Em foco: Háteras

Quem acompanhava o antigo site da editora Jambô lembra dos pequenos contos introdutórios a certos artigos temáticos. Todos eles acabaram sendo incluídos no cânone do cenário. Como estamos resgatando conteúdo não-impresso nos livros posteriores, vamos republicar aqui apenas esses contos, sem o material para jogo — este foi publicado nos suplementos. Para começar, traremos a história do animal de companhia Háteras: ele se tornou um personagem regular em Batalha dos Três Mundos, Volume 1 (já adquiriram o seu AQUI?). Divirtam-se.

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De forma idêntica à quase totalidade dos animais de companhia, Háteras — um cão modelado física e psicologicamente sob encomenda — foi projetado geneticamente para velar por um garoto da nobreza, acompanhar seu pequeno mestre, tirá-lo de encrencas, segui-lo em passeios no mato… enfim, para servir como companheiro de brincadeiras, babá, guarda-costas e melhor amigo. Como animais de companhia envelhecem mais lentamente em comparação às suas contra-partes (sabendo falar, ler e tendo conhecimentos implantados na memória pra servir de apoio ao companheiro humano) — os pais do garoto, senhores do domínio de Gualdim, no planeta Forte Martim, o encomendaram antes da gravidez vir a termo, para o bebê nascer já recebido pelo cãozinho. 

Infelizmente o garoto para quem ele foi criado jamais viria a nascer. Sua mãe sofreu um aborto espontâneo lá pelo terceiro mês de gestação e, subitamente, eles se viram com um mascote ainda agradável e bonitinho — com o comportamento de um filhote comum enquanto os conhecimentos implantados não despertavam com a idade. E como Animais de Companhia tendem a permanecer filhotes por mais tempo, essa história ainda prometia ter final feliz: a Baronesa de Gualdim, mais uma vez, viria a engravidar.

Mas veio uma menina. E, assim, os problemas começaram.

Assim como os humanos, animais de companhia têm suas próprias personalidades — e geralmente elas se alinham ao papel social de seus donos. Quando Háteras começou a estimular a pequena menina a andar no mato e participar de brincadeiras físicas, o Barão e sua consorte passaram a enxergar o cão da família, criado para instilar coragem, virilidade e proatividade para um garoto, como uma potencial influência corruptora para uma menina.

Por isso, a reação veio a cavalo. Um mundo rosado a cercaria; animações virtuais açucaradas e românticas seriam seus modelos de referência e fariam que ela desejasse, em seu mundinho infantil… ser uma “princesa”.

Por fim, ela ganhou de brinde uma linda gatinha branca, peluda e geneticamente modificada, mais adequada para seu papel. Deram a ela o nome de “Duquesa”. E assim, Háteras foi ficando completamente isolado.

Apesar de serem inteligentes, animais de companhia são seres emocionais e podem se tornar instáveis. Háteras não era exceção e começou a extravasar sua irritação regularmente. Duquesa via, nele, motivos para apreensão: por um lado, o ciúme a fazia temer uma eventual sensibilização de sua dona pela situação do canídeo, fazendo-a dividir atenções com o antigo mascote. Por outro lado, os rompantes do cachorro geraram nela o medo de sofrer algum tipo de violência em algum momento.

Bastou agir de forma ostensivamente medrosa em frente à jovem filha do Barão e tudo correu como os conformes: a filha queixou-se ao pai e este decidiu agendar um tratamento neurocirúrgico para alterar as diretrizes implantadas, tornando o animal um ser bem-comportado. Entretanto, isso nunca se dá sem sequelas — tornando esses animais pouco inteligentes e muito manipuláveis. Ao ouvir isso ao acaso, Háteras decidiu fugir para bem longe, sem parar. Assim, se tornou um animal sem mestre.

Mas em seu coração, sempre houve o vazio. Ele nunca teve um dono de verdade — se tornou um adereço inútil, descartado em seu próprio lar. E isso o tornou amargo.

• • • • • 

Com sua inteligência, Háteras aprendeu a esconder sua natureza, passando por um cachorro comum. Mantendo os ouvidos atentos, ele mais e mais olhava os humanos de forma pouco lisonjeira. Aprendeu a sobreviver e começou a perceber a realidade de sua espécie. Cães comuns estavam entregues à própria sorte graças a milênios de contato evolutivo com os humanos — se tornaram indefesos. Eles realmente não sabem se virar nas ruas, embora muitos pensem o contrário.

Mas sua inteligência, mesmo tendo ajudado-o a se manter vivo, deixou sua marca: ele não conseguia se reconhecer entre outros cães. Um animal de companhia só encontra seus pares entre os humanos; é essa a sua verdadeira natureza, para o bem e para o mal. Então, um belo dia, Háteras vagava pelas ruas da cidade de Madeira Sul quando ouviu dois humanos conversando na calçada de um bar, provavelmente em um intervalo de trabalho. 

