Referências para One-Shots: OVAs

Recentemente, postamos (em resposta a um leitor) um artigo sobre referências mais amigáveis para aventuras episódicas — vocês podem ler tudo AQUI. Nos focamos prioritariamente em material produzido bem no começo dos anos 80 por razões simples: o episódico era um padrão da indústria nessa época e muita coisa boa foi feita dentro desses ditames — ainda recomendamos esse material. No entanto, há outra opção conveniente para mestres de jogo: os OVAs.

Antes, um pouco de história: os anos oitenta trouxeram uma bolha de prosperidade econômica para o Japão — e, por tabela, uma grande demanda por animação. Televisão e cinema não davam mais conta do recado e a nova fronteira era o home vídeo: surgiram os OVAs (Original Video Animations). O primeiro deles foi Dallos, em 1983 (dirigido por um Mamoru Oshii ainda distante da fama e da autoralidade) mas o formato só se popularizaria graças ao Laserdisc.

Sim, esse biscoitão tinha as mesmas dimensões de um disco de vinil e uma qualidade visual superior à do vindouro DVD. Essa mídia jamais pegou direito no ocidente mas, para os japoneses, foi perfeita: qualquer coisa capaz de preencher os cerca de cinquenta minutos em um lado de LD (como eram conhecidos esses discos) encontrava financiamento de forma fácil. Estúdios surgiram em profusão apenas para produzir mais e mais animações — originais ou não.

Exatamente: os grandes hits da animação para home video japonesa
dos anos 80 foram produzidas para esse formato, renegado no ocidente.

Infelizmente a bolha de prosperidade estourou e veio a década perdida, na qual todas as certezas de uma geração se esvaneceram em fumaça — assim como muitos desses estúdios. Alguns deles suportaram o tranco e ainda haveria uma decrescente produção ao longo da primeira metade dos anos 90… mas a farra acabou. Discos antes disputados à tapa se tornaram encalhes em saldões de promoção. O formato não morreria mas jamais voltaria às alturas do passado.

Mas qual é a utilidade disso para um mestre de jogo? Simples: a era do OAV deixou uma infinidade de animações relativamente curtas, mais ou menos na faixa dos quarenta e poucos minutos, unindo a maior liberdade criativa em relação à televisão com tramas enxutas e amarradas (salvo exceções). Era necessário ser assim: tinha-se menos de uma hora para se contar uma história mas, ao mesmo tempo, havia mais espaço para complexidades eventuais de trama.

Agora que você sabe o que é um OVA e a razão de sua relevância,
vamos à parte divertida — com robôs gigantes, é claro!

Há diferença entre as histórias fechadas em OVAs e os episódios fechados de animação: o OVA até poderia deixar ganchos de continuação (salvo em produções originalmente não criadas para o formato, como Megazone 23 — ou, mais raramente, estruturadas como séries de televisão) mas a trama precisa ter algum tipo de começo, meio e fim com consequências narrativas sólidas de alguma forma — algo além do “concluímos a missão da vez, vamos para a próxima”.

Aqui vamos soltar nossa tradicional lista de referências para mestres de jogo. Dessa vez vou soltar um pouco mais de spoilers para ir direto ao importante mas não se preocupem: tentaremos minimizar os dados para os mais curiosos. A propósito: uma lista desses materiais, se levada muito a sério, seria gigantesca — então vou me focar em poucos, escolhidos pela sua utilidade prática para mestres de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR. Preparem suas fitas VHS e…

Sim, essa era a estante do fã normal de anime
nos anos 90. Não queiram isso para sua vida!

Makyou Gaiden Le Deus: passada em um mundo pós-apocalíptico (mas, em termos de Brigada Ligeira Estelar, seu tom está menos para Ottokar e mais para Altona). É uma obra bem inconsequente mas é interessante ver como eles pincelam as informações necessárias sobre os personagens e eventos sem se deter em grandes explicações: todos põem o pé na estrada — apresentações e dados serão levantados pelo caminho. Basicamente, uma história de caça ao tesouro.

Crusher Joe: os Crushers são quem faz o trabalho duro no espaço, de transporte a terraformação. Há um sólido código de honra entre a classe e alguns nomes se destacam como os melhores — e Joe é um deles. Baseado em uma série de livros de ficção científica com treze volumes, esse material não tem robôs mas, como referência para campanhas espaciais, é excelente. Além de dois OVAs lançados em 1989, há um imperdível longa-metragem de 1983. Vá e veja.

Um comparativo da remasterização do longa de Crusher Joe
para Blu-Ray… mas não perca os OVAs, eles também valem a pena!

Good Morning Althea: após uma guerra de trezentos anos entre os humanos e os crests, um mestiço de humano e crest, um humano cyborg e uma garota crest precisarão esquecer suas diferenças após sua nave ser atacada por uma belonave automatizada. Sendo sincero, este é um exemplo do material questionável jogado no mercado para atender a demanda por animações da época… mas pode ser uma fonte válida de ideias para o mestre de jogo e está aqui por isso.

Relic Armor Legaciam: esse tem um time bacana — sua equipe passou pela produção de Gundam ZZ e o seu criador Hiroyuki Kitazume está em todos os aspectos da produção. A trama? Em um planeta apenas parcialmente habitável (o resto é castigado por calor extremo), um protótipo é caçado por pessoas com intenções sombrias e cabe a uma menina salvá-lo. Infelizmente ela é só um piloto de provas e não quer saber de combate mas, agora, ela não terá escolha.

Legaciam é uma power armor, não um robô gigante, mas o
roteiro é ótimo como referência em seus conflitos e temas.

Megazone 23 — Parte III: essa série teve uma evolução estranha: o primeiro episódio foi montado a partir dos restos de uma série televisiva cancelada e acaba “sem final”. O segundo a conclui mas foi produzido por outra equipe e ficou bem diferente. O terceiro é uma história completa e fechada, passada séculos após o original (você não precisa ver o resto). É mais cyberpunk, sem os excessos de sexo e violência de seus predecessores. Veja sem medo.

Deixei links nos títulos. O mestre de BRIGADA LIGEIRA ESTELAR RPG vai achar, nesse manancial, sementes para possíveis aventuras fechadas e amarradas. Isso ajuda a combater a noção do gênero como talhado apenas para campanhas longas. A quantidade de material produzida nessa época foi imensa e nem vou perder tempo listando muita coisa. Mergulhar nesse universo é como minerar ouro em campo minado: bombas não faltam. Vocês foram avisados.

Divirtam-se!

4 comentários

  1. Disco fotônico, a tecnologia que vai revolucionar o consumo de mídia na Constelação do Sabre! (propaganda tarsiana, circa 1820 C. E.).

    Impressionante a quantidade de OVAs que se acha no Youtube. Normalmente as companhias são tão dracônicas com isso (se bem que a maior parte desses estúdios nem existe mais, né).

    1. Sim, verdade. É por isso que tantos vídeos ainda são encontrados sem dor de cabeça. Vários deles tiveram seus direitos passados para outras empresas, mas a quantidade de material “abandonado” é muito, muito grande. Por isso eles estão aí, à solta, sem serem incomodados pela polícia do copyright.

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