuína em uma obra complicada de ficção científica hard, é justo! Você pode ajustar o tom nesse sentido em uma mesa de Brigada Ligeira Estelar, inclusive! Vá em frente!
Até a próxima e divirtam-se!
* Shōnen é uma demografia japonesa de mangá e anime destinada a jovens do sexo masculino, normalmente entre 8 e 16 anos.
DISCLAIMER: Independence Day: O Ressurgimento pertence à 20th Century Studios, Inc./The Walt Disney Company; Patrulha Estelar (Uchuu Senkan Yamato) é propriedade de Nishizaki Co., Jp.; Superdimensional Fortress Macross pertence à Tatsunoko Production Co., Ltd../Big West Advertising Co., Ltd. (BWA); Mobile Suit Gundam: Char’s Counterattack pertence à Bandai Namco Filmworks, Inc.; Heroic Age pertence à King Record Co., Ltd., The Klockworx Co., Ltd. e Xebec, Inc.; Legend of the Galactic Heroes: Die Neue These pertence à Yoshiki Tanaka/Legend of the Galactic Heroes Die Neue These Production Committee; Star Wars é propriedade da The Walt Disney Company.
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