— … mas o problema é prazo e, como sabemos muito bem, prazo ampliado significa um orçamento maior só para manter o projeto inativo.

— E se conseguirmos de algum nobre a cessão de um…

— Desista. Animais de companhia não são animais comum. Ninguém vai ceder o seu, assim, de graça.

Essa observação fez Háteras, deitado em um canto de calçada, levantar uma orelha. 

— Eu falei, eu falei, nós deveríamos ter encomendado um com antecedência…

— Isso atrasaria o projeto em anos. Esses bichos envelhecem mais lentamente em comparação a um animal normal da mesma espécie. E se acontecer alguma coisa com ele? Estamos falando de robôs gigantes, droga! Tem muita coisa em risco!

— Isso, fale alto para todo mundo escutar…

— Quem vai escutar aqui a essa hora? Só se pusessem escutas em nossas roupas. Salvo se aquele cachorro ali for um animal de companhia e um espião…

— Não, ele tá pele e osso. Com certeza é um celeiro de carrapatos. Animais de companhia representam status para os donos, custam astronomicamente caro… são um investimento, quem tem um não se desfaz dele assim.

— Vão se danar vocês dois! — rosnou Háteras, de mau humor. Os dois tremeram — Vocês precisam de um animal de companhia sem dono, não? Acharam um!

Os dois se sobressaltaram. Alguns segundos de silêncio se seguiram. Hora de colocar a cabeça no lugar. Um dos cientistas mostrou uma expressão de preocupação. O outro olhou apenas para a oportunidade ao seu alcance. Não sem alguma cautela.

— Você tem certeza? Como podemos saber se você…

— Olhem para mim, cacete! Nenhum… proprietário disposto a prezar por seu nome me deixaria chegar a esse ponto, mesmo se eu fosse um espião! Querem confirmar? Me mandem a um veterinário! Eu só espero não ter coisas injetadas em mim ou algo do tipo, para isso bastaria um animal comum e eu sei o quanto vale o preço da minha fabricação entre os humanos… seus patrões perderiam muito dinheiro só para ter cobaias! Além do mais, vocês mesmos notaram, eu passei tempo demais subnutrido e a única coisa que acredito não ter são vermes. Paguem um almoço para mim. Um bife. Mal-passado. A gente pode conversar.

Háteras sorriu, mas era uma simpatia calculada. Se fosse empático e convincente, aquela poderia ser a sua grande chance de, finalmente, ser salvo das ruas. 

• • • • • 

Um ano se passou após essa conversa. Háteras, ao menos fisicamente, era outro. Seu pelo voltara a ser lustroso e brilhante como em seus tempos na corte do Barão de Gualdim. Agora ele era, oficialmente, um piloto de provas a serviço do corpo de guarda da Brigada Ligeira Estelar em Forte Martim. Claro, ele foi examinado e precisou fazer tratamento veterinário — contra as expectativas do seu próprio prognóstico, realmente precisou passar por uma vermifugação. Animais de companhia não entram em cio, logo Háteras não precisou ser castrado, mas sua sorte foi além disso: Cães de companhia, mesmo geneticamente modificados, não são imunes à doenças venéreas caninas. O senso comum instalou algumas crenças errôneas nas cabeças alheias mas, tirante sua inteligência, eles são pouco diferentes de cães normais.

Os testes tomavam dias e noites, mas Háteras não se importava: ele sentava-se na cadeira do piloto e executava comandos com capacetes especiais. Fazia treinos de combate e se machucou algumas vezes, mas essa condição não era injusta — ele aceitou os termos de antemão e a inteligência lhe deu essa prerrogativa. Quando se deu conta ele chegara aos seus treze anos, a mesma idade aproximada de sua antiga dona. Tudo teria sido diferente se dependesse de sua vontade, mesmo enxergando sua dona como uma criatura da pior espécie. Animais de Companhia tendem a ser emotivos, muito emotivos, e a vida não lhe tolheu esse aspecto de sua natureza.

O importante para ele era prosseguir seu trabalho: era sua garantia de uma vida digna. E como o desenvolvimento desse projeto fatalmente chegaria ao fim em algum ponto, ele sabia estar em um lar temporário. Poderia levar anos, mas iria acabar. Nesse sentido, não ter uma vida curta como a dos animais normais tem conotações sombrias para um animal sem mestre. Passava as noites antes de dormir vendo filmes velhos e circulava dentro da base de manhã, antes de começar suas atividades, como exercício — ele precisava se movimentar. Acabou virando, mais ou menos, uma espécie de mascote da base. Passou a conviver com os jovens pilotos hussardos. E pouco a pouco percebeu neles um senso de pertencimento, a sensação de se ter um papel no mundo. Algo por ele invejado.

Talvez não fosse de se espantar a chegada daquele belo dia, no qual ele perguntaria casualmente a um dos desenvolvedores responsáveis por seu resgate:

— O que eu preciso fazer para me tornar um oficial hussardo?

No topo: arte de Israel de Oliveira para Batalha dos Três Mundos.

